Vida Cristã

Venda de Bebidas Alcoólicas e Consumo do Cristão

UMA PEQUENA HISTÓRIA

Em 2011 no início da minha conversão, lembro-me que um amigo da igreja abriu uma lanchonete onde fazia Batatas Suíças, que por sinal eram uma delícia. Nunca mais encontrei uma Batata como aquela.

Também me lembro que na época, saíamos com os jovens da igreja para apreciar aquela delícia e também para dar um apoio àquele amigo empreendedor. Lembro-me na época que o pastor da igreja não visitava aquele estabelecimento porque ou ele viu, ou ele ficou sabendo que o irmão estava vendendo algumas latas de cerveja junto com as demais bebidas.

Foi uma situação constrangedora, aquele irmão empreendedor ficou algum tempo sem frequentar a igreja e o pastor foi irredutível. Esse rapaz era carismático e importante para nós jovens, ele era ativo e tinha mais tempo de igreja que alguns de nós.

Eu presenciei o pastor dizendo que não iria atrás daquele jovem, pois ele deveria se arrepender e voltar à igreja. O pastor argumentou que quando o filho pródigo em Lucas 15.11-32 deixou seu pai, o pai não foi atrás, mas o filho que teve que retornar.

Passou um tempo, o jovem se reconciliou com o pastor, mas teve que remover a cerveja do expositor de bebidas. Daí em diante, o pastor começou a frequentar o estabelecimento que não permaneceu por muito tempo e fechou.

Não quero entrar no mérito se o comércio fechou as portas por isso ou não, mas na época eu não tinha condições teológicas para analisar a questão ou ter uma opinião formada sobre o caso. Entretanto, depois de 11 anos eu quero fazer algumas observações.

O QUE LEVA PASTORES A TEREM ESSA ORTOPRAXIA?

Existe uma doutrina chamada Arminiana que predomina em igrejas pentecostais. Essa doutrina ensina que o homem tem participação em sua salvação. É uma sinergia, como se Deus fizesse 99.99% do necessário para um homem ser salvo da condenação do inferno, mas 0,01% depende do homem. Ou seja, Deus exige a fé em Cristo e Sua Obra para a justificação do pecador. Uma vez que a salvação é uma possibilidade e depende dessa cooperação mútua, se o homem não perseverar em sua parte ele pode cair da salvação, perdê-la.

Posto isso, o pressuposto desses irmãos pentecostais é que o homem tem que se esforçar para terminar sua caminhada bem. Isso gera uma certa cobrança desses líderes, seus sermões estão cheio de exortações aos crentes para se manterem firmes. Nesse pensamento é possível que uma pessoa fiel à Deus por toda a sua vida, possa perder sua salvação dependendo do pecado que cometa minutos antes da sua morte. Daí surgem práticas, das quais o legalismo é uma delas. Composto por cristãos que acreditam que são mais santos e mais cumpridores da Lei moralmente falando do que os outros. Podem cair numa verdadeira disputa religiosa, acabam cometendo o erro do julgamento temerário.

Como esse é um blog reformado, preciso deixar bem claro que nós adeptos da reforma protestante e do calvinismo não cremos assim e acreditamos que esse não é um ensino bíblico em um todo, mas normalmente removido de textos isolados. Não pretendo refutar isso diretamente, pois vou acabar saindo do propósito do post. Sigamos…

O QUE A BÍBLIA DIZ SOBRE A BEBIDA EM SI?

Proibição Bíblica contra a embriaguez

  • A embriaguez é um pecado (Dt 21.20; Ec 10.17; Lc 12.45; 21.34; Rm 13.13; 1Co 5.11; Ef 5.18; 1 Pe 4.3)
  • Nenhum sacerdote consumirá álcool no desempenho de suas funções (Lv 10.9; Ez 44.21), embora possa consumi-lo fora do trabalho (Nm 18.22,27,30).
  • O rei não deve aplicar a lei embriagado (Pv 31.4-5).
  • Um presbítero ou pastor não pode ser alcoólatra (1 Tm 3.3; Tt 1.7).
  • Nenhum bêbado herdará o reino de Deus (1Co 6.10; Gl 5.21)

Exemplos bíblicos de problemas causados pela embriaguez

  • Incesto (Gn 19.32-35)
  • Violência (Pv 4.17)
  • Adultério (Ap 17.2)
  • Zombaria e pancadaria (Pv 20.1)
  • Pobreza (Pv 21.17)
  • Consumo noturno e diurno (Is 5.11-12)
  • Alucinações (Is 28.7)
  • Tolices legendárias e suborno (Is 5.22)
  • Assassinato (2Sm 11.13-15)
  • Glutonaria e pobreza (Pv 23.20-21)
  • Vômito (Jr 25.27; 48.26; Is 19.14)
  • Andar cambaleante (Jr 25.27; Sl 107.27; Jó 12.25)
  • Loucura (Jr 51.7)
  • Gritaria misturada com gargalhada seguida de sonolência prolongada (Jr 51.39)
  • Nudez (Hc 2.15; Lm 4.21)
  • Preguiça (Jl 1.5)
  • Fuga da realidade (Os 4.11)
  • Depressão (Lc 21.34)
  • Noite sem dormir na farra (1Ts 5.7)

Ocasiões apresentadas pela Bíblia para a ingestão de álcool, com moderação

  • Celebrações (Gn 14.17-20)
  • Na Ceia do Senhor (Mt 26.29; Mc 14.25; Lc 22.18)
  • Com propósitos medicinais ( Pv 31.6; 1Tm 5.23)
  • Na adoração (Ex 29.40; Nm 28.14; Mt 26.27; 1Cr 11.25-26)
  • Em agradecimento a Deus (Pv 3.9-10)
  • Em momentos de felicidade (Dt 14.26)

A Bíblia não condena o uso da bebida alcoólica. Muito pelo contrário, o próprio Cristo transformou água em vinho, bebeu e foi acusado pelos legalistas religiosos de sua época:

Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras.

Mt 11.19; Lc 7.34 (RA)

Sabemos que toda a Bíblia foi inspirada por Deus, e que os Salmos são cânticos à Deus que eram inspirados e usados pelo povo de Deus para louvor e adoração, vejamos o que ele diz se referindo a perfeição da criação de Deus:

Fazes crescer a relva para os animais
e as plantas, para o serviço do homem,
de sorte que da terra tire o seu pão,
o vinho, que alegra o coração do homem,
o azeite, que lhe dá brilho ao rosto,
e o alimento, que lhe sustém as forças.

Sl 104.14-15 (RA)

COMO A IGREJA VIA ESSE ASSUNTO NA HISTÓRIA?

…outros estudos sobre a história da igreja me levaram a descobrir um grande número de homens de Deus, de diferentes gerações, que também apreciavam o álcool. Santo Gall foi missionário entre os Celtas e um renomado cervejeiro. Após o reinado de Carlos Magno, a igreja passou a ter exclusividade como fabricante de cerveja na Europa. Quando uma jovem estava se preparando para casar, sua igreja criou uma cerveja especial para ela (a ale, de fermentação alta), de onde derivamos a palavra nupcial. O pacote de remuneração anual do pastor João Calvino incluía mais de 900 litros de vinho para serem degustados por ele e seus hóspedes. Martinho Lutero, certa vez, escrevendo sobre a Reforma, afirmou que “enquanto descansava e tomava uma cerveja com Philip e Amsdorf, Deus havia desfechado um poderoso um poderoso golpe no Papado”. Catarina, a esposa de Lutero, era uma habilidosa cervejeira, e, nas cartas de amor que recebia do reformador, ele lamentava a impossibilidade de beber a cerveja da esposa. E quando os Puritanos aportaram no rochedo de Plymouth, o primeiro prédio construído foi o da cervejaria.

DRISCOLL Mark. Reformissão. Pág 144. (TEMPO DE COLHEITA. 2009)

Eu poderia mencionar aqui os proibicionistas que proíbem o que a bíblia não proibiu. Os abstencionistas que afirmam que não é proibido, mas que deve ser evitado por motivos de escândalo e assim, implicitamente, podem acusar o próprio Deus por ter-nos dado o vinho sem levar em consideração os mais fracos. Por fim, os moderados no que diz respeito ao uso do álcool são os mais bíblicos, pois afirmam que o uso não é pecado, desde que guiado pelo bom senso cristão, pelo domínio próprio, sem julgar os outros.

Nas Igrejas Reformadas no Brasil e pelo mundo afora, até hoje a igreja celebra o sacramento da Santa Ceia com o vinho verdadeiro. Algumas igrejas distribuem junto com o vinho o suco de uva, optativo no caso de alguma restrição médica pessoal.

CONCLUSÃO

Não sei se você percebeu, mas até agora, nenhum texto bíblico proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas. Também não classifica porcentagem de álcool lícita ou ilícita. Sendo assim, seja bebida forte, seja bebida fraca, tudo é alcoólico e deve ser encarado da mesma maneira.

Sabendo de tudo isso, acredito que o cristão não deva entrar em qualquer tipo de comércio com finalidade lucrativa. Se o estabelecimento for um centro de bebedeiras e libertinagem, um local que promove a devassidão e orgias, nenhum cristão verdadeiro deveria promover, ser conivente ou frequentar.

Todo o estabelecimento cristão deveria ter uma variedade de opções para o consumidor. É claro que não existe lógica alguma vender pinga numa lanchonete junto com suco e cerveja. Me entenda. Mas no caso da história que contei lá em cima, nosso irmão não estava errado em servir cerveja, pois era um contexto familiar e para refeição. Dificilmente quem procura um lugar como esse para matar a fome vai com a intenção de beber até se embriagar.

Todo ser humano que faz compras em Super Mercados inclusive esses pastores que proíbem o uso e comercialização, frequentam mercados que vendem de tudo e mais um pouco. Nem por isso caem em pecado ou podem acusar aqueles que vendem.

Por fim, termino com a citação de Lutero sobre como lidar com coisas do tipo:

Você acha que os abusos são eliminados pela destruição do objeto que é abusado? Os homens podem agir mal em relação ao vinho e às mulheres, mas nem por isso devemos proibir e abolir as mulheres.

Jim West, Drinking with Calvin and Luther (Lincoln, Califórnia: Oakdown, 2003, 29.

A seu serviço,

Rafael Soletti Martin, Bacharel e Licenciado em Teologia. Membro da Igreja Reformada do Brasil em São Paulo.

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