A CLAREZA DAS ESCRITURAS

Admirável e saudavelmente o Espírito dispôs as Escrituras de modo que, pelas passagens mais claras, ele pudesse satisfazer nossos desejos; e, pelas mais obscuras, remover nosso desprezo.

Agostinho, Christian Instruction. Traduzido por John J. Gavigan. Nova York: Cima Publishing Co., 1947.

As Escrituras são tão claras nas coisas necessárias à salvação, que podem ser entendidas pelos crentes sem o auxílio externo da tradição oral (agraphou) ou da autoridade eclesiástica? Isso afirmamos contra os papistas.

I. Os papistas, não satisfeitos com seu empenho para provar a insuficiência das Escrituras, a fim de introduzir a necessidade da tradição, começaram a questionar sua clareza (como se o sentido não pudesse de forma alguma ser averiguado com certeza sem o julgamento da igreja), a fim de ter um pretexto para afastar o povo de sua leitura. Havendo ocultado a candeia sob uma vasilha, reinaram nas mais densas trevas.

Estabelecimento da questão. II. Quanto ao estado da questão, observe-se: (1) A questão não diz respeito à clareza ou à obscuridade do assunto ou das pessoas. Não negamos que as Escrituras sejam obscuras aos incrédulos e aos não-regenerados, aos quais Paulo diz que seu evangelho está oculto (2Co 4.3). Também confessamos que o Espírito de iluminação é necessário para torná-las inteligíveis aos crentes. Antes, a questão diz respeito à obscuridade ou clareza do objeto ou das Escrituras (i.e., se são tão obscuras que o crente não pode apreendê-las para a salvação sem a autoridade e julgamento da igreja – o que negamos).
III. A questão não diz respeito à obscuridade das coisas ou dos mistérios registrados nas Escrituras. Concordamos que há muitos mistérios contidos ali, tão sublimes que transcendem o máximo alcance de nossa mente e podem até aqui ser chamados obscuros em si mesmos. Antes, a questão diz respeito à obscuridade do modo como essas coisas mais impenetráveis são enunciadas, e as quais afirmamos que são tão maravilhosamente acomodadas (synkatabasei) pelo Senhor que o crente (que tem abertos os olhos de seu entendimento), lendo atentamente, pode entender esses mistérios suficientemente para a salvação.
IV. A questão não é se as Sagradas Escrituras são claras em todas as suas partes, a ponto de não necessitar de interpretação nem de exposição de passagens duvidosas (do que Belarmino falsa e caluniosamente nos acusa, expondo a questão assim: “As Escrituras são em si mesmas tão perfeitamente claras e inteligíveis a ponto de não necessitar de nenhuma interpretação?” – VD 3.1, p. 96). Pois sem qualquer hesitação confessamos que as Escrituras têm suas adyta (“altitudes”) e bathē (“profundezas”), as quais não podemos adentrar ou sondar, e as quais Deus assim ordenou com o propósito de excitar o estudo dos crentes e aumentar sua diligência; humilhar o orgulho do homem e remover dele o desdém que poderia suscitar de exagerada clareza. Antes, a questão diz respeito somente às coisas necessárias à salvação e, de fato, apenas até onde se fazem necessárias ao conhecimento, e não podem ser desconhecidas sem se cometer crime. Por exemplo, o mistério da Trindade é claramente enunciado, no que concerne ao fato (to hoti), que é necessário, porém não no que concerne ao como (to pōs), o qual não nos é permitido conhecer (e nem é essencial à salvação). Como se dá na natureza, assim também nas Escrituras aprouve a Deus apresentar por toda parte e fazer acessíveis à compreensão todas as coisas necessárias; mas aquelas menos necessárias são tão veladamente ocultas a ponto de requerer grande exercício a fim de desvendá-las. E assim, além de pão e sustento, ela tem faustos, gemas e ouro em profundidade sob a superfície, só adquiríveis por meio de infatigável labor; e, como o céu está salpicado de estrelas maiores e menores, assim as Escrituras não são por toda parte igualmente resplendentes, porém são distinguidas por lugares mais claros e mais obscuros, como por estrelas de maior ou menor magnitude.
V. A questão não é se as coisas essenciais à salvação estão em todas as partes das Escrituras claramente reveladas. Reconhecemos que há algumas coisas difíceis de serem assimiladas (dysnoēta) e destinadas por Deus ao exercício de nossa atenção e poderes mentais. A questão é se as coisas essenciais à salvação estão por toda parte reveladas, pelo menos de modo que o crente possa, por detida meditação, averiguar sua veracidade (porque nada pode ser extraído da mais obscura passagem que não se possa encontrar em outro lugar em termos mais claros). Como observa Agostinho: “Admirável e saudavelmente o Espírito dispôs as Escrituras de modo que, pelas passagens mais claras, ele pudesse satisfazer nossos desejos; e, pelas mais obscuras, remover nosso desprezo” (CI 2.6 [FC 2:66; PL 34.39]); e: “Alimentamo-nos nos lugares públicos, somos exercitados pelos obscuros; ali, a fome é saciada; aqui, o desprezo” (Sermon 71, “De Verbis Domini”, 7.11 [PL 38.450]).
VI. A questão não diz respeito à clareza que não exclui os meios necessários para a interpretação (i.e., a luz interior do Espírito, a atenção da mente, a voz do ministro da igreja, sermões e comentários, oração e vigilância). Pois afirmamos que esses meios não apenas são úteis, mas também ordinariamente necessários. Apenas desejamos banir as trevas que impedem as pessoas de ler as Escrituras como se fossem nocivas e perigosas, e impedi-las de buscar recursos na tradição, quando podem repousar somente nas Escrituras.
VII. A questão, pois, se conclui nisto: se as Escrituras são tão claras nas coisas essenciais à salvação (não quanto às coisas enunciadas, mas quanto ao modo de enunciar; não quanto ao assunto, mas ao objetivo) que, sem o auxílio externo da tradição ou o julgamento infalível da igreja, podem ser lidas e discernidas proveitosamente pelos crentes. Os papistas negam isso; nós afirmamos.

Turretini, F. (2010). Compêndio de Teologia Apologética. (O. Olivetti, D. Ceron, & P. Arantes, Orgs.) (1a edição, Vol. 1, p. 206–208). Cambuci; São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã.

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