Vida Cristã

A Virtude Que Eu Preciso

Recentemente eu estava ouvindo uma notícia no rádio, onde uma fabricante de automóveis famosa convocava os proprietários de uma modalidade específica de carro para dirigir-se a montadora mais próxima para fazer o ‘recall’ de uma peça do veículo para a segurança dos passageiros. O Recall normalmente acontece quando um fabricante detecta uma falha na fabricação de uma peça, em seguida, eles imediatamente fazem a substituição da peça gratuitamente ao reconhecer esta falha.

Pensando nisso, a Bíblia afirma que também possuímos defeitos de fábrica. Não porque o Fabricante errou no protótipo, mas porque o representante da humanidade cometeu uma falha e gerou seus descendentes a sua própria imagem (Gn 5.3). Chamamos isso de pecado original, todo o ser humano gerado após o pecado cometido pelo representante da humanidade que é Adão, vem com defeito em seu número de série. Não é apenas uma peça corrompida, mas o corpo, os sentimentos e inclusive a vontade do ser humano que está prejudicada pelo pecado oriundo da matriz.

No manual do Fabricante existe uma garantia vitalícia para aqueles que confiam no Criador: todos ficarão são e salvos com seus “veículos” até o fim de sua vida. Mas, os defeitos os acompanharão até o fim. Pense comigo, já que é impossível que possamos reparar todas essas “falhas” no trajeto desta vida, e se o Fabricante realizasse um desejo pessoal nosso de reparo? E se pudéssemos fazer um pedido e, nos desse o direito de fazer apenas uma escolha de reparo para “melhorar” nossa condição? Teríamos que passar um scanner em nossa vida para discernir qual seria o melhor reparo possível já que teríamos o direito de apenas uma escolha.

Então pediríamos o conselho das pessoas mais próximas, e também o conselho dos profissionais para nos ajudar a fazer a escolha certa. Qual seria a “peça” que faria uma diferença vital para que eu tenha uma significante melhoria no trajeto da minha vida? Podemos pensar em algumas virtudes.

Existem algumas virtudes desenvolvidas de conceitos bíblicos que são pessoais e nos fortalecem como pessoa, mas também trazem benefícios para a sociedade. Alguns exemplos são: Amor, Justiça, Coragem, Temperança. Mas e se eu pudesse escolher apenas uma nesse momento, qual eu escolheria?

Existe uma palavra na língua grega chamada de enkrateiaEla foi mencionada algumas vezes na Bíblia pelos apóstolos, mas Paulo parece ter explorado mais este conceito. Afinal, do que se trata? Vamos observar no seguinte texto:

Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível

RA, 1Co 9.25 (grifo do autor).

 

Filosofia Grega

Na antiguidade clássica, eles discutiam bastante sobre a antropologia. Esse conceito estava muito ligado ao uso da razão e da capacidade do homem praticá-la pelo seu esforço, sendo assim, a enkrateia era a capacidade do indivíduo de governar a si mesmo. Também interpretavam como uma virtude de quem não se deixava escravizar pelos prazeres do corpo (comida, bebida, sexo) ou pelas paixões (ira, medo).

Para Sócrates (conforme registrado por Xenofonte), a enkrateia não era apenas uma virtude entre outras, mas “a base de todas as virtudes” (virtutem fundamentum). Sem o domínio próprio, o ser humano seria incapaz de buscar a sabedoria ou a justiça, tornando-se indistinguível de um animal selvagem que apenas reage aos estímulos e cai em armadilhas pelo apetite.

Essas virtudes foram muito debatidas pelos filósofos, e com o passar do tempo, foram ganhando novos significados. Embora se assemelhe muito com a virtude da Temperança (Sophrosyne), não se trata dela, pois, teoricamente, para Aristóteles a temperança se refere a uma pessoa equilibrada cujos desejos já estão em perfeita harmonia com a razão. Essa pessoa não precisa “lutar” contra si mesma para executar esse domínio.

Teologia Paulina

Quando Paulo escreve suas epístolas em grego no século I, ele adota o termo enkrateia, mas subverte a sua mecânica interna. O autodomínio deixa de ser um esforço autônomo do ego e passa a ser uma consequência da habitação divina.

No famoso catálogo das virtudes cristãs, Paulo lista o autodomínio:

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (enkrateia)…”

RA, Gl 5.22-23

O paradoxo teológico aqui é crucial: para a filosofia grega, a enkrateia vinha do eu (a razão governando os impulsos). Para Paulo, o domínio próprio é um fruto do Espírito Santo. É o “eu” sendo governado por Deus para, então, conseguir governar a si mesmo. Não é força de vontade isolada; é dependência espiritual.

Exemplo de Uso da Palavra Enkrateia

O conceito de autodomínio para o apóstolo não estava apenas no campo da ideia ou da razão, mas era uma marca que deveria acompanhar aqueles que nasceram de novo. Quando nos atentarmos para esta palavra e o seu significado, perceberemos que ela fazia parte do conteúdo da mensagem evangélica e Apostólica.Veja:

Dissertando ele (Paulo) acerca da justiça, do domínio próprio (enkrateia) e do Juízo vindouro, ficou Félix amedrontado e disse: Por agora, podes retirar-te, e, quando eu tiver vagar, chamar-te-ei;

RA, At 24.25.

Aqui existe algo interessante: se de um lado o conceito Paulino diz que aqueles que praticam o domínio próprio demonstram o fruto do Espírito e o pertencimento a Cristo (1 Co 6.20), por outro lado, aqueles que não praticam o domínio próprio demonstram que vivem como animais, “servem seu próprio ventre” (Rm 16.18; Fp 3.19), conforme o conceito filosófico secular. Essa palavra tem dois gumes.

Veja que diante de Félix a enkrateia citada menciona o testemunho cristão e prepara o caminho da mensagem do Juízo de Deus, mas para Félix o ímpio, o pavor toma conta de seu coração, pois ele havia roubado a mulher de outro Rei, estava em adultério.

 

Exemplos Práticos

Certo dia no seminário (2017), um professor de Língua Grega gastou alguns poucos minutos abordando a palavra enkrateia e nos alertou em sala de aula:

“…olha, se você tem dificuldades em se controlar diante de algumas situações, se você tem necessidade de ficar retrucando e e falando, não entre no ministério! isso é coisa séria!”

Confesso que ficou uma curiosidade sobre o estudo dessa palavra, e também um ar de indireta, mas eu nunca tinha estudado ela de fato até que agora, 9 anos depois, eu acordo as 4:30 pensando nela.

Após anos de formação, após ter caído no gap entre seminário e igreja, quando olho para trás e me pergunto porque ainda não estou de fato no ministério, ecoa o seguinte som: Enkrateia, enkrateia, enkrateia

Porque não tenho sido um melhor pai e um melhor esposo? Enkrateia, enkrateia, enkrateia

Ou então, porque nós discutimos nas redes sociais por causa de teologia ou de políticos que pouco se importam conosco? Enkrateia…

Porque desejamos ser professores enquanto deveríamos ser alunos? Enkrateia…

Porque temos tanta necessidade em nos justificar quando somos questionados? Enkrateia…

Porque os políticos não se contentam com seu salário e acabam desviando dinheiro alheio? Falta de enkrateia

Porque nosso orgulho se manifesta quando conversamos sobre assuntos que “dominamos”? Falta de domínio próprio

 

Resumo

Existe uma riqueza muito grande em meditar sobre esse assunto, talvez um dia alguém escreva um livro apenas sobre esse tema, mas por hora,  como uma introdução é suficiente para nossa meditação.

Talvez você já tenha maturidade e tenha esse domínio como “base de todas as virtudes“, isso não te exime de buscar as demais virtudes. Ou talvez, você, assim como eu, tenha discernido que precisa do recall dessa peça urgente.

Quando paro para refletir sobre a necessidade do domínio próprio, parece que ela é uma peça de convergência fundamental para a nossa maturidade. Temos uma facilidade muito grande em consumir conteúdo, mas esse conhecimento não tem convergido em uma estrutura sábia e madura que “encorpa” nossa vida. Parece que nossa cabeça está inflada com informações, mas nosso corpo está raquítico e fraco. É como uma pessoa que come e não engorda, o esôfago está inflamado, o estômago não tem exercido bem o seu papel. Parece que entre a boca e o órgão digestivo existisse o espaço da enkrateia, onde converge o alimento sólido em nutrientes para o corpo.

Precisamos do recall da enkrateia urgente!

É por isso que, hipoteticamente, já que o “Fabricante” me deu o direito de escolher apenas uma “peça” para me ajudar a viver nesse mundo e e servir ao próximo, o meu pedido é:

Óh Senhor, dá me enkrateia!

Não deixe que o impulso da minha carne revele que eu vivo apenas para mim,

Não deixe Óh Deus que minhas emoções e o meu orgulho roubem a tua glória,

Não deixe que as minhas reações maculem a imagem do Deus de toda a glória,

Dá me enkrateia Senhor!

Dá me a graça de ser teu servo em minha casa como almejo servir em tua igreja,

Dá me a graça de convergir o conhecimento adquirido em vida prática!

Dá me a graça de me calar quando o meu coração quer gritar,

Dá me a graça de desaparecer para que Cristo possa se manifestar!

Dá nos Senhor da tua graça.

Vida Cristã

O que fazer quando sair do Brasil não é uma opção?

Sair do Brasil pode ser uma alternativa legítima para algumas famílias. Em certos casos, pode até ser uma decisão prudente. Há países com maior estabilidade institucional, mais segurança jurídica, melhor qualidade de vida e ambientes culturais menos hostis àqueles que desejam viver e educar seus filhos segundo convicções morais e religiosas cristãs.

A ilusão de um lugar seguro

Mas é importante entender algo desde o início: deixar o Brasil não é a única resposta possível. E, para muita gente, nem sequer é uma opção realista. Nem todos possuem recursos financeiros, profissão compatível, domínio de outro idioma ou possibilidade concreta de recomeçar em outro país. Além disso, há pais idosos, vínculos familiares, responsabilidades profissionais e raízes profundas que tornam essa mudança extremamente difícil. Tratar a emigração como solução para todos acaba produzindo frustração em muitos e arrogância em alguns.

Mais importante ainda: não existe lugar completamente imune ao avanço contra as liberdades individuais. O problema não é apenas brasileiro. Há uma pressão cultural crescente, em escala global, contra os valores morais cristãos, contra as estruturas familiares estáveis e contra qualquer visão de mundo que se recuse a se submeter integralmente ao espírito totalitário desta época.

As Escrituras já nos alertam que o mundo jaz no maligno, e que nenhuma sociedade humana será plenamente justa antes da consumação de todas as coisas. Em alguns lugares, esse processo de decadência moral está mais avançado. Em outros, ainda há maior espaço para resistência e liberdade. Ainda assim, o avanço de sociedades cada vez mais burocratizadas, centralizadoras e hostis às liberdades históricas tem se tornado um fenômeno amplo, gradual e internacional.

A ideia de que existe “refúgio seguro” em outro país, protegido das tensões religiosas, culturais, políticas e morais do mundo contemporâneo, é em grande parte uma fantasia.

As pessoas foram acostumadas a pensar quase sempre em termos grandiosos, mas sociedades fortes nascem de pequenas fidelidades repetidas ao longo do tempo

Isso não significa que todos os países sejam iguais. Não são. Existem diferenças importantes entre eles, e algumas sociedades ainda preservam melhor certos princípios fundamentais. Mas significa que nenhuma mudança geográfica elimina automaticamente os problemas humanos mais profundos: pecado, orgulho, egoísmo, desordem moral, totalitarismo estatal e rebelião contra Deus.

Quem deposita a esperança apenas na mudança de país corre o risco de trocar uma ilusão por outra. Afinal, crises culturais profundas não desaparecem simplesmente porque atravessamos uma fronteira. Em muitos casos, elas apenas assumem outra forma. Países mais organizados também enfrentam erosão moral, fragmentação social, crise de natalidade, isolamento humano e perda de referências comuns. O cenário muda; a fragilidade humana permanece.

O que ainda está ao nosso alcance

Por isso, quem não pode sair precisa abandonar a fantasia da imigração como solução total e voltar sua atenção ao que ainda está ao seu alcance.

Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis do nosso tempo. As pessoas foram acostumadas a pensar quase sempre em termos grandiosos: grandes soluções, grandes rupturas, grandes salvadores políticos, grandes mudanças instantâneas. Mas a vida real quase nunca é construída assim.

Sociedades fortes nascem de pequenas fidelidades repetidas ao longo do tempo. Trabalhar melhor. Honrar compromissos. Formar a própria família. Educar os filhos com seriedade. Cultivar disciplina. Fortalecer vínculos reais. Construir amizades sólidas. Participar da vida local. Aproximar pessoas que compartilham valores semelhantes. Desenvolver estabilidade emocional, intelectual e espiritual. Crescer na fé no Senhor Jesus Cristo. Cultuar fielmente em uma igreja saudável, ancorada nas Escrituras e na tradição cristã histórica.

Viver na verdade em uma cultura da mentira
Tudo isso parece pequeno diante das crises nacionais. Mas, no longo prazo, é exatamente esse tipo de ação que sustenta uma civilização.

Uma sociedade não desmorona apenas por causa de más decisões políticas. Ela começa a ruir quando as estruturas intermediárias da vida humana – a família, a vizinhança, a igreja, a escola, a confiança mútua, o senso de dever e a responsabilidade pessoal – se enfraquecem. Quando essas estruturas se tornam frágeis, o indivíduo fica isolado. E indivíduos isolados são muito mais fáceis de manipular, controlar e intimidar.

Fortalecer a vida comum, portanto, não é uma fuga da realidade política. É uma das formas mais concretas de resistência moral, cultural e espiritual.

Há pessoas que passam horas discutindo os rumos do país, mas negligenciam aquilo que poderiam construir ao redor de si. Falam constantemente sobre decadência social, mas não conhecem os vizinhos. Criticam a destruição da família, mas não fazem refeições com os filhos. Reclamam da pobreza intelectual do país, mas nunca leem bons livros nem incentivam outros a ler.

Nenhuma sociedade melhora apenas por meio de indignação permanente. Ela melhora quando pessoas comuns assumem responsabilidades comuns diante de Deus.

Nenhuma sociedade se mantém saudável por muito tempo se sua base estiver apodrecida

A reconstrução começa de baixo para cima

Existe uma tentação constante de acreditar que tudo depende apenas das disputas políticas, das eleições ou das decisões tomadas nas esferas mais altas do poder. Essas coisas importam, evidentemente. Mas nenhuma sociedade se mantém saudável por muito tempo se sua base estiver apodrecida.

A reconstrução verdadeira quase sempre começa de baixo para cima. Ela começa dentro de casa, quando pais decidem levar a sério a formação espiritual, moral e intelectual dos filhos. Começa quando famílias abandonam o consumo permanente de superficialidade e reaprendem a conversar, ler, estudar e conviver. Começa quando amigos desenvolvem laços reais, e não apenas relações frágeis mediadas por redes sociais. Começa quando igrejas deixam de funcionar apenas como espaços de entretenimento religioso e voltam a proclamar com fidelidade o evangelho de Jesus Cristo, formando caráter, virtude, responsabilidade e coragem. Começa quando pessoas comuns resolvem viver com dignidade mesmo em ambientes deteriorados.

Nada disso produz resultados imediatos. Não gera manchetes. Não cria sensação instantânea de vitória. Pelo contrário: é um trabalho lento, discreto e muitas vezes ingrato. Mas quase tudo o que possui valor duradouro é construído dessa maneira.

As grandes civilizações do passado não foram sustentadas apenas por governos fortes ou líderes brilhantes. Elas dependeram de famílias estruturadas, comunidades coesas, senso de continuidade cultural e disposição de transmitir valores às próximas gerações.

Quando essas bases desaparecem, o declínio começa, mesmo que ainda exista prosperidade econômica ou aparência de estabilidade. Uma sociedade pode continuar rica e tecnologicamente avançada enquanto se torna espiritualmente vazia, emocionalmente instável e culturalmente fragmentada. E, quando isso acontece, cresce também o desejo por controle, tutela permanente e soluções totalitárias capazes de substituir os vínculos humanos que foram destruídos.

Assim, a reconstrução de uma sociedade livre não depende apenas de eleições ou disputas políticas. Ela depende da existência de famílias fortes, comunidades vivas, igrejas saudáveis, responsabilidade pessoal e vínculos sociais capazes de limitar a concentração de poder e preservar espaços reais de liberdade. Tal reconstrução é sobrevivência cultural. E, para os cristãos, é uma forma de fidelidade em meio a uma geração confusa e instável.

Permanecer exige coragem

Existe, às vezes, uma tendência de tratar quem permanece em seu país de origem como alguém acomodado ou resignado. Mas permanecer também pode exigir coragem.

É preciso coragem para criar filhos com convicções firmes em ambientes hostis. É preciso coragem para preservar princípios quando isso produz isolamento social. É preciso coragem para construir estabilidade em meio à instabilidade. É preciso coragem para continuar trabalhando, ensinando, cultivando vínculos e sustentando responsabilidades quando o ambiente coletivo parece desanimador.

Nem toda resistência assume forma heroica ou espetacular. Muitas vezes ela aparece na perseverança silenciosa de pessoas comuns que se recusam a abandonar aquilo que é verdadeiro, bom e belo. E, no fim, são justamente essas pessoas que impedem uma sociedade de desmoronar completamente.

Toda época de crise produz a tentação da fuga emocional, do cinismo ou do desespero. Algumas pessoas passam a viver apenas consumindo notícias, alimentando medo e indignação contínuos. Outras simplesmente desistem de qualquer responsabilidade coletiva. Mas nenhuma dessas atitudes constrói algo duradouro.

É preciso coragem para continuar trabalhando, ensinando, cultivando vínculos e sustentando responsabilidades quando o ambiente coletivo parece desanimador

A esperança cristã não nasce da negação dos problemas, mas da confiança de que Cristo reina mesmo em meio ao caos da história. Os cristãos não trabalham porque acreditam que construirão o paraíso na terra por seus próprios esforços. Trabalham porque sabem que toda fidelidade ao Senhor produz frutos eternos.

Quando não se pode mudar de país, ainda se pode fortalecer a casa, a igreja, a escola, a vizinhança e a cidade. Ainda se pode criar filhos mais fortes do que o ambiente ao redor. Ainda se pode formar pequenas comunidades de confiança, amizade e ajuda mútua. Ainda se pode viver com responsabilidade, lucidez e esperança. Porque nenhuma reconstrução verdadeira começa em outro lugar.

E, acima de tudo, os cristãos seguem trabalhando, servindo, construindo e perseverando porque sabem que a história não terminará no triunfo da decadência, da tirania ou do caos, obras do anticristo. Ela terminará no total triunfo de Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores.
No fim, todo joelho se dobrará diante dele. Toda soberba humana será julgada. Todo império passará. Todo pecado será julgado. Mas o reino de Cristo permanecerá para sempre. Por isso, mesmo em tempos difíceis, os cristãos continuam confessando com esperança: Jesus Cristo é Senhor.

 

FRANKLIN FERREIRA

Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Bíblia e Teologia pela Universidade Luterana do Brasil, Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e Doutor em Divindade pelo Puritan Reformed Theological Seminary. É reitor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI, nos Estados Unidos, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor de vários livros, entre eles Avivamento para a igreja, Contra a idolatria do Estado, A igreja cristã na história, Pilares da fé, Por amor de Sião, Teologia sistemática (em coautoria com Alan Myatt) e Teologia sistemática (Curso Vida Nova de Teologia Básica), publicados por Edições Vida Nova, e Servos de Deus e O Credo dos Apóstolos, publicados pela Editora Fiel.

Academia

E Esse Papo de Autoridade Espiritual?

Recentemente eu estava no posto de saúde para tomar uma injeção para aliviar as dores de garganta e um irmão de ministério Batista que está passando por alguns momentos conturbados em sua igreja local, me escreveu pedindo que eu gravasse um audio respondendo algumas perguntas. Como eu estava com a garganta inflamada, enquanto eu aguardava o médico me chamar, decidi escrever uma resposta.

Perguntas Feitas

O que você pensa sobre autoridade pastoral? Explane o que pensa.

Ela é impositiva? Eu preciso dizer “sou pastor, me respeite”?

O que seria ser “dominadores” que Pedro advertiu?

A autoridade, conforme Pedro instrui, emana do pastor local? Emana do próprio Cristo?

Qual a autoridade do pastor local sobre o rebanho?

Em que esse pastor é responsável?

Um pastor é responsável direto pela vida dos irmãos? Ao ponto de “se não seguir o que eu digo, esse irmão torna-se rebelde por não se submeter a autoridade de seu pastor local”?

Texto Base

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: 2 pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; 3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. 4 Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.

1Pedro 5.1–4, RA – Grifo do autor, pois nosso interesse está aqui.

Resposta

Não responderei cada pergunta, mas de maneira geral, levando em consideração que o âmago da questão está nessa possível ideia de “autoridade impositiva“, segue minha resposta:

Querido irmão, o conceito de presbítero regente está muito deturpado na igreja, principalmente no meio Batista.

De maneira simples, o presbítero tem a função de governar o rebanho de Cristo. Esse é um conceito que vem do Antigo Testamento na forma do Ancião, Sacerdote, Profeta e Rei.

Lembre-se que esses homens são recipientes da graça de Deus. Recebem dons para liderar o rebanho e também passaram pelo crivo de 1 Tm 3; Tt 1.5-9, etc. Estabelecidos pelos Apóstolos para pastorear a igreja.

Numa igreja séria, deveria ser levado em conta que esses homens não pastoreiam por “constrangimento ou por necessidade”, mas eles “almejam o episcopado” (1 Tm 3.1), e foram chamados por uma igreja local.

Com isso, se configura os critérios estabelecidos para uma ordenação legítima, ou seja, o chamado interno (sabem que Deus os chamou e almejam o episcopado) e o chamado externo (a igreja local reconheceu que Deus o capacitou para tal ofício e o chamou para tal). Esses foram os critérios estabelecidos pelos reformadores.

Agora, uma vez que se tornaram presbíteros do rebanho, 1 Pe 5.1-4 (leia o texto base na parte destacada acima) Pedro está exortando os presbíteros sobre as motivações e o modo correto de governar o rebanho de Cristo.

Paulo parece ter a mesma ideia de Pedro quando diz:

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Ef 4.1–6, RA – grifo do autor.

Até aqui a primeira parte da estrutura da nossa conversa. A responsabilidade pastoral. A vocação para pastorear é real e vem de Deus, os presbíteros docentes e regentes devem governar o rebanho com moderação e intencionalidade. A igreja deve ratificar a importância deles.

Segundo texto base:

Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.

Hebreus 13.17, RA – Grifo do autor

O autor de Hebreus exorta a igreja em como deve olhar para o ofício desses homens. A frase “como quem deve prestar contas”, deve trazer um peso de responsabilidade tanto pra quem lidera, quanto pra quem é liderado.

Esses homens que foram legitimamente ordenados, devem ser vistos como o próprio Cristo governando o rebanho, pois receberam do próprio Cristo os dons para edificação, exortação e consolo da igreja (1 Co 14.3). Logo, é o próprio Cristo que está exercendo o cuidado do rebanho pela instrumentalidade do oficial. Cristo é a cabeça, os oficiais fazem parte dos membros do corpo.

Me parece que o autor de Hebreus tem em mente as palavras do profeta Ezequiel ao mencionar uma possível prestação de contas, veja:

Quando eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.

Ez 3.18, RA – Grifo do autor.

Sendo assim, a possível controvérsia da autoridade pastoral está na ideia de que esses homens estão “acima do rebanho”, como se fosse uma pirâmide hierárquica. Dessa ideia surgem modelos de igreja de “Cobertura Espiritual“, onde há uma prestação de contas, inclusive de aspectos pessoais da vida da ovelha. Um desses modelos de igrejas no Brasil é o chamado MDA (Meu Discipulo Amado) que já foi combatido pela própria Convenção Batista. Mas, parece que a influência desses movimentos entraram nas igrejas mesmo que sem a intencionalidade ou o conhecimento dele. É o mundanismo entrando na igreja.

Veja o que Cristo disse sobre esse tema:

Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. 43 Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; 44 e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. 45 Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Mc 10.42–45, RA – Grifo do autor.

Na verdade, os líderes devem ser vistos pela igreja como “ao lado” do rebanho. Pois em sua humanidade, também são miseráveis e beneficiários da graça de Deus como os demais. Também carecem de orações, encorajamento, ofertas para o desempenho do ofício e saúde.

Cada um tem sua função no corpo conforme Paulo fala em 1 Co 12.12-26. E todo o corpo com suas funções devem cooperar para o crescimento, edificação e cuidado da igreja. Não existe dons superiores nesse sentido, todos tem o mesmo propósito.

Agora, no aspecto do ministério, deveriam se portar/considerar como “abaixo” do rebanho. A ideia de servo apresentada por Cristo é a ideia de escravo, aquele que faz o serviço que ninguém deseja. Foi justamente o que Cristo fez e ensinou ao lavar os pés dos discípulos (Jo 13.1-11), e propriamente o que fez ao ensinar “[que] não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate…“.

Sendo assim, a ideia de “como quem deve prestar contas” contida nos textos acima, é um processo de conduzir o rebanho para “a porta”.

É necessário que sejam estabelecido limites. Algumas vezes “puxam com o cajado”, exortam as ovelhas que estão saindo do rebanho ou do caminho, outras vezes ensinam por onde andar, outras vezes choram juntos a fim de consolar. Éssa foi justamente a essência da mensagem dos profetas no Antigo Testamento e que permanece no Novo Testamento (1 Co 14.3).

Resta observarmos a instrução “obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles“, com isso recai na congregação a responsabilidade de como obediencia e submissão para com os líderes, mas até que ponto? Sobre isso falaremos abaixo.

Até aqui a segunda parte da estrutura da resposta. A igreja precisa reconhecer, responder bem e ter uma alto estima sobre seus líderes. Entretanto, Deus não quer apenas a motivação correta do coração, mas a praxes correta do líder e o dever e responsabilidade do liderado. A prestação de contas é para ambas as partes.

Terceiro Texto Base

“…Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”.

At 5.29, RA.

Terceiro e último ponto, se o pastor estiver indo contra a Palavra, não deve ser obedecido. O princípio está na afirmação de Pedro.

Vale lembrar que, como não há unidade nas igrejas de hoje em dia por não serem confessionais, as igrejas ficam sem identidade e cada uma pensa de uma forma. Recomendo o livro que estou estudando O Imperativo Confessional de Carl R. Trueman – Editora Monergismo.

As vezes as igrejas são pastoreadas por um presbitério em que não existe unanimidade doutrinária em aspectos fundamentais (não digo sobre os aspectos secundários). Em outros momentos são pastoreadas por um homem só, a ideia de “Pastor Títular” onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo“, esses homens estão “acima” do rebanho e sempre que são questionados tratam as ovelhas como rebeldes que não estão obedecendo a “autoridade instituída por Deus“. São governos chamados de episcopais e são questionáveis à luz da Palavra em igrejas congregacionais como sua igreja, ou em outros modelos como os presbiterianos.

Esse tipo de governo não tem base bíblica, porque em todas as vezes vimos que os apóstolos falando sobre o assunto, foi na ideia do estabelecimento de presbíteros nas igrejas,  o ofício sempre está no plural e não no singular (pesquise). É um desleixo doutrinário.

Vejo isso no meio Batista, por exemplo. Uma igreja que perdeu sua identidade por abrir mão dos documentos que protegem o rebanho. A leitura recomendada, trás novamente a importância dos tais em nossos dias.

Sendo assim, acredito que seja possível pensar “fora da caixa” e discordar de assuntos em “como” os pastores estão lidando com a igreja, assuntos eclesiológicos. Nesse sentido somos livres para discordar e acredito que temos a opção de escolha.

Enfim, precisamos nos lembrar que temos a opção de escolher uma igreja para congregar, mas não temos a opção de não congregar em algum lugar “como é costume de alguns” (Hb 10.25).

Dizia um teólogo Luterano:

In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.

Nas coisas essenciais, a unidade; nas não essenciais, a liberdade; em todas as coisas, a caridade.

Peter Meiderlin

Resta você julgar a si mesmo sobre como tem visto esses homens em sua vida, quais as motivações que o levam a discordar. Também em como eles estão lidando com você nesse processo, se tem exercido com temor a vocação do ofício pela instrumentalidade do Bom Pastor.

Terminei um livro nessa semana chamado Os Conflitos no Lar e as Escolhas do Pacificador de Sande e Tom Raabe – Editora Nutra. E me lembro que no final, ao aconselhar o leitores em como saber lidar com as críticas, os autores nos lembram a ponderar pelo filtro da nossa miséria e condição decaída. Fomos justificados por Cristo na condição do pecado original, então sempre que formos criticados, precisamos treinar nosso coração para nos lembrar do que Cristo fez por nós “…sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

No final ele nos encoraja a não ficarmos tentando nos justificar a toda a custa, Cristo já fez isso no madeiro. Precisamos ser pacificadores em toda discordância e agradecidos pela misericórdia de Cristo.

Resumo

O autoritarismo é um pecado. A insubmissão também é um pecado. Promover facções e contendas na igreja é grave.

Existe liberdade para escolhermos onde congregar. Também existe a possibilidade de congregarmos onde a divergências em assuntos secundários.

Faça um bom uso dessa palavra. Fico à disposição!


Se você leu até aqui, deixe sua opinião ou comente: Leitura feita.

Muito obrigado.

Seu Conservo,

Rafael Soletti.

Vida Cristã

Pregação Reformada Experimental

A pregação reformada experimental (ou experiencial) é um estilo de pregação bíblica, profundamente enraizado na tradição Reformada e Puritana, que busca aplicar a verdade da Escritura não apenas à mente, mas também ao coração e à experiência pessoal do ouvinte.

O termo “experimental” vem do latim experimentum, que significa “teste” ou “prova”. No contexto teológico, refere-se à necessidade de a pessoa experimentar as grandes verdades da Palavra de Deus em sua própria vida e testar suas experiências pelo toque da Escritura Sagrada.

É uma pregação que se recusa a ser meramente:

  • Intelectual: Apenas transmitindo conhecimento e doutrina sem mover a alma (luz sem calor).
  • Emocionalista: Apenas buscando reações sentimentais sem base na verdade bíblica (calor sem luz).

Suas Características Principais

1. Doutrinária e Bíblica

Infelizmente em nossos dias os pregadores tem falado apenas de experiências pessoais, falta intencionalidade na pregação. Alguns leêm o texto, mas não se dão ao trabalho de explicar o significado do texto. Não nutrem o rebanho de Cristo com a doutrina Histórico Gramatical. Por isso, os crentes de hoje em dia estão doentes e inseguros sobre sua fé.

A proposta da pregação experimental é sempre ser fiel e sólida na exposição das doutrinas da Bíblia. O sermão é fundamentado na verdade objetiva da Palavra de Deus e na teologia, ou seja, na confessionalidade da igreja local (ex. credos e confissões reformadas).

2. Experiencial

Muitas vezes existe um abismo entre a doutrina bíblica e a relação que ela tem com o nosso dia a dia. É como se a Palavra de Deus ficasse apenas no âmbito do conhecimento e da intelectualidade, mas não descesse para o coração.

Nesse sentido, a pregação experimental busca mostrar como as doutrinas bíblicas se manifestam e devem ser vividas na experiência real. Ela aborda nossas lutas, nossas dúvidas, nossas alegrias,  e as nossas tentações no progresso da vida de fé. Ela deve tratar:

  • Como as coisas andam (a luta contra o pecado e as imperfeições, por exemplo, em Romanos 7).
  • Como as coisas Deveriam andar (o ideal da vida cristã, por exemplo, em Romanos 8).
  • O objetivo final (a esperança e a glória futura).

3. Discriminatória (fazer uma distinção)

Onde a Palavra de Deus é má ministrada, o falso cristão se sente confortável na congregação dos Santos. Como uma anestesia para o inferno, as pessoas não são exortadas e nem é exposta a maldade dos seus corações.

Por isso, a pregação experimental é crucialmente discriminatória, ou seja, ela traça uma linha clara de distinção entre o verdadeiro crente e o descrente, o hipócrita e o convertido. O pregador aplica as marcas da graça (os frutos da fé verdadeira) para que o ouvinte possa examinar sua própria alma e diagnosticar sua condição espiritual perante Deus (por exemplo, 2 Coríntios 13:5). Isso serve para:

  • Consolar o verdadeiro crente.
  • Expor as falsas esperanças do descrente.

4. Aplicativa

Na maioria das vezes os sermões tem sido 95% informações e 5% de aplicações. O sermão não tem sido explorado de uma forma que mostre nossa condição atual, mas apenas em como nós deveríamos estar. Nisso os legalistas são ótimos, em falar como o outro deve andar.

Mas o pregador deve ter como objetivo a glória de Deus, o objetivo dele deve ser em conduzir a igreja de maneira pessoal, para que possam glorificar a Deus. Por isso, a necessidade de mostrar o nosso estado atual e onde deveríamos estar, a fim de que glorifiquemos o nosso Senhor de maneira pessoal e comunitária.

A proposta então é que a aplicação não é um apêndice superficial no final do sermão, mas está tecida em toda a mensagem. Ela mostra ao ouvinte o que fazer com a verdade pregada, como ela deve mudar sua vida, seus afetos e suas ações em todas as áreas da existência (família, igreja, trabalho, etc.).

4. Teocêntrica

Talvez você possa questionar essa abordagem por ser antropocêntrica e não teocêntrica, mas isso não é verdade. Uma vez que ela mira à glória de Deus, sua motivação está correta. Teologia aplicada na vida para a glória de Deus. Como disse Packer:

J.I. Packer: “Quando os puritanos enfatizavam a experiencia da alma, eles não faziam isso para que sua finalidade fosse o homem, mas eles enfatizavam a esperiência espiritual para traçar neles mesmos a obra do Espírito Santo, para que fossem impulsionados ao Senhor Jesus Cristo para dar toda glória a Deus por Sua obra neles”.

Resumo

Como seria brilhante se todas as igrejas enxergassem a beleza que há na relação das Escrituras com o nosso ser.

Por isso, objetivo final dessa pregação é iluminar a mente com a verdade de Deus para aquecer o coração com a glória de Cristo, levando o crente a uma vida de santidade prática e de comunhão íntima com Deus através do Espírito Santo. É um chamado para provar e viver o que a Escritura ensina. Isso é o que os reformadores chamavam de religião vital.

 

Adaptado da mensagem de Joel beeke.

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Rafael Soletti Martin, Relembrando, Revivendo e Rapartindo com a Igreja as verdades de Cristo.

 

Livro

O Livro Perdido | O Cajado da Fé Cristã de Guido De Brès

O Cajado da Fé Cristã de Guido de Brès: De Caderno Pessoal a Antologia Patrística (1555-1565) por Erik A. de Boer
Introdução

Guido de Brès (c. 1520-1567) é mais conhecido como o principal autor da Confissão de Fé, publicada em 1561, traduzida para o holandês em 1562, que também é chamada de “Confessio Belgica” ou “Confissão Belga”. Sua primeira publicação, muito menos conhecida, é uma antologia intitulada O Cajado da Fé Cristã, cuja primeira edição apareceu em 1555. Esta obra é uma compilação de citações das Escrituras e dos pais da igreja, organizada tematicamente. No espaço de não mais que dez anos, esta obra teve pelo menos dezessete edições, todas as quais apareceram durante a vida de Guido de Brès. Se uma tradução para o holandês existiu, o que pode de fato ter sido o caso, ela de qualquer forma não sobreviveu em publicação. Em 1577, o livro foi traduzido para o inglês como The Staffe of Christian Faith (embora nunca tenha sido reimpresso). Após a morte de Guido de Brès, O Cajado foi reimpresso apenas uma vez, em Saumur em 1601. No entanto, a obra pode ser considerada um bestseller em língua francesa, sendo publicada entre 1555 e 1565 em Antuérpia, Genebra, Lyon e Caen. Como tal, foi um manual popular no choque das confissões.

O presente estudo foca na gênese de O Cajado da Fé Cristã, investigando-o em relação à formação teológica do autor da Confissão Belga. A questão da formação teológica de Guido de Brès é ainda mais urgente, pois, como apontou Johan Decavele, a formação de todos os pregadores conhecidos dos Países Baixos do Sul (Holanda) em uma ordem religiosa ou universidade é conhecida, com a única exceção de Guido de Brès. Sua segunda e maior obra, intitulada La racine, source et fondement des Anabaptistes (1565), também testemunha sua maturidade intelectual e posterior orientação teológica em uma disputa que ele manteve com os Anabatistas de sua época, mas não contém referências patrísticas. As cartas de Guido de Brès, que relatam as disputas mantidas na prisão em 1567 e foram publicadas em Procedures tenues (1568), em contraste, testemunham seu conhecimento e manejo de fontes patrísticas. O presente artigo, no entanto, analisará principalmente a primeira obra de Guido de Brès que testemunha seu conhecimento dos pais da igreja.

A conexão suíça

A maioria das biografias relata os fatos básicos do nascimento de Guido de Brès (c. 1520) em Bergen (Mons), nos Países Baixos do Sul, como filho de um pintor de vidros, e de sua fuga para Londres por volta de 1548. Ao retornar ao seu país de nascimento, Guido de Brès se tornou ministro da Palavra em Rijssel (Lille) por volta de 1550. Em 1555 ele publicou o O Cajado da Fé Cristã, antes de viajar para Lausanne e Genebra para estudos adicionais em 1556. Mas o que pode ser dito sobre a educação teológica de Guido de Brès? Existe alguma ligação entre sua obra anterior, O Cajado (que provavelmente foi finalizada em Ghent) e sua subsequente busca por estudos teológicos? Os fatos acima mencionados sobre o paradeiro de Guido de Brès até 1556 são todos encontrados em uma única fonte, a saber, o breve relato biográfico que Jean Crespin deu no livreto Procedures tenues (1568) e mais tarde incorporou em sua Histoire des vrays tesmoins de la verité de l’Evangile (1570). Na ausência de dados adicionais desse período de sua vida, os biógrafos subsequentes de Guido de Brès tenderam a preencher as lacunas, relatando quem mais estava trabalhando nessas cidades quando ele supostamente viveu lá, e quem ele, portanto, pode ter conhecido ou ouvido. Mas existem dados históricos adicionais que possam corroborar o testemunho de Crespin e nos informar sobre a formação teológica de Guido de Brès?

Na longa carta que Guido de Brès escreveu da prisão para seu rebanho em Valenciennes, ele relatou o interrogatório que sofreu em abril de 1567. O bispo de Arras, François Richardot, fez uma declaração de abertura à qual Guido de Brès respondeu da seguinte forma: “Quanto à minha salvação, ouso dizer que estive tão ansioso para aprender quanto qualquer homem. Por essa razão, investiguei as várias seitas e ensinamentos que se encontram no cristianismo, para que pelo menos pudesse entender, viajando de um país para o outro”. Esta declaração em que Guido de Brès menciona suas viagens é, no entanto, um tanto ambígua. Afinal, poderia se referir tanto às contínuas viagens que empreendeu servindo os fiéis nos Países Baixos do Sul, quanto, mais especificamente, à peregrinatio academica na qual ele embarcou pelos territórios alemão e suíço.

A confirmação da conexão suíça de Guido de Brès vem de testemunhos de terceiros. O primeiro é o longo relatório sobre a confiscação de papéis do esconderijo de Guido de Brès em Doornik (Tournai) em 10 de janeiro de 1562. O relatório foi escrito pelos comissários que investigavam o paradeiro de Guido de Brès em nome da governanta, Margarida de Parma. Entre os papéis, notas e livros de Guido de Brès, os oficiais também encontraram várias cartas. A primeira carta, cujo conteúdo é desconhecido, é identificada como sendo do ano de 1556 e escrita por João Calvino. A segunda era de Petrus Dathenus, que se chama ministro da Palavra de Deus dos flamengos em Frankfort, e que se dirige ao referido Guido como “ministro da Palavra de Deus na Holanda”. A próxima linha no relatório dos oficiais à governanta contém a primeira evidência sobre os anos de formação de Guido de Brès: “Também descobrimos que o referido Guido deu início às suas aberrações em Lausanne e em Genebra”. As cartas de João Calvino e Dathenus revelaram esta informação específica? É de qualquer forma o que os investigadores concluíram com base na documentação que confiscaram da moradia de Guido de Brès. Eles também descrevem uma terceira carta no relatório de suas descobertas: “Também outra carta para Jean Crespin do ano de 1559, que lhe solicita o catálogo de mártires que estão entre aqueles que ele sabe serem dignos desse título e honra, já que ele está fazendo um relato tanto em francês quanto em latim”. O impressor de Genebra estava, assim, construindo uma rede para obter fontes confiáveis para seu trabalho sobre o martírio reformado, e pode ter conhecido Guido de Brès em Frankfort durante uma visita à feira do livro de lá. As três cartas confiscadas, portanto, estabelecem uma ligação com Genebra e João Calvino na segunda metade da década de 1550.

Mas qual a importância dos detalhes que foram posteriormente publicados por Jean Crespin? Guido de Brès e Pérégrin de la Grange foram executados em 1 de junho de 1567. No ano seguinte, um livreto foi publicado anonimamente, escrito com base nas cartas que Guido de Brès enviou da prisão para sua congregação e que contêm a documentação de seu julgamento até o dia de sua execução: Procedures tenues à l’endroit de ceux de la religion du Pais-Bas (1568). A introdução a esta obra inclui um breve esboço biográfico de Guido de Brès, com os seguintes dados: “No que diz respeito à erudição com a qual Deus o havia enriquecido – depois de tê-lo feito estudar em Genebra e Lausanne – não é necessário demorar muito neste aspecto, pois não apenas seus últimos debates, que se encontram neste livro, testemunham e dão prova de sua fidelidade, mas também uma Compilação que ele fez dos Antigos Doutores, chamada O Cajado da Fé, e o que ele reuniu contra os Anabatistas […]”.

Que Guido de Brès havia estudado teologia em Genebra e Lausanne era, portanto, um conhecimento preservado na memória coletiva de suas congregações em Lille, Tournai e Valenciennes. O editor deste livreto, Jean Crespin, pode de fato também ter sido quem escreveu estas linhas. Um terceiro testemunho escrito é encontrado na Histoire des martyrs de Crespin. Na edição de 1570 de sua Histoire des vrays tesmoins, o erudito editor incorporou a documentação do julgamento e execução de Guido de Brès e Pérégrin de la Grange, como havia sido publicado anteriormente como Procedures tenues. Ele concluiu este relato com a “história específica da vida e morte dos dois referidos ministros”, juntamente com algumas outras curtas biografias. Crespin primeiro descreveu o nascimento de Guido de Brès em Mons (flamengo: Bergen), sua fuga para a Inglaterra e o tempo que passou em sua primeira congregação em Lille. Na sequência do julgamento contra a família Ogvier, Guido de Brès então deixou Lille e viajou para Ghent, onde, segundo Crespin, ele compilou seu primeiro livro, O Cajado da Fé, “extraído dos antigos doutores”.

“Como ele estava ansioso por ter um leque mais amplo de aprendizado, conforme exigido para o ministério, ele então seguiu para Lausanne e Genebra, para esses fins e também para aprender a língua latina. Depois de ter permanecido lá por algum tempo, ele retornou aos Países Baixos e restaurou as igrejas em Lille, Tournai e Valenciennes […]”.

O fato de Crespin ter publicado o relato da opressão em Valenciennes e o ter adicionado à sua “História das Testemunhas Verdadeiras” nos diz que ele estava em estreito contato com a congregação de Guido de Brès e De la Grange. Um exemplo pode ser suficiente para ilustrar o envolvimento de Guido de Brès na empreitada de Crespin para um relato do martírio reformado. Este último começou seu relato do ano de 1556 na Histoire des martyrs (1556) relatando as mortes dos quatro mártires de Lille na Flandres, a saber, a família Ogvier. Na carta escrita pelo filho mais velho, Baudechon (e adicionada à edição de 1564), encontramos uma exortação para “seguir o caminho estreito, como até agora tem sido mostrado a você muito fielmente e com grande ardor pelo nosso irmão G[uido] que é bem conhecido e respeitado por todos vocês”. Segundo o relato, seu irmão mais novo, Martin Ogvier, também havia estimulado alguns de seus companheiros de prisão, dizendo: “Fiquem quietos, meus irmãos, tenham coragem, está terminado: eu suportei um último ataque. Eu vos suplico, não esqueçam a santa doutrina do Evangelho e as boas lições que ouviram do nosso irmão Guido”.

A soma do nosso conhecimento sobre a educação de Guido de Brès, portanto, se resume ao seguinte. O relatório dos comissários após terem revistado a casa de Guido de Brès em 1561 foi baseado em pelo menos três cartas, escritas para Guido de Brès (por João Calvino, Dathenus e Crespin), provando seus laços com Genebra. A segunda nota sobre sua formação teológica data de 1568 e vem de fontes próximas a Crespin. O relato biográfico expandido deste último (1570) forneceu informações mais detalhadas. As fontes, portanto, nos permitem formular a seguinte conclusão inicial: embora Guido de Brès já tivesse servido como ministro, ele decidiu seguir estudos teológicos para melhorar suas habilidades. Seu trabalho na primeira edição de O Cajado, que foi o fruto de seu primeiro ministério, o fez tomar consciência especialmente de sua falta de conhecimento de latim, a língua na qual os pais da igreja eram primariamente transmitidos no século dezesseis. Para remediar isso, ele viajou para os centros de aprendizado reformados que seriam mais proveitosos para estudantes de língua francesa, a saber, Lausanne e Genebra.

Formação teológica em Londres

Uma questão que permanece, é claro, é como Guido de Brès se tornou um ministro da Palavra em primeiro lugar. Crespin relatou que ele deixou Mons (Bergen), a vila de seu nascimento, e se estabeleceu em Londres “na época em que o bom rei Eduardo VI havia dado abrigo e acesso no reino da Grã-Bretanha a todos os fiéis”. Ele foi treinado para o “ministério da profecia”, como havia sido instituído lá por John a Lasco? É bastante provável que Guido de Brès tenha se juntado à congregação de língua francesa em Londres (ou em uma das vilas na costa), e visitado la prophétie realizada todas as semanas às terças-feiras. Sua capacidade de traduzir uma obra holandesa para o francês em anos posteriores sugere que ele pode ter sido capaz de entender a língua holandesa já antes. Se isso for verdade, também é possível que ele tenha frequentado as profecias de quinta-feira organizadas pelo teólogo flamengo Marten de Cleyne (1523-1559), também conhecido como Micron(ius). Mas os cursos de latim sobre o Antigo e Novo Testamento ministrados por Walter Delenus e John a Lasco podem ter sido muito difíceis para Guido de Brès seguir na época.

Há um ponto em suas obras em que Guido de Brès parece insinuar sua experiência em tais centros de formação das primeiras igrejas de refugiados reformados. Em um panfleto intitulado Oraison au Seigneur e atribuído a Guido de Brès, uma seção da oração é dedicada ao ministério da Palavra. O autor suplica ao Senhor que “forneça seus dons e graça a nós e aos nossos filhos, para que o verdadeiro ensino possa ser dado a eles, como foi nos tempos antigos na Igreja primitiva. Pedimos que em todas as assembleias fiéis o ensino seja acoplado com admoestação e correção, e que sua santa doutrina seja administrada de acordo com o uso correto das chaves, para que a formação em santas proposições (les exercices des sainctes propositions) e congrégations, e também as escolas, sejam puramente instituídas e mantidas”.

O uso do termo congrégations neste contexto sugere que Guido de Brès está se referindo à prática como havia sido estabelecida em Genebra, o único lugar onde este termo era usado na época. A congrégation era a reunião semanal de estudo bíblico da Companhia de Pastores em Genebra, onde em lectio continua um livro bíblico era exposto. Todos os ministros eram obrigados a estar presentes, mas também membros leigos da Igreja eram bem-vindos para participar e fazer perguntas. Nas Igrejas de refugiados no exterior, outras formas se desenvolveram, nas quais a formação e seleção para o ministério se tornaram mais centrais.

Em seu O Cajado da Fé, Guido de Brès incluiria um capítulo sobre “as assembleias e reuniões dos fiéis” (des assemblees et congregations des fideles). Citando do Novo Testamento, Hilário de Poitiers, Tertuliano, a carta de Plínio a Trajano e a Historia Tripartita, Guido de Brès instruiu seus companheiros crentes sobre como eles poderiam defender as reuniões que realizavam como congregação aos domingos e durante a semana contra a insistência católica romana em participar da Missa. Portanto, o capítulo sobre “assemblées et congrégations” em O Cajado da Fé, escrito antes dos anos de seu estudo em Lausanne e Genebra, não parece usar o termo “congrégations” em seu sentido técnico, referindo-se ao tipo de reuniões de estudo bíblico realizadas por pastores durante a semana (como em Genebra). No entanto, o panfleto posterior Oraison au Seigneur, publicado em 1564, aponta claramente para tais reuniões de exposição bíblica e formação para o ministério.

Enquanto em Londres, Guido de Brès pode ter frequentado a “prophétie” da igreja valona lá. Como foi observado, a passagem acima mencionada de Oraison du Seigneur de 1564 testemunha a prática mantida pelos ministros de uma região (por exemplo, a classe de Lausanne) ou cidade de realizar reuniões de estudo bíblico, como havia se desenvolvido em Genebra e foi seguida nas igrejas de refugiados em e ao redor de Londres. O sínodo das Igrejas Sob a Cruz, realizado em Antuérpia em novembro de 1564, adotou a seguinte resolução: “Como os ministros não têm oportunidade de conferir regularmente sobre a doutrina cristã, exceto durante o sínodo, todas as vezes que se reunirem para este assunto os ministros que estiverem presentes se revezarão no final de cada manhã e depois do jantar para tratar de uma passagem das Escrituras a fim de expressar a unidade da doutrina que está entre eles […]”.

Não se sabe se Guido de Brès esteve presente naquele sínodo de novembro de 1564. Mas, novamente, ele não foi o único ministro que foi treinado no exterior em “profecia”. Não é possível estabelecer o nível de formação que homens como o jovem Guido de Brès poderiam ter recebido em “la prophétie” em Londres. Embora tais reuniões se concentrassem na exposição das Escrituras, elas careciam de qualquer tipo de padrão acadêmico. As preparações de Guido de Brès para o ministério parecem ter se limitado à formação que ele recebeu em Londres. Portanto, na época em que serviu os fiéis durante sua primeira turnê de serviço em Lille de 1550 a 1555, ele teve que expandir seu conhecimento por meio de estudo pessoal. O quão intensos foram seus estudos é testemunhado pelo caderno teológico que ele publicou após seus primeiros cinco anos no ministério, a saber, o O Cajado da Fé Cristã.

Apresentando “O Cajado da Fé” (1555)

O Cajado da Fé Cristã não é uma apresentação direta da própria teologia emergente de Guido de Brès, mas uma compilação de obras de outros autores. Como uma antologia de citações da Bíblia e dos pais da igreja, é necessário ler nas entrelinhas para tentar detectar o próprio pensamento teológico sistemático de Guido de Brès. Pode de fato ser útil ler este livro como o tipo de caderno que os estudantes tinham mais comumente, com Guido de Brès mantendo anotações sobre os “loci communes” que ele detectava nas Escrituras e nos pais quando ele se dedicava a lê-los em seus estudos pessoais. Afinal, a autoridade patrística desempenhou um grande papel na polêmica da Reforma. O Cajado saiu em 1555, quando Guido de Brès havia deixado sua congregação em Lille e estava trabalhando em Gand (Ghent) por um ano. Ele dedicou o livro ao seu rebanho, um legado escrito de sua formação para defender a doutrina reformada.

Quando Guido de Brès compilou a primeira edição de O Cajado da Fé, ele a escreveu explicitamente contra um livro escrito por um autor católico romano, o monge parisiense Nicole Grenier, que foi publicado pela primeira vez em 1547 e amplamente disseminado desde então: Le bouclier de la foy chrestienne (“O Escudo da Fé, na Forma de um Diálogo, tirado da Santa Escritura”). O Bouclier teve pelo menos dezoito edições entre a sua publicação inicial e 1555, quando Guido de Brès publicou sua resposta. Para entender esta última resposta, é necessário, antes de tudo, examinar a própria obra de Grenier. Quais pontos do ataque de Grenier aos “luteranos” haviam tocado as sensibilidades teológicas de Guido de Brès? No Bouclier, Grenier havia fornecido a seus leitores citações dos pais da igreja em latim, que ele também havia traduzido para o francês para o bem de seus leitores, para cada ponto de doutrina que estava em disputa entre Roma e a Reforma. O livro tinha a forma de um diálogo entre Andarilho (“Le bien allant”) e Errante (“Le mal allant”), sendo o primeiro um eclesiástico informado e o outro um espírito errante. O destino de sua longa caminhada é Jerusalém – ou seja, Roma.

Para contrariar este ataque, Guido de Brès decidiu produzir uma melhor antologia de citações bíblicas e patrísticas em francês, que os convertidos protestantes pudessem ler, memorizar e usar em debate com párocos ou inquisidores oficiais. Para entender a mente de Guido de Brès, deve-se olhar para sua escolha de textos e citações e sua ordem, para as linhas editoriais que ele mesmo inseriu entre eles, e para as adições e a reorganização do material encontrado nas edições subsequentes.

No início de seu diálogo, Grenier apresentou uma lista alfabética de quarenta pais da igreja citados em seu livro: “Os nomes dos santos pais e antigos doutores da Igreja, cujos ditos foram reunidos neste livro para confirmar os artigos de nossa fé nele contidos – com o ano em que eles floresceram ou morreram na Igreja Cristã segundo Trithemius em seu Livro sobre os escritos eclesiásticos”. Uma entrada na lista de Grenier é a geral “vários concílios famosos da Igreja em diferentes épocas”. Quando Guido de Brès compilou seu próprio livro em resposta, ele listou os pais em ordem cronológica e adicionou aos seus nomes uma lista de quatorze concílios. A cronologia começa com o autor Dionísio, o Areopagita (hoje comumente conhecido como Pseudo-Dionísio, o Areopagita, um teólogo e filósofo cristão do século V e VI), que Guido de Brès considerava o convertido de São Paulo mencionado em Atos 17:34, e que se pensa ter morrido em 96 d.C.. O nome de Dionísio é então seguido por Clemente de Roma, que viveu no final do primeiro século. Mas enquanto o último pai na lista de Grenier é o Papa Gregório I, Guido de Brès foi muito além no tempo e também incluiu referências a Tomás de Aquino e Jean Gerson. Os nomes e citações foram assim escolhidos para ter o maior impacto sobre o adversário no debate confessional.

Em 1555, Guido de Brès pode não ter tido conhecimento de que outro homem já havia escrito uma resposta ao Le bouclier de la foy de Grenier. A primeira edição dessa resposta parece ter sido publicada em Paris, com quase o mesmo título que o livro de Grenier: Bouclier de la foy chrestienne de forme de dialogue, escrito por Barthélemy Causse e publicado em 1554 por Vivant Gaulterot. Curiosamente, o próprio Gaulterot havia publicado dez edições do Le bouclier de la foy de Grenier, a primeira em 1547, a última em 1552. Claro, é possível que o nome do editor e o local de publicação para a obra de Causse tenham sido intencionalmente escolhidos como falsos. Na verdade, a segunda edição do livro de Barthélemy Causse, que agora levava o título Le vray bouclier de la foy chrestienne, apareceu em Genebra em 1557 das prensas de Jean Crespin, e em 1558 e em diante das prensas de Zacharie Durand. Há uma grande diferença entre essas duas respostas ao Bouclier de la foy de Grenier. Enquanto Causse, como Grenier, deu à sua resposta a forma de um diálogo, Guido de Brès compilou uma antologia de citações dos pais da igreja e as organizou por tópicos.

Estudos em Lausanne: Jeronime le Grand?

Mesmo com a edição de 1555 de O Cajado da Fé, Guido de Brès não parece ter se considerado um teólogo profissional, pois é relatado que ele viajou para Lausanne após a publicação. Além dos testemunhos discutidos na primeira seção, nenhuma outra fonte foi encontrada que coloque Guido de Brès em Lausanne. O historiador da Reforma no País de Vaud, Henri Vuilleumier, incluiu a seguinte entrada em sua lista de estudantes: “De Bray, Guy, de Mons, antigo bolsista de LL. EE. de Lausanne”. No entanto, nem a pesquisa de Karine Crousaz nos arquivos de Berna e Lausanne, nem seu estudo aprofundado sobre a Academia de Lausanne, foram capazes de corroborar esta informação. Nenhum Guy de Brès ou du Bray aparece em suas listas de “bolsas extraordinárias” para o período de 1538-1560. No entanto, há um nome em sua lista que ainda pode ligar Guido de Brès à academia. Listado como bolsista financiado pelo bailiff de Lausanne, há um estudante que usava o nome de Jeronime le Grand. Ele recebeu ajuda financeira para os anos acadêmicos de 1557-58 e 1558-59, o que corresponde precisamente ao período de tempo indicado por Crespin. Poderia este nome ser um pseudônimo para Guido de Brès?

Em seus anos posteriores, Guido de Brès é conhecido por ter usado o nome Augustine du Mont, após a vila de seu nascimento, Mons ou (em holandês) Bergen. Mais conhecido é o pseudônimo Jerom(m)e, que é mencionado em vários depoimentos de testemunhas interrogadas. Embora o uso do nome Jerom(m)e por Guido de Brès não seja bem atestado antes de 1561, é inteiramente concebível que Jerome ou Jeronime – em latim: Hieronymus – fosse o nome pelo qual Guido de Brès se apresentava como um dos “pregadores hereges” (prescheurs hereticques) que estava na lista de “mais procurados” das autoridades. Além disso, Guido de Brès é frequentemente descrito em vários depoimentos de testemunhas como um homem de “alta estatura” (hault de stature). Quando esses detalhes são reunidos, há alguma base para sugerir que Guido de Brès pode ter usado o nome de Jerome ou Jeronime le Grand (ou seja, o alto), e já usava esse nome durante os anos de seu exílio e peregrinatio nos territórios alemão e suíço.

Braekman sugere que Guido de Brès deixou Lausanne na época da partida de Theodore Beza para Genebra, e o seguiu para Genebra no outono de 1558. As tensões entre Lausanne e o Conselho de Berna fizeram com que todos os ministros na Classe de Lausanne, juntamente com os professores da Academia, deixassem a cidade. No entanto, as obrigações de ensino de Beza só terminaram em novembro de 1558. A cisão entre os ministros do País de Vaud e o Conselho de Berna foi finalizada na primavera de 1559. Em março de 1559, vários ministros, entre os quais Barthélemy Causse, o autor de Le vray bouclier de la foy, chegaram a Genebra “para receber alojamento até que sejam empregados em outro lugar”. Até o momento, os estudiosos não conseguiram estabelecer uma conexão especial entre Beza e Guido de Brès. Nem sabemos quando este último deixou Lausanne. No entanto, seu contato com a equipe de editores de Genebra (Barbier e Courteau) já pode ter começado enquanto ele ainda estava trabalhando em Lausanne.

As segunda e terceira edições de O Cajado da Fé foram publicadas por Nicolas Barbier e Thomas Courteau em 1558, que Braekman rotulou de BC 1558/1 e BC 1558/2, respectivamente. A segunda edição seguiu de perto a editio princeps e adicionou algum material aqui e ali (por exemplo, sobre o casamento, veja abaixo §9). A terceira edição mostra uma reorganização mais extensa e começa com três capítulos inteiramente novos. O primeiro capítulo é “Sobre Deus e as propriedades a Ele atribuídas pela Santa Escritura” (p. 1-77), o capítulo dois “Sobre as propriedades de Cristo” (p. 77-102), e o capítulo três “As propriedades do Espírito Santo que Lhe são atribuídas pela Santa Escritura” (p. 102-112). O primeiro capítulo se abre com uma apresentação do conhecimento de Deus “pela inspiração da natureza”, bem como uma introdução aos testemunhos da Santa Escritura que se seguem. Isso espelha de perto o que Guido de Brès viria a escrever no artigo dois da Confissão Belga. As propriedades de Deus são apresentadas por uma multidão de citações do Antigo e Novo Testamento, algumas das quais são tiradas dos livros apócrifos. O capítulo um fecha com uma discussão da unidade de Deus e das propriedades que distinguem as três Pessoas. Esta seção espelha muito do que Guido de Brès escreveria nos artigos oito e nove de sua confissão.

É especialmente a adição desses três capítulos a O Cajado no final de 1558 que parece refletir a influência da Confissão de Fé Cristã de Theodore Beza, que foi composta em 1558 em Lausanne e apareceu em 1559 em Genebra. Uma característica marcante é que Beza começa sua confissão com três capítulos sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, uma característica que Guido de Brès introduziu na segunda revisão de O Cajado em 1558. A conexão com Lausanne, assim, sugere que pode ter havido, naquela época, contato entre De Bèze e Guido de Brès, talvez no ambiente da sala de aula da academia daquela cidade, antes da mudança de Beza para Genebra.

Preparando para a “Confessio Belgica”?

O que é verdade para Lausanne é ainda mais para Genebra: nenhuma documentação foi encontrada em apoio à presença relatada de Guido de Brès na cidade ou na academia lá, que abriu suas portas em 1559. A única evidência que liga o autor de O Cajado da Fé a Genebra é a editora de Nicolas Barbier e Thomas Courteau, de cujas prensas (como observado acima) as duas edições de 1558, bem como edições posteriores de 1559, 1561 e 1565, todas apareceram. No entanto, quando Crespin notou que Guido de Brès escreveu a primeira edição enquanto estava em Ghent, e depois viajou para Lausanne e mais tarde também para Genebra, ele não comentou sobre as edições posteriores de O Cajado.

Duas edições de O Cajado, a segunda e a terceira, assim, apareceram em Genebra no mesmo ano, 1558, e da mesma editora de Nicolas Barbier e Thomas Courteau. Uma quarta edição saiu em 1559. Poderia ser que o próprio Guido de Brès estivesse em Genebra enquanto essas novas edições estavam sendo preparadas e impressas? Como descrito acima, a diferença mais marcante entre as duas revisões de 1558 é a adição dos três primeiros capítulos sobre a Trindade. Também a quarta edição de 1559 mostra a adição de vários capítulos. A produção de três edições revisadas, que surgiram da mesma editora, sugere, assim, um período intenso de estudo por parte de Guido de Brès enquanto ele residia nas cidades de Lausanne e Genebra.

Mas por que Guido de Brès faria com que outro editor produzisse uma nova edição de sua primeira obra teológica, em vez de Jean Crespin? Crespin, um editor erudito e igualmente zeloso, foi a primeira conexão de Guido de Brès com Genebra. Embora o nome e a marca do impressor de Crespin não sejam encontrados nas edições de O Cajado da Fé, verifica-se que ele mesmo foi a conexão entre Guido de Brès e seus verdadeiros editores, Barbier e Courteau. De 1554 a 1558, Crespin se associou a Nicolas Barbier, um impressor que havia vindo de Lyon. O bio-bibliógrafo de Crespin, Jean-François Gilmont, descreveu a importância desta associação entre um “impressor-editor” e um “livreiro-editor” da seguinte forma. Enquanto Crespin cuidava das edições em latim, Barbier publicaria a tradução francesa de uma obra, como aconteceu, por exemplo, com as palestras de João Calvino sobre os profetas menores (1559-60). Em 1558, Barbier se associou a Thomas Courteau da província de Picardia. Juntos, essa dupla publicou obras sob seu próprio nome: “Chez N. Barbier et Th. Courteau”. Esses livros incluíam reimpressões de obras que haviam sido publicadas anteriormente por Crespin. Barbier e Courteau também adquiriram dois bestsellers próprios: a Bíblia francesa ilustrada, e O Cajado da Fé de Guido de Brès. É possível que a aquisição de O Cajado tenha dado à equipe Barbier-Courteau uma certa independência. Seja qual for o caso, além das edições de Genebra de O Cajado, não há outros dados históricos que coloquem Guido de Brès naquela cidade.

O casamento de Guido de Brès com Catharine Ramon é comumente usado para estabelecer um terminus ad quem para sua estadia em Genebra. Como o nascimento de seu primeiro filho, Israel, data de 31 de agosto de 1560, isso sugere que seu casamento ocorreu, no máximo, em novembro de 1559. Isso, por sua vez, corresponde à observação de Guido de Brès em sua carta de despedida à sua esposa de que “aprouve a nosso bom Deus nos permitir viver juntos por um período de cerca de sete anos”. O casamento deles foi abençoado com cinco filhos. Mas onde e quando Guido e Catharine se conheceram permanece desconhecido.

É justo supor que possa haver uma conexão entre o trabalho contínuo de Guido de Brès em O Cajado até a edição de 1561, e a sua escrita de A Confissão de Fé em 1561. Ele já contemplava a possibilidade de tal confissão quando estava em Genebra? Um século depois, Martinus Schoock afirmou com base em documentos específicos que, no entanto, são desconhecidos para nós: “Já no ano de 1559, Guido de Brès, um homem muito fiel (na verdade, como antes ele havia aberto, ele selou a verdade do Evangelho com seu sangue), principalmente porque os anabatistas delirantes eram considerados estando na mesma página que os ortodoxos pelos inquisidores, começou a elaborar alguns artigos da unanimidade ortodoxa”.

Schoock não especificou qual era sua base documental para essa afirmação, e desde então ela foi rejeitada por Van Langeraad e Gootjes. É bem possível que Schoock tenha confundido o trabalho contínuo de Guido de Brès em O Cajado com suas preparações para a confissão. O Cajado, que foi “fielmente derivado dos próprios livros dos antigos mestres”, é precedido pela epístola dedicatória à igreja de Lille. O autor escreveu: “Quando ofereço o presente livro (no qual nada é meu, mas tudo dos Pais) como uma confissão da minha fé (pour confession de ma foy) aos inimigos dos Pais, não duvido que um dia serei condenado como um herege perverso a ser queimado vivo até as cinzas”.

Mesmo que Schoock tenha confundido o trabalho de Guido de Brès em O Cajado com suas preparações para a confissão, sua menção ao ano de 1559 lembra a redação da Confession de Paris, para a qual João Calvino em Genebra foi convidado a enviar uma contribuição naquele ano. Afinal, é possível que Guido de Brès estivesse em Genebra naqueles dias e tenha se dado conta da necessidade de uma confissão para as igrejas reformadas na Holanda, já que viviam sob o domínio espanhol. Nesse sentido, seu trabalho contínuo em O Cajado pode ser considerado sua preparação (embora talvez inconsciente) para a composição da Confessio Belgica.

Vir trilinguis

Tendo aprimorado suas habilidades teológicas em Lausanne e Genebra, Guido de Brès retornou ao serviço ativo e serviu como pregador itinerante para várias congregações no norte da França e nos Países Baixos do Sul. Embora cerca de dez outras edições de O Cajado apareceriam mais tarde, nenhuma revisão substancial adicional ocorreu em nenhuma delas. Para avaliar o desenvolvimento teológico de Guido de Brès, pode ser útil primeiro retratá-lo como ele era no final de sua vida, como um teólogo maduro. Os últimos documentos que testemunham o aprendizado patrístico de Guido de Brès são encontrados nas cartas que ele escreveu da prisão para seu rebanho em Valenciennes. Duas longas cartas leem como um relatório verbal do interrogatório realizado em 16 e 17 de maio de 1567 por um monge franciscano, e em 22 de maio pelo bispo de Arras, François Richardot.

Embora aparentemente não tivesse livros de referência disponíveis, Guido de Brès foi capaz de disputar pontos detalhados da doutrina e de citar de memória. Ele se refere expressamente ao De cura pro mortuis agenda de Agostinho, onde o pai da igreja fala da incapacidade de sua mãe Mônica de ajudá-lo após sua morte. Outro ponto: “Como os doutores da Igreja estão unidos, consagrando pão e vinho contra o sentido das palavras do Senhor Jesus, pode-se ver nas palavras de Scholasticus, que fez um cânon e viveu na época de Gregório”. Segue-se uma discussão do significado dos termos latinos e gregos, com referência às Annotationes de Erasmo. Também Pedro Lombardo e Pedro Comester, João Duns Scotus (in sententia II, lib. 4, quest. 3) e Gabriel Biel (In canone missae, lect. 40) são referidos. Há, portanto, uma boa razão para rastrear as referências de Guido de Brès e investigar suas citações dos pais e doutores da igreja. Afinal, uma comparação com seu “banco de dados”, O Cajado da Fé, pode fornecer uma visão do desenvolvimento de seu aprendizado.

Os textos dos interrogatórios, publicados pouco depois que Guido de Brès e seu colega Pérégrin de la Grange foram executados, nos lembram da confiscação dos papéis de Guido de Brès em 1561. Quando os cidadãos reformados de Doornik protestaram publicamente marchando pelas ruas enquanto cantavam Salmos (les chanteries), a governanta Margarida de Parma enviou um comitê à cidade para investigar esses eventos. O comitê relatou à governanta que um maço de papéis havia sido jogado sobre o muro do castelo, contendo uma carta e uma confissão. Sobre esta carta, eles relatam: “Finalmente, eles citam várias linhas em latim, grego e hebraico, tiradas das Escrituras”. Assim, o final da carta que acompanhava a Confissão Belga como uma introdução terminava com citações tiradas da Bíblia nas três línguas das Escrituras originais e da tradução eclesiástica. Quando as cartas confiscadas foram comparadas, a investigação subsequente provou que a caligrafia da carta que acompanhava a confissão era a de Guido de Brès. Os versículos da Bíblia nas três línguas estavam, portanto, também em sua caligrafia. O fato de que ele podia escrever nessas línguas não deve nos surpreender, porque o inventário de livros confiscados menciona vários livros “em francês e em latim, com alguns livros em grego”.

Crespin relatou que Guido de Brès viajou para Lausanne e Genebra em 1557-1558 “para aprender latim” (e, talvez, as línguas bíblicas). Apenas quatro anos depois, em 1561, o homem que escreveu a famosa Confissão de Fé parece ter tido um conhecimento prático das línguas hebraica, grega e latina. Após seu retorno de Genebra, Guido de Brès adotou um nome falso para seu ministério, visitando as cidades e vilas do sudoeste da Bélgica. Esse nome era Jerome. Este também era o nome de um de seus irmãos. Mas Guido de Brès também poderia tê-lo escolhido em alusão a “Hierosme, prestre docteur Latin (†422)”, que está listado como uma de suas fontes e autoridades em O Cajado da Fé? Hieronymus, ou Jerônimo, era afinal o verdadeiro vir trilinguis, o grande pai da igreja e estudioso bíblico que aprendeu as línguas bíblicas e compôs a Vulgata. O próprio fato de que, ao contrário dos outros pregadores dos Países Baixos do Sul, Guido de Brès não é conhecido por ter seguido qualquer formação eclesiástica ou acadêmica antes de sua conversão à causa reformada, dá crédito aos relatos de sua peregrinatio academica para Lausanne e Genebra e de sua busca por estudar línguas lá.

Rumo a uma edição crítica

O desenvolvimento de O Cajado da Fé Cristã de Guido de Brès nunca foi estudado em profundidade. Uma edição crítica está agora sendo preparada pelo presente autor em cooperação com W.H. Th. Moehn e A.J. Kunz. Esta equipe pretende produzir uma edição digital (a) comparando a primeira edição e as edições de Genebra de 1558/1-2, 1559, 1561 e 1565, (b) compilando um banco de dados dos pais da igreja, concílios e cânones citados, e (c) fornecendo referências de fontes para edições do século XVI e modernas. Com base nesta pesquisa, podem ser encontradas soluções para responder à pergunta de como Guido de Brès adquiriu sua experiência patrística ao longo dos anos.

Há uma pergunta intrigante em particular que clama por uma resposta: se Guido de Brès não tinha domínio do latim quando escreveu sua antologia em língua francesa em 1555, onde ele encontrou todas essas citações traduzidas? Uma das primeiras antologias patrísticas, o Unio dissidentium de Hermannus Bodius (1527), já havia sido publicada em tradução francesa em 1527-1528 por Martin Lempereur em Antuérpia: L’Union de toutes discordes, qui est un livre tres utile à tous amateurs de paix et de unité, extraict des principaulx docteurs de l’eglise chrestienne. Outras edições que pudemos identificar foram publicadas por Pierre de Vingle (1533), Jean Michel (1539) e Philibert Hamelin (1551) em Genebra. A obra de Guido de Brès se assemelha à de Bodius em pelo menos um aspecto importante: cada passagem dentro de um capítulo começa com várias citações das Escrituras sobre o tema doutrinário ou ético, seguida por citações dos pais da igreja, usando os sistemas de divisão encontrados nas edições latinas do século XVI.

Outras fontes de fatos e citações patrísticas podem ser identificadas por uma leitura cuidadosa dos textos de Guido de Brès. A parte seguinte e final deste ensaio fornece uma amostra de nossa busca para rastrear as fontes do conhecimento inicial de Guido de Brès sobre os patres.

Uma amostra: Guido de Brès sobre o casamento

Para os fins deste artigo, escolhemos um dos capítulos menores em O Cajado para ilustrar nossa busca por suas fontes. A escolha é, como tal, aleatória, embora o tema se relacione bem com a história da vida de Guido de Brès. Como vimos, depois que ele deixou Genebra e se dirigiu para casa, ele se casou com Catharine Ramon. Então, quais eram seus pensamentos sobre o casamento de um pastor ou padre? Guido de Brès escolheu escrever sobre o tema do casamento quando ainda era solteiro, e o tratou em um capítulo intitulado “Du marriage et des vo[e]ux” (1555, f. 128v-134v), embora na verdade seja seguido por um capítulo distinto sobre os votos. A segunda edição corrigiu este erro no título (1558/1, p. 212). A citação de versículos da Bíblia sobre o casamento na primeira edição foi restrita a 1 Timóteo 4:1-3 e Mateus 19:4-6, citados no início do capítulo. Na margem, Guido de Brès também adicionou referências a Gênesis 1 e 2, a Efésios 5 e a 1 Coríntios 6. Mais tarde neste capítulo, ele também forneceu longas citações de 1 Coríntios 7.

Na segunda edição, dez citações – duas de Gênesis e oito do Novo Testamento – são reunidas e impressas na íntegra no início do capítulo. Quatro referências posteriores da edição de 1555 são excluídas na edição de 1558/1. Essa seção originalmente lia: “Salomão descreve o louvor do casamento, Provérbios 18. Davi descreve a bênção de Deus sobre as pessoas casadas, Salmo 128. O anjo Rafael ensina Tobias como ele deve se casar de acordo com o [mandamento de] Deus. A confirmação do casamento é encontrada em Gênesis 9” (f. 129v).

Tendo excluído estas linhas, Guido de Brès também reordenou suas citações dos pais da igreja. Na segunda revisão que ele empreendeu em 1558, ele empurrou os capítulos sobre casamento, votos e jejum para o final do livro. O conteúdo do capítulo sobre o casamento, no entanto, permaneceu o mesmo (1558/2, p. 402-409). Após a segunda revisão de 1558, o lugar e o conteúdo deste capítulo não foram revisados novamente (1559-1565).

Tendo descrito o processo de redação no capítulo sobre o casamento nas primeiras edições de O Cajado, agora passamos a examinar o conteúdo das citações patrísticas. O capítulo constitui uma poderosa defesa do casamento, também para aqueles que servem no ministério da Palavra. Da Histoire ecclesiastique de Eusébio, Guido de Brès usou uma passagem de Clemente de Alexandria sobre os apóstolos que viajavam com suas esposas. Ele ainda lê o endereço de São Paulo a seu suzugos em Filipenses 4 como uma referência a sua esposa.

Em dois pontos, Guido de Brès introduz uma citação, e ambas as vezes seu texto pode ser facilmente rastreado de volta à tradução francesa da Histoire ecclésiastique de Eusébio na edição de Martin Lempereur (Merten de Keyser). A passagem sobre os apóstolos casados é seguida por uma referência a “Au quart des sentences” (ou seja, livro quatro das Sentenças de Pedro Lombardo) que se mostra ter sido tirada e copiada de uma referência marginal na Instituição da Religião Cristã de João Calvino.

Um exame das referências restantes revela que Guido de Brès usou ainda três obras históricas:

A Historia tripartita, que é uma compilação do século VI por Cassiodorus das três histórias da igreja de Eusébio, Sozomen e Teodoreto dos séculos IV e V.

Sua fonte para a vida de Silvestre I (papa, 314-335) é Bartolomeus Platina (Bartolomeo Sacchi, 1421-1481), Liber de vita Christi et omnium pontificum.

O capítulo sobre o casamento fecha com uma citação da obra do historiógrafo Jean le Maire de Belges, Traicté de la différence des schismes et des conciles de l’Église.

A Historia tripartita não foi traduzida para o francês até 1578. No entanto, a Histoire ecclesiastique de Eusébio em tradução francesa foi publicada em 1532, com edições produzidas em Antuérpia por Merten de Keyser (1533), que também publicou o L’union de toutes discordes de Bodius, e em Paris por Vivant Gaulterot (1540), o editor do antagonista de Guido de Brès, Nicole Grenier. A obra de Platina foi publicada em francês como Les vies, faictz et gestes des sainctz peres papes, empereurs et roys de France, e teve muitas edições entre 1540 e 1551 produzidas em Paris.

Uma referência intrigante, já encontrada na primeira edição de 1555, é a última a “Santo Uldaric, bispo de Augsburg, na carta que ele enviou a Nicolau I sobre a proibição do casamento para padres”. Ulrich de Augsburg, no entanto, viveu de c. 890 a 973, enquanto o papa Nicolau I viveu de c. 820 a 867. O primeiro, portanto, não pode ter enviado uma carta ao segundo, que havia morrido décadas antes de seu nascimento. Guido de Brès citou longamente desta carta em que Ulrich, como ele a entendeu, repreendeu o papa por proibir o casamento para o clero, já que isso ia “completamente contra a Palavra de Deus, as decisões do Concílio de Niceia e a igreja antiga”. O autor conta a história do Papa Gregório I que foi forçado a mudar de ideia sobre o assunto. Pois, em uma viagem de pesca, ele teria visto seis mil cabeças de criancinhas, jogadas no rio após seu nascimento ilegítimo. O choque deste evento fez com que Gregório mudasse de ideia e permitisse que seus padres se casassem. Guido de Brès conclui este “golpe de misericórdia” de seu argumento da seguinte forma: “O Apóstolo disse: É melhor casar do que queimar. E eu, da minha parte, digo: é melhor casar do que dar ocasião para assassinato” (de crianças ilegítimas). As mesmas linhas são encontradas no mesmo lugar na Epistola.

No curto capítulo sobre o casamento, encontramos, assim, evidências de Guido de Brès usando quatro fontes em língua francesa sobre teologia e história: a Instituição da Religião Cristã de João Calvino, o Traicté de Jean le Maire, a tradução da Histoire ecclesiastique de Eusébio e o Les vies de Platina. A busca para descobrir as fontes de Guido de Brès continua, no entanto. Uma pergunta importante, especialmente relevante para a edição de 1555 de O Cajado, é a seguinte: a observação de Crespin de que Guido de Brès foi para Lausanne e Genebra a fim de estudar latim implica que ele não sabia latim antes dessa época, e, portanto, tinha que confiar em fontes em língua francesa? Se este foi de fato o caso, ele deve ter usado fontes intermediárias que lhe forneciam citações em língua francesa de livros que só haviam sido publicados em latim. A comparação das edições posteriores de O Cajado pode nos permitir descobrir se Guido de Brès aprendeu a lidar com fontes latinas, ou se confiou em citações que encontrou em outras obras de referência padrão.

Erik A. de Boer, Prof. Dr. theol., Theologische Universiteit Kampen, Holanda; Vrije Universiteit Amsterdam, Holanda; Free State University Bloemfontein, África do Sul.

Resumo: Guido de Brès, que viria a ser o autor da Confessio Belgica, publicou sua primeira obra em 1555, O Cajado da Fé Cristã, um florilegium de citações da Bíblia e dos Padres da Igreja, que pretendia ser um guia para os fiéis que estavam engajados em disputas sobre a doutrina reformada. Guido de Brès, um pregador no sul dos Países Baixos, viajou para Lausanne e Genebra (1556-1559) para estudar teologia e aprimorar seu latim. A conexão entre seus estudos em ambas as instituições, seu trabalho em mais três edições de seu livro e as fontes de seu conhecimento patrístico são discutidas. Uma edição crítica de sua obra, que precedeu a composição da Confissão Belga, está sendo preparada.

Palavras-chave: Guido de Brès, Teodoro de Beza, João Calvino, Confissão Belga, Institutas da Religião Cristã.

Livro

#07 – Sobre a Satisfação Pelo Pecado

Nosso Consentimento com Roma

Primeiro, reconhecemos e mantemos a satisfação civil ou política: isto é, uma recompensa por injúrias e danos oferecidos de alguma forma aos nossos vizinhos. Isso foi o que Zaqueu praticou, quando em sua conversão restituiu quatro vezes mais as coisas obtidas por fraude e engano. Também por satisfação civil, entendo a imposição de multas e penalidades sobre os infratores, e a aplicação da morte aos malfeitores. Pois todas estas são satisfações para a lei e para as sociedades de homens quando são prejudicadas. Mantemos todas estas como necessárias, pois nem a Igreja, nem a comunidade podem funcionar bem sem elas: considerando que são meios notáveis para sustentar a paz civil; e outras vezes são frutos da verdadeira fé, como foi a satisfação de Zaqueu.

Segundo, reconhecemos a satisfação canônica ou eclesiástica: e esta é, quando alguém que tenha ofendido a igreja de Deus ou qualquer parte dela, faz um testemunho público e aberto de seu arrependimento. Míriam, por murmurar contra Moisés, foi atingida pela lepra, e depois por sua oração ela foi purificada, e mesmo assim ela teve que sair da tenda e da congregação por sete dias, para que pudesse fazer uma espécie de satisfação ao povo por sua transgressão. E no Antigo Testamento, o cilício e as cinzas eram sinais de sua satisfação.

Terceiro, sustentamos que nenhum homem pode ser salvo, a menos que ele faça uma satisfação perfeita à justiça de Deus por todos os seus pecados: porque Deus é infinito em justiça, e portanto exigirá um castigo ou satisfação eterna por eles.


A Dissenção ou Diferença de Roma

Os pontos de nossa diferença e dissenção são estes.

A Igreja de Roma ensina e acredita, que Cristo por sua morte fez uma satisfação por todos os pecados dos homens, e pelo castigo eterno de todos eles: no entanto, eles mesmos devem satisfazer a justiça de Deus pelo castigo temporal de suas ofensas, seja na terra ou no purgatório. Nós ensinamos e acreditamos que Cristo por sua morte e paixão fez uma satisfação perfeita e totalmente suficiente à justiça de Deus por todos os pecados dos homens, e por todo o castigo deles, tanto eterno quanto temporal. Assim diferimos, e nisto, por nossa parte, devemos estar para sempre em desacordo com eles, de modo que se não houvesse mais pontos de divergência além deste, seria suficiente para nos manter sempre longe de unir nossas religiões, e nos faria obedecer à voz de Cristo, ‘Saia dela, meu povo’. Pois, assim como nos pontos anteriores, também neste, os Papistas erram, não em circunstância, mas na própria fundação e vida da religião.


Nossas Razões

Razão 1

Uma satisfação que é feita imperfeita, seja direta ou por consequência, na verdade não é satisfação alguma. Mas os Papistas tornam a satisfação de Cristo imperfeita, na medida em que adicionam um suprimento por meio de satisfações humanas e isto um erudito escolástico, Biel, em palavras claras confessou. Embora (diz ele) a paixão de Cristo seja o mérito principal, pelo qual a graça é conferida, a abertura do reino e da glória: NO ENTANTO NUNCA É A ÚNICA E TOTAL CAUSA MERITÓRIA: é manifesto, porque sempre com o mérito de Cristo, concorre algum trabalho, como o mérito de congruência ou condignidade daquele que recebe a graça ou a glória, se ele for de idade e tiver o uso da razão: ou de algum outro por ele, se lhe faltar a razão (Super. lib. 3.dist. 19. concl. 5). Pois aquilo que admite um suprimento por outro, é imperfeito em si mesmo. Portanto, as satisfações humanas não podem se sustentar.

Eruditos Papistas respondem, que a satisfação de Cristo e a do homem podem se sustentar bem juntas. Pois (dizem eles) a satisfação de Cristo é suficiente em si mesma para responder à justiça de Deus por todo pecado e castigo: mas não é suficiente para este ou aquele homem até que seja aplicada: e deve ser aplicada por nossa satisfação feita a Deus pelo castigo temporal de nossos pecados.

Mas eu digo novamente, que a satisfação do homem não pode ser um meio para aplicar a satisfação de Cristo: e eu provo isso assim. Os meios de aplicar as bênçãos e graças de Deus ao homem são duplos: alguns respeitam o próprio Deus, e alguns respeitam o homem. Aqueles que respeitam a Deus, são aqueles pelos quais Deus, de sua parte, oferece e transmite suas misericórdias em Cristo ao homem: deste tipo são a pregação da Palavra, o Batismo e a Ceia do Senhor, e estes são como se fossem a mão de Deus pela qual ele estende e nos dá Cristo com todos os seus benefícios. O outro meio de aplicação por parte do homem, são aqueles pelos quais os ditos benefícios são recebidos. Deste tipo há apenas um, a saber, a fé, pela qual acreditamos que Cristo com todos os seus benefícios nos pertence. E esta é a mão do homem pela qual ele recebe Cristo como ele é oferecido, ou exibido por Deus na palavra e nos sacramentos. Quanto a outros meios além destes, na Escritura não encontramos nenhum. Tola, portanto, é a resposta do Papista, que faz das satisfações dos homens meios para nos aplicar a satisfação de Cristo: pois pelas satisfações humanas, a de Cristo não é oferecida da parte de Deus, nem é recebida da parte do homem: que eles provem isso se puderem. Outros, não contentes com esta sua resposta anterior, dizem; que nossas satisfações não fazem nada para derrogar da satisfação de Cristo: porque nossas obras têm sua dignidade e mérito da satisfação de Cristo: ele merecendo que nossas obras devam satisfazer a justiça de Deus por castigos temporais. Mas isso também é absurdo e falso, como o anterior. Pois se Cristo satisfez para que o homem pudesse satisfazer, então Cristo faz de cada crente um Cristo, um Jesus, um Redentor, e um Sacerdote na mesma ordem que ele mesmo. Mas fazer do homem pecador seu próprio redentor, mesmo que seja apenas dos castigos temporais, é uma doutrina de demônios. Pois o Espírito Santo em Heb. 7. 24 ensina que o sacerdócio de Cristo é incomunicável, e não pode passar dele para qualquer outro. Ora, fazer satisfação pelo pecado ou por qualquer parte do castigo dele, é um dever, ou uma parte do sacerdócio de Cristo, e portanto fazer satisfação é uma obra que não pode passar de sua pessoa para a pessoa de qualquer homem.

Novamente, se Cristo por sua satisfação dá poder ao homem para satisfazer, então o homem satisfaz por meio de Cristo, e Cristo, além de sua própria satisfação na cruz, deve diariamente satisfazer no homem, até o fim do mundo: mas isso não pode ser, pois Cristo na cruz, quando a morte estava sobre ele, disse, ‘Está consumado’, ou seja, eu satisfiz plenamente por todos os pecados da humanidade, tanto em relação à falta quanto ao castigo. Quanto ao sepultamento e ressurreição de Cristo que se seguiram à sua morte, eles não serviram para satisfazer, mas para confirmar e ratificar o mesmo. Novamente Paulo diz, 2. Cor. 5. 21. ‘Aquele que não conheceu pecado foi feito pecado por nós’, isto é, o castigo do pecado por nós; mas se a Igreja de Roma diz a verdade, que Cristo satisfaz diariamente, então Paulo falou muito curto, e deveria ter dito mais, que Cristo foi feito pecado por nós, e em nós também: e que Deus não estava apenas em Cristo, mas também em nós reconciliando o mundo consigo mesmo. Mas Paulo nunca conheceu este ensinamento: e portanto, que eles se voltem para onde quiserem, ao colocar um suplemento à satisfação de Cristo, eles de fato aniquilam a mesma.

Razão 2

Em vários lugares da Escritura, especialmente nas Epístolas de Paulo: somos ditos ser redimidos, justificados e salvos gratuitamente: qual palavra gratuitamente, importa que somos justificados e salvos sem nada feito de nossa parte ou por nós mesmos na questão de nossa salvação: e se isso é assim, então não podemos fazer nada que possa satisfazer a justiça de Deus pelo menor castigo de nossos pecados. Se satisfazemos em nossas próprias pessoas não somos salvos gratuitamente: e se somos salvos gratuitamente, não fazemos satisfação alguma.

Razão 3

Nós oramos diariamente, ‘Perdoa-nos os nossos pecados’: agora, pedir perdão e satisfazer por nossos pecados são coisas contrárias: e para todas as coisas pelas quais podemos fazer satisfação, não precisamos pedir perdão; mas somos ensinados na dita petição a usar inteira e somente o pedido de perdão para nossos pecados, e portanto reconhecemos que não podemos fazer satisfação alguma.

Razão 4

O julgamento da igreja antiga.

Tertuliano

Sobre o Batismo, ‘Sendo a CULPA tirada, o CASTIGO TAMBÉM É TIRADO.’ (Serm. 37. de verbs Apost)

Agostinho

‘Cristo, ao assumir o castigo e não a falta, acabou com a falta e COM O CASTIGO.’ E em Tom. 10. hom. 5. diz, ‘quando saímos deste mundo, não restará compunção ou satisfação.’ Algumas novas edições introduziram a palavra [aliqua] e assim mudaram o sentido para esta maneira: ‘Não restará compunção ou alguma satisfação.’ Mas isso é totalmente contra o significado de Agostinho que diz um pouco antes, que quando o caminho é concluído não há composição de nossa causa com ninguém.

Crisóstomo

‘Não me digas, eu pequei: como serei libertado de tantos pecados? Tu não podes: mas teu Deus pode. Sim, e ele apagará teus pecados de tal forma que NÃO RESTARÁ NENHUM VESTÍGIO DELES: o que não acontece com o corpo, pois quando é curado resta uma cicatriz: mas Deus, assim que te isenta do castigo, te dá justiça.’ (proem. in Esa)

Ambrósio

‘Eu leio sobre as lágrimas de Pedro, mas eu não leio SOBRE SUA SATISFAÇÃO.’ Novamente, ‘Adoremos a Cristo para que ele possa nos dizer, não temas teus pecados deste mundo, nem as ondas de sofrimentos corporais: Eu tenho a remissão dos pecados.’ (De bono mer)

Jerônimo

Sobre o Salmo 31. ‘O pecado que é coberto não é visto, o pecado que não é visto não é imputado: o que NÃO É IMPUTADO, NÃO É CASTIGADO.’

Crisóstomo

Sobre Mateus. hom. 44, ‘Entre todos os homens, alguns suportam o castigo nesta vida e na vida futura: outros apenas nesta vida: outros apenas na vida futura: outros nem nesta vida nem na vida futura. Lá sozinho, como Dives, a quem não foi permitido sequer uma gota de água. Aqui sozinho, como o homem incestuoso entre os Coríntios. Nem aqui nem lá, como os Apóstolos e Profetas, bem como Jó e o resto deste tipo: pois eles não suportaram SOFRIMENTOS POR CASTIGO, mas para que pudessem ser conhecidos como vencedores na luta.’


Objeções dos Papistas

Objeção 1

Lev. 4. Moisés, de acordo com o mandamento de Deus, prescreveu vários sacrifícios para várias pessoas; e eles eram meios de satisfação pelos castigos temporais de seus pecados diários.

Resposta

Esses sacrifícios eram apenas sinais e tipos da satisfação de Cristo a ser oferecida a seu Pai em seu único sacrifício na cruz: e quem quer que oferecesse qualquer sacrifício no Antigo Testamento, o estimava assim e de nenhuma outra forma, senão como um tipo e figura de coisas melhores. Segundo, os ditos sacrifícios eram satisfações para a Igreja, pelas quais os homens testemunhavam seu arrependimento por suas ofensas, e também seu desejo de serem reconciliados com Deus e com os homens. E este tipo de satisfações, nós reconhecemos.

Objeção 2

Homens, cujos pecados são todos perdoados, têm depois vários reveses e aflições impostos sobre eles, até o fim de seus dias: portanto, com toda a probabilidade, eles fazem satisfação a Deus por castigos temporais. Como por exemplo, os Israelitas por murmurarem contra o Senhor no deserto foram todos impedidos de entrar na terra prometida: e o mesmo aconteceu com Moisés e Aarão por não glorificarem a Deus como deveriam ter feito nas águas da contenda.

Resposta

O homem deve ser considerado em um estado duplo, como ele está sob a lei, e como ele está sob a graça. No primeiro estado, todas as aflições são maldições ou castigos legais, sejam pequenos ou grandes: mas para aqueles que estão no segundo estado e creem em Cristo, embora as mesmas aflições permaneçam, elas mudam seu hábito ou condição, e são as ações de um pai que servem para serem provações, correções, prevenções, admoestações. 1. Cor. 11. 32. ‘Quando somos julgados, somos corrigidos pelo Senhor’ e Heb. 12. 7. ‘Se suportais a correção, Deus se oferece a vós como filhos.’ e Crisóstomo diz, 1. Cor. hom. 28. ‘Quando somos corrigidos pelo Senhor, é mais para nossa admoestação do que para a condenação: mais para uma medicina do que para um castigo: mais para uma correção do que para uma penalidade.’ E quanto a Deus ter negado aos Israelitas crentes, com Moisés e Aarão, de entrar na terra de Canaã, não pode ser provado que foi um castigo ou penalidade da lei sobre eles. A escritura não diz mais do que que foi uma admoestação para todos os homens em todas as idades seguintes, para que tomassem cuidado com ofensas semelhantes, como Paulo escreve, ‘Todas estas coisas lhes aconteceram para servirem de exemplos, e foram escritas para nossa admoestação’, 1. Cor. 10. 11.

Objeção 3

Davi foi castigado após seu arrependimento por seu adultério, pois a criança morreu, e ele foi afligido em sua própria espécie, no incesto de Absalão: e quando ele havia contado o povo ele ainda foi castigado na morte de seu povo após seu próprio arrependimento.

Resposta

Eu respondo como antes que a mão de Deus estava sobre Davi após seu arrependimento: mas ainda assim os julgamentos que lhe sobrevieram não eram maldições para ele propriamente, mas correções por seus pecados, e provações de sua fé, e meios para prevenir mais pecados, e para renovar tanto sua fé quanto seu arrependimento: assim como serviram para admoestar outros em caso semelhante; pois Davi era uma pessoa pública e seus pecados eram ofensivos, tanto dentro da Igreja de Deus quanto fora.

Objeção 4

Os Profetas de Deus, quando o povo é ameaçado com a praga, a fome, a espada, o cativeiro, etc. os exortam a se arrepender e a se humilhar em cilício e cinzas; e assim eles afastaram a ira de Deus que estava então vindo contra eles. Portanto, por meio da humilhação temporal, os homens podem escapar dos castigos temporais do Senhor.

Resposta

A fome, a espada, o banimento, a praga e outros julgamentos enviados sobre o povo de Deus, não eram propriamente castigos do pecado, mas apenas as correções de um pai pelas quais ele os humilhava para que eles pudessem se arrepender: ou assim, eles eram castigos que tendiam à correção, não servindo para satisfação. E os castigos de Deus são afastados deles, não porque eles satisfazem a justiça de Deus em seus próprios sofrimentos, mas porque pela fé eles se apegam à satisfação do Messias, e testemunham o mesmo por sua humilhação e arrependimento.

Objeção 5

Dan. 4. 24. Daniel dá este conselho a Nabucodonosor, ‘redime teus pecados pela justiça e tuas iniquidades pelas esmolas.’ Vede (dizem eles) as esmolas são feitas um meio para satisfazer pelas iniquidades do homem.

Resposta

A palavra que eles traduzem para ‘redimir’, (como a maioria dos mais eruditos na língua caldeia unanimemente afirmam) significa propriamente ‘interromper’; como se o profeta devesse dizer: ‘Ó Rei, tu és um monarca poderoso, e para ampliar teu reino tu tens usado muita injustiça e crueldade, portanto agora arrepende-te de tua iniquidade, e interrompe estes teus pecados, testemunha teu arrependimento fazendo justiça, e dá esmolas aos pobres a quem tu tens oprimido.’ Portanto, nada é falado aqui sobre satisfação pelo pecado, mas apenas sobre a testificação do arrependimento pelos frutos dele.

Objeção 6

Mat. 3. 2, 8 ‘Fazei penitência; e produzam frutos dignos de penitência’, que (dizem eles) são obras de satisfação ordenadas pelo sacerdote.

Resposta

Este texto é absurdo: pois a palavra metanoia significa isto, ‘mudem suas mentes do pecado para Deus, e testemunhem isso por boas obras’, isto é, fazendo os deveres da lei moral; o que deve ser feito, não porque são meios para satisfazer a justiça de Deus pelo pecado do homem, mas porque são frutos daquela fé e arrependimento que jaz no coração.

Objeção 7

2. Cor. 7. 10. Paulo estabelece vários frutos do arrependimento: dos quais o último é a vingança, pela qual as pessoas arrependidas se punem, para assim satisfazer a justiça de Deus pelo castigo temporal de seus pecados.

Resposta

Um pecador arrependido deve tomar vingança de si mesmo, e isso é apenas usar todos os meios que servem para subjugar a corrupção de sua natureza, para refrear as afeições carnais e para mortificar o pecado: e este tipo de ações são propriamente restrições, e não castigos: e são dirigidas contra o pecado e não contra a pessoa.

Objeção 8

Por fim, os Papistas fazem três obras de satisfação, oração, jejum e esmolas.

Resposta

Para o primeiro, é pura tolice pensar que o homem pela oração pode satisfazer por seus pecados. É o mesmo que se eles tivessem dito que um mendigo ao pedir esmola mereceria sua esmola: ou, que um devedor ao pedir a seu credor para perdoar sua dívida, assim pagaria sua dívida.

Segundo, o jejum é uma coisa indiferente, da mesma natureza que comer e beber, e por si mesmo não confere nada para a obtenção do reino dos céus, não mais do que comer e beber faz.

Terceiro e por último, as esmolas não podem ser obras de satisfação por pecados. Pois quando as damos como devemos, apenas fazemos nosso dever, ao qual somos obrigados. E podemos muito bem dizer que um homem ao pagar uma dívida, pode quitar outra: como dizer que ao fazer seu dever ele pode satisfazer a justiça de Deus pelo castigo de seus pecados.

Nós confessamos que estas são frutos da fé, mas ainda assim não são obras de satisfação: mas a única e totalmente suficiente satisfação feita à justiça de Deus por nossos pecados, é para ser encontrada na pessoa de Cristo, sendo obtida pelo mérito de sua morte e sua obediência.

E assim nossa doutrina sobre a satisfação é esclarecida: e deve ser aprendida cuidadosamente pelo nosso povo comum, porque a opinião de satisfação humana é natural e se fixa firmemente no coração dos homens naturais. Por isso, quando alguém pecou, e sente algum toque de consciência, sua maneira é então realizar alguma humilhação e arrependimento externos, pensando assim em calar a boca da consciência, e ao fazer alguns deveres cerimoniais apaziguar a ira de Deus por seus pecados. Sim, muitos pensam em satisfazer a justiça de Deus repetindo o Credo, a Oração do Senhor, e os Dez Mandamentos, tão tolos são eles neste tipo.

Livro

#06 Sobre os Méritos

O Que é Mérito?

Por mérito, entendemos qualquer coisa ou obra pela qual o favor de Deus e a vida eterna são obtidos; e isso devido à dignidade e excelência da obra ou coisa realizada. Ou, ainda, uma boa obra feita, que obriga aquele que a recebe a retribuir da mesma forma.

Nosso Consentimento com Roma

No que diz respeito aos méritos, concordamos com Roma em duas conclusões.
A primeira conclusão é que os méritos são necessários até certo ponto, pois sem eles não pode haver salvação.
A segunda é que Cristo, nosso Mediador e Redentor, é a raiz e a fonte de todo mérito.

A Dissidência ou Diferença com Roma

A Igreja papista coloca os méritos dentro do homem, fazendo duas distinções: o mérito da pessoa e o mérito da obra.

  • O mérito da pessoa é uma dignidade inerente à pessoa, pela qual ela é digna da vida eterna. E isso (segundo eles) se encontra nos bebês que morrem após o batismo, os quais, embora careçam de boas obras, não estão desprovidos desse tipo de mérito, pelo qual recebem o Reino dos Céus.
  • O mérito da obra é uma dignidade ou excelência na obra, pela qual ela se torna apta e capaz de merecer a vida eterna para quem a realiza. E as obras (segundo ensinam) são meritórias de duas formas:
    1. Por aliança, porque Deus prometeu recompensa a elas.
    2. Pela sua própria dignidade, pois Cristo mereceu para que nossas obras também pudessem merecer.

E essa é a essência de sua doutrina. Dela discordamos nos seguintes pontos:

  1. Renunciamos a todos os méritos pessoais, ou seja, qualquer mérito dentro da pessoa de qualquer mero homem.
  2. Renunciamos a todo mérito das obras, ou seja, qualquer mérito de qualquer obra feita por qualquer mero homem.

O verdadeiro mérito pelo qual esperamos alcançar o favor de Deus e a vida eterna encontra-se unicamente na pessoa de Cristo, que é o repositório de todos os nossos méritos. É prerrogativa exclusiva Dele ser a única pessoa em quem Deus tem prazer. O favor de Deus é de dignidade infinita, e nenhuma criatura é capaz de realizar uma obra que possa equivaler ao favor de Deus, exceto Cristo. Devido à dignidade de Sua pessoa, sendo não apenas um mero homem, mas Deus-Homem, Ele pode realizar obras de dignidade infinita, plenamente proporcionais ao favor de Deus, e, portanto, suficientes para merecê-lo por nós.

E embora o mérito ou a obra meritória pertença apenas à pessoa de Cristo, ele nos é imputado. Assim como Sua justiça nos é imputada, assim também os méritos que dela dependem. Mas Sua justiça nos é imputada, como já demonstrei. Daqui decorre outro ponto, a saber: assim como a justiça de Cristo nos é realmente imputada para nos tornar justos, assim também, pelo mérito de Sua justiça imputada a nós, merecemos e obtemos a vida eterna.

Essa é a nossa doutrina. Em resumo, o papista sustenta os méritos de suas próprias obras; mas nós os rejeitamos totalmente e confiamos apenas no mérito de Cristo. E para demonstrar que nossa doutrina é verdadeira e a deles falsa, apresentarei várias razões e responderei aos seus argumentos contrários.


Nossas Razões

Razão 1

A primeira razão é baseada nas propriedades e condições que devem estar presentes em uma obra meritória, e são quatro:

  1. O homem deve realizá-la por si mesmo e para si mesmo, pois se for feita por outro, o mérito não pertence propriamente ao agente.
  2. O homem deve realizá-la voluntariamente e não por obrigação, pois, ao fazer o que é seu dever, ele não faz mais do que sua obrigação.
  3. A obra deve ser feita em benefício de outro, que, por consequência, deve ser obrigado a retribuir da mesma forma.
  4. A recompensa e a obra devem ser proporcionais, pois, se a recompensa for maior que a obra, ela não é uma retribuição de mérito, mas um presente de boa vontade.

Daí decorre uma conclusão notável: a humanidade de Cristo, considerada separadamente de Sua divindade, não pode merecer diante de Deus, ainda que seja incomparavelmente mais excelente que todos os homens e anjos juntos. Pois, assim considerada, nada faz por si mesma, mas apenas pela graça recebida da divindade, ainda que sem medida. Além disso, a humanidade de Cristo é uma criatura e, como tal, está obrigada a fazer tudo o que faz. E, sendo homem, Cristo não pode dar nada a Deus senão aquilo que Dele recebeu. Assim, a humanidade de Cristo, por si só, não pode merecer, mas apenas enquanto unida pessoalmente à divindade do Filho. Se isso é verdade, então muito menos pode qualquer mero homem ou anjo merecer algo diante de Deus. Sim, é uma loucura pensar que nossas ações ou pessoas possam ser dignas de algum mérito pelo qual possamos alcançar a vida eterna.

Razão 2

Em Êxodo 20:8, está escrito: “E uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”
Daqui se conclui: onde a recompensa é concedida por misericórdia, não há mérito. Mas a recompensa é dada por misericórdia àqueles que cumprem a lei. Logo, não há mérito. O que podemos merecer se nossa recompensa final depende da misericórdia? Isso também fica claro em relação a Adão: se ele tivesse permanecido obediente até hoje, não poderia, por sua contínua e perfeita obediência, ter obtido um favor maior de Deus, mas apenas mantido o estado feliz no qual foi criado.

Razão 3

A Escritura condena diretamente o mérito das obras. Romanos 6:23 declara: “O salário do pecado é a morte, mas o DOM GRATUITO DE DEUS é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
O argumento exige que Paulo dissesse: “A recompensa das boas obras é a vida eterna”, se esta pudesse ser merecida. Mas isso ele não disse, pois a vida eterna é um dom gratuito.

Novamente, em Tito 3:5, lemos: “Ele nos salvou, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia.” E Efésios 2:8-10 diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie.”

Se alguma obra fosse coroada com mérito, certamente seriam os sofrimentos dos mártires. Mas Paulo afirma em Romanos 8:18: “Os sofrimentos deste tempo presente NÃO SÃO DIGNOS de serem comparados com a glória que em nós há de ser revelada.” Então, onde está o valor e a dignidade das outras obras?

Razão 4

Quem quer que deseje merecer deve cumprir toda a lei, mas ninguém pode guardá-la integralmente. Pois está escrito: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos.” (1 João 1:8) E “Quem tropeça em um só mandamento torna-se culpado de todos.” (Tiago 2:10) Como, então, pode merecer algo aquele que é culpado de transgredir toda a lei?

Razão 5

Fomos ensinados a orar assim: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje.” (Mateus 6:11)
Ao fazer isso, reconhecemos que cada pedaço de pão é um dom gratuito de Deus, sem mérito nosso. Quanto mais devemos reconhecer que a vida eterna é um dom gratuito de Deus? Portanto, é uma presunção satânica qualquer homem imaginar que pode merecer a vida eterna por suas obras, quando não pode sequer merecer pão.

Razão 6

O consentimento da Igreja Antiga.

Bernardo
Aqueles que chamamos de nossos méritos são o caminho para o Reino, e não A CAUSA DE REINAR.

Agostinho
Toda a minha esperança está na morte do meu Senhor. Sua morte é o meu mérito—: meu MÉRITO É A PAIXÃO DO SENHOR. Não ficarei sem méritos, enquanto a misericórdia de Deus não me faltar. (Manual, cap. 22.)

Basílio
No Salmo 114. O descanso eterno está reservado para aqueles que lutaram legitimamente nesta vida: não PELOS MÉRITOS de suas obras, mas pela graça do Deus mais generoso, na qual confiaram.

Agostinho sobre o Salmo 120
“Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos.”
E, no Salmo 142: “Senhor, tu me vivificarás na tua justiça, não na minha: não porque eu tenha merecido, mas porque tu tens compaixão.”


Objeções dos Papistas

Objeção 1

Em vários lugares da Escritura, é feita a promessa de recompensa para aqueles que creem e fazem boas obras; portanto, nossas obras merecem, pois recompensa e mérito são relativos.

Resposta
A recompensa é de dois tipos: por dívida e por misericórdia. A vida eterna não é uma recompensa por dívida, mas por misericórdia, dada pela boa vontade de Deus, sem que o homem tenha feito algo para merecê-la.

Em segundo lugar, o Reino dos Céus é propriamente uma herança dada de um Pai para um filho e, portanto, é chamado de recompensa não de forma estrita, mas figurada. Assim como um trabalhador, tendo terminado seu labor, recebe seu salário; da mesma forma, após os homens terem conduzido suas vidas e concluído sua jornada mantendo a fé e a boa consciência, Deus lhes concede a vida eterna.

Em terceiro lugar, se eu concedesse que a vida eterna é uma recompensa merecida, não seria por nossas obras, mas pelo mérito de Cristo imputado a nós, fazendo com que, por meio Dele, possamos merecê-la.


Objeção 2

Cristo, por sua morte, mereceu que nossas obras também merecessem a vida eterna.

Resposta
Isso é falso. Tudo o que encontramos na Escritura é que Cristo, por seu mérito, obteve o perdão dos pecados, a imputação da justiça e a vida eterna. Em nenhum lugar da Palavra de Deus está dito que Cristo mereceu que nossas obras também merecessem.

Cristo morreu não para que nossas boas obras fossem capazes de satisfazer a ira de Deus, mas para que nossos pecados fossem perdoados. Isso é tudo o que a Escritura ensina.

Além disso, Cristo é o único Mediador. Se os homens pudessem merecer aumento de graça e felicidade por suas próprias obras, então teriam parte na obra da redenção, o que é contrário à verdade bíblica.


Objeção 3

Nossas obras merecem por barganha ou pacto, porque Deus prometeu recompensá-las.

Resposta
A Palavra de Deus estabelece dois pactos: um legal e outro evangélico. No pacto legal, a vida eterna é prometida àqueles que cumprem a Lei: “Faz estas coisas e viverás.” Mas nenhum homem pode cumprir toda a Lei, e, portanto, ninguém pode merecer a vida eterna.

No pacto evangélico, as promessas não são feitas às obras, mas às pessoas que crêm em Cristo. Assim, a promessa “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida” (Apocalipse 2:10) não é feita à fidelidade em si, mas à pessoa fiel em Cristo.


Objeção 4

Boas obras são perfeitas e sem culpa, pois são obras do Espírito Santo, que não pode pecar; portanto, elas merecem.

Resposta
Se as obras procedessem apenas e imediatamente do Espírito Santo, então seriam sem culpa. Mas como são feitas através da vontade e entendimento do homem, são manchadas pelo pecado.

Assim como a água pura de uma fonte, passando por um canal sujo, se contamina, assim também nossas boas obras são afetadas por nossa natureza pecaminosa.


Objeção 5

Cristo disse em Apocalipse 3:4 que os fiéis de Sardes andarão com Ele de branco, porque são dignos; logo, os crentes merecem.

Resposta
Os crentes são dignos de andar com Cristo, mas não por mérito próprio, e sim porque estão unidos a Cristo e enriquecidos com seus méritos e justiça.


Objeção 6

Em 2 Timóteo 4:8, a vida eterna é chamada de “coroa de justiça”, dada por um justo juiz; portanto, o homem merece essa recompensa por suas obras.

Resposta
A vida eterna é chamada de “coroa” apenas por analogia, pois assim como um corredor deve terminar sua corrida antes de ser coroado, também devemos perseverar até o fim para receber a vida eterna.