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#23 – Uma Advertência Final

Uma Advertência a todos os Favorecedores da Religião Romana, Mostrando que a Dita Religião é Contra os Princípios Católicos e os Fundamentos do Catecismo.

Grande é o número daqueles que abraçam a religião da presente Igreja de Roma, sendo enganados pelo glorioso título de universalidade, antiguidade, sucessão. E sem dúvida, embora alguns sejam cegados intencionalmente, contudo muitos devotados a este caminho nunca viram qualquer outra verdade. Ora, deles e do restante eu desejo este favor, que eles apenas pesem e ponderem consigo mesmos esta única coisa, que agora oferecerei às suas considerações, e que é: “Que a religião romana agora estabelecida pelo Concílio de Trento, em seus pontos principais, é contra os próprios fundamentos do Catecismo que têm sido acordados desde os dias dos apóstolos, por todas as igrejas.” Estes fundamentos são quatro: o primeiro é o Credo dos Apóstolos; o segundo é o Decálogo, ou os Dez Mandamentos; o terceiro é a forma de oração chamada a Oração do Senhor [Pai Nosso]; o quarto é a Instituição dos dois sacramentos, o batismo e a Ceia do Senhor [1 Cor. 11:23].

Para que eu possa em alguma ordem manifestar isto que digo, começarei com o símbolo ou credo:

1. E primeiro de tudo deve ser considerado que algumas das principais doutrinas cridas na Igreja de Roma são: que o papa ou bispo de Roma é o vigário de Cristo e a cabeça da igreja católica; que há um fogo de purgatório após esta vida; que imagens de Deus e dos santos devem ser colocadas nas igrejas e adoradas; que oração deve ser feita aos santos falecidos e a sua intercessão deve ser requerida; que há um sacrifício propiciatório diariamente oferecido na missa pelos pecados dos vivos e dos mortos. Estes pontos são de tal importância, que sem eles a religião romana não pode subsistir. E no Concílio de Trento a maldição anátema é pronunciada sobre todos os que negam estas coisas ou qualquer uma delas. E contudo, notem: o Credo dos Apóstolos, que tem sido considerado como contendo todos os pontos necessários da religião a serem cridos — e tem, portanto, sido chamado a chave e a regra da fé — este credo, digo eu, não tem nenhum destes pontos, nem as exposições feitas dele pelos antigos pais, nem qualquer outro credo ou confissão de fé feito por qualquer concílio ou igreja pelo espaço de muitas centenas de anos. Esta é uma prova clara para qualquer homem imparcial de que estes são novos artigos de fé nunca conhecidos na igreja apostólica, e que os pais e os concílios não puderam encontrar tais artigos de fé nos livros do Antigo e do Novo Testamento. A resposta que é dada é que todos estes pontos de doutrina são cridos sob o artigo: “Creio na igreja católica”, o significado do qual eles querem que seja este: “Creio em todas as coisas que a igreja católica defende e ensina que devem ser cridas”. Se isto for como eles dizem, devemos necessariamente crer na igreja, isto é, colocar a nossa confiança na igreja para a manifestação e a certeza de todas as doutrinas necessárias à salvação. E assim, a verdade eterna de Deus o Criador dependerá da determinação da criatura; e a Palavra escrita de Deus, a este respeito, é feita insuficiente, como se não tivesse revelado claramente todos os pontos de doutrina pertinentes à salvação. E as antigas igrejas teriam sido mui negligentes, ao não proporem os referidos pontos para serem cridos como artigos de fé, mas os deixaram para estes últimos tempos.

2. Neste credo, crer em Deus e crer à igreja são distinguidos. Crer em é pertinente ao Criador; crer, à criatura. Como Rufino notou, quando diz que por esta preposição em, o Criador é distinguido da criatura, e as coisas pertencentes a Deus das coisas pertencentes aos homens. E Agostinho diz: “Deve-se saber que devemos crer à igreja, e não crer na igreja; porque a igreja não é Deus, mas a casa de Deus.” Daí se segue que não devemos crer nos santos, nem colocar a nossa confiança em nossas obras, como ensinam os eruditos papistas. Portanto, Eusébio diz: “Devemos de direito crer a Pedro e Paulo, mas crer em Pedro e Paulo, isto é, dar ao servo a honra do Senhor, não devemos.” E Cipriano diz: “Ele não crê em Deus, aquele que não coloca Nele somente a confiança de toda a sua felicidade.”

3. O artigo, concebido pelo Espírito Santo, é derrubado pela transubstanciação do pão e do vinho na missa, no corpo e sangue de Cristo. Pois aqui somos ensinados a confessar a verdadeira e perpétua encarnação de Cristo, começando na Sua concepção, e nunca terminando depois. E nós reconhecemos a verdade da Sua humanidade, e que o Seu corpo tem as propriedades essenciais de um corpo verdadeiro, consistindo de carne e osso; tendo quantidade, figura, dimensões — a saber, comprimento, largura, espessura; tendo parte fora de parte — como cabeça fora dos pés, e pés fora da cabeça — sendo também circunscrito, visível, tocável. Em uma palavra, tem nele todas as coisas que, por ordem da criação, pertencem a um corpo. Dir-se-á que o corpo de Cristo pode permanecer um corpo verdadeiro e contudo ser alterado a respeito de alguma qualidade, como nomeadamente a circunscrição. Mas eu digo de novo, que a circunscrição local de forma alguma pode ser separada de um corpo, permanecendo ele um corpo. Pois estar circunscrito em um lugar, é uma propriedade essencial de toda quantidade; e a quantidade é a essência comum de todo corpo. E, portanto, um corpo, em respeito à sua quantidade, deve necessariamente ser circunscrito em um lugar. Este foi o julgamento de Leão quando disse: “O corpo de Cristo não está de modo algum fora da verdade do nosso corpo.” E Agostinho, quando disse: “Somente Deus em Cristo de tal modo vem, que não se aparta; de tal modo retorna, que não nos deixa; mas o homem, segundo o corpo, está num lugar, e sai do mesmo lugar, e quando ele vier para outro lugar, não estará naquele lugar de onde vem.” Para remediar a questão, eles costumam distinguir assim: O corpo de Cristo a respeito de toda a sua essência pode estar em muitos lugares; mas não a respeito de toda a quantidade, pela qual está apenas em um lugar; mas como eu disse, eles falam contrariedades, pois a quantidade (por todo o aprendizado) é a essência de um corpo, sem a qual um corpo não pode ser.

4. No credo nós confessamos que Cristo ascendeu ao céu, e lá, após a Sua ascensão, assenta-se à destra do Seu Pai, e isso segundo a Sua humanidade. Daí, concluo, que o corpo de Cristo não está real e localmente no sacramento, e em cada hóstia, que o padre consagra. Este argumento era bom quando Vigílio contra Êutiques disse: “Quando ela (a carne) estava na terra, não estava no céu; e porque agora está no céu, não está na terra.” E ele acrescenta em seguida, que esta é a fé e a confissão católica. E era bom quando Fulgêncio disse: “Segundo a Sua substância humana, Ele estava ausente da terra, quando estava no céu, e Ele deixou a terra quando ascendeu ao céu.” E, “o mesmo inseparável Cristo, segundo toda a Sua humanidade deixando a terra, ascendeu localmente ao céu, e assenta-se à destra, e segundo a mesma toda a Sua humanidade Ele há de vir para o julgamento.” E era bom quando Cirilo disse: “Nenhum homem duvida mas que, quando Ele ascendeu ao céu, embora Ele esteja sempre presente pelo poder do Seu Espírito, Ele estava ausente a respeito da presença da Sua carne.” E era bom quando Agostinho disse: “Segundo a carne que o Verbo assumiu, Ele ascendeu ao céu; Ele não está aqui. Lá Ele se assenta à destra do Pai; e Ele está aqui segundo a presença da Sua majestade.” E, “Ele foi como era homem, e Ele permaneceu como era Deus; Ele foi por aquilo pelo que Ele estava num só lugar; Ele permaneceu por aquilo pelo que Ele estava em todo lugar.”

5. Novamente, no fato de crermos na igreja católica, segue-se que a igreja católica é invisível, porque coisas que se veem não são cridas. E a resposta comumente usada, de que cremos na santidade da igreja, não servirá ao propósito. Pois as palavras são claras, e nelas fazemos confissão de que cremos não apenas na santidade da igreja, mas também na própria igreja em si.

6. Por último, os artigos remissão dos pecados, ressurreição do corpo, e vida eterna, contêm uma confissão de fé especial. Pois o significado deles é tanto quanto: Eu creio na remissão dos meus próprios pecados, e na ressurreição do meu próprio corpo para a vida eterna, e isso pelo julgamento da antiguidade erudita. Agostinho diz: “Se tu também crês que hás de ressuscitar e ascender ao céu (porque estás certo de um tão grande patrono), estás certo de um tão grande dom.” E, “Não faças a Cristo menor, que te leva ao reino dos céus, para a remissão dos pecados. Sem esta fé, se alguém vem ao batismo, fecha a porta da misericórdia contra si mesmo.” E, “Todo aquele que fielmente crê, e mantém esta profissão da sua fé (na qual todos os seus pecados lhe são perdoados), prepare a sua vontade à vontade de Deus, e não tema a sua passagem pela morte.” E, “Todo o sacramento do batismo consiste nisto, que creiamos que a ressurreição do corpo e a remissão dos pecados nos são dadas por Deus.” E, “Ele deu estas chaves à igreja — para que todo aquele que na Sua igreja não cresse que os seus pecados fossem perdoados, eles não lhe fossem perdoados; e todo aquele que cresse, e se desviasse deles, permanecendo no regaço da dita igreja, por fim seria curado pela fé e emenda de vida.” E, “Aquilo que ouviste ser cumprido na gloriosa ressurreição de Cristo, crê que o mesmo será cumprido em ti, no último julgamento, e a ressurreição da tua carne te restaurará para toda a eternidade. Pois a menos que creias que hás de ser reparado pela morte, não podes chegar à recompensa da vida eterna.” E nos tempos antigos, o artigo da ressurreição era recitado desta maneira: A ressurreição desta carne, e o último aplicado a ele: Para a vida eterna. Daí, então, duas opiniões principais da Igreja de Roma são completamente derrubadas: uma, que não podemos, por uma fé especial, ter certeza da remissão dos nossos pecados e da salvação das nossas almas; a outra, que um homem verdadeiramente justificado pode cair e ser condenado. Ora, isto não pode ser, se a prática da igreja antiga for boa, a qual nos ensinou a crer na vida eterna conjuntamente com a remissão dos pecados.

Para chegar ao Decálogo:

1. Em primeiro lugar, é uma regra na exposição dos vários mandamentos que onde quer que um vício seja proibido, ali a virtude contrária é ordenada — e todas as virtudes da mesma espécie, com todas as suas causas, ocasiões e meios de promoção. Esta regra é concedida por todos; e daí se segue que os conselhos de perfeição, se têm neles qualquer promoção de virtude, são prescritos na e pela lei, e, portanto, não prescrevem nenhum estado de perfeição além do escopo da lei.

2. Segundo, o mandamento: “Não farás para ti nenhuma imagem de escultura, etc.” tem duas partes separadas: A primeira proíbe a fabricação de imagens esculpidas ou gravadas. A segunda proíbe a adoração delas. Ora, a primeira parte é notavelmente exposta por Moisés: “Guardai bem as vossas almas, para que não vos corrompais e façais para vós uma imagem de escultura ou representação de qualquer figura na semelhança de macho ou fêmea” (Deut. 4:16). Notem a razão desta proibição no mesmo lugar: “Porque”, diz ele, “não vistes imagem alguma no dia em que o Senhor vos falou em Horebe”, e, “Ouvistes a voz das palavras, mas não vistes semelhança alguma, senão uma voz” (v. 12). Ora, sendo a razão entendida da imagem do próprio Deus, a proibição deve necessariamente ser assim entendida. Novamente, não há dúvida de que Deus dirige o Seu mandamento não contra um pecado em especulação, mas contra alguma prática comum e perversa dos judeus, e essa era representar o próprio Deus em semelhanças e formas corporais [Isa. 40:18]. E essa era também a prática dos gentios, que eram mais grosseiros nesta espécie do que os judeus [Rom. 1:23]. Isto então é claro para qualquer homem imparcial, que a primeira parte do mandamento proíbe a feitura de imagens de escultura ou semelhanças do verdadeiro Jeová; e assim o catecismo Romano entende as palavras. Quanto à segunda parte, deve ser entendida de acordo com o significado da primeira; e, portanto, proíbe-nos de nos encurvarmos a qualquer imagem de Deus. Daí, então, segue-se que adorar a Deus ou aos santos em, ou junto a imagens, e adorar imagens com adoração religiosa, é uma idolatria abominável. E a razão comum poderia nos ensinar exatamente isto. Pois aqueles que adoram e reverenciam o verdadeiro Deus em imagens, prendem a presença de Deus — a Sua operação, graça, e a Sua audição de nós — a certas coisas, lugares, [e] sinais aos quais Ele não Se prendeu, quer por mandamento quer por promessa. E isto é adorar a Deus de forma diferente — e buscar as Suas bênçãos de forma diferente — daquela em que Ele mesmo ordenou ser adorado, ou prometeu nos ouvir. Sobre este fundamento é claramente derrubada a desculpa que eles dão, de que não adoram imagens, mas a Deus e aos santos nas imagens; pois nem Deus nem os santos reconhecem este tipo de honra, mas eles a abominam. Donde se segue necessariamente que eles não adoram nada além da imagem, ou da invenção da sua própria mente, na qual forjam para si mesmos um tal Deus que quer ser adorado e receber as nossas orações em imagens. Dir-se-á que os papistas não prendem de outra forma a adoração e invocação de Deus às imagens do que Deus prendeu a Si mesmo ao santuário e ao templo de Salomão. E eu digo de novo, foi da vontade de Deus que Ele quisesse mostrar a Sua presença e ser adorado no santuário, e os judeus tinham a garantia da Palavra de Deus para isso. Mas nós não temos nenhuma garantia semelhante — quer por promessa quer por mandamento — para prender a presença de Deus a uma imagem ou crucifixo. Novamente, a razão pode ainda descobrir mais da sua idolatria. Eles, que adoram o que não conhecem, adoram um ídolo; mas os papistas adoram o que não conhecem. Eu provo isto assim: Para a consagração da hóstia, é requerida a intenção do padre, pelo menos virtualmente, como eles dizem. E se isto for verdade, segue-se que nenhum deles pode vir à missa ou orar com fé, mas ele deve sempre duvidar daquilo que é levantado pelas mãos do padre na missa, se é pão ou o corpo e o sangue de Cristo. Pois nenhum pode ter qualquer certeza da intenção do padre em consagrar este pão e este vinho, mas antes pode ter uma justa ocasião para duvidar, em razão da ignorância comum e da frouxidão de vida em tais pessoas.

3. Terceiro, o mandamento tocante ao Sábado dá uma liberdade para trabalhar seis dias nos negócios ordinários de nossos chamados — e esta liberdade não pode ser revogada por criatura alguma. A Igreja de Roma, portanto, erra ao prescrever dias fixos e ordinários de festividades, não apenas para Deus, mas também para os santos — ordenando que sejam observados tão estritamente e com tanta solenidade quanto o Sábado do Senhor.

4. Quarto, o quinto mandamento, ou (como eles dizem) o quarto, ordena aos filhos que obedeçam a pai e mãe em todas as coisas, especialmente em assuntos de importância, como em seu casamento e escolha de seus chamados, e isso até a morte. E contudo a Igreja de Roma, contra a intenção deste mandamento, permite que casamentos clandestinos, e o voto de religião, tenham vigor, ainda que sejam sem e contra o consentimento de pais sábios e cuidadosos.

5. Quinto, o último mandamento, sobre a cobiça, proíbe os primeiros movimentos para o pecado que ocorrem antes do consentimento. Eu o provo assim: Cobiçar é proibido nos mandamentos anteriores tanto quanto no último; sim, a cobiça que é unida com consentimento. Como no mandamento, “Não cometerás adultério”, é proibida a cobiça pela mulher do nosso próximo; e no seguinte, a cobiça pelos bens do nosso próximo, etc. Ora, se o último mandamento também não proíbe mais nada além de cobiça com consentimento, ele confunde-se com o resto. E por este meio não haverá dez palavras distintas, ou mandamentos, o que dizer é um absurdo. Resta, portanto, que a cobiça aqui proibida vem antes do consentimento. Novamente, os filósofos sabiam que a cobiça com consentimento era má, até mesmo pela luz da natureza. Mas Paulo, um erudito Fariseu, e portanto mais que um filósofo, não sabia que a cobiça era pecado, aquilo que é proibido neste mandamento [Rom. 7:7]. A cobiça, portanto, que é proibida aqui, é sem consentimento. Iníqua, pois, é a doutrina da igreja Romana, ensinando que “em todo pecado mortal é exigido um ato comandado pela vontade”. E daí eles dizem: “Muitos pensamentos contra a fé e imaginações impuras não são pecados.”

6. Por último, as palavras do segundo mandamento: “e faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos”, derrubam todos os méritos humanos. Pois se a recompensa é dada por misericórdia àqueles que guardam a lei, não é dada pelo mérito da obra feita.

Para chegar à terceira parte do Catecismo: A Oração do Senhor é uma forma mui absoluta e perfeita de oração. Por cuja causa foi chamada por Tertuliano: “O breviário do evangelho.” E Celestino diz: “A lei de orar é a lei de crer, e a lei de obrar.”

1. Ora, nesta oração somos ensinados a dirigir as nossas orações a Deus somente, “Pai Nosso, etc.”, e isso apenas no nome e mediação de Cristo. Pois Deus é o nosso Pai apenas por meio de Cristo. É desnecessário, portanto, usar de qualquer invocação de santos, ou fazê-los nossos mediadores de intercessão junto a Deus. E é suficiente se orarmos apenas a Deus em nome somente de Cristo.

2. Na quarta petição, dizemos assim: “O pão nosso de cada dia nos dá”. Nas quais palavras, nós reconhecemos que cada bocado de pão é o mero dom de Deus. Que loucura, então, é para nós pensar que deveríamos merecer o reino dos céus pelas obras, se estas não podem merecer nem sequer o pão?

3. Na petição seguinte: “Perdoa-nos as nossas dívidas”, quatro opiniões da religião romana são diretamente derrubadas: A primeira é concernente às satisfações humanas. Pois o filho de Deus é aqui, após a sua conversão, ensinado a humilhar-se dia após dia, e a orar pelo perdão dos seus pecados diários. Ora, fazer satisfação e suplicar por perdão são coisas contrárias. A segunda opinião aqui derrubada é no tocante a méritos. Pois nós nos reconhecemos como devedores a Deus, sim, falidos. E que além da soma principal de muitos milhares de talentos, aumentamos diariamente a dívida; portanto, não podemos de modo algum merecer nenhuma das bênçãos de Deus. É mera loucura pensar que aqueles que não podem pagar as suas dívidas, mas antes as aumentam dia a dia, deveriam merecer ou comprar quaisquer dos bens dos credores, ou o perdão das suas dívidas. E se algum favor lhes [é] mostrado, vem de mera boa vontade sem o mínimo merecimento. Em uma palavra, deve-se pensar nisto: que se tudo o que podemos fazer não nos impedirá de aumentar a soma principal de nossa dívida, muito menos seremos capazes, por qualquer mérito, de diminuí-la. Com justa razão, portanto, todos os servos de Deus se prostrarão e orarão: “Perdoa-nos as nossas dívidas”. A terceira opinião é que o castigo pode ser retido, sendo a culpa inteiramente perdoada. Mas isso não pode subsistir, pois aqui o pecado é chamado de nossa dívida. Porque por natureza devemos a Deus a obediência, e pela falta deste pagamento, passamos a dever a Ele o confisco da punição. O pecado, então, é chamado a nossa dívida em respeito à punição. E, portanto, quando oramos pelo perdão do pecado, nós exigimos o perdão não apenas da culpa, mas de toda a punição. E quando uma dívida é perdoada, é um absurdo pensar que o menor pagamento ainda restaria. A quarta opinião é que um homem nesta vida pode cumprir a lei, sendo que neste lugar todo servo de Deus é ensinado a pedir um perdão diário pela quebra da lei. A resposta que é dada é que os nossos pecados diários são veniais e não contra a lei, mas à margem da lei. Mas isto que eles dizem é contra a petição; pois uma dívida que vem por confisco é contra o vínculo ou obrigação. Ora, todo pecado é uma dívida que causa o confisco da punição, e portanto não está à margem — mas diretamente contra — a lei.

4. Nesta cláusula: “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, é tomado como certo que podemos saber com certeza que estamos em amor e caridade com os homens, quando fazemos reconciliação. Por que, então, não podemos nós saber com certeza que nos arrependemos e cremos e estamos reconciliados com Deus, o que todos os Católicos Romanos negam?

5. Nas últimas palavras: “e não nos deixes cair em tentação”, nós oramos não para que Deus nos livre da tentação — pois algumas vezes é bom ser tentado [Sal. 26:1] — mas para que não sejamos entregues à malícia de Satanás e mantidos cativos da tentação. Pois aqui, o ser levado à tentação, e o ser liberto, são opostos. Ora, daqui eu concluo que aquele que é um filho de Deus verdadeiramente justificado e santificado, nunca cairá total e finalmente da graça de Deus. E eu concluo desta maneira: Aquilo que pedimos segundo a vontade de Deus nos será concedido. Mas isto o filho de Deus pede: que ele nunca seja totalmente abandonado por seu Pai e deixado cativo na tentação [1 João 5:14]. Isto, portanto, lhe será concedido.

6. Esta cláusula: “Amém”, significa uma fé especial no tocante a todas as petições anteriores, de que elas serão concedidas, e, portanto, uma fé especial concernente à remissão de pecados, a qual a Igreja Romana nega.

Para chegar ao último lugar, à instituição do sacramento da Ceia do Senhor [1 Cor. 11:23]:

1. Na qual, em primeiro lugar, a presença real é por muitas circunstâncias derrubada. Das palavras: “ele tomou e partiu”, é evidente que [aquilo] que Cristo tomou não foi o Seu corpo, porque não se pode dizer que com Suas próprias mãos Ele tenha tomado, segurado e partido a Si mesmo — mas ao próprio pão. 2. Novamente, Cristo não disse: “sob a forma do pão”, ou “no pão”, mas “Isto”, ou seja, “o pão é o meu corpo”. 3. O pão não foi dado por nós, mas apenas o corpo [de] Cristo. E nesta primeira instituição, o corpo de Cristo não foi realmente entregue à morte. 4. O cálice “é o Novo Testamento” por uma figura; por que não pode o pão ser o corpo de Cristo também por uma figura? 5. Cristo comeu a ceia, mas não a Si mesmo. 6. A nós é ordenado fazê-lo “até que Ele venha”. Cristo, portanto, não está corporalmente presente. 7. Cristo ordena que o pão seja comido “em memória Dele”, mas sinais de memória são de coisas ausentes. 8. Se a presença real papista for concedida, então o corpo e o sangue de Cristo estão ou separados ou unidos. Se separados, então Cristo ainda está crucificado. Se unidos, então o pão é tanto o corpo quanto o sangue de Cristo; ao passo que a instituição diz: “O pão é o corpo, e o vinho é o sangue.”

2. Novamente, aqui é condenada a administração do sacramento sob uma única espécie. Pois o mandamento de Cristo é: “Bebei dele todos” (Mat. 26:27). E este mandamento é recitado à igreja de Corinto nestas palavras: “Fazei isto todas as vezes que beberdes, em memória de mim” (1 Cor. 11:25). E nenhum poder pode revogar este mandamento, porque foi estabelecido pela soberana cabeça da igreja.

Estas poucas linhas, bem como o tratado anterior, eu ofereço à vista e à leitura daqueles que favorecem a religião romana — desejando-lhes com paciência que considerem esta única coisa, que a sua religião, se fosse católica e apostólica (como eles fingem), não poderia ser contrária, nem sequer em um único ponto, aos fundamentos de todos os catecismos que têm sido usados nas igrejas que confessam o nome de Cristo desde os dias dos apóstolos. E como ela contraria os referidos fundamentos em vários pontos da doutrina (como eu provei), é um claro argumento de que a presente religião romana está degenerada. Não escrevo isto desprezando ou odiando as suas pessoas por causa de sua religião, mas desejando não fingidamente a sua conversão neste mundo, e a sua salvação no mundo vindouro.

FIM.

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#22 – Sobre O Arrependimento

Do Arrependimento

I. Nosso Consenso

Conclusão 1. Que o arrependimento é a conversão de um pecador. Há uma dupla conversão: passiva e ativa. A passiva é uma ação de Deus, pela qual Ele converte o homem, estando este ainda não convertido. A ativa é uma ação pela qual o homem, tendo sido primeiramente convertido por Deus, converte a si mesmo; e é desta última que esta conclusão deve ser entendida. Pois a primeira conversão, considerando que é uma obra de Deus voltando-nos para Si mesmo, não é o arrependimento de que a Escritura fala tantas vezes, mas é chamada pelo nome de regeneração; e o arrependimento, pelo qual nós, sendo primeiro convertidos por Deus, voltamo-nos a nós mesmos, e fazemos boas obras, é o fruto daquela.

Conclusão 2. Que o arrependimento consiste especialmente na prática, em contrição de coração, confissão de boca, e satisfação em obra ou ação.

  • Quanto à contrição, há dois tipos dela: legal e evangélica. A contrição legal não é nada senão um remorso de consciência pelo pecado em consideração à ira e ao julgamento de Deus, e não é de forma alguma uma graça de Deus; nem qualquer parte, ou causa do arrependimento, mas apenas uma ocasião do mesmo, e isso pela misericórdia de Deus. Pois de si mesma, ela é o aguilhão da lei, e a própria entrada no poço do inferno. A contrição evangélica é quando um pecador arrependido se entristece por seus pecados — não tanto por medo do inferno ou de qualquer outra punição, mas porque ofendeu e desagradou a um Deus tão bom e misericordioso. Esta contrição é causada pelo ministério do evangelho, e na prática do arrependimento ela é sempre necessária e vem antes como o início do mesmo.

  • Segundo, nós defendemos e mantemos que a confissão deve ser feita e isso a diversos respeitos:

    • primeiro a Deus, tanto publicamente na congregação quanto também privadamente em nossas orações secretas e particulares.

    • Segundo, à igreja, quando qualquer pessoa tiver ofendido abertamente a congregação por qualquer crime e, portanto, estiver excomungada.

    • Terceiro, ao nosso próximo em particular, quando em qualquer ocasião o ofendemos e injustiçamos. “Se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai primeiro e reconcilia-te com ele” (Mat. 5:23). Ora, a reconciliação pressupõe confissão.

  • Por último, em todo verdadeiro arrependimento, defendemos e reconhecemos que deve ser feita satisfação:

    • Primeiro a Deus, e isto é quando nós Lhe rogamos em nossas súplicas que aceite a morte e paixão de Cristo, como uma satisfação plena, perfeita e suficiente por todos os nossos pecados.

    • Segundo, ela deve ser feita à igreja, após a excomunhão pelas ofensas públicas; e ela consiste em deveres de humilhação que servem adequadamente para testemunhar a verdade de nosso arrependimento.

    • Terceiro, a satisfação deve ser feita ao nosso próximo. Porque, se ele for injustiçado, deve haver compensação e restituição [Lucas 19:8]; e ali o arrependimento pode ser justamente suspeito, onde nenhuma satisfação é feita, se estiver em nosso poder.

Conclusão 3. Que no arrependimento devemos produzir frutos exteriores dignos [de] emenda de vida. Pois o arrependimento em si está no coração, e portanto deve ser testemunhado em todo tipo de boas obras, das quais a principal é esforçar-se dia após dia — pela graça de Deus — para deixar e renunciar a todo e qualquer pecado, e em todas as coisas fazer a vontade de Deus. E aqui que seja lembrado que não somos patronos da licenciosidade e inimigos das boas obras. Pois embora as excluamos do ato da nossa justificação e salvação, contudo mantemos um uso proveitoso e necessário delas na vida de todo homem cristão. Este uso é tríplice: em respeito a Deus, ao homem, a nós mesmos.

  • As obras devem ser feitas em respeito a Deus para que os Seus mandamentos possam ser obedecidos [1 João 3:22], para que a Sua vontade possa ser feita [1 Tes. 4:3], para que possamos mostrar a nós mesmos como filhos obedientes a Deus nosso Pai [1 Pedro 1:14], para que possamos nos mostrar gratos pela nossa redenção por Cristo [Tito 2:14], para que não entristeçamos o Espírito de Deus [Efés. 4:30], mas andemos de acordo com o mesmo [Gál. 5:22], para que Deus, por nossas boas obras, possa ser glorificado [Mat. 5:16], para que possamos ser bons seguidores de Deus [Efés. 5:1].

  • Novamente, as obras devem ser feitas em consideração aos homens, para que o nosso próximo possa ser ajudado nas coisas mundanas [Lucas 6:38], para que ele possa ser ganho pelo nosso exemplo para a piedade [1 Pedro 3:14], para que possamos prevenir em nós mesmos o dar qualquer ofensa [1 Cor. 10:32], para que fazendo o bem possamos tapar as bocas de nossos adversários.

  • Terceiro e por último, elas têm uso em respeito a nós mesmos, para que possamos mostrar a nós mesmos como novas criaturas [2 Cor. 5:17], para que possamos andar como os filhos da luz [Efés. 5:8], para que tenhamos alguma garantia da nossa fé, e da nossa salvação [2 Pedro 1:8, 10], para que possamos discernir a fé morta e falsificada da fé verdadeira [Tiago 2:17], para que a fé e os dons de Deus possam ser exercitados e continuados até o fim [2 Tim. 1:6], para que as punições do pecado, tanto temporais quanto eternas, possam ser evitadas [Sal. 89:32], para que a recompensa possa ser obtida, a qual Deus livremente em misericórdia prometeu aos homens por suas boas obras [Gál. 6:9].

II. A Diferença

Não discordamos da Igreja de Roma na doutrina do arrependimento em si, mas nos seus condenáveis abusos; os quais são de dois tipos: gerais e especiais.

Os [abusos] gerais são aqueles que dizem respeito ao arrependimento totalmente considerado; e são eles:

  • O primeiro, é que eles colocam o início do arrependimento [em parte em si mesmos e] em parte no Espírito Santo, ou no poder de seu livre arbítrio natural, sendo ajudado pelo Espírito Santo; ao passo que Paulo, de fato, atribui esta obra totalmente a Deus: “Provando se Deus em algum momento lhes dará o arrependimento” (2 Tim. 2:25). E homens que não estão fracos, mas mortos em delitos e pecados, não podem fazer nada que possa promover a sua conversão, por mais ajudados que sejam; não mais do que os homens mortos em seus túmulos podem ressuscitar dali.

  • O segundo abuso é que eles tomam a penitência, ou melhor, o arrependimento, por aquela disciplina pública e ordem de correção que era usada contra ofensores notórios na congregação aberta. Pois a Escritura estabelece apenas um arrependimento, e esse é comum a todos os homens sem exceção, e a ser praticado em cada parte das nossas vidas para a necessária mortificação do pecado; ao passo que a correção eclesiástica aberta não pertencia a todo e qualquer homem dentro do âmbito da igreja, mas somente àqueles que davam alguma ofensa pública.

  • O terceiro abuso é que eles fazem do arrependimento não apenas uma virtude, mas também um sacramento; ao passo que, pelo espaço de mil anos depois de Cristo, e mais, ele não era contado entre os sacramentos. Sim, parece que Lombardo foi um dos primeiros que o chamou de sacramento; e os escolásticos depois dele disputaram sobre a matéria e a forma deste sacramento, não sendo nenhum deles capaz de definir com certeza qual deveria ser o elemento exterior.

  • O quarto abuso é no tocante ao efeito e eficácia do arrependimento, pois eles o fazem uma causa meritória de remissão de pecados e de vida eterna, o que é frontalmente contra a Palavra de Deus. Paulo diz notavelmente: “sendo justificados gratuitamente por sua graça através da redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue” (Rom. 3:24-25). Nestas palavras, estas formas de falar, “redenção em Cristo”, “propiciação no seu sangue pela fé”, [e] “gratuitamente pela graça”, devem ser observadas e consideradas. Pois elas mostram claramente que nenhuma parte de satisfação ou redenção é operada em nós ou por nós, mas fora de nós somente na Pessoa de Cristo. E, portanto, nós estimamos o arrependimento apenas como um fruto da fé, e o efeito — ou eficácia dele — é testemunhar a remissão dos nossos pecados e a nossa reconciliação diante de Deus. Dir-se-á que, “A remissão de pecados e a vida eterna são prometidas ao arrependimento”. Resposta. Não é à obra do arrependimento, mas à pessoa que se arrepende; e isso não pelos seus próprios méritos ou obra de arrependimento, mas pelos méritos de Cristo, os quais ele aplica a si mesmo pela fé. E assim devemos entender as promessas do evangelho nas quais as obras são mencionadas, pressupondo sempre nelas a reconciliação da pessoa com Deus, a quem a promessa é feita. Assim vemos a razão pela qual nós discordamos da Igreja Romana no tocante à doutrina do arrependimento.

Os abusos especiais dizem respeito à contrição, confissão e satisfação.

  • O primeiro abuso, concernente à contrição, é que eles ensinam que ela deve ser suficiente e perfeita. Eles agora costumam remediar a questão com uma distinção, dizendo que a tristeza na contrição deve estar no grau mais alto em respeito a valor e estimação. Contudo a opinião de Adriano era outra, que no verdadeiro arrependimento um homem deveria se entristecer de acordo com todo o seu esforço. E o Catecismo Romano diz o mesmo, que “A tristeza concebida pelos nossos pecados deve ser tão grande, que nenhuma maior possa ser concebida; que devemos ser contritos da mesma maneira que amamos a Deus, e isto é, com todo o nosso coração e força, numa tristeza mui veemente; e que o ódio ao pecado deve ser não apenas o maior, mas também mais veemente e perfeito, de modo que exclua toda a preguiça e frouxidão.” De fato, depois se segue que a verdadeira contrição pode ser eficaz embora seja imperfeita. Mas como isso pode subsistir se eles não apenas recomendam, mas também prescrevem e afirmam que a contrição deve ser perfeitíssima e veemente? Nós, portanto, ensinamos apenas que Deus requer não tanto a medida quanto a verdade de qualquer graça, e que é um grau de contrição não fingida o entristecer-se por não podermos nos entristecer pelos nossos pecados como deveríamos.

  • O segundo abuso é que eles atribuem à sua contrição o mérito de congruidade. Mas isto não pode subsistir com o mérito todo-suficiente de Cristo. E um antigo concílio diz: “Deus inspira em nós primeiro a fé e o amor a Si mesmo, sem que nenhuns méritos nos precedam, para que possamos requerer fielmente o sacramento do batismo, e depois do batismo fazer as coisas que Lhe agradam.” E nós, por nossa parte, defendemos que Deus requer a contrição de nossas mãos, não para merecer a remissão dos pecados, mas para que possamos reconhecer a nossa própria indignidade, e sermos humilhados diante de Deus, e desconfiarmos de todos os nossos próprios méritos; e ainda, para que possamos ter em maior conta os benefícios de Cristo, pelos quais somos recebidos no favor de Deus. Por último, para que possamos mais cuidadosamente evitar todos os pecados no tempo vindouro, pelos quais tantas dores e terrores de consciência são procurados. E nós não reconhecemos contrição alguma como sendo meritória, salvo aquela de Cristo, pela qual Ele foi moído pelas nossas iniquidades.

  • O terceiro abuso é que eles fazem a contrição imperfeita, ou atrição decorrente do medo do inferno, ser boa e proveitosa. E a ela aplicam o dito do profeta: “O temor a Deus é o princípio da sabedoria”. Mas o temor servil por si mesmo é o fruto da lei, que é o ministério da morte e da condenação. E, consequentemente, é o caminho para a destruição eterna, se Deus deixar os homens por si mesmos. E se isso se volta para o bem de alguém, é apenas por acidente, porque Deus, em Sua misericórdia, o torna uma ocasião precedente, para que a graça seja dada. De outra forma, o remorso de consciência pelo pecado não é nenhum princípio de arrependimento, ou contenção de qualquer pecado; mas antes é, e isso propriamente, o princípio de horrores indizíveis de consciência e morte eterna, a menos que Deus mostre misericórdia. E, no entanto, este medo da punição, se for temperado e mitigado com outras graças e dons de Deus em homens santos, não é inútil; nos quais não há apenas uma tristeza pela punição, mas também, e isso muito mais, pela ofensa. E tal tipo de temor, ou tristeza, é ordenado: “Se eu sou pai, onde está a minha honra? Se eu sou Senhor, onde está o meu temor?” (Mal. 1:6). E Crisóstomo diz que “O temor do inferno no coração de um homem justo é um homem forte e armado contra ladrões e salteadores para afastá-los da casa.” E Ambrósio diz que “Os Mártires no tempo dos seus sofrimentos, confirmavam-se contra a crueldade dos perseguidores pondo o temor do inferno diante dos seus olhos.”

Os abusos no tocante à confissão são estes.

  • O primeiro é que eles usam uma forma de confissão de seus pecados a Deus, proferida em uma língua desconhecida; sendo, portanto, tola e ridícula, ainda por cima exigindo a ajuda e a intercessão de homens mortos e de pessoas que estão ausentes. Ao passo que só existe um Mediador entre Deus e o homem, o homem Jesus Cristo.

  • O segundo é que, na prática, fazem a confissão de seus pecados não apenas a Deus, mas aos santos falecidos, no sentido de que lhes fazem oração na qual lhes pedem a sua intercessão para o perdão dos seus pecados. E isso é, não apenas igualá-los a Deus em ver e conhecer o coração, mas também dar a eles uma parte da adoração divina Dele.

  • O terceiro e principal abuso é que eles corromperam a confissão canônica, transformando-a em confissão auricular privada, obrigando todos os homens em consciência por uma lei feita para que confessem todos os seus pecados mortais, com todas as circunstâncias que mudam a espécie do pecado (tanto quanto possivelmente se possam lembrar) uma vez por ano, no mínimo, e isso a um padre, a não ser que seja em caso de extrema necessidade. Mas na Palavra de Deus não há garantia para esta confissão, nem nos escritos da antiguidade ortodoxa pelo espaço de muitas centenas de anos depois de Cristo, como assegura alguém de seu próprio lado. E o mandamento do Espírito Santo: “Confessai as vossas culpas uns aos outros e orai uns pelos outros” (Tiago 5:16), obriga tanto o sacerdote a fazer confissão a nós, quanto qualquer um de nós ao sacerdote. E onde é dito que “muitos foram batizados, confessando os seus pecados” (Mat. 3:6), e “muitos dos que creram vinham, confessando e revelando os seus feitos” (Atos 19:18), a confissão foi voluntária e não constrangida. Ela também foi geral e não particular de todo e qualquer pecado, com as circunstâncias necessárias do mesmo. E nesta liberdade de confissão a igreja permaneceu 1.200 anos até o Concílio de Latrão, no qual a lei da confissão auricular foi primeiramente promulgada, sendo uma invenção notável servindo para descobrir os segredos dos homens e para enriquecer aquela sé cobiçosa e ambiciosa com as rendas do mundo. Ela não era conhecida de Agostinho quando ele disse: “Que tenho eu a ver com os homens para que ouçam as minhas confissões, como se pudessem curar todas as minhas doenças?” Nem a Crisóstomo, quando diz: “Não te obrigo a confessar os teus pecados a outros.” E: “Se te envergonhas de confessá-los a qualquer homem, porque pecaste, dize-os diariamente em tua própria mente. Não te mando confessá-los ao teu conservo para que zombe de ti. Confessa-os a Deus, que te cura.”

O abuso da satisfação é que eles transformaram a satisfação canônica, que era feita à congregação pelos ofensores públicos, em uma satisfação da justiça de Deus para a punição temporal de seus pecados. Eis aqui uma mui horrível profanação de todo o evangelho, e especialmente da satisfação de Cristo, a qual de si mesma, sem qualquer acréscimo, é suficiente de todas as maneiras para a remissão tanto da culpa quanto da punição. Mas deste ponto já falei antes.

Até aqui eu tratei e provei por indução de vários pormenores que devemos fazer uma separação da atual Igreja de Roma no que diz respeito ao fundamento e à substância da verdadeira religião. Muitas outras coisas poderiam ser adicionadas para este mesmo propósito, mas aqui concluo este primeiro ponto, adicionando apenas esta advertência: que fazemos a separação da religião romana sem ódio às pessoas que são mantenedoras da mesma. Não, nós nos unimos em afeto mais com eles do que eles conosco. Eles morrem conosco não pela religião deles (embora a mereçam), mas pelas traições que eles pretendem e empreendem [Deut. 13:5]. Estamos prontos para cumprir os deveres de amor a eles ordenados a nós na Palavra. Nós reverenciamos os bons dons em muitos deles; oramos por eles, desejando o seu arrependimento e salvação eterna.

Agora pretendo prosseguir e tocar brevemente [em] outros pontos de doutrina contidos nesta porção da Escritura que tenho agora em mãos. Em segundo lugar, portanto, a partir deste mandamento, “Saia dela, povo meu”, eu concluo que a verdadeira igreja de Deus está e esteve na presente igreja Romana como o trigo no monte de palha. Embora o papismo tenha reinado e se espalhado pela face da terra por muitas centenas de anos, ainda assim, no meio dele, Deus reservou para Si um povo que verdadeiramente O adorou. E para este fim, o Espírito Santo diz que o dragão, que é o diabo, fez a mulher, isto é, a igreja, fugir para o deserto, onde ele buscou destruí-la mas não pôde. “E ela ainda retém um remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo” (Apoc. 12:17). Ora, isto que eu digo da Igreja de Roma, não pode ser dito de igual modo das congregações de Turcos e outros infiéis, que a igreja oculta de Deus seja preservada entre eles; porque não há meios de salvação absolutamente; ao passo que a Igreja de Roma tem as Escrituras, embora em língua estranha — e o batismo quanto à forma exterior — meios que Deus em todas as eras preservou, para que os Seus eleitos pudessem ser reunidos do meio da Babilônia. Isto serve para tapar as bocas dos papistas, que nos exigem onde estava a nossa igreja oitenta anos atrás, antes dos dias de Lutero; com o que insinuariam ao mundo que a nossa igreja e religião é verde ou nova. Mas eles são respondidos a partir deste mesmo texto, que a nossa igreja esteve sempre presente desde os dias dos apóstolos, e isso no próprio meio do papado. Ela sempre foi uma igreja e não começou a ser apenas no tempo de Lutero, mas apenas então começou a se mostrar, como tendo estado oculta por uma apostasia universal por muitas centenas de anos juntos. Novamente, temos aqui ocasião para considerar o trato de Deus com a Sua própria igreja e povo. Ele não quer que eles, para a sociedade externa, estejam misturados com os seus inimigos, e isso por um propósito especial; a saber, para exercitar a humildade e a paciência de Seus poucos servos. Quando Elias viu a idolatria espalhada por todo Israel, ele foi à parte para o deserto e com pesar desejou morrer [1 Reis 19:4]. E Davi clamou: “Ai de mim que sou constrangido a habitar em Meseque e a ter a minha habitação nas tendas de Quedar!” (Salmos 120:5). E o justo Ló precisou ter a sua alma justa afligida ao ver e ouvir as abominações de Sodoma.

Terceiro, por este mandamento somos ensinados que opinião ter da presente Igreja de Roma. Muitas vezes é exigido saber se ela é uma igreja ou não; e a resposta pode, consequentemente, ser formada desta maneira: Se por esta igreja for compreendido um estado ou governo de pessoas, cujo papa é a cabeça, e os membros são todos aqueles que o reconhecem como sendo sua cabeça, e creem na doutrina estabelecida no Concílio de Trento, nós consideramos que ela não é nenhuma igreja de Deus. Porque a Babilônia, que já provei ser a Igreja de Roma, é aqui oposta à igreja ou povo de Deus; e porque nos é ordenado a sair dela, ao passo que não podemos abandonar totalmente nenhum povo até que eles abandonem a Cristo. Alguns talvez dirão: “A Igreja de Roma tem as Escrituras e o sacramento do batismo”. Eu respondo, primeiro de tudo, eles têm de fato os livros da Sagrada Escritura entre eles; mas pelo restante da sua doutrina eles derrubam o verdadeiro sentido dos mesmos no fundamento, como provei antes. E embora eles tenham a forma exterior do batismo, contudo eles derrubam o batismo interior, que é a substância de tudo, residindo na justificação e santificação de um pecador. Novamente, respondo que eles têm a Palavra e o batismo não para si mesmos, mas para a verdadeira igreja de Deus entre eles — assim como a lanterna segura a vela, não para si mesma, mas para outros. Segundo, pode ser — e é alegado — que se o papa é o Anticristo, ele então se senta no templo — isto é, na igreja de Deus — e por este meio a igreja Romana será a verdadeira igreja [2 Tes. 2:4]. Resposta. Ele se senta no templo de Deus, mas observem ainda como: como Deus, isto é, não como um membro, mas como um usurpador manifesto; assim como o ladrão senta-se na casa do homem de bem. Pois a igreja papista e a igreja de Deus estão misturadas como palha e trigo num só monte. E a Igreja de Roma pode ser dita estar na igreja de Deus, e a igreja de Deus na Igreja de Roma; como dizemos que o trigo está no meio da palha e a palha no trigo. Novamente, ele é dito estar sentado no templo de Deus, porque a igreja romana, embora falsamente, toma para si o título de verdadeira igreja católica. Alguns tentam atenuar e qualificar a questão, comparando esta igreja a um homem deitado doente e cheio de chagas, tendo também a sua garganta cortada, contudo de modo que corpo e alma estão juntos, e a vida ainda permanece. Mas tudo bem considerado, é antes como um cadáver morto, e está destituído de toda vida espiritual, como os erros papistas no fundamento o manifestam. De fato, uma meretriz conhecida pode depois permanecer esposa e ser assim chamada: contudo após a carta de divórcio ser dada, ela cessa de ser uma esposa embora ela possa mostrar a sua aliança de casamento. Ora, a igreja recebeu a sua carta de divórcio na Palavra escrita, nomeadamente [em] 2 Tessalonicenses 2 e Apocalipse 13:11-12, etc.

Além disso, neste mandamento podemos ver um retrato vívido do estado de toda a humanidade. Aqui vemos duas espécies de homens: alguns são os que pertencem à Babilônia, um povo correndo para a sua destruição; alguns, por outro lado, são um povo de Deus, separados da Babilônia e reservados para a vida eterna. Se alguém perguntar a causa desta distinção, eu respondo: “É a própria vontade de Deus conceder misericórdia a alguns, e abandonar outros, retirando-lhes a Sua misericórdia para melhor declaração de Sua justiça.” Assim diz o Senhor: “Reservei para mim sete mil homens que não dobraram o joelho diante de Baal” (Rom. 11:4). E o profeta Isaías diz: “A menos que o Senhor tivesse deixado um remanescente, teríamos sido como Sodoma e Gomorra” (Isa. 1:9). Por esta distinção, somos ensinados acima de todas as coisas a buscar ser do número do povo de Deus e a trabalhar para ter a garantia disso em nossas próprias consciências. Pois se todos devessem ser salvos, menos cuidado bastaria. Mas esta misericórdia não é comum a todos, e, portanto, tanto mais a ser considerada.

Por último, noto aqui o cuidado especial que Deus tem pelos Seus próprios filhos. Ele primeiro lhes dá aviso para partirem antes que Ele comece a executar o Seu julgamento sobre os Seus inimigos com os quais eles vivem — para que não fossem participantes dos seus pecados ou castigos. Assim, antes que Deus punisse Jerusalém, um anjo é enviado para marcar na testa aqueles que suspiravam pelas abominações do povo [Ezeq. 9:4]. E na destruição dos primogênitos do Egito, o anjo passou por cima das casas dos judeus que tinham os seus umbrais aspergidos com o sangue do cordeiro pascal [Êx. 12:23]. E este passar por cima significa segurança e preservação na destruição comum, àqueles que têm os seus corações aspergidos com o sangue de Cristo. Esta bênção de proteção deveria nos mover a todos para nos tornarmos servos verdadeiros e de coração de Deus. Os homens costumam se tornar membros daquelas sociedades e corporações onde podem gozar de muitas liberdades e privilégios. Bem, eis que na sociedade dos santos de Deus, que é a verdadeira igreja, há a liberdade contra o perigo em todas as destruições comuns, e contra a vingança eterna no último dia. Quando Ester tinha procurado a segurança para os judeus, e liberdade para se vingarem sobre os seus inimigos, é dito que muitos dos povos da terra se fizeram judeus. Assim também, considerando que Cristo procurou a libertação do inferno, da morte e da condenação para todos os que Nele creem, deveríamos trabalhar acima de todas as coisas para nos tornarmos novas criaturas, unindo-nos sempre à verdadeira igreja de Deus.

Até aqui eu falei do mandamento. Agora segue-se a razão do mesmo tirada do fim: “para que não sejais participantes dos seus pecados: e para que não recebais das suas pragas”. Aqui eu poderia me deter por muito tempo para mostrar quais são os pecados da Igreja de Roma, mas nomearei apenas os [pecados] principais.

O primeiro pecado é o ateísmo, e isso eu provo desta maneira. O ateísmo é duplo: aberto [e] mascarado.

  • O ateísmo aberto é quando os homens, tanto em palavra quanto em ação, negam a Deus e à Sua Palavra.

  • O ateísmo mascarado (colorido) não é tão manifesto, e tem dois graus:

    • O primeiro é quando os homens reconhecem a Deus o Criador e Governador do céu e da terra, e contudo negam o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Assim, diz-se dos efésios, antes de receberem o evangelho, que estavam sem Deus, a quem em seu juízo natural eles reconheciam [Efés. 2:12] — porque eles negavam a Cristo e consequentemente adoravam um ídolo da sua própria mente, pois adoravam a Deus fora de Cristo. E a este respeito, embora os samaritanos adorassem o Deus de Abraão, ainda assim o nosso Salvador Cristo diz: “adorais o que não sabeis” (João 4:22). E o salmista diz dos gentios que “os seus deuses são ídolos” (Sal. 96:5). Neste grau de ateísmo estão colocados Turcos e Judeus neste dia, os antitrinitarianos e arianos, e todos os que concebem e adoram a Deus fora da Trindade.

    • O segundo grau é, quando os homens de fato reconhecem a unidade da Divindade na Trindade das pessoas, contudo de tal modo, que por outras consequências necessárias, em parte da sua doutrina e em parte do culto a Deus, eles derrubam aquilo que bem mantiveram. E assim eu digo, que a própria religião da Igreja de Roma é um tipo de ateísmo. Pois enquanto ela faz o mérito das obras dos homens concorrer com a graça de Deus, ela derruba a graça de Deus [Romanos 11]. Em palavras eles reconhecem a infinita justiça e misericórdia de Deus, mas por consequência ambas são negadas. Como pode ser essa uma justiça infinita, a qual de alguma forma pode ser apaziguada por satisfação humana? E como a misericórdia de Deus será infinita quando nós — pelas nossas próprias satisfações — devemos adicionar um suprimento à satisfação de Cristo? Novamente, “Aquele que não tem o Filho, não tem o Pai” (1 João 2:23). E aquele que não tem nem o Pai nem o Filho, nega a Deus.

Ora, a presente religião romana não tem o Filho — isto é, Jesus Cristo, Deus e homem, o Mediador da humanidade — mas transformou-O em um Cristo falsificado. E eu o mostro assim: No lugar de um Jesus Cristo, em todas as coisas semelhante a nós na Sua humanidade, exceto somente o pecado, eles forjaram um Cristo a quem eles atribuem duas espécies de existência: uma natural, pela qual Ele é visível, tocável e circunscrito no céu; a outra não apenas acima mas também contra a natureza; pela qual Ele é substancialmente — segundo a Sua carne, nas mãos de cada sacerdote, em cada hóstia, e na boca de cada comunicante — invisível, intocável, incircunscrito. E assim, na prática, eles abolem a Sua humanidade. Sim, eles O degradam dos Seus ofícios. Ao invés de um Jesus Cristo, o único Rei, Legislador e Cabeça da igreja, eles juntam a Ele o papa; não apenas como um vigário, mas também como um companheiro, na medida em que lhe dão poder para fazer leis que obrigam a consciência, para resolver e determinar infalivelmente o sentido da Sagrada Escritura, para propriamente perdoar o pecado tanto no que diz respeito à culpa quanto à punição temporal, para ter autoridade sobre toda a terra e uma parte do inferno, para depor reis, aos quais sob Cristo toda alma deve estar sujeita, [e] para absolver súditos do juramento de lealdade, etc. Ao invés de um Jesus Cristo, o único sacerdote real do Novo Testamento, eles ordenam muitos sacerdotes secundários a Ele, que oferecem Cristo diariamente na missa pelos pecados dos vivos e dos mortos. Ao invés de um Jesus Cristo, o Mediador todo-suficiente de intercessão, eles adicionaram muitos companheiros a Ele para fazer pedidos por nós, a saber, tantos santos quantos existam no calendário do papa. Por último, ao invés dos méritos exclusivos de Cristo, no qual somente o Pai tem prazer, eles inventaram um tesouro da igreja, contendo — além dos méritos de Cristo — o excedente dos méritos dos santos, para ser dispensado aos homens à discrição do papa. E assim vemos que Cristo, e consequentemente o próprio Deus a ser adorado em Cristo, é transformado numa fantasia ou ídolo do conceito humano. Novamente, há sempre uma proporção entre a adoração a Deus e a nossa persuasão Dele. E os homens, ao darem a Deus qualquer adoração, têm respeito à Sua natureza, para que ambas possam ser adequadas, e Ele possa se agradar. Vejamos então que tipo de adoração a religião romana proporciona: É em sua maior parte mera adoração da própria vontade (culto voluntário), sem qualquer permissão ou mandamento de Deus, como Durand em seu Rationale de fato reconhece. É um serviço carnal consistindo de inumeráveis ritos e cerimônias corporais, emprestados em parte dos Judeus e em parte dos pagãos. É dividida entre Deus e algumas de Suas criaturas, na medida em que são adorados ambos com um único tipo de adoração, não importa como a tentem pintar. Assim, pois, se pela sua maneira de adorar a Deus pudermos julgar como eles O concebem — como podemos — eles claramente transformaram o verdadeiro Deus em uma fantasia deles mesmos. Pois Deus não deve ser concebido de outra forma senão como Ele Se revelou em Suas criaturas e em Sua Palavra — e especialmente em Cristo, que é a imagem expressa da Pessoa do Pai.

O segundo pecado é a idolatria, e essa tão grosseira como jamais houve entre os pagãos. E isso se pode ver em duas coisas:

  • Primeiro, que eles adoram os santos com adoração religiosa, a qual, sem exceção, é própria de Deus. Sim, eles transformam alguns deles em ídolos detestáveis, fazendo-os, na verdade, mediadores da redenção, especialmente a virgem Maria, a quem eles chamam de “uma Senhora, uma Deusa, uma Rainha, a quem Cristo seu Filho obedece no céu, uma medianeira: nossa vida, esperança, o remédio dos doentes”. E oram a ela assim: “Prepara glória para nós: defende-nos dos nossos inimigos, e na hora da morte recebe-nos, solta as amarras dos culpados, traz luz aos cegos, afasta todos os demônios. Mostra que és mãe. Que Ele receba as tuas orações.”

  • Novamente, a sua idolatria é manifesta, na medida em que eles adoram a Deus em, para, ou diante de imagens; não tendo mandamento para assim o fazer, mas pelo contrário. Eles alegam que eles usam e adoram imagens apenas em lembrança de Deus. Mas isto é a mesma coisa como se uma esposa impudica recebesse muitos amantes em sua casa na ausência de seu marido e, sendo repreendida, respondesse que eles eram amigos de seu marido e que ela os mantinha apenas em lembrança dele.

  • Terceiro, a idolatria deles excede a idolatria dos pagãos, no sentido de que eles adoram um deus de pão, ou Cristo nas e sob as formas do pão e do vinho. E se Cristo, de acordo com a Sua humanidade, estiver ausente da terra, como já provei, a hóstia papista é um ídolo tão abominável quanto jamais existiu.

O terceiro pecado é a manutenção do adultério. E isso é manifesto: primeiro de tudo, na tolerância dos bordéis, frontalmente contra o mandamento de Deus. “Não haverá prostituta entre as filhas de Israel; nem haverá sodomita entre os filhos de Israel” (Deut. 23:17). E esta tolerância é uma ocasião de impureza para muitos rapazes e moças que, de outra forma, se absteriam de todo tipo de imundície. E que abominação é esta, quando irmão e irmão, pai e filho, sobrinho e tio, forem à mesma meretriz, um antes ou depois do outro? Segundo, a sua lei para além do quarto grau permite o casamento de quaisquer pessoas; e por este meio eles por vezes permitem o incesto. Pois, na linha colateral desigual, a pessoa mais próxima do tronco comum é um pai ou uma mãe para a posteridade do irmão ou irmã, como por exemplo:

  1. João Ana Nicolau

  2. Tomás

  3. Luís

  4. Rogério

  5. Antônio

  6. Tiago

Aqui Ana e Nicolau são irmão e irmã, e Ana dista de Tiago seis graus, sendo ele seu sobrinho distante. E o casamento entre eles é permitido pela Igreja de Roma, não estando eles dentro do limite dos quatro graus, o que, não obstante, é contra a lei da natureza. Pois Ana, sendo irmã de Nicolau, é como mãe de todos os que foram gerados de Nicolau, até mesmo de Tiago e da posteridade de Tiago. Ainda assim, concedo isto, que a filha de Ana pode licitamente casar-se com Tiago ou Antônio, sendo o caso alterado, porque eles não são um para o outro como pais e filhos.

O quarto pecado é a magia, feitiçaria ou bruxaria, na consagração da hóstia na qual fazem o seu deus de pão; nos exorcismos sobre o pão bento, água benta e sal; na expulsão ou afastamento de demônios, pelo sinal da cruz, por conjurações solenes, por água benta, pelo toque de sinos, por acender velas, por relíquias, e coisas semelhantes. Pois estas coisas não têm a sua suposta força quer por criação quer por qualquer instituição de Deus em Sua Sagrada Palavra; e portanto, se alguma coisa for feita através delas, é a partir da operação secreta do próprio diabo.

O quinto pecado é que em sua doutrina eles mantêm o perjúrio, porque eles ensinam em comum acordo que um papista sob interrogatório pode responder de forma duvidosa contra a intenção direta do interrogador, forjando um outro significado para si mesmo na ambiguidade de suas palavras. Como por exemplo, quando a um homem é perguntado se ele disse ou ouviu missa em tal lugar. Embora ele o tenha feito, eles afirmam que ele pode dizer que não, e jurar sobre isso, porque ele não estava lá para revelá-lo ao interrogador. Ao passo que, na própria lei da natureza, aquele que faz um juramento deve jurar de acordo com a intenção de quem tem poder para ministrar um juramento; e isso em verdade, justiça e retidão (juízo). Que eles inocentem a sua doutrina de toda defesa de perjúrio, se puderem.

O sexto pecado é que eles revertem muitos dos mandamentos de Deus, não fazendo pecado [daquilo] que a Palavra de Deus faz pecado. Assim, eles ensinam “que se algum homem roubar alguma coisinha que se pensa não causar nenhum dano notável, não é pecado mortal”; que “a mentira oficiosa, e a mentira feita de brincadeira, são pecados veniais”; que “orar pelos nossos inimigos em particular, não é nenhum preceito, mas um conselho, e que ninguém é obrigado a saudar o seu inimigo pelo caminho da amizade”, contrariamente à regra de Cristo em Mateus 5:47, onde a palavra ????????? (saudar) significa todo o tipo de dever e cortesia. Que “o julgamento precipitado, mesmo que o consentimento venha com ele, é regularmente apenas um pecado venial”. Que “é lícito de outra forma fingir santidade”. Que “a pintura do rosto é ordinariamente apenas um pecado venial”. Que “não é lícito proibir a mendicância”, sendo que o Senhor proibiu que houvesse qualquer mendigo em Israel [Deuteronômio 15]. Novamente, eles ensinam que os homens na sua cólera, quando estão repreendendo e juram por feridas e sangue, não são de fato blasfemadores.

Por último, os seus escritores usam de mentira manifesta para justificar a sua doutrina. Eles alegam falsamente que toda a antiguidade está do seu lado, ao passo que ela está tanto contra eles quanto a favor deles; e tanto a favor de nós quanto deles. Novamente, o seu modo tem sido e ainda é provar as suas opiniões, por meio de escritos forjados e falsificados de homens, alguns dos quais nomearei:

  1. Liturgia de São Tiago.

  2. Os Cânones dos Apóstolos.

  3. Os livros de Dionísio Areopagita, a saber, De Hierarchia Ecclesiastica.

  4. As Epístolas Decretal dos Papas.

  5. As Obras do Papa Clemente.

  6. Algumas das epístolas de Inácio.

  7. O livro de Orígenes sobre o arrependimento. Suas homilias in diversos sanctos, Comentários sobre Jó, e Livro de Lamentações.

  8. A Liturgia de Crisóstomo.

  9. A Liturgia de Basílio e os seus Ascetica.

  10. O livro de Agostinho de 8 quest. Dulcitii, Um Livro de Arrependimento Verdadeiro e Falso, Serm. de secto commemorationis animarum, Livro de dogm., Ecclesiast. Serm. ad fratres in Hereom., Sermão da Cadeira de Pedro, Livro de Visitação aos Enfermos, etc.

  11. As Questões e Respostas de Justino Mártir.

  12. A Epístola de Atanásio ao Papa Félix.

  13. Os Sermões de Bernardo sobre a Ceia do Senhor.

  14. A epístola de Jerônimo ad Demetriadem, favorecendo a Pelágio.

  15. O De Monogamia de Tertuliano.

  16. De Chrismate e de ablutione pedum de Cipriano.

  17. No Concílio de Sárdica, o 3º, 4º e 5º cânones são forjados.

  18. No Concílio de Niceia, todos, exceto 20, são forjados.

  19. Certos Concílios Romanos sob Silvestre são forjados. Pois ele estava morto neste momento, e portanto não poderia confirmá-los. Zozom. lib 2.

  20. Ao sexto cânone do Concílio de Niceia são remendadas estas palavras: “Que a Igreja Romana sempre teve a supremacia”.

  21. Por último, não omitirei que os Papas Zózimo, Bonifácio e Celestino falsificaram os cânones do Concílio de Niceia para provar as apelações de todos os lugares a Roma; de modo que os bispos da África foram forçados a mandar buscar as cópias verdadeiras do referido Concílio em Constantinopla e nas igrejas da Grécia.

Eu poderia ensaiar aqui muitos outros pecados que com os primeiros clamam por vingança sobre a igreja romana, mas bastará ter nomeado alguns dos principais.

Ora, nesta razão, nosso Salvador Cristo prescreve um outro dever principal ao Seu próprio povo: e que é serem cuidadosos em evitar todos os pecados da Igreja de Roma, para que possam simultaneamente escapar das suas pragas e punições merecidas. E deste dever prescrito eu observo duas coisas:

  • A primeira é que todo bom servo de Deus deve evitar cuidadosamente contratos de casamento com papistas professos, isto é, com tais que têm o papa por sua cabeça e creem na doutrina do Concílio de Trento. Pois em tais casamentos os homens dificilmente mantêm a fé e a boa consciência, e dificilmente evitam a comunicação com os pecados da igreja romana. Um fundamento adicional desta doutrina eu o proponho assim: Na Palavra de Deus há menção de uma dupla aliança entre homem e homem, país e país. A primeira é a aliança da concórdia, quando um reino se obriga a viver em paz com outro para a manutenção do comércio sem perturbações. E este tipo de aliança pode subsistir entre a igreja de Deus e os seus inimigos. A segunda é a aliança da amizade, que é quando os homens, povos, ou países se obrigam a defender uns aos outros em todas as causas, e a fazer as guerras de um as guerras do outro. E esta aliança não pode ser feita com os que são inimigos de Deus. Josafá, por outro lado um bom rei, fez este tipo de aliança com Acabe e é, portanto, reprovado pelo profeta, dizendo: “Devias tu ajudar o ímpio, e amar aqueles que odeiam o Senhor?” (2 Crôn. 19:2). Ora, os casamentos de Protestantes com papistas são alianças privadas de amizade entre pessoa e pessoa, e portanto não devem ser permitidos. Novamente, [o Senhor diz:] “Judá profanou a santidade do Senhor, a qual ele amava, e casou-se com as filhas de um deus estranho” (Mal. 2:11), onde são condenados abertamente os casamentos feitos com o povo de um falso deus. Ora, os papistas, pelas consequências da sua doutrina e religião, transformam o verdadeiro Jeová em um ídolo de sua própria mente, como já mostrei, e o verdadeiro Cristo revelado na Palavra escrita num “cristo” fingido, feito de pão. No entanto, se um casamento tal for uma vez feito e terminado, não pode ser dissolvido. Pois tais partes não pecam simplesmente no sentido de que se casam, mas porque não se casam no Senhor, sendo de diversas religiões. A falha não está na substância do casamento, mas na maneira de o fazer. E por esta causa o apóstolo ordena à parte crente que não abandone ou recuse a parte não crente, sendo mesmo um infiel (o que nenhum papista é) se ele ou ela quiser ficar [1 Cor. 7:13].

  • A segunda coisa é que todo servo de Deus deve tomar cuidado em como ele viaja a tais países onde a religião papista está estabelecida, para não participar de seus pecados e das punições deles. De fato, ir numa embaixada a qualquer lugar, ou viajar para este fim, para que possamos cumprir os deveres necessários para o nosso chamado especial ou geral, não é ilícito. Mas viajar para fora dos limites da igreja apenas por prazer e para ver costumes estranhos, não tem qualquer garantia. E daí é que muitos homens que saem em boa ordem e bem intencionados, voltem para casa com a consciência abalada. O melhor viajante de todos é aquele que — vivendo em casa ou no estrangeiro — pode sair de si mesmo e afastar-se dos seus próprios pecados e corrupções através de um arrependimento verdadeiro.

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#21 – Sobre A Fé Salvadora

Da Fé Salvadora: ou, o caminho para a vida.

Nosso consenso.

Conclusão I. Eles ensinam ser a propriedade da fé crer em toda a palavra de Deus, e especialmente na redenção da humanidade por Cristo.

Conclusão II. Eles declaram que creem e esperam ser salvos por Cristo e SOMENTE POR CRISTO, e pela MERA MISERICÓRDIA de Deus em Cristo.

Conclusão III. Em terceiro lugar, os mais eruditos entre eles defendem e confessam que a obediência de Cristo lhes é imputada para a satisfação da lei, e para a sua reconciliação com Deus.

Conclusão IV. Eles declaram que depositam toda a sua confiança e segurança em Cristo, e na mera misericórdia de Deus, para a sua salvação.

Conclusão V. Por último, eles defendem que todo homem deve aplicar a promessa de vida eterna por Cristo a si mesmo: e isto eles admitem que estamos obrigados a fazer. E nestes cinco pontos eles e nós concordamos, pelo menos em aparência de palavras.

Pela declaração destas 5 Conclusões, os papistas podem facilmente escapar das mãos de muitos magistrados. E a menos que o mistério da doutrina papista seja bem conhecido, qualquer homem comum pode ser facilmente enganado, e tomar por bons Protestantes aqueles que não passam de padres papistas. Para este fim, portanto, a fim de que possamos discernir melhor a sua astúcia, mostrarei em que eles falham em cada uma das suas conclusões, e em que eles diferem de nós.

A diferença.

No tocante à primeira conclusão, eles de fato creem em toda a palavra escrita de Deus, e mais do que tudo: pois eles também creem nos livros Apócrifos, os quais a antiguidade por muitos e muitos anos excluiu do cânone: sim, eles creem em tradições não escritas recebidas (como eles dizem) de Concílios, dos escritos dos Pais e das determinações da Igreja: tornando-os também de igual crédito com a palavra escrita de Deus, dada por inspiração do espírito. Ora, nós, de nossa parte, não desprezamos os Apócrifos, como nomeadamente os livros dos Macabeus, Eclesiástico e os demais, mas nós os reverenciamos de toda maneira conveniente, preferindo-os antes de quaisquer outros livros de homens, no sentido de que foram aprovados por um consentimento universal da Igreja: contudo, não os julgamos adequados para serem recebidos no Cânone da sagrada escritura, e, portanto, não para serem cridos, senão na medida em que concordam com a palavra escrita. E para este nosso proceder, temos direção de Atanásio, Orígenes, Jerônimo e do Concílio de Laodiceia. Quanto às Tradições não escritas, elas não entram no escopo da nossa fé, nem podem: porque chegam a nós pelas mãos de homens, que podem enganar e ser enganados. E nós defendemos e cremos que o Cânone correto dos livros do Antigo e do Novo Testamento contém em si direção suficiente para a Igreja de Deus rumo à vida eterna, tanto para a fé quanto para os costumes. Aqui, então, está o ponto de diferença, que eles tornam o objeto da fé maior do que deveria ser, ou pode ser: e nós nos mantemos na palavra escrita; não crendo em nada para a salvação fora dela.

Na segunda conclusão, no tocante à salvação somente por Cristo, há um engano manifesto: porque eles astutamente incluem e escondem as suas próprias obras sob o nome de Cristo. Pois (dizem eles) as obras feitas por homens regenerados não são próprias deles, mas de Cristo neles; e como são as obras de Cristo, elas salvam, e de nenhuma outra maneira. Mas nós, de nossa parte, esperamos ser salvos apenas por tais obras que o próprio Cristo fez em sua própria pessoa: e não por qualquer obra que seja feita por ele em nós. Pois todas as obras feitas são, em matéria de justificação e salvação, opostas à graça de Cristo: Rom. 11:6. A eleição é pela graça e não pelas obras: se é pelas obras, já não é mais pela graça. Novamente, enquanto eles ensinam que somos salvos pelas obras de Cristo, as quais ele opera em nós, e nos faz operar; isto é frontalmente contra a palavra. Pois Paulo diz: Não somos salvos por tais obras que Deus ordenou para que os homens regenerados andassem nelas (Efés. 2:10). E ele diz ainda, que considerou TODAS AS COISAS, mesmo após a sua conversão, como perda para si, para que pudesse ser achado em Cristo, não tendo a sua própria justiça que vem da lei (Fil. 3:8). Novamente Heb. 1:3. Cristo purificou os nossos pecados por si mesmo: as quais últimas palavras excluem o mérito de todas as obras feitas por Cristo dentro do homem. Assim, de fato, os papistas derrubam tudo aquilo que em palavras parecem defender no tocante à sua justificação e salvação. Nós confessamos com eles que as boas obras em nós são as obras de Cristo: contudo não são somente de Cristo, mas nossas também, no sentido de que procedem de Cristo através da mente e vontade do homem: como a água da fonte pelo canal. E veja que, assim como o canal poluído polui a água que não tem poluição na fonte: assim também a mente e a vontade do homem, poluídas pelos resquícios do pecado, poluem as obras, as quais, ao virem de Cristo, são imaculadas. Daí vem que as obras da graça que fazemos por Cristo, ou, Cristo em nós, são defeituosas: e devem ser separadas de Cristo no ato da justificação, ou salvação.

A terceira conclusão diz respeito à imputação da obediência de Cristo, a qual alguns dos mais eruditos entre eles reconhecem: e a diferença entre nós consiste no seguinte. Eles defendem que a obediência de Cristo é imputada apenas para fazer satisfação pelo pecado, e não para nos justificar diante de Deus. Nós defendemos e cremos que a obediência de Cristo nos é imputada, sim, para a nossa justiça diante de Deus. Paulo diz, 1 Cor. 1:30. Cristo foi-nos feito por Deus sabedoria, JUSTIÇA, SANTIFICAÇÃO e redenção. Daí eu raciocino assim. Se Cristo é tanto a nossa santificação quanto a nossa justiça: então ele não é para nós apenas justiça inerente, mas também justiça imputada. Mas ele não é apenas a nossa santificação (o que os próprios papistas expõem como sendo justiça inerente ou habitual), mas também a nossa justiça: pois assim elas são distinguidas por Paulo. Portanto, ele é para nós tanto justiça inerente quanto imputada. E a própria razão ensina exatamente isso. Pois no fim do mundo, no tribunal do julgamento de Deus, devemos trazer algum tipo de justiça para a nossa justificação, que possa subsistir no rigor da lei segundo a qual seremos julgados. Mas a nossa justiça inerente é imperfeita e manchada com múltiplos defeitos, e assim o será enquanto vivermos neste mundo, como a experiência nos diz: e, consequentemente, não é adequada para a justiça da lei: e se sairmos de nós mesmos não encontraremos nenhuma justiça que sirva aos nossos propósitos, quer em homens quer em Anjos, que possa ou consiga procurar a nossa absolvição perante Deus e a nossa aceitação para a vida eterna. Devemos, portanto, ter recurso à pessoa de Cristo, e a sua obediência imputada a nós deve servir não apenas como uma satisfação a Deus por todos os nossos pecados, mas também para a nossa perfeita justificação: visto que Deus se contenta em aceitá-la como nossa justiça, como se fosse inerente a nós, ou realizada por nós.

No tocante à quarta conclusão, eles consideram o caminho mais seguro e firme colocar a sua confiança e segurança apenas na misericórdia de Deus para a sua salvação: contudo, eles condescendem que os homens também podem colocar a sua confiança no mérito de suas próprias obras, e também nos méritos de outros homens, contanto que seja com sobriedade. Mas esta doutrina estraga completamente a conclusão: porque, ao ensinar que os homens devem colocar a confiança na criatura, eles derrubam toda a confiança no Criador. Pois no primeiríssimo mandamento, somos ensinados a fazer a escolha do verdadeiro Deus para o nosso Deus, coisa que fazemos quando damos a Deus os nossos corações: e damos os nossos corações a Deus, quando depositamos toda a nossa confiança nele para a salvação das nossas almas. Ora, então, colocar confiança em homens, ou em obras, é fazer deles os nossos Deuses. A verdadeira e antiga forma de fazer confissão era desta maneira: Creio em Deus o Pai, Em Jesus Cristo, e No Espírito Santo, sem mencionar fazer qualquer confiança em obras ou criaturas: a antiga Igreja nunca conheceu tal confissão ou confiança. Cipriano diz: Ele não crê em Deus, aquele que não deposita a sua confiança concernente à sua salvação em Deus somente. E de fato os próprios papistas, quando a morte chega, abandonam a confiança em seus méritos, e fogem para a mera misericórdia de Deus em Cristo. E para uma confirmação disto, alego o testemunho de um certo Ulinbergius de Colônia, que escreve assim. Foi encontrado um livro na sacristia de uma certa paróquia de Colônia, escrito em língua alemã (holandesa) no ano de nosso Senhor de 1475, o qual os Padres usavam na visitação dos enfermos. E nele encontram-se estas perguntas:

Crês que não podes ser salvo senão pela morte de Cristo? O enfermo respondeu: Sim. Então lhe é dito: Vai, pois, enquanto houver fôlego em ti, deposita a tua confiança NESTA MORTE SOMENTE: não tenhas confiança em mais nada; entrega-te inteiramente a esta morte: cobre-te apenas com ela: mergulha-te em cada parte tua nesta morte; transpassa-te em cada parte com ela: envolve-te nesta morte. E se o Senhor te julgar, dize: Senhor, coloco a morte de nosso Senhor Jesus Cristo entre mim e o teu julgamento, e POR NENHUM OUTRO MEIO eu contendo contigo. E se ele te disser que és um pecador; dize: Senhor, a morte do meu Senhor Jesus Cristo eu a coloco entre ti e os meus pecados. Se ele te disser que mereceste a condenação, dize: Senhor, oponho a morte de nosso Senhor Jesus Cristo entre ti e os meus maus méritos, e EU OFEREÇO O SEU MÉRITO PELO MÉRITO QUE EU DEVERIA TER, E NÃO TENHO. Se ele disser que está irado contigo, dize: Senhor, oponho a morte de nosso Senhor Jesus Cristo entre mim e a tua ira.

Aqui vemos o que os papistas fazem e têm feito na hora da morte. E aquilo que eles defendem e praticam quando estão morrendo; eles deveriam defender e praticar todos os dias enquanto estão vivendo.

Na última conclusão, eles ensinam que não devemos apenas crer em geral, mas também aplicar a nós mesmos as promessas de vida eterna. Mas eles diferem de nós na própria maneira de aplicar. Eles ensinam que a promessa deve ser aplicada, não pela fé nos assegurando da nossa própria salvação; mas apenas pela esperança, em probabilidade conjectural. Nós defendemos que estamos obrigados por dever a aplicar a promessa de vida pela fé, sem ter dúvida alguma sobre a mesma, e pela esperança a continuar a certeza após a apreensão feita pela fé. Nós não ensinamos que todo e qualquer homem vivendo dentro dos limites da Igreja, professando o nome de Cristo, tem a certeza da sua salvação, e isso pela fé: mas que ele deveria tê-la, e deve esforçar-se para alcançá-la. E aqui está um grande ponto no mistério da iniquidade a ser considerado: pois através desta aplicação incerta da promessa de salvação e desta esperança vacilante, eles derrubam metade da doutrina do evangelho. Pois este prescreve duas coisas: primeiro, crer que as suas promessas são verdadeiras em si mesmas: segundo, crer, e pela fé aplicá-las a nós mesmos. E esta última parte, sem a qual a primeira é vazia de conforto, é completamente derrubada. As razões que eles alegam contra a nossa doutrina, eu já as respondi antes: agora, portanto, eu as deixo passar.

Para concluir, embora em termos coloridos eles pareçam concordar conosco na doutrina concernente à fé; contudo, de fato, eles negam e abolem a substância da mesma, a saber, a aplicação particular e certa de Cristo crucificado e de seus benefícios a nós mesmos. Novamente, eles falham no sentido de que cortam o principal dever e ofício da verdadeira fé salvadora, que é apreender e aplicar a bênção prometida.

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#20 – Sobre A Eficácia Dos Sacramentos

Da Eficácia dos Sacramentos

I. Nosso Consenso

Conclusão 1. Ensinamos e cremos que os sacramentos são sinais para nos representar Cristo com os Seus benefícios.

Conclusão 2. Ensinamos ainda que os sacramentos são de fato instrumentos pelos quais Deus nos oferece e concede os referidos benefícios. Até aqui, consentimos com a Igreja Romana.

II. A Diferença

A diferença entre nós [i.e., Católicos Romanos e Reformados] baseia-se em diversos pontos:

1. Em primeiro lugar, os mais eruditos entre eles ensinam que os sacramentos são instrumentos físicos, isto é, causas instrumentais verdadeiras e próprias, tendo neles força e eficácia para produzir e dar graça. Eles costumam expressar o seu significado por estas comparações: “Quando o escrivão pega a pena na mão e escreve, a ação de escrever vem da pena movida pela mão do escritor. E no cortar da madeira ou da pedra, a divisão vem da serra movida pela mão do trabalhador. Assim também a graça”, dizem eles, “que é dada por Deus, é conferida pelo próprio sacramento.” Ora, nós, da nossa parte, defendemos que os sacramentos não são instrumentos físicos, mas meramente voluntários. Voluntários, porque é da vontade e da designação de Deus usá-los como certos meios exteriores de graça. Instrumentos, porque quando os usamos corretamente, de acordo com a instituição, Deus então correspondentemente confere graça de Si mesmo. É apenas a este respeito que os tomamos por instrumentos, e não de outro modo.

2. A segunda diferença é esta: Eles ensinam que a própria ação do ministro dispensando os sacramentos — como é a obra realizada (o ex opere operato) — dá graça imediatamente, se a parte estiver preparada; como a própria lavagem ou aspersão de água no batismo e a entrega do pão na Ceia do Senhor; assim como o mover ordenado da pena sobre o papel pela mão do escritor causa a escrita. Nós defendemos o contrário, a saber, que nenhuma ação na dispensação de um sacramento confere graça como obra realizada, isto é, pela eficácia e força da própria ação sacramental em si, embora ordenada por Deus. Mas [o faz] de duas outras maneiras:

  • Primeiro, pela sua significação. Pois Deus nos testifica a Sua vontade e bom prazer em parte pela Palavra da promessa e em parte pelo sacramento; os sinais representando aos olhos aquilo que a Palavra faz aos ouvidos, sendo também tipos e imagens certas daquelas mesmas coisas que são prometidas na Palavra e nenhuma outra. Sim, os elementos não são sinais gerais e confusos, mas particulares para os vários comunicantes e pela virtude da instituição. Pois quando os fiéis recebem os sinais de Deus pelas mãos do ministro, é o mesmo que se o próprio Deus — com a Sua própria boca — falasse a eles individualmente, e prometesse pelo nome a remissão dos pecados a eles. E as coisas ditas a eles particularmente afetam mais, e removem mais a dúvida, do que se fossem ditas de forma geral a toda uma companhia. Portanto, os sinais das graças são, por assim dizer, uma aplicação e vinculação da promessa de salvação a cada crente em particular. E por este meio, quanto mais vezes são recebidos, mais ajudam a nossa fraqueza e confirmam a nossa garantia de misericórdia.

  • Novamente, o sacramento confere graça no sentido de que o seu sinal confirma a fé como um penhor, pelo fato de ter uma promessa anexada a ele. Pois quando Deus nos ordena a receber os sinais com fé, e simultaneamente promete aos recebedores dar a coisa significada, Ele Se obriga, por assim dizer, em um vínculo conosco, a manter a Sua própria Palavra; assim como os homens se obrigam em obrigações, apondo as suas mãos e selos de forma que não podem voltar atrás. E quando os sinais são assim usados como penhores, e isso frequentemente, eles aumentam grandemente a graça de Deus, assim como um símbolo enviado de um amigo a outro renova e confirma a persuasão do amor.

Existem as duas principais formas pelas quais se diz que os sacramentos conferem graça, a saber, em respeito à sua significação e enquanto são penhores do favor de Deus para conosco. E o exato ponto a ser considerado aqui é em que ordem e maneira eles confirmam. E a maneira é esta: Os sinais e elementos visíveis afetam os sentidos externa e internamente. Os sentidos transmitem o seu objeto à mente. A mente, dirigida pelo Espírito Santo, raciocina desta maneira, a partir da promessa anexada ao sacramento: Aquele que usa os elementos corretamente receberá graça por meio deles. “Mas eu uso os elementos corretamente em fé e arrependimento”, diz a mente do crente, “portanto receberei de Deus o aumento da graça.” Assim, pois, a fé é confirmada, não pela obra realizada, mas por um tipo de raciocínio causado na mente, cujo argumento ou prova é tomado emprestado dos elementos, sendo sinais e penhores da misericórdia de Deus.

3. A terceira diferença: Os papistas ensinam que no sacramento — pela obra realizada — a própria graça da justificação é conferida. Nós dizemos não. Porque um homem com idade suficiente deve primeiro crer e ser justificado antes que possa ser um participante adequado de qualquer sacramento. E a graça que é conferida é apenas o aumento da nossa fé, esperança, santificação, etc.

Nossas Razões

Razão 1. A Palavra pregada e os sacramentos diferem na maneira de nos dar Cristo e os Seus benefícios, porque na Palavra o Espírito de Deus nos ensina por uma voz transmitida à mente pelos ouvidos corporais; mas nos sacramentos anexados à Palavra por certos sinais sensíveis e corporais vistos pelos olhos. Os sacramentos nada mais são do que palavras e promessas visíveis. De resto, quanto ao dar em si, eles não diferem. O próprio Cristo diz que na própria palavra “come-se a sua própria carne, que ele havia de dar para a vida do mundo” (João 6:51). E o que mais se pode dizer da Ceia do Senhor? Agostinho diz que “os crentes são participantes do corpo e do sangue de Cristo no batismo.” E Jerônimo a Edibia, que “no batismo comemos e bebemos o corpo e o sangue de Cristo.” Se tanto se pode dizer do batismo, por que não pode também ser dito da Palavra pregada? Novamente, Jerônimo sobre Eclesiastes diz: “É proveitoso encher-se do corpo de Cristo, e beber o Seu sangue, não apenas em mistério, mas no conhecimento da Sagrada Escritura.” Ora, a partir disto segue-se que, visto que a obra realizada na Palavra pregada não confere graça, tampouco a obra realizada no sacramento confere qualquer graça.

Razão 2. “Eu vos batizo com água para arrependimento, mas aquele que vem após mim é mais forte do que eu… Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mat. 3:11). Daí é manifesto que a graça no sacramento não procede de nenhuma ação no sacramento. Pois João, embora não separe a si mesmo e a sua ação de Cristo e da ação do Seu Espírito, ainda assim ele os distingue claramente em número, pessoas e efeito. Com este propósito Paulo, que havia dito aos gálatas que ele “sofria dores de parto por eles” e “os gerara pelo evangelho” (Gál. 4:19), diz de si mesmo que “ele não é nada”, não apenas como ele era um homem, mas como ele era um apóstolo fiel (1 Cor. 3:7) — excluindo, desse modo, todo o ministério evangélico, do qual o sacramento é uma parte, da mínima parte de operação divina, ou eficácia em conferir a graça.

Razão 3. Os santos anjos, não, a própria carne do Filho de Deus, não tem qualquer virtude vivificante de si mesma. Mas toda essa eficácia ou virtude está na e vem da Divindade do Filho, o qual, por meio da carne apreendida pela fé, deriva vida celestial e espiritual de Si mesmo para os membros. Ora, se não há eficácia na carne de Cristo senão em razão da união hipostática, como hão de ações corporais sobre elementos corporais conferir graça imediatamente?

Razão 4. Paulo, em Romanos 4, detém-se muito nisto para provar que a justificação pela fé não é conferida pelos sacramentos. E da circunstância de tempo ele conclui que Abraão foi primeiro justificado, e depois em seguida recebeu a circuncisão, o sinal e o selo desta justiça. Ora, nós sabemos que a condição geral de todos os sacramentos é uma e a mesma, e que o batismo sucedeu à circuncisão. E o que pode ser mais claro do que o exemplo de Cornélio, em Atos 10, que, antes de Pedro chegar a ele, tinha o louvor do temor a Deus e era dotado do espírito de oração? E depois, quando Pedro, através da pregação, abriu mais completamente o caminho do Senhor, ele e o restante receberam o Espírito Santo. E depois de tudo isto eles foram batizados. Ora, se eles receberam o Espírito Santo antes do batismo, então eles receberam a remissão dos pecados e foram justificados antes do batismo.

Razão 5. O julgamento da igreja antiga.

  • Basílio diz: “Se há alguma graça na água, ela não vem da natureza da água, mas da presença do Espírito.”

  • Jerônimo diz: “O homem dá água, mas Deus dá o Espírito Santo.”

  • Agostinho diz: “A água toca o corpo e lava o coração”, mas ele mostra o seu significado em outro lugar: “Há uma água”, diz ele, “do sacramento; outra do Espírito. A água do sacramento é visível, a água do Espírito invisível. Aquela lava o corpo e significa o que é feito na alma; por esta a alma é purgada e curada.”

Objeções

Objeção 1. A remissão dos pecados, a regeneração e a salvação são atribuídas ao sacramento do batismo [Atos 22:16; Efés. 5:26; Gál. 3:27; Tito 3:5].

Resposta. A salvação e a remissão dos pecados são atribuídas ao batismo e à Ceia do Senhor, como o são à Palavra, que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; e isso porque eles são instrumentos do Espírito Santo para significar, selar e exibir à mente crente os referidos benefícios. Mas de fato, o instrumento próprio pelo qual a salvação é apreendida é a fé, e os sacramentos são apenas suportes da fé que promovem a salvação de duas maneiras:

  • primeiro, porque pela sua significação eles ajudam a nutrir e preservar a fé;

  • segundo, porque eles selam a graça e a salvação a nós.

Sim, Deus dá a graça e a salvação quando os usamos bem; contanto que creiamos na Palavra da promessa feita para o sacramento, do qual eles também são selos.

E assim nós mantemos o caminho do meio — não dando nem muito nem pouco aos sacramentos.

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#19 – Sobre A Supremacia Em Causas Eclesiásticas

Da Supremacia em Causas Eclesiásticas

I. Nosso Consenso

No tocante ao ponto da supremacia eclesiástica, estabelecerei quão perto podemos chegar da Igreja Romana em duas conclusões:

Conclusão 1. Para a fundação da igreja primitiva, o ministério da Palavra foi distinguido por graus não apenas de ordem, mas também de poder — e Pedro foi chamado ao grau mais elevado. Cristo “subiu ao alto e deu dons aos homens”, para o bem da Sua igreja, “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e doutores” (Ef. 4:11). Ora, embora um apóstolo não esteja acima de outro, ou um evangelista acima de outro, ou um pastor acima de outro, contudo um apóstolo estava acima de um evangelista, e um evangelista acima de todos os pastores e mestres. E Pedro era, por chamado, um apóstolo, e, portanto, estava acima de todos os evangelistas e pastores, tendo o lugar mais alto no ministério do Novo Testamento, tanto por ordem quanto por autoridade.

Conclusão 2. Entre os doze apóstolos, Pedro tinha um tríplice privilégio ou prerrogativa: 1. A prerrogativa de autoridade. 2. De primazia. 3. De principalidade.

  • Pelo primeiro, pelo privilégio de autoridade, quero dizer uma preeminência em relação à estimação, pela qual ele era tido em reverência acima do resto dos doze apóstolos; pois Cefas, com Tiago e João “são chamados de colunas” e “pareciam ser grandes” (Gál. 2:6, 9).

  • Novamente, ele tinha a preeminência de primazia porque foi o primeiro nomeado, como o líder da busca. “Os nomes dos doze apóstolos são estes: o primeiro é Simão, chamado Pedro” (Mat. 10:2).

  • Terceiro, ele tinha a preeminência de principalidade entre os doze porque, no que diz respeito à medida da graça, ele excedeu o resto. Pois quando Cristo perguntou aos Seus discípulos quem diziam que Ele era, Pedro, por ser de maior capacidade e zelo, respondeu por todos eles [Mat. 16:16]. Uso esta cláusula, entre os doze, porque Paulo excedeu a Pedro em todos os sentidos — em aprendizado, zelo, compreensão — tanto quanto Pedro excedeu os demais. E é até aqui que chegamos perto da supremacia papista.

II. A Diferença

A Igreja de Roma dá a Pedro uma supremacia sob Cristo acima de todas as causas e pessoas. Isto é, pleno poder para governar e ordenar a Igreja Católica em toda a terra, tanto para a doutrina quanto para o regime. Esta supremacia consiste (como eles ensinam) em um poder de julgamento, para determinar o verdadeiro sentido de todos os lugares das Escrituras; para determinar todas as causas de fé; para reunir concílios gerais; para ratificar os decretos dos ditos concílios; para excomungar qualquer homem na terra que viva dentro da igreja, mesmo príncipes e nações; para apropriadamente absolver e perdoar pecados; para decidir causas trazidas a ele por apelação de todas as partes da terra; por último, para fazer leis que obrigarão a consciência. Esta plenitude de poder com um consentimento é atribuída a Pedro e aos bispos de Roma que o seguem em uma suposta sucessão.

Ora, nós defendemos, pelo contrário, que nem Pedro, nem qualquer bispo de Roma, tem qualquer supremacia sobre a igreja católica, mas que toda a supremacia sob Cristo pertence a reis e príncipes dentro dos seus domínios. E que esta nossa doutrina é boa e a deles falsa e forjada, eu o tornarei manifesto por diversas razões:

Razão 1. Cristo deve ser considerado por nós como rei de duas maneiras. Primeiro, como Ele é Deus; e assim Ele é um rei absoluto sobre todas as coisas no céu e na terra, com o Pai e o Espírito Santo, pelo direito da criação. Segundo, Ele é um rei como Ele é um redentor da humanidade; e pelo direito de redenção Ele é um rei soberano sobre toda a igreja, e isso de maneira especial. Ora, como Cristo é Deus com o Pai e o Espírito Santo, Ele tem Seus deputados (representantes) na terra para governar o mundo, a saber, reis e príncipes, que por isso são chamados deuses nas Escrituras. Mas, como Cristo é Mediador, e, consequentemente, um Rei sobre os Seus redimidos, Ele não tem colega nem deputado (representante). Nem colega — pois então Ele seria um mediador imperfeito. Nem deputado — pois nenhuma criatura é capaz deste ofício, de fazer, no lugar e em vez de Cristo, aquilo que Ele mesmo faz. Porque toda obra do Mediador é uma obra composta, que surge dos efeitos de duas naturezas que concorrem numa e na mesma ação, a saber, a Divindade e a humanidade. E, portanto, para a efetivação da referida obra, requer-se um poder infinito que excede em muito a força de qualquer natureza criada. Novamente [em] Hebreus 7:24, diz-se que Cristo tem um sacerdócio que não pode passar da Sua pessoa para nenhuma outra. Donde se segue que nem o Seu ofício real nem o Seu ofício profético podem passar Dele para nenhuma criatura — nem no todo nem em parte — porque os três ofícios de mediação a este respeito são iguais. Não, é desnecessário que Cristo tenha um deputado para colocar em execução qualquer parte de Sua mediação, considerando que um deputado serve apenas para suprir a ausência do principal, enquanto que Cristo está sempre presente com a Sua igreja por Sua Palavra e Espírito. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em Seu nome, Ele está no meio deles. Poder-se-ia dizer que os ministros na obra do ministério são deputados de Cristo. Eu respondo que eles não são deputados, mas instrumentos ativos. Pois na pregação da Palavra existem duas ações: a primeira é a emissão ou proposição da mesma ao ouvido; a segunda é a operação interior do Espírito Santo no coração, que de fato é o principal e pertence somente a Cristo, sendo a ação de falar no ministro apenas instrumental. Da mesma forma, a igreja de Deus, ao cortar qualquer membro por excomunhão, não é mais que um instrumento realizando um ministério em nome de Cristo; e isto é, testificar e pronunciar a quem o próprio Cristo cortou do reino dos céus — a quem Ele também quer, por esta causa, que seja separado da companhia do Seu próprio povo até que se arrependa. E assim é em todas as ações eclesiásticas. Cristo não tem nenhum deputado, mas apenas instrumentos, sendo toda a ação inteira pessoal em relação a Cristo. Somente esta conclusão já derruba não apenas a supremacia do papa, mas também muitos outros pontos do papismo.

Razão 2. Todos os apóstolos em relação ao poder e autoridade eram iguais, pois a comissão apostólica, tanto pelo direito quanto pela execução, foi dada igualmente a todos eles, como as próprias palavras importam: “Ide e ensinai a todas as nações, batizando-as, etc.” (Mat. 28:19). E a promessa: “Eu te darei as chaves do reino dos céus”, não é privada de Pedro, mas é feita na pessoa dele aos demais, conforme a sua confissão foi em nome dos demais. Assim diz Teofilato, [sobre] Marcos 16: “Têm o poder de perdoar e reter os que recebem o dom de bispo, como Pedro.” E Ambrósio diz, no Salmo 38: “O que é dito a Pedro é dito aos apóstolos.” Portanto, Pedro não tinha supremacia sobre os demais apóstolos em relação ao direito à comissão, que eles dizem pertencer somente a ele, e a execução da mesma aos demais. Mas digamos que seja concedido que Pedro estava em comissão acima dos demais durante o tempo da sua vida. Contudo, daí não se pode deduzir qualquer superioridade para os bispos de Roma porque a autoridade dos apóstolos era pessoal, e consequentemente cessou com eles, sem ser transmitida a nenhum outro porque o Senhor não concedeu semelhante honra a ninguém depois deles. Pois, em primeiro lugar, foi privilégio dos apóstolos serem chamados imediatamente, e verem o Senhor Jesus. Segundo, eles tinham poder de dar o dom do Espírito Santo pela imposição das mãos. Terceiro, eles tinham tal medida da assistência do Espírito que, em seus sermões públicos, e na escrita da Palavra, não podiam errar. E todas estas coisas foram negadas àqueles que os seguiram. E que a sua autoridade cessou nas suas pessoas, sustenta-se também na razão, porque foi dada de maneira tão ampla para a fundação da igreja do Novo Testamento; a qual uma vez fundada, era necessário apenas que houvesse pastores e mestres para a sua edificação até o fim do mundo.

Razão 3. Quando os filhos de Zebedeu pediram a Cristo os maiores lugares de honra em Seu reino (julgando que Ele seria um rei terreno), Cristo lhes responde de novo: “Sabeis que os senhores dos gentios dominam e os que são grandes exercem autoridade sobre eles: mas não será assim entre vós”. Bernardo aplica estas mesmas palavras ao Papa Eugênio desta maneira: “É claro”, diz ele, “que aqui o domínio é proibido aos apóstolos. Ide pois; ousai, se quiserdes, assumir sobre vós o governar e o apostolado, ou em vosso apostolado governar ou dominar; se quiserdes ter ambos igualmente, perdereis ambos. De outra forma não deveis julgar-vos isento do número daqueles dos quais o Senhor se queixa assim: reinaram, mas não por mim; foram, e eu não os conheci.”

Razão 4. [Ef. 4:11.] É feita menção de dons que Cristo deu à Sua igreja após a Sua ascensão, pelos quais uns foram apóstolos, uns profetas, uns evangelistas, uns pastores e mestres. Ora, se tivesse existido um ofício no qual os homens, como deputados de Cristo, devessem governar toda a igreja até o fim do mundo, o chamado poderia aqui ter sido nomeado adequadamente com um dom a ele pertinente. E Paulo (sem dúvida) não o teria ocultado aqui onde ele menciona chamados de menor importância.

Razão 5. A supremacia do papa foi julgada por sentenças da Escritura e condenada muito antes de se manifestar no mundo; o Espírito de profecia prevendo e predizendo o estado das coisas por vir. “O homem do pecado (que é aquele Anticristo) exaltar-se-á acima de tudo o que se chama Deus, etc.” (2 Tes. 2:3-4). Ora, este capítulo inteiro, com todas as suas circunstâncias, adequa-se perfeitamente à sé de Roma e ao seu líder. E a coisa que então detinha a revelação do homem do pecado [v. 6], é pela maioria exposta como sendo o imperador Romano. Citarei um testemunho no lugar de muitos. Crisóstomo diz sobre este lugar: “Enquanto o império for temido, nenhum homem se submeterá diretamente ao Anticristo; mas depois que esse império for dissolvido, o Anticristo invadirá a posição do império que ficou vazia, e se esforçará para puxar para si mesmo o império tanto do homem quanto de Deus”. E descobrimos agora, por experiência, que isso é verdade, pois a sé de Roma nunca floresceu até que o Império decaísse, e a sua sede fosse removida da cidade de Roma. Novamente, [em] Apocalipse 13, é feita menção de duas bestas, uma subindo do mar, que os papistas confessam ser o Imperador Romano pagão; a segunda subindo da terra, a qual faz tudo o que a primeira besta poderia fazer antes dela. E isto adequa-se perfeitamente aos papas de Roma, os quais fazem e têm feito todas as coisas que o imperador fez ou poderia fazer, e isso sob a sua própria vista.

Razão 6. O julgamento da igreja antiga.

  • Cipriano diz: “Sem dúvida, os demais apóstolos eram o mesmo que Pedro era, dotados de igual companheirismo tanto de honra quanto de poder; mas faz-se um começo pela unidade para que a igreja possa parecer ser uma só.”

  • Gregório diz: “Se um for chamado bispo universal, a igreja universal entra em decadência.” E capítulo 144: “Eu digo ousadamente, que todo aquele que se chama ou deseja chamar-se sacerdote universal, na sua soberba é um precursor do Anticristo”. E: “Eis que no prefácio da epístola que me dirigiste, mandaste pôr um título orgulhoso, chamando-me papa universal.”

  • Bernardo: “Considera que não és um senhor dos bispos, mas um deles. As igrejas estão mutiladas no fato de que o bispo romano puxa todo o poder para si mesmo.”

  • Novamente o próprio Gregório, sendo papa, diz ao imperador: “Eu que estou sujeito ao seu mandamento… de todas as maneiras cumpri aquilo que era devido na medida em que prestei a minha lealdade ao imperador, e não ocultei o que pensei em nome de Deus”.

  • E o Papa Leão Quarto, 200 anos depois de Gregório, reconheceu o Imperador Lotário como “seu príncipe soberano” e professou obediência sem contradição aos seus mandamentos imperiais.

Para concluir, embora eles digam que há uma dupla cabeça da igreja, uma imperial, que é somente Cristo, a outra ministerial, que é o papa governando toda a igreja sob Cristo; eu respondo, esta distinção rouba a Cristo da Sua honra porque, ao erigir a sua cabeça ministerial, eles são obrigados a tomar emprestado de Cristo coisas que Lhe são próprias, como o privilégio de propriamente perdoar pecados e o poder de governar toda a terra fazendo leis que obrigarão as consciências tão verdadeiramente quanto as leis de Deus, etc.

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#18 – Contra O Purgatório

Contra o Purgatório

I. Nosso consenso.

Nós defendemos um purgatório cristão, conforme a palavra de Deus o estabeleceu para nós. E, primeiro de tudo, por este purgatório entendemos as aflições dos filhos de Deus aqui na terra. Jer. 3. O povo aflito diz: enviaste um fogo em nossos ossos. Sal. 65:12. Passamos pela água e pelo fogo. Mal. 3:3. Os filhos de Levi devem ser purificados em um fogo purificador de aflição. 1 Ped. 1:7. As aflições são chamadas de provação de fogo, pela qual os homens são purificados das suas corrupções, assim como o ouro da escória pelo fogo.

Em segundo lugar, o sangue de Cristo é um purgatório dos nossos pecados, 1 João 1:7. O sangue de Cristo nos PURIFICA de todos os nossos pecados. Heb. 9:14. Ele PURIFICA as nossas consciências das obras mortas. E Cristo batiza com o Espírito Santo e com fogo; porque a nossa lavagem interior é pelo sangue de Cristo: e o Espírito Santo é como fogo para consumir e abolir a corrupção interior da natureza. Com este propósito diz Orígenes:

Sem dúvida, sentiremos o fogo inextinguível, a menos que agora roguemos ao Senhor que faça descer do céu um fogo purificador sobre nós, pelo qual os desejos mundanos possam ser totalmente consumidos em nossas mentes.

Agostinho:

Supõe que a misericórdia de Deus é o teu purgatório.

II. A diferença ou dissidência.

Diferimos dos papistas no tocante ao purgatório em duas coisas.

E, primeiro de tudo, quanto ao lugar. Eles defendem que é uma parte do inferno, no qual a entrada é feita apenas após esta vida: nós, de nossa parte, o negamos, como não tendo nenhuma garantia na palavra de Deus; a qual menciona apenas dois lugares para os homens após esta vida, o céu e o inferno, com a dupla condição destes, alegria e tormento. Lucas 16:25, 26; João 3:36; Apoc. 22:14, 15 e 21:7, 8; Mat. 8:11. Não, encontramos o contrário, Apoc. 14:13, diz-se daqueles que morrem no Senhor que eles descansam das suas fadigas: o que não pode ser verdade, se algum deles for para o purgatório. E para cortar todas as cavilações, é dito ainda: as suas obras, isto é, a recompensa das suas obras, os acompanham, mesmo aos calcanhares, como um servo acompanha o seu senhor. Agostinho diz bem:

Após esta vida não resta nenhuma compunção ou SATISFAÇÃO.

E:

Aqui está toda a remissão de pecado: aqui estão as tentações que nos movem a pecar: por último, aqui está o mal do qual desejamos ser libertos: mas lá NÃO HÁ NADA DE TUDO ISSO.

E:

Não estamos aqui sem pecado, mas DAREMOS PARTIDA DAQUI SEM PECADO.

Cirilo diz:

Aqueles que já morreram nada podem acrescentar às coisas que fizeram, mas PERMANECERÃO COMO FORAM DEIXADOS, e esperarão pelo tempo do último juízo.

Crisóstomo:

Após o fim desta vida, NÃO HÁ OCASIÕES de méritos.

Em segundo lugar, diferimos deles no tocante aos meios de purgação. Eles dizem que os homens são purgados pelo sofrimento de penas no purgatório, pelas quais satisfazem pelos seus pecados veniais, e pela punição temporal dos seus pecados mortais. Nós ensinamos o contrário, defendendo que nada pode nos livrar da menor punição do menor pecado, senão os sofrimentos de Cristo, nem nos purgar da menor mancha de corrupção, salvo o sangue de Cristo. De fato, eles dizem que os nossos sofrimentos, considerados em si mesmos, não purgam nem satisfazem, mas na medida em que são tornados meritórios pelos sofrimentos de Cristo: mas a isto eu oponho um texto da Escritura, Heb. 1:3, onde é dito que Cristo purgou os nossos pecados POR SI MESMO: onde a última cláusula corta a garganta de todas as satisfações e méritos humanos: e nos dá a entender que qualquer coisa que nos purgue dos nossos pecados não há de ser achada em nós, mas somente em Cristo: de outra forma, deveria ter sido dito que Cristo purga os pecados dos homens por eles mesmos, bem como por si mesmo: e ele mereceria pela sua morte, que nós nos tornássemos nossos próprios Salvadores em parte.

A este lugar eu posso muito bem referir a oração pelos mortos: sobre a qual eu proporei duas conclusões afirmativas e uma negativa.

  • Conclusão I. Nós defendemos que a caridade cristã deve estender-se até mesmo aos próprios mortos; e ela deve se mostrar no seu enterro honesto, na preservação dos seus bons nomes, na ajuda e alívio da sua posteridade, conforme o tempo e a ocasião se ofereçam. Rute 1:8, João 19:23.

  • Conclusão II. Oramos ainda, de maneira geral, pelos fiéis falecidos, para que Deus apresse a sua alegre ressurreição, e o pleno cumprimento da sua felicidade, tanto para o corpo quanto para a alma: e é tudo isso que pedimos ao dizer: Venha o teu reino, isto é, não apenas o reino da graça, mas também o reino da glória no céu. Até aqui nós chegamos; mas mais perto das portas da Babilônia não ousamos nos aproximar.

  • Conclusão III. Orar por homens particulares falecidos: e orar pelo seu livramento do purgatório, nós consideramos ilícito: porque não temos promessa nem mandamento para assim o fazer.

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#17 – Sobre A Fé Implicita

Da Fé Implícita ou Dobrada (Involuta)

O Nosso Consenso.

Nós defendemos que existe um tipo de fé implícita ou não expressa; sim, que a fé de todo homem em alguma parte de sua vida, como no tempo de sua primeira conversão, e no tempo de alguma tentação ou aflição dolorosa, é implícita ou dobrada (involuta). Diz-se que os samaritanos creram (João 4:14) porque tomaram Cristo pelo Messias e, portanto, contentaram-se em aprender e obedecer às boas novas da salvação. E no mesmo lugar (v. 53), diz-se que o governante com sua família creu, o qual nada mais fez senão reconhecer geralmente que Cristo era o Messias, e rendeu-se a crer e obedecer à sua santa doutrina; sendo movido a isso por um milagre operado em seu filho pequeno. E Raabe (Heb. 11:13) diz-se que creu, sim, ela é elogiada por sua fé mesmo no momento em que recebeu os espias. Ora, na palavra de Deus não podemos achar que ela tivesse nada além de uma fé confusa, geral ou dobrada (involuta), pela qual ela creu que o Deus dos Hebreus era o Deus verdadeiro e que a sua palavra devia ser obedecida. E esta fé (ao que parece) foi nela operada pelo relato e relação dos milagres feitos na terra do Egito: pelo que ela foi movida a juntar-se ao povo de Deus e a crer como eles. Por estes exemplos, então, é manifesto que até nos servos de Deus, existe e pode existir por um tempo uma fé implícita.

Para a melhor compreensão deste ponto, deve ser considerado que a fé pode ser dobrada (involuta) de duas maneiras: primeiro, no que diz respeito ao conhecimento das coisas que devem ser cridas: segundo, no que diz respeito à apreensão do objeto da fé, a saber, Cristo e seus benefícios.

A Fé Implícita: No Que Diz Respeito ao Conhecimento.

Ora, a fé é dobrada (involuta) no que diz respeito ao conhecimento, quando várias coisas que são necessárias à salvação ainda não são conhecidas distintamente. Embora Cristo tenha elogiado a fé dos seus discípulos, por uma fé tal contra a qual as portas do inferno não prevaleceriam; contudo ela era não expressa ou envolta (dobrada) no que diz respeito a vários pontos de religião: pois primeiro de tudo, Pedro, que fez a confissão de Cristo em nome do resto, era naquele tempo ignorante dos meios particulares pelos quais a sua redenção deveria ser operada. Pois depois disto, ele procurou dissuadir o seu mestre de sofrer a morte em Jerusalém, sobre o que Cristo o repreendeu asperamente, dizendo: “Para trás de mim, Satanás, tu és para mim uma ofensa” (Mat. 16:23). Novamente, todos eles eram ignorantes da ressurreição de Cristo, até que certas mulheres que primeiro o viram depois de ele ter ressuscitado, lhes contaram: e eles por experiência na pessoa de Cristo aprenderam a verdade. Em terceiro lugar, eles eram ignorantes da ascensão: pois sonhavam com um reino terreno, no exato momento em que ele estava prestes a ascender: dizendo: “Restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?” (Atos 1:6). E após a ascensão de Cristo, Pedro nada sabia da derrubada da parede de separação entre os judeus e os gentios, até que Deus o tivesse ensinado melhor numa visão (Atos 10:14).

E sem dúvida, temos exemplos comuns desta fé implícita em diversas pessoas entre nós. Pois existem alguns que são lentos e têm dificuldade tanto de compreensão quanto de memória, e com isso não fazem tais progressos em conhecimento como muitos outros fazem: e contudo, por boa afeição e consciência em suas ações, tanto quanto conhecem, não ficam aquém de ninguém; tendo ademais um cuidado contínuo de crescer no conhecimento e de andar em obediência de acordo com o que conhecem. E tais pessoas, embora sejam ignorantes em muitas coisas, contudo têm uma medida de fé verdadeira — e aquilo que falta no conhecimento é suprido na afeição: e em alguns aspectos eles devem ser preferidos a muitos que têm a língua solta e o cérebro nadando em conhecimento. A este respeito, Melâncton disse bem:

“Devemos reconhecer a grande misericórdia de Deus, que faz diferença entre pecados de ignorância e aqueles que são cometidos propositadamente; e perdoa múltiplas ignorâncias àqueles que conhecem apenas o fundamento e são ensináveis; como se pode ver pelos Apóstolos, nos quais havia muita falta de compreensão antes da ressurreição de Cristo. Mas, como foi dito, ele exige que sejamos ensináveis, e não quer que sejamos endurecidos em nossa preguiça e lentidão. Como é dito no Salmo 1, ‘ele medita na sua lei de dia e de noite’.”

A Fé Implícita: No Que Diz Respeito à Apreensão.

O segundo tipo de fé implícita é em relação à Apreensão; quando o homem não pode dizer distintamente e com certeza: “Eu creio no perdão dos meus pecados”, mas: “Eu desejo sinceramente crer no perdão de todos eles: e desejo arrepender-me”. Este caso ocorre com muitos dos filhos de Deus, quando são tocados na consciência por seus pecados. Mas onde os homens estão descontentes consigo mesmos por suas ofensas, e ademais desejam constantemente de coração crer, e ser reconciliados com Deus; ali há fé e muitas outras graças de Deus dobradas (involutas): como no botão pequeno e tenro está dobrada (involuta) a folha, a flor e o fruto. Pois, embora um desejo de se arrepender e de crer não seja fé e arrependimento em natureza, contudo na aceitação de Deus ele o é, aceitando Deus a vontade pelo feito (Isa. 42:3). Cristo não apagará o pavio que fumega, o qual, por enquanto e devido à fraqueza, não dá nem luz nem calor. Cristo diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: porque eles serão fartos” (Mat. 5:6), onde, por pessoas que têm fome e sede, entendem-se todas aquelas que sentem com pesar a sua própria falta de justiça e, com isso, desejam ser justificadas e santificadas (Rom. 8:26). Deus ouve e atenta até para os gemidos e suspiros de seus servos: sim, embora sejam indizíveis pelo fato de serem muitas vezes pequenos, fracos e confusos; contudo Deus tem respeito por eles, porque são a obra do Seu próprio Espírito. Assim é que, quando vemos que em um coração tocado desejando crer, há uma fé dobrada (involuta). E esta é a fé que muitos dos verdadeiros servos de Deus têm: e a nossa salvação baseia-se não tanto em apreendermos a Cristo, mas no fato de Cristo nos compreender; e portanto Paulo diz: “ele prossegue”, ou seja, em direção à perfeição, “para ver se pode compreender aquilo pelo qual também foi compreendido por Cristo” (Fil. 3:12).

Ora, se alguém disser que sem uma fé viva em Cristo ninguém pode ser salvo; eu respondo que Deus aceita o desejo de crer como fé viva, no tempo de tentação, e no tempo de nossa primeira conversão, como eu disse. Imagine o caso: um homem que ainda nunca se arrependeu, cai em alguma doença grave, e então começa a ser tocado na consciência pelos seus pecados, e a ser verdadeiramente humilhado: logo após ele é exortado a crer em sua própria reconciliação com Deus em Cristo, e no perdão dos seus próprios pecados. E, ao ser exortado, ele esforça-se, de acordo com a medida da graça recebida, para crer; contudo, após muito lutar, não consegue convencer-se de que crê distinta e certamente no perdão dos seus próprios pecados: só isto ele pode dizer: que deseja de coração crer: isto ele deseja acima de todas as coisas no mundo: e ele estima todas as coisas como esterco por Cristo: e assim ele morre. Eu pergunto agora: o que diremos dele? Certamente, não podemos dizer nada, senão que ele morreu como um filho de Deus, e é indubitavelmente salvo. Pois por mais feliz que fosse se os homens pudessem chegar àquela plenitude de fé que estava em Abraão, e em muitos servos de Deus: contudo certo é, que Deus em vários casos aceita este desejo de crer como a verdadeira fé de fato. E veja que, assim como é na natureza, assim é na graça: na natureza alguns morrem quando são crianças, alguns na velhice, e alguns em plena força, e contudo todos morrem como homens: assim também, alguns morrem bebês em Cristo, alguns de fé mais perfeita: e contudo o mais fraco, tendo as sementes da graça, é o filho de Deus: e a fé na sua infância é fé. Todo este tempo, deve ser lembrado que eu não digo que há uma fé verdadeira sem qualquer apreensão, mas sim sem uma apreensão Distinta por algum espaço de tempo: pois este mesmo desejo de, pela fé, apreender a Cristo e os seus méritos, é um tipo de apreensão. E assim vemos os tipos de fé implícita ou dobrada (involuta).

Esta doutrina deve ser aprendida por duas causas:

  • Primeiro de tudo, ela serve para retificar as consciências dos fracos, para que não sejam enganados quanto ao seu estado. Pois se pensarmos que nenhuma fé pode salvar, a não ser uma plena persuasão, tal qual era a fé de Abraão, muitos que verdadeiramente levam o nome de Cristo devem ser excluídos do rol dos filhos de Deus. Devemos, portanto, saber que há um crescimento na graça, assim como na natureza: e há diferenças e graus da fé verdadeira, e a menor de todas elas é esta fé dobrada (involuta). Esta, em suma, é a doutrina do mestre Calvino: que, quando começamos pela fé a conhecer um pouco, e temos um desejo de aprender mais, isto pode ser chamado de uma fé não expressa.

  • Em segundo lugar, este ponto de doutrina serve para retificar e em parte expor vários catecismos, na medida em que parecem propor a fé aos homens em um alcance tão alto, que poucos podem atingi-lo: definindo-a como sendo uma persuasão certa e plena do amor e do favor de Deus em Cristo: ao passo que, embora toda fé seja, por sua natureza, uma persuasão certa, contudo apenas a fé forte é a persuasão plena. Portanto, a fé não deve ser definida apenas em termos gerais, mas também os graus e medidas da mesma devem ser expostos, para que os fracos, para seu conforto, possam ser verdadeiramente informados do seu estado.

E, embora ensinemos que há um tipo de fé implícita, que é o começo da fé verdadeira e viva: contudo, ninguém deve com isso arranjar uma ocasião para se contentar com ela, mas deve trabalhar para aumentar e avançar de fé em fé: e assim, de fato, fará todo aquele que tiver quaisquer inícios de fé verdadeira, por menores que sejam. E aquele que pensa que tem um desejo de crer, e se contenta com isso: não tem, de fato, nenhum desejo verdadeiro de crer.

A Diferença entre Roma e a Verdadeira Religião.

Os pilares da Igreja Românica estabelecem este fundamento: que a fé, na sua própria natureza, não é um conhecimento de coisas a serem cridas: mas um assentimento reverente a elas, quer sejam conhecidas ou desconhecidas. Com base nisto eles constroem: que se um homem conhecer alguns pontos necessários da religião, como a doutrina da divindade, da trindade, da encarnação de Cristo, e da nossa redenção, etc. é desnecessário conhecer o restante por um conhecimento particular ou distinto, e basta-lhe dar o seu consentimento à igreja e crer como creem os pastores. Eis um edifício em ruínas sobre um alicerce podre! Pois a fé contém um conhecimento das coisas que devem ser cridas, e o conhecimento é da natureza da fé: e nada é crido que não seja conhecido. Isa. 53:11. “O conhecimento do meu servo justo, justificará a muitos”, e João 17:2. “A vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. Nestes lugares, por conhecimento entende-se a fé baseada no conhecimento, pela qual conhecemos e temos a certeza de que Cristo e seus benefícios nos pertencem.

Em segundo lugar, este tipo de assentimento é a mãe da ignorância. Pois, quando os homens forem ensinados que em vários pontos da religião eles podem crer como a Igreja crê, de que o estudo das Escrituras não é exigido deles: sim, que para o seu próprio bem eles podem ser impedidos de lê-las, contanto que conheçam algumas coisas principais contidas nos artigos de fé, que os crentes comuns não estão obrigados a crer expressamente em todos os artigos do Credo dos Apóstolos: que lhes basta crer nos artigos por uma fé implícita: ao crer como a Igreja crê, poucos ou nenhum terão o cuidado de progredir no conhecimento. E, contudo, o mandamento de Deus é que devemos crescer no conhecimento e que a sua palavra deve habitar abundantemente em nós (Col. 3:16).

Novamente, os papistas dizem que a devoção dos ignorantes é frequentemente um serviço mais bem aceito do que aquele que é feito com base no conhecimento. “Tais”, dizem eles, “que oram em latim, oram com tão grande consolação de espírito, com tão pouco tédio, com tão grande devoção e afeição, e frequentemente mais do que o outro, e sempre mais do que qualquer cismático ou herege no seu próprio idioma”. Para concluir, eles ensinam que alguns artigos de fé são cridos geralmente por toda a Igreja apenas por uma fé simples ou implícita, os quais depois, pela autoridade de um Concílio Geral, são propostos para serem cridos pela Igreja através de fé expressa. Roffensis, contra Lutero, dá um exemplo disso, quando confessa que o Purgatório era pouco conhecido no início, mas foi dado a conhecer em parte pelas Escrituras e em parte por revelação no decorrer do tempo. Esta fé implícita concernente a artigos de religião nós a rejeitamos; defendendo que todas as coisas concernentes à fé e aos costumes necessárias à salvação, estão claramente expressas nas Escrituras e devem ser cridas de acordo com isso.

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#16 – Sobre A Intercessão Dos Santos

Da Intercessão dos Santos

O nosso consenso com Roma

O nosso consenso com eles eu estabelecerei em duas conclusões.

Conclusão I. Os santos falecidos oram a Deus, rendendo graças a ele por sua própria redenção, e pela redenção de toda a Igreja de Deus sobre a terra, Apocalipse 5:8. Os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do cordeiro —, v. 9. e cantavam um novo cântico: Digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos: porque foste morto e nos redimiste para Deus —. v. 13. E todas as criaturas que estão no céu —, ouvi dizer: Louvor e honra e glória e poder sejam àquele que está assentado sobre o trono e ao Cordeiro para todo o sempre.

Conclusão II. Os santos falecidos oram de forma geral pelo estado de toda a Igreja, Apocalipse 6:9. E vi debaixo do Altar, as almas daqueles que foram mortos por causa da palavra de Deus e ELES CLAMAVAM: Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro! não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Pelo que vemos que eles desejam um livramento final da Igreja, e a destruição dos seus inimigos; para que eles mesmos com todo o povo de Deus possam ser avançados à plenitude da glória em corpo e alma. Sim, diz-se que as criaturas mudas, Romanos 8:23, gemem e suspiram, esperando a adoção, a saber, a redenção dos nossos corpos: muito mais os Santos no céu desejam o mesmo. E até aqui nós consentimos.

II. A Dissidência ou Diferença com a Igreja de Roma.

Eles defendem e ensinam que os Santos no céu, como a Virgem Maria, Pedro, Paulo, etc., fazem intercessão a Deus por homens em particular, de acordo com as suas várias necessidades: e que, tendo recebido as orações de homens em particular, eles as apresentam a Deus. Mas esta doutrina nós renunciamos categoricamente com base nestes fundamentos e razões.

Razão I. Isaías 63:16. A igreja diz a Deus: sem dúvida tu és nosso pai, ainda que ABRAÃO NOS IGNORE, e Israel NÃO NOS CONHEÇA. Ora, se Abraão não conhecia a sua posteridade: nem Maria, nem Pedro, nem qualquer outro dos Santos falecidos nos conhecem e ao nosso estado: e consequentemente eles não podem fazer nenhuma intercessão particular por nós. Se disserem que Abraão e Jacó estavam então no Limbo, o qual eles querem que seja uma parte do inferno: que alegria poderia Lázaro ter no seio de Abraão, Lucas 16:25, e com que consolo poderia Jacó dizer em seu leito de morte: Ó Senhor, tenho esperado pela tua salvação. Gênesis 46:18.

Razão II. 2 Reis 22:20. A profetisa Hulda diz a Josias que ele deve ser reunido a seus pais, e colocado em sua sepultura em paz, para que seus olhos não vejam todo o mal que Deus traria sobre este lugar. Portanto, os Santos falecidos não veem o estado da Igreja na terra, muito menos conhecem os pensamentos e orações dos homens. Esta conclusão Agostinho confirma amplamente.

Razão III. Nenhuma criatura, Santo ou anjo pode ser um mediador para nós junto a Deus, salvo Cristo somente, que é de fato o único Advogado de sua Igreja. Pois em um mediador verdadeiro e suficiente deve haver três propriedades.

  • Primeiro de tudo, a palavra de Deus deve revelá-lo e propô-lo à Igreja, para que possamos em consciência estar assegurados de que, orando a ele e a Deus em seu nome, seremos ouvidos. Ora, não há nenhuma escritura que mencione Santos ou Anjos como mediadores em nosso favor, salvo Cristo somente.

  • Segundo, um mediador deve ser perfeitamente justo, de modo que nenhum pecado seja achado nele de forma alguma, 1 João 2:1. Se alguém pecar, temos um advogado para com o pai, Jesus Cristo, O JUSTO. Ora, os Santos no céu, por mais que sejam totalmente santificados por Cristo, contudo em si mesmos eles foram concebidos e nasceram em pecado: e portanto devem necessariamente estar eternamente diante de Deus pela mediação e mérito de um outro.

  • Terceiro, um mediador deve ser um propiciador, isto é, trazer algo a Deus que possa apaziguar e satisfazer a ira e a justiça de Deus por nossos pecados: portanto João acrescenta: e ele é a PROPICIAÇÃO pelos nossos pecados. Mas nem Santo nem Anjo pode satisfazer pelo menor de nossos pecados: Cristo somente é a propiciação por todos eles. A Virgem Maria e o restante dos Santos, sendo pecadores, não podiam satisfazer nem mesmo por si próprios.

Razão IV. O julgamento da igreja antiga.

  • Agostinho: Todos os homens cristãos encomendam-se uns aos outros em suas orações a Deus. E aquele que ORA POR TODOS, e por quem NINGUÉM ORA, este é aquele um e verdadeiro mediador.

  • E: Isto diz o teu Salvador, não tens PARA ONDE ir senão a mim, não tens NENHUM CAMINHO a seguir SENÃO POR MIM.

  • Crisóstomo: Não tens NECESSIDADE DE PATRONOS para com Deus, ou de muito discurso para que devas adular a outros: mas, ainda que estejas sozinho e te falte um patrono, e por ti mesmo ores a Deus, obterás o teu desejo.

  • E sobre o dito de João: Se alguém pecar, etc. Tuas orações não têm efeito a menos que sejam tais que O SENHOR ENCOMENDE a teu Pai.

  • E Agostinho, no mesmo lugar, tem estas palavras: Ele, sendo tal homem, não disse: tendes um Advogado, mas: se alguém pecar, nós temos: ele não disse vós tendes, nem disse ele, VÓS TENDES A MIM.

III. Objeções dos Papistas Respondidas.

Objeção I. Apocalipse 5:8, 9. Os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do cordeiro, tendo cada um harpas e taças de ouro, cheias de incenso que são as orações dos Santos. Daí os papistas concluem que os Santos no céu recebem as orações dos homens na terra e as oferecem ao Pai. Resposta. Ali, por orações dos Santos, entendem-se as suas próprias orações, nas quais cantam louvores a Deus e ao Cordeiro, como os versos seguintes declaram claramente. E estas orações também são apresentadas a Deus somente pela mão do anjo, que é o próprio Cristo.

Objeção II. Lucas 16:27. Dives (O rico) no inferno ora por seus irmãos sobre a terra, muito mais os Santos no céu oram por nós. Resposta. De uma parábola nada pode ser concluído, senão aquilo que é conforme à intenção e ao escopo da mesma: pois, pela mesma razão, poderia muito bem se concluir que a alma do rico, estando no inferno, tinha uma língua. Novamente, se fosse verdade o que eles concluem, poderíamos concluir também que os ímpios no inferno têm compaixão e amor por seus irmãos na terra, e um zelo pela glória de Deus: sendo tudo isso falso.

Objeção III. Os anjos no céu conhecem o estado de todo homem: eles sabem quando qualquer pecador se arrepende e se alegram com isso e oram por homens em particular: portanto, os Santos no céu fazem o mesmo, pois eles são iguais aos anjos bons, Luc. 20:36. Resposta. A passagem em Lucas deve ser entendida sobre o estado dos homens santos no dia do último juízo, como aparece em Mat. 22:30, onde se diz que os servos de Deus na ressurreição são como os anjos no céu. Segundo, eles são como os anjos não em ofício e ministério, pelo qual eles são espíritos ministradores para o bem dos homens: mas eles são como eles em glória.

Em segundo lugar, discordamos dos papistas porque eles não se contentam em dizer que os santos falecidos oram por nós em particular; mas eles acrescentam ainda que eles fazem intercessão por nós através de seus méritos no céu. Ora, os jesuítas negam isto, mas ouçam Lombardo: Penso (diz ele, falando de alguém que é de bondade mediana) que ele, como que passando pelo fogo, será salvo pelos MÉRITOS e intercessões da Igreja celestial; a qual faz sempre intercessão pelos fiéis por pedido e mérito, até que Cristo seja completo em seus membros. E o Catecismo Romano diz o mesmo: Os Santos devem ser tanto mais adorados e invocados; porque eles fazem orações diariamente pela salvação dos homens: e Deus, por mérito e favor deles, nos concede muitos benefícios.

Nós não negamos que os homens sobre a terra tenham ajuda e benefício pela fé e piedade que os Santos falecidos demonstraram, quando estavam nesta vida. Pois Deus usa de misericórdia para com aqueles que guardam os seus mandamentos até mil gerações. E Agostinho diz: foi bom para os judeus que eles tenham sido amados por Moisés, a quem Deus amou. Mas nós negamos totalmente que sejamos ajudados por méritos de Santos, quer vivos quer falecidos. Pois os Santos na glória receberam a recompensa completa de todos os seus méritos; se é que podiam merecer: e, portanto, não há nada mais que eles possam merecer.

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#15 – Sobre a Adoração e Invocação Dos Santos

Da Adoração aos Santos, Especialmente da Invocação

I. Nosso Consenso

Conclusão 1. Os verdadeiros santos de Deus — como profetas, apóstolos e mártires, e outros semelhantes — devem ser adorados e honrados, e isso [de] três maneiras:

  1. Mantendo a memória deles de maneira piedosa. Assim, a virgem Maria — como uma profetisa — prediz que “todas as nações a chamarão bem-aventurada” (Lucas 1:48). Quando uma certa mulher derramou um vaso de unguento sobre a cabeça de Cristo, Ele diz: “este feito será falado em memória dela, onde quer que este evangelho seja pregado em todo o mundo” (Marcos 14:9). Este dever também foi praticado por Davi para com Moisés, Arão, Fineias e o restante que são elogiados (Salmos 105 e 106), e pelo autor da epístola aos Hebreus sobre os patriarcas e os profetas — e muitos outros que se destacaram na fé nos tempos do Antigo e do Novo Testamento.

  2. Eles devem ser honrados rendendo graças a Deus por eles, e pelos benefícios que Deus concedeu por meio deles à Sua igreja. Assim Paulo diz que, quando as igrejas ouviram sobre a sua conversão, elas “glorificaram a Deus por ele”, ou “nele” (Gál. 1:23). E o mesmo deve ser feito pelos santos falecidos.

  3. Eles devem ser honrados por uma imitação da sua fé, humildade, mansidão, arrependimento, o temor de Deus, e todas as boas virtudes nas quais eles se destacaram. Por esta causa, os exemplos de homens piedosos no Antigo e no Novo Testamento são chamados de uma “nuvem de testemunhas” por alusão. Pois assim como a nuvem guiou os israelitas através do deserto para a terra de Canaã, assim os fiéis agora devem ser guiados para a Canaã celestial pelos exemplos de homens bons que creram em Deus antes de nós e andaram no caminho reto para a vida eterna.

Conclusão 2. Novamente, suas verdadeiras relíquias, isto é, suas virtudes e bons exemplos deixados a toda a posteridade para serem seguidos, nós guardamos e respeitamos com a devida reverência. Sim, se qualquer homem puder nos mostrar a relíquia corporal de qualquer santo verdadeiro e provar que assim o é, embora não a adoremos, contudo não a desprezaremos, mas a guardaremos como um monumento, se isso puder ser feito convenientemente sem ofensa. E até aqui consentimos com a Igreja de Roma. Mais além não devemos ir.

II. A Dissidência

Nossa diferença baseia-se na maneira de adorar os santos. Os papistas fazem dois graus de adoração religiosa. O mais alto eles chamam de latria, pela qual o próprio Deus é adorado, e somente Ele. O segundo, inferior ao primeiro, é chamado de dulia, pelo qual os santos e anjos que estão no favor especial de Deus, e glorificados com glória eterna no céu, são adorados. Esta adoração eles colocam na adoração exterior, no dobrar do joelho, e no curvar do corpo a eles estando no céu: na invocação pela qual os chamam; na dedicação de igrejas e casas de religião a eles; em sábados e dias festivos; por último, em peregrinações às suas relíquias e imagens. Nós semelhantemente distinguimos a adoração ou culto, pois é religioso ou civil. A adoração religiosa é aquela que é feita Àquele que é o Senhor de todas as coisas, o esquadrinhador e provador do coração, onipotente, presente em todo lugar, capaz de ouvir e ajudar aqueles que O invocam em todo lugar, o Autor e primeira causa de toda coisa boa; e isso simplesmente por Si mesmo porque Ele é a própria bondade absoluta. E esta adoração é devida somente a Deus, sendo também ordenada no primeiro e segundo mandamentos da primeira tábua. A adoração civil é a honra feita aos homens colocados acima de nós pelo próprio Deus, seja em respeito aos seus excelentes dons ou em respeito aos seus ofícios e autoridade pelos quais governam outros. O fim correto desta adoração é testemunhar e declarar que reverenciamos os dons de Deus e aquele poder que Ele colocou naqueles que são Seus instrumentos. E este tipo de adoração é ordenado apenas na segunda tábua e no primeiro mandamento dela, “Honra a teu pai e a tua mãe” (Êx. 20:12). Baseado nesta distinção podemos julgar qual honra é devida a cada um. Honra deve ser dada a Deus e a quem Ele ordena. Ele ordena que os inferiores devam honrar ou adorar (reverenciar) os seus superiores. Portanto, as criaturas irracionais, e entre as demais as imagens, não devem ser adoradas — nem com adoração civil nem religiosa — sendo de fato muito mais vis do que o próprio homem é. Novamente, os espíritos imundos, os inimigos de Deus, não devem ser adorados; sim, honrá-los de qualquer forma é desonrar a Deus. Os anjos bons, porque excedem os homens tanto em natureza quanto em dons, quando apareciam eram legitimamente honrados; contudo de tal forma, que quando a menor significação de honra que era própria a Deus lhes foi dada, eles a recusaram. E porque eles não aparecem agora como nos tempos passados, nem mesmo adoração civil em qualquer gesto corporal deve ser feita a eles. Por último, os governadores e magistrados têm a adoração civil como algo devido a eles, e não pode ser omitida sem ofensa. Assim, Abraão adorou (reverenciou) os heteus [Gênesis 23] e José os seus irmãos [Gênesis 50]. Para ir direto ao ponto, com base na distinção anterior, negamos contra os papistas que qualquer adoração civil no dobrar do joelho ou prostração do corpo deva ser dada aos santos — estando eles ausentes de nós — muito menos qualquer adoração religiosa, como nomeadamente a invocação significada por qualquer adoração corporal. Pois é a própria honra do próprio Deus; que eles a chamem de latria, ou dulia, ou pelo nome que quiserem.

Nossas Razões

Razão 1. Toda verdadeira invocação e oração feita de acordo com a vontade de Deus deve ter um duplo fundamento: um mandamento e uma promessa. Um mandamento, para nos mover a orar; e uma promessa, para nos assegurar de que seremos ouvidos. Pois toda e qualquer oração deve ser feita com fé; e sem um mandamento ou promessa, não há fé. Sobre este fundamento infalível, eu concluo que não podemos orar aos santos falecidos. Pois na Escritura não há nenhuma palavra, quer nos ordenando a orar a eles, quer nos assegurando que seremos ouvidos quando orarmos. Não, a nós é ordenado apenas invocar a Deus: “A ele só servirás” (Mat. 4:10). E “como invocarão aquele em quem não creram?” (Rom. 10:14). E não temos nenhuma promessa de sermos ouvidos, senão por causa de Cristo. Portanto, orações feitas aos santos falecidos são ilícitas. A resposta que é dada é que “A invocação dos santos é garantida por milagres e revelações, os quais são correspondentes a mandamentos e promessas.” Resposta. Mas os milagres e revelações tiveram um fim antes que este tipo de invocação tomasse qualquer lugar na igreja de Deus — e isso foi cerca de trezentos anos depois de Cristo. Novamente, julgar qualquer ponto de doutrina por milagres é enganoso a menos que três coisas concorram: a primeira é a doutrina da fé e da piedade a ser confirmada; a segunda é a oração a Deus, para que algo possa ser feito para a ratificação da referida doutrina; a terceira é a edificação manifesta da igreja pelos dois anteriores. Onde qualquer um destes três estiver faltando, os milagres podem ser suspeitos, porque de outra forma falsos profetas têm seus milagres para provar os homens se eles se apegarão a Deus ou não [Deut. 13:1, 3]. Novamente, milagres não são feitos — ou a serem feitos — para aqueles que creem, mas para os infiéis que não creem. Como Paulo diz: “As línguas são um sinal, não para os que creem, mas para os descrentes” (1 Cor. 14:22). E com isto concordam Crisóstomo, Ambrósio e Isidoro, que diz: “Eis que um sinal não é necessário aos crentes que já creram, mas aos infiéis, para que possam ser convertidos.” Por último, a nossa fé deve ser confirmada, não por revelação e aparições de homens mortos, mas pelos escritos dos apóstolos e profetas [Lucas 16:29].

Razão 2. Orar aos santos falecidos — dobrar o joelho a eles enquanto estão no céu — é atribuir a eles aquilo que é próprio do próprio Deus: a saber, conhecer o coração com os desejos interiores e movimentos do mesmo, e conhecer as falas e os comportamentos de todos os homens em todos os lugares da terra em todos os tempos. Os papistas respondem que os santos no céu veem e ouvem todas as coisas na terra não por si mesmos (pois isso seria fazê-los deuses), mas em Deus, e no espelho da Trindade, no qual eles veem as orações dos homens reveladas a eles. Eu respondo, primeiro, que os santos ainda são feitos mais do que criaturas porque se diz que eles conhecem os pensamentos e todas as ações de todos os homens em todos os tempos, o que nenhum poder criado pode bem compreender de uma só vez. Segundo, eu respondo que este espelho, no qual se diz que todas as coisas são vistas, é apenas uma invenção do cérebro humano, e eu o provo assim. Os próprios anjos, que veem mais fundo em Deus do que os homens podem fazer, nunca souberam de todas as coisas em Deus, o que confirmo desta maneira: No templo, sob a lei, sobre a arca, foram colocados dois querubins, significando os anjos bons de Deus. E eles olhavam para baixo, para o propiciatório cobrindo a arca, o qual era uma figura de Cristo. E o seu olhar para baixo figurava o seu desejo de ver dentro do mistério da encarnação de Cristo e da nossa redenção por Ele; como Pedro aludindo, sem dúvida, a este tipo no Antigo Testamento diz: “Para as quais coisas os anjos anelam olhar” (1 Pedro 1:12). E Paulo diz: “A multiforme sabedoria de Deus é revelada pela igreja aos principados e potestades nos lugares celestiais” (Efés. 3:10), isto é, aos anjos. Mas como, e por quais meios? Pela igreja, e isso de duas maneiras: Primeiro, pela igreja, como por um exemplo no qual os anjos viram a infinita sabedoria e misericórdia de Deus na vocação dos gentios. Segundo, pela igreja, conforme ela foi fundada e honrada pela pregação dos apóstolos. Pois parece que o ministério apostólico no Novo Testamento revelou coisas relativas a Cristo que os anjos nunca souberam antes daquele tempo. Assim, Crisóstomo, por ocasião deste texto de Paulo, diz que “Os anjos aprenderam alguma coisa pela pregação de João Batista.” Novamente, Cristo diz que “eles não sabem a hora do último juízo” (Mat. 24:36). Muito menos os santos conhecem todas as coisas em Deus. E daí é que é dito que eles estão debaixo do altar onde clamam: “Até quando, Senhor, santo e verdadeiro! Não vingarás o nosso sangue?” (Apoc. 6:10), como sendo ignorantes do dia de sua plena libertação. E os judeus em aflição confessam que Abraão os ignorava e ao seu estado [Isa. 63:16].

Razão 3. Cristo recusou-se até mesmo a dobrar o joelho a Satanás, sob este fundamento, porque estava escrito: “Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Mat. 4:10). Daí foi que Pedro não permitiu que Cornélio sequer se ajoelhasse diante dele, embora Cornélio não pretendesse honrá-lo como Deus. Portanto, nem santo nem anjo deve ser honrado, nem sequer com o dobrar do joelho, se isso carrega a menor significação de honra divina ou religiosa.

Razão 4. O julgamento da igreja antiga. Agostinho: “Nós honramos os santos com caridade e não por servidão; nem erigimos igrejas a eles.” E: “Que não seja religião para nós adorar homens mortos.” E: “Eles devem ser honrados por imitação, e não adorados por religião.” Epifânio: “Nem Tecla, nem qualquer santo deve ser adorado, para que esse antigo erro não nos domine, de modo que deixemos o Deus vivo e adoremos as coisas feitas por Ele.” Novamente: “Que Maria esteja em honra; que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam adorados. Que ninguém adore Maria — quero dizer, nem mulher nem homem.” Novamente: “Maria é bela, santa e honrada, contudo não para adoração.” Quando Juliano objetou aos cristãos que eles adoravam os seus mártires como Deus, Cirilo concede a memória e a honra deles, mas nega a sua adoração. E de invocação ele não faz nenhuma menção de modo algum. Ambrósio sobre Romanos 1: “Acaso há alguém tão louco que dê ao Conde a honra do Rei? — contudo estes homens não se julgam culpados ao dar a honra do nome de Deus a uma criatura e, deixando o Senhor, adoram os seus conservos, como se houvesse algo mais reservado para Deus.”

III. Objeções dos Papistas

Objeção 1. “Que o anjo que me guardou abençoe os teus filhos” (Gên. 48:16). “Aqui”, dizem eles, “há uma oração feita a anjos.” Resposta. Pelo anjo entende-se Cristo, que é chamado o anjo da aliança [Mal. 3:1], e o anjo que guiou Israel no deserto [1 Cor. 10:9 comparado com Êx. 23:20].

Objeção 2. [Êx. 32:13.] “Moisés ora para que Deus respeite o Seu povo, por amor a Abraão, e por Isaque e Israel Seus servos, que não estavam mais vivos.” Resposta. Moisés ora para que Deus seja misericordioso com o povo, não pela intercessão de Abraão, Isaque e Jacó, mas por causa da Sua aliança que Ele havia feito com eles [Salmos 132:10-11]. Novamente, pela doutrina papista, os pais falecidos não conheciam o estado dos homens na terra, nem oravam por eles — porque então eles não estavam no céu, mas no Limbo Patrum (Limbo dos Patriarcas).

Objeção 3. “Um homem vivo faz intercessão a Deus por outro; portanto, muito mais os santos na glória, que estão cheios de amor, oram a Deus por nós.” Resposta. A razão é nula — pois nós temos um mandamento, de que um homem vivo ore por outro, e que deseje que outros orem por nós. Mas não há garantia na Palavra de Deus para desejarmos as orações dos homens falecidos. Segundo, há uma grande diferença entre estas duas coisas: pedir a nosso amigo — quer de boca ou por carta — que ore por nós, e por invocação pedir àqueles que estão ausentes de nós e partiram desta vida que orem por nós. Pois isto é de fato uma adoração, na qual é dado a eles um poder para ouvir e ajudar a todos os que os invocam em qualquer lugar ou momento para sempre — sim, embora eles não estejam presentes no lugar em que são adorados — e consequentemente, a visão do coração, a presença em todos os lugares, e poder infinito para ajudar a todos os que oram a eles, coisas estas que não cabem a criatura alguma senão a Deus somente. Terceiro, quando um homem vivo pede a outro que ore por ele, ele apenas o faz seu companheiro e co-membro na sua oração feita em nome do nosso Mediador, Cristo. Mas quando os homens invocam santos no céu, eles, estando então ausentes, fazem-nos mais do que co-membros, mas sim mediadores entre Cristo e eles.

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#14 – Sobre O Estado De Perfeição

Do Estado de Perfeição

I. Nosso Consenso

O nosso consenso eu estabelecerei em duas conclusões.

Conclusão 1. Todos os verdadeiros crentes têm um estado de verdadeira perfeição nesta vida. “Sede vós perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” (Mat. 5:48). “Noé era homem justo e perfeito em sua época, e andava com Deus” (Gên. 6:9). “Anda em minha presença e sê perfeito” (Gên. 17:1). E diz-se de vários reis de Judá que andaram retamente perante Deus com um coração perfeito, como Davi, Josias, Ezequias, etc. E Paulo considera a si mesmo, com o restante dos fiéis, como perfeito, dizendo: “Todos nós, que somos perfeitos, sintamos isto mesmo” (Fil. 3:15). Ora, esta perfeição tem duas partes: A primeira é a imputação da perfeita obediência de Cristo, que é o fundamento e a fonte de toda e qualquer perfeição nossa. “Por uma só oblação”, isto é, por Sua obediência em Sua morte e paixão, “ele consagrou”, ou aperfeiçoou, “para sempre os que creem” (Heb. 10:14). A segunda parte da perfeição cristã é a sinceridade, ou retidão, consistindo em duas coisas:

  • A primeira é reconhecer a nossa imperfeição e indignidade a respeito de nós mesmos. E logo após, embora Paulo tivesse dito que era perfeito, contudo ele acrescenta ainda que ele “não considerava a si mesmo como tendo alcançado a perfeição — mas esquecia-se das coisas que ficavam para trás e avançava para as que estavam adiante” (Fil. 3:13, 15). Aqui, portanto, deve ser lembrado que a perfeição de que falo pode subsistir com diversas faltas e imperfeições. É dito de Asa que o seu “coração foi perfeito para com Deus todos os seus dias” (1 Reis 15:14), e contudo “ele não tirou os altos” (2 Crôn. 15:17), e estando doente dos pés, “confiou nos médicos e não no Senhor” (2 Crôn. 16:12).

  • Segundo, esta retidão consiste em um propósito, esforço e cuidado constantes de guardar não alguns poucos, mas todos e cada um dos mandamentos da lei de Deus, como Davi diz: “Então não ficaria confundido, quando eu atentar para todos os teus mandamentos” (Salmo 119:6). E este esforço é um fruto da perfeição, na medida em que procede de um homem regenerado. Pois assim como todos os homens, através da queda de Adão, têm em si por natureza as sementes de todo pecado — nenhum excetuado, nem mesmo o pecado contra o Espírito Santo — assim, pela graça da regeneração, através de Cristo, todos os fiéis têm neles, de igual modo, as sementes de todas as virtudes necessárias à salvação. E, diante disso, eles tanto podem quanto se esforçam para render perfeita obediência a Deus de acordo com toda a lei. E eles podem ser chamados de perfeitos, como uma criança é chamada de um homem perfeito — embora lhe falte a perfeição da idade, da estatura e da razão — contudo tem a perfeição das partes, porque tem toda e qualquer parte e faculdade, tanto do corpo quanto da alma, que se exige para ser um homem perfeito.

Conclusão 2. Existem certas obras de supererrogação — isto é, obras tais que não apenas correspondem à lei e, por conseguinte, merecem a vida eterna, mas vão além da lei e merecem mais do que a lei, por si só, pode fazer com que qualquer homem mereça. Mas onde podemos encontrar estas obras? Não na pessoa de qualquer mero homem ou anjo — nem em todos os homens e anjos — mas apenas na Pessoa de Cristo, Deus e homem, cujas obras não apenas correspondem à perfeição da lei, mas vão muito além dela. Pois primeiro, a obediência da Sua vida, considerada isoladamente por si mesma, correspondeu até mesmo ao rigor da lei. E, portanto, os sofrimentos da Sua morte e paixão foram mais do que a lei poderia exigir de Suas mãos, considerando que ela não exige punição Daquele que é cumpridor de todas as coisas nela contidas. Segundo, o próprio rigor da lei exigia obediência apenas daqueles que são meros homens; mas a obediência de Cristo foi a obediência de uma Pessoa que era tanto Deus quanto homem. Terceiro, a lei exige obediência pessoal — isto é, que cada homem cumpra a lei por si mesmo — e não fala de nada mais. Cristo obedeceu à lei por Si mesmo, não porque Ele, por Sua obediência, tenha merecido a Sua própria glória — mas porque Ele deveria ser um sumo sacerdote perfeito e puro, não apenas na natureza, mas também na vida. E como Ele era uma criatura, Ele deveria ser conforme à lei. Ora, a obediência que Cristo realizou não foi apenas para Si mesmo, mas serve também para todos os eleitos. E considerando que era a obediência de Deus, como Paulo significou quando disse: “apascentai a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (Atos 20:28), ela foi suficiente para muitos milhares de mundos. E por essa razão, a lei não exige obediência Daquele que é Deus — esta obediência, portanto, pode verdadeiramente ser chamada de uma obra de supererrogação. Esta nós reconhecemos, e além desta não ousamos reconhecer nenhuma. E até aqui concordamos com a Igreja de Roma na doutrina do estado de perfeição — e mais além não ousamos ir.

II. A Diferença

Os papistas defendem (como ensinam os escritos dos eruditos entre eles) que um homem, estando em estado de graça, pode não apenas guardar todos os mandamentos da lei, e com isso merecer a sua própria salvação, mas também ir além da lei, e fazer obras de supererrogação que a lei não exige — como cumprir o voto de vida celibatária, e o voto de obediência regular, etc. “E por este meio”, dizem eles, “os homens merecem um maior grau de glória do que a lei pode proporcionar”. Da perfeição eles fazem dois tipos: Um eles chamam de perfeição necessária, que é o cumprimento da lei em cada mandamento, por meio da qual a vida eterna é merecida. O segundo é a perfeição proveitosa, quando os homens não apenas fazem as coisas que a lei exige, mas, acima e além disso, eles fazem certos votos e realizam certos outros deveres que a lei não prescreve — pelo cumprimento dos quais eles serão recompensados com uma maior medida de glória do que a lei designa. Isto eles tornam claro por comparação: Dois soldados lutam no campo sob um e o mesmo capitão. Um apenas mantém a sua posição e com isso merece o seu soldo; o outro, ao manter a sua posição, também conquista o estandarte dos inimigos ou realiza alguma outra proeza notável. Ora, este homem — além do seu soldo — merece alguma recompensa maior. “E assim”, dizem eles, “é com todos os verdadeiros Católicos no estado de graça. Aqueles que guardam a lei terão a vida eterna; mas aqueles que fazem mais que a lei, como obras de supererrogação, serão coroados com maior glória”. Esta é a doutrina deles. Mas nós, pelo contrário, ensinamos que, embora devamos nos esforçar por uma perfeição o máximo que pudermos, contudo nenhum homem pode cumprir a lei de Deus nesta vida, muito menos fazer obras de supererrogação. Para a confirmação do que, estas razões podem ser usadas:

Razão 1. Na lei moral, duas coisas são ordenadas. Primeiro, o amor a Deus e ao homem. Segundo, a maneira deste amor. Ora, a maneira de amar a Deus é amá-Lo com todo o nosso coração e força. “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua força, e de todo o teu entendimento, etc.” (Lucas 10:27). Como Bernardo disse, “a medida de amar a Deus é amá-Lo sem medida”, e isso é amá-Lo com a maior perfeição de amor que pode caber a uma criatura. Daí se segue que, em amar a Deus, nenhum homem pode possivelmente fazer mais do que a lei exige. E, portanto, o cumprimento de quaisquer votos que sejam, e todos os deveres semelhantes, fica aquém da intenção ou escopo da lei.

Razão 2. A abrangência da lei é grande e compreende nela mais do que a mente do homem pode conceber à primeira vista; pois cada mandamento tem duas partes, a negativa e a afirmativa. Na negativa, é proibido não apenas o pecado capital nomeado — como homicídio, roubo, adultério, etc. — mas todos os pecados do mesmo tipo com todas as ocasiões e provocações para tal. E na afirmativa é ordenado não apenas as virtudes contrárias — como o amor a Deus, e o amor à honra, vida, castidade, bens e bom nome do nosso próximo — mas o uso de todas as ajudas e meios pelos quais as referidas virtudes possam ser preservadas, promovidas e praticadas. Assim o próprio nosso Salvador Cristo expôs a lei [Mateus 5, 6]. Sobre este claro fundamento eu concluo que todos os deveres pertinentes à vida e aos costumes entram na lista de algum mandamento moral. E que os papistas — fazendo das suas obras de supererrogação meios para promover o amor a Deus e ao homem — devem necessariamente trazê-las para debaixo da abrangência da lei. Debaixo da qual, se estiverem, eles não podem possivelmente ir além da mesma.

Razão 3. “Quando tiverdes feito todas aquelas coisas que vos são ordenadas, somos servos inúteis: fizemos o que era nosso dever fazer” (Lucas 17:10). Os papistas respondem que somos inúteis para Deus, mas não para nós mesmos. Mas esta evasiva deles está fora da própria intenção da passagem. Pois um servo, ao cumprir o seu dever, é inútil até para si mesmo e sequer merece agradecimentos das mãos do seu senhor. Como Cristo diz: “Dá ele graças a esse servo?” (v. 9). Segundo, eles respondem que somos servos inúteis em fazer as coisas ordenadas, contudo quando fazemos coisas prescritas no caminho de conselho, podemos ser úteis a nós mesmos, e merecer por meio disso. Mas esta resposta não se sustenta com a razão. Pois as coisas ordenadas, pelo fato de serem ordenadas, são mais excelentes do que as coisas deixadas à nossa liberdade, porque a vontade e o mandamento de Deus conferem excelência e bondade a elas. Novamente, considera-se que os conselhos sejam mais difíceis do que os mandamentos da lei. E se os homens não podem ser úteis a si mesmos pela obediência aos preceitos morais, que são mais fáceis, muito menos serão capazes de ser úteis a si mesmos pelos conselhos, que são de maior dificuldade.

Razão 4. Se não está na capacidade e no poder do homem guardar a lei, então muito menos ele é capaz de fazer qualquer obra que esteja além e acima de tudo o que a lei exige. Mas nenhum homem é capaz de cumprir a lei, e portanto nenhum homem é capaz de supererrogar. Aqui os papistas negam a proposição: “Pois”, dizem eles, “embora não guardemos a lei, contudo podemos fazer coisas de conselho acima da lei, e desse modo merecer”. Mas, com licença deles, eles falam de forma absurda. Pois, na razão comum, se um homem falha no menor, ele não pode senão falhar no maior. Ora (como eu disse), na doutrina papista, é mais fácil obedecer à lei moral do que cumprir os conselhos de perfeição.

III. Objeções dos Papistas

Objeção 1. O Senhor diz: “Aos eunucos que guardam o seu sábado, e escolhem a coisa que lhe agrada, ele dará um lugar e um nome melhor do que filhos e filhas” (Isa. 56:4). “Ora”, dizem eles, “um eunuco é aquele que vive uma vida celibatária e guarda o voto de castidade, e diante disto diz-se que ele merece uma maior medida de glória.” Resposta. Se as palavras forem bem consideradas, elas não provam nada disso. Pois a honra é prometida aos eunucos, não porque eles fazem e cumprem o voto de vida celibatária, mas porque (como o texto diz) eles observam o sábado do Senhor, e escolhem a coisa que agrada a Deus, e guardam a Sua aliança, a qual é crer na Palavra de Deus e obedecer aos mandamentos da lei moral.

Objeção 2. Cristo diz: “Existem alguns que se fizeram castos por causa do reino dos céus” (Mat. 19:12). Portanto, o voto de vida celibatária é justificável e é uma obra de glória especial no céu. Resposta. O significado deste texto é que alguns, tendo recebido o dom da continência, voluntariamente se contentam com o estado de solteiro para que possam, com mais liberdade e sem distração, promover o bom estado da igreja de Deus ou o reino da graça em si mesmos e nos outros. Isso é tudo o que se pode concluir desta passagem — portanto, não se pode concluir daí o mérito da glória eterna pela vida celibatária.

Objeção 3. Cristo diz ao jovem: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Mat. 19:21). “Portanto”, dizem eles, “um homem, ao abandonar tudo, pode merecer não apenas o céu, mas também um tesouro lá — isto é, uma medida excelente de glória.” Resposta. Este jovem, sendo com toda probabilidade um fariseu dos mais estritos, pensou em merecer a vida eterna pelas obras da lei, como a sua primeira pergunta transmite: “Bom mestre, que farei para ser salvo?” E, portanto, Cristo passa a descobrir a ele a corrupção secreta do seu coração. E por causa disso, as palavras alegadas são um mandamento de provação não comum a todos, mas especial para ele. Mandamento semelhante o Senhor deu a Abraão, dizendo: “Abraão, toma o teu único filho Isaque, e oferece-o sobre a montanha que eu te mostrarei” (Gên. 22:2).

Objeção 4. Paulo diz: “É bom para [todos] ficarem solteiros como ele” (1 Cor. 7:8). E ele diz: “É melhor para as virgens não se casarem” (v. 38). E “isto ele fala por permissão, não por mandamento” (v. 25). Resposta. Aqui a vida celibatária não é preferida de modo absoluto, mas apenas em relação à necessidade presente, porque a igreja estava então sob perseguição; e porque aqueles que vivem uma vida celibatária estão livres das preocupações e distrações do mundo.

Objeção 5. [1 Cor. 9:15, 17, 18.] Paulo pregou o evangelho gratuitamente, e isso foi mais do que ele estava obrigado a fazer — e por assim fazer ele teve uma recompensa. Resposta. Estava geralmente na liberdade de Paulo pregar o evangelho gratuitamente ou não o fazer. Mas em Corinto, sob circunstâncias especiais, ele estava obrigado em consciência a pregá-lo gratuitamente como fez, por causa dos falsos mestres, que de outra forma teriam aproveitado a ocasião para desonrar o seu ministério e teriam impedido a glória de Deus. Ora, era dever de Paulo, por todos os meios, prevenir os obstáculos do evangelho e da glória de Deus — e se ele não tivesse feito assim, ele teria abusado da sua liberdade (v. 18). Portanto, ele não fez mais nesse caso do que a própria lei exigia. Pois uma ação indiferente, ou uma ação na nossa liberdade, deixa de estar na nossa liberdade e torna-se moral no caso de ofensa (escândalo). O que é mais livre e indiferente do que comer carne? Contudo, no caso de ofensa, Paulo disse que ele “não comeria carne enquanto o mundo existisse” (1 Cor. 8:13).