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#03 Pecado Original Após o Batismo


I. Nosso consentimento.
Eles dizem que a corrupção natural após o batismo é abolida, e nós também dizemos isso. Mas vejamos até que ponto ela é abolida. No pecado original existem três aspectos:

I. O castigo, que é a primeira e a segunda morte.
II. A culpa, que é a vinculação da criatura ao castigo.
III. A falta ou a ofensa a Deus, na qual incluo nossa culpa no primeiro pecado de Adão, assim como a corrupção do coração, que é uma inclinação natural e propensão para qualquer coisa que seja má ou contra a lei de Deus.

Para o primeiro, dizemos que, após o batismo, nos regenerados, o castigo do pecado original é removido: “Agora, pois, nenhuma condenação há” (diz o apóstolo) “para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8.1).
Para o segundo, ou seja, a culpa, concordamos ainda mais e dizemos que também é removida nos que nascem de novo: pois, considerando que não há condenação para eles, nada os liga ao castigo. Contudo, este aviso deve ser lembrado: a culpa é removida da pessoa regenerada, mas não do pecado na pessoa; mas isso será tratado mais adiante.

Terceiro, a culpa no primeiro pecado de Adão é perdoada. E, no que diz respeito à corrupção do coração, afirmo duas coisas:

  1. Que o poder ou a força pela qual ela reina no homem é removida nos regenerados.
  2. Que essa corrupção é abolida (assim como a falta de todo pecado atual passado) na medida em que é a falta e o pecado do homem em quem ela está. De fato, ela permanece até a morte e é pecado considerado em si mesmo enquanto permanece, mas não é imputada à pessoa; e, nesse sentido, é como se não existisse, pois está perdoada.

II. O desacordo ou diferença
Até aqui concordamos com a Igreja de Roma: agora a diferença entre nós não está na abolição, mas no modo e na medida da abolição desse pecado.

Os papistas ensinam que o pecado original é tão completamente removido após o batismo que deixa de ser um pecado propriamente dito e é nada mais do que uma falta, defeito ou fraqueza, tornando o coração apto e pronto para conceber pecado: algo semelhante ao pavio de fogo, que, embora não seja fogo em si, está muito apto e predisposto a pegá-lo. E eles, da Igreja de Roma, negam que seja pecado propriamente dito para sustentar algumas opiniões grosseiras deles, a saber: que um homem nesta vida pode cumprir a lei de Deus e fazer boas obras sem pecado; que pode permanecer justo no tribunal de julgamento de Deus por elas.

Mas nós ensinamos de outra forma: que, embora o pecado original seja removido nos regenerados, e isso de várias maneiras, ele permanece neles após o batismo, não apenas como uma falta ou fraqueza, mas como pecado, e isso propriamente dito: como pode ser provado pelas seguintes razões.

Razão I
Romanos 7.17: Paulo diz diretamente: “De modo que não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”, ou seja, o pecado original. Os papistas respondem novamente que é chamado assim de forma imprópria, porque vem do pecado e também é uma ocasião para que o pecado seja cometido. Mas, pelas circunstâncias do texto, é pecado propriamente dito: pois, nas palavras seguintes, São Paulo diz que esse pecado habitando nele o fez fazer o mal que ele odiava. E, no verso 24, ele clama: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Daí eu raciocino assim:
Aquilo que uma vez foi pecado propriamente dito e que, permanecendo no homem, o faz pecar, o envolve no castigo do pecado e o torna miserável: isso é pecado propriamente dito. Mas o pecado original faz tudo isso. Logo…

Razão II
Crianças batizadas e regeneradas morrem a morte corporal antes de atingirem a idade da razão: portanto, o pecado original nelas é pecado propriamente dito; ou então elas não morreriam, não tendo causa de morte nelas: pois a morte é o salário do pecado, como o apóstolo diz (Romanos 6.23), e (Romanos 5.12) a morte entrou no mundo pelo pecado. Quanto ao pecado atual, elas não têm nenhum, se morrem logo após nascerem, antes de terem qualquer uso de razão ou afeto.

Razão III
Aquilo que luta contra o espírito e, ao lutar, tenta, e, ao tentar, atrai e conduz o coração ao pecado, é, por natureza, pecado em si mesmo: mas a concupiscência nos regenerados luta contra o espírito (Gálatas 5.17) e tenta, como já disse (Tiago 1.14): “Deus não tenta ninguém, mas cada um é tentado, quando atraído e seduzido pela sua própria concupiscência. Então, a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado”. Portanto, é pecado propriamente dito: tal como o fruto é, tal é a árvore.
Agostinho diz: “A concupiscência contra a qual o espírito luta É PECADO, porque nela há desobediência contra a regra da mente: e é o castigo do pecado porque acontece ao homem pelos méritos de sua desobediência: e é a causa do pecado” (Agostinho, Contra Juliano, Livro 5, Capítulo 3).

Razão IV
O julgamento da Igreja antiga.

O testemunho dos Pais é evidente. Santo Agostinho, grande campeão da graça contra os Pelagianos, em vários lugares afirma que o pecado original nos regenerados permanece como pecado propriamente dito, embora não seja imputado à pessoa. No livro Contra duas cartas dos Pelagianos, Livro 1, Capítulo 13, ele escreve:

“O pecado original é perdoado no batismo, não para que não exista, mas para que não seja imputado.”

E em seu livro Confissões, ele diz:

“Toda a minha vida é pecado.”

E na Epístola 29 ele escreve:

“O pecado é destruído na culpa, não na substância.”

Tais testemunhos abundam nos escritos dos Pais da Igreja, confirmando a ideia de que, nos regenerados, o pecado original é pecado propriamente dito, mas não lhes é imputado por conta da justificação em Cristo.


O ponto de discordância

Dessa forma, enquanto concordamos com a Igreja de Roma em vários aspectos da doutrina do pecado original e do batismo, divergimos deles na questão central: a natureza do pecado original após o batismo. Para nós, o pecado original, embora perdoado e sem condenação, ainda permanece como uma realidade em sua essência; não é meramente uma fraqueza ou tendência, mas pecado propriamente dito.

Eles, por outro lado, sustentam que o pecado original deixa de ser pecado em sua própria essência, sendo reduzido a uma inclinação ou defeito. Essa diferença tem implicações profundas em nossa compreensão da santidade, da graça e da capacidade do homem regenerado de viver uma vida sem pecado nesta terra.


Conclusão

Em suma, nós ensinamos que o pecado original é perdoado, mas permanece como pecado em sua essência nos regenerados até a morte, não sendo imputado graças à obra redentora de Cristo. Esta doutrina ressalta nossa contínua dependência da graça divina e a necessidade da obra santificadora do Espírito Santo em nossas vidas.

Agostinho
A caridade em alguns é maior, em outros menor, em outros nenhuma: o mais alto grau de caridade, que não pode ser aumentado, não está em ninguém enquanto o homem viver na terra. E enquanto ela puder ser aumentada, AQUILO QUE É MENOR DO QUE DEVERIA SER ESTÁ EM FALTA: por essa falta, não há homem justo na terra que faça o bem e não peque; por essa falta, ninguém que viva será justificado aos olhos de Deus; por essa falta, se dissermos que não temos pecado, não há verdade em nós; por isso também, embora progridamos muito, é necessário dizermos: “Perdoa-nos as nossas dívidas”, embora todas as nossas palavras, ações e pensamentos já estejam perdoados no batismo (Agostinho, epístola 29).

De fato, Agostinho, em vários lugares, parece negar que a concupiscência seja pecado após o batismo; mas sua intenção é que a concupiscência nos regenerados não é o pecado da pessoa em quem ela está. Pois assim ele se explica: Não ter pecado significa não ser culpado de pecado (Ad Valer. lib. 1, cap. 24).
E: A lei do pecado no batismo é remida e não TERMINADA (Contra Juliano, Livro 2).
E: Que o pecado não reine: ele não diz, que o pecado não exista, mas que ele não reine. Pois enquanto viveres, é necessário que o pecado esteja em teus membros; pelo menos, que ele não reine em ti, etc. (Trato 42 sobre João).


Respostas às objeções dos papistas
Os argumentos que a Igreja de Roma apresenta em contrário são os seguintes:

Objeção I
No batismo, os homens recebem o perdão perfeito e absoluto do pecado; e o pecado, sendo perdoado, é totalmente removido; portanto, o pecado original após o batismo deixa de ser pecado.

Resposta
O pecado é abolido de duas maneiras: primeiro em relação à imputação à pessoa; segundo em relação à existência e ser do pecado. Por essa razão, Deus concede ao homem duas bênçãos no batismo: remissão do pecado e mortificação do mesmo. A remissão ou perdão abole o pecado completamente no que diz respeito à imputação ao homem, mas não simplesmente em relação à sua existência. A mortificação, portanto, vai mais longe e abole, em todos os poderes do corpo e da alma, a própria concupiscência ou corrupção, no que diz respeito à sua existência. E porque a mortificação não é concluída até a morte, a corrupção original permanece até a morte, embora não imputada.

Objeção II
Todo pecado é voluntário; mas o pecado original em nenhum homem após o batismo é voluntário; portanto, não é pecado.

Resposta
A proposição é uma regra política pertencente aos tribunais dos homens, e deve ser entendida em relação a ações feitas de um homem para outro: e não pertence ao tribunal da consciência, que Deus mantém e guarda nos corações dos homens, no qual toda falta de conformidade à lei é considerada pecado. Em segundo lugar, respondo que o pecado original foi voluntário em nosso primeiro pai Adão: pois ele pecou e trouxe essa miséria sobre nós voluntariamente, embora em nós seja diferente, por uma causa justa. O pecado atual veio primeiro nele, e então a corrupção original; mas em nós, a corrupção original vem primeiro, e então o pecado atual.

Objeção III
Onde a forma de algo é removida, ali a própria coisa também cessa: mas após o batismo nos regenerados, a forma do pecado original, ou seja, a culpa, é completamente removida; portanto, o pecado cessa de ser pecado.

Resposta
A culpa, ou obrigação ao castigo, não é a forma da corrupção original, mas (como dizemos nas escolas) um acidente ou companheira necessária dela. A verdadeira forma do pecado original é um defeito e privação daquilo que a lei exige de nós, em nossa mente, vontade, afeições e em todos os poderes tanto da alma quanto do corpo. Mas eles pressionam ainda mais esse raciocínio, dizendo: onde a culpa e o castigo são removidos, não resta nenhuma falta: mas após o batismo a culpa e o castigo são removidos; portanto, embora a corrupção original permaneça, não é como uma falta que nos torne culpados perante Deus, mas apenas como uma fraqueza.

Resposta
A culpa é removida, e não removida. Ela é removida da pessoa regenerada, que não permanece culpada por qualquer pecado original ou atual; mas a culpa não é removida do próprio pecado; ou, como alguns respondem, existem dois tipos de culpa: atual e potencial. A culpa atual é aquela pela qual o pecado torna o homem culpado perante Deus; e isso é removido nos regenerados. Mas a culpa potencial, que é a aptidão do pecado para tornar o homem culpado se ele pecar, não é removida; e, portanto, o pecado ainda permanece pecado. Para este ou efeito semelhante, diz Agostinho:

“Dizemos que a culpa da concupiscência, não aquela pela qual ela é culpada (pois ela não é uma pessoa), mas aquela pela qual tornou o homem culpado desde o princípio, é perdoada, e que a própria coisa É MÁ, de forma que os regenerados desejam ser curados dessa praga.” (Contra Juliano, Livro 6, Cap. 6).

Objeção IV
Por fim, para nos desacreditar, eles alegam que, em nossa doutrina, ensinamos que o pecado original após o batismo é apenas aparado ou cortado, como o cabelo da cabeça de um homem, cujas raízes ainda permanecem na carne, crescendo e aumentando após serem cortadas, como antes.

Resposta
Nossa doutrina é mal interpretada: pois no corte de qualquer coisa, como no corte do cabelo ou na poda de uma árvore, a raiz permanece intocada, e a partir disso cresce novamente como antes. Mas na mortificação do pecado original após o batismo, não sustentamos tal aparo: ensinamos que, no instante da conversão do pecador, o pecado recebe sua ferida mortal na raiz, nunca mais podendo se recuperar.

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