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#06 Sobre os Méritos

O Que é Mérito?

Por mérito, entendemos qualquer coisa ou obra pela qual o favor de Deus e a vida eterna são obtidos; e isso devido à dignidade e excelência da obra ou coisa realizada. Ou, ainda, uma boa obra feita, que obriga aquele que a recebe a retribuir da mesma forma.

Nosso Consentimento com Roma

No que diz respeito aos méritos, concordamos com Roma em duas conclusões.
A primeira conclusão é que os méritos são necessários até certo ponto, pois sem eles não pode haver salvação.
A segunda é que Cristo, nosso Mediador e Redentor, é a raiz e a fonte de todo mérito.

A Dissidência ou Diferença com Roma

A Igreja papista coloca os méritos dentro do homem, fazendo duas distinções: o mérito da pessoa e o mérito da obra.

  • O mérito da pessoa é uma dignidade inerente à pessoa, pela qual ela é digna da vida eterna. E isso (segundo eles) se encontra nos bebês que morrem após o batismo, os quais, embora careçam de boas obras, não estão desprovidos desse tipo de mérito, pelo qual recebem o Reino dos Céus.
  • O mérito da obra é uma dignidade ou excelência na obra, pela qual ela se torna apta e capaz de merecer a vida eterna para quem a realiza. E as obras (segundo ensinam) são meritórias de duas formas:
    1. Por aliança, porque Deus prometeu recompensa a elas.
    2. Pela sua própria dignidade, pois Cristo mereceu para que nossas obras também pudessem merecer.

E essa é a essência de sua doutrina. Dela discordamos nos seguintes pontos:

  1. Renunciamos a todos os méritos pessoais, ou seja, qualquer mérito dentro da pessoa de qualquer mero homem.
  2. Renunciamos a todo mérito das obras, ou seja, qualquer mérito de qualquer obra feita por qualquer mero homem.

O verdadeiro mérito pelo qual esperamos alcançar o favor de Deus e a vida eterna encontra-se unicamente na pessoa de Cristo, que é o repositório de todos os nossos méritos. É prerrogativa exclusiva Dele ser a única pessoa em quem Deus tem prazer. O favor de Deus é de dignidade infinita, e nenhuma criatura é capaz de realizar uma obra que possa equivaler ao favor de Deus, exceto Cristo. Devido à dignidade de Sua pessoa, sendo não apenas um mero homem, mas Deus-Homem, Ele pode realizar obras de dignidade infinita, plenamente proporcionais ao favor de Deus, e, portanto, suficientes para merecê-lo por nós.

E embora o mérito ou a obra meritória pertença apenas à pessoa de Cristo, ele nos é imputado. Assim como Sua justiça nos é imputada, assim também os méritos que dela dependem. Mas Sua justiça nos é imputada, como já demonstrei. Daqui decorre outro ponto, a saber: assim como a justiça de Cristo nos é realmente imputada para nos tornar justos, assim também, pelo mérito de Sua justiça imputada a nós, merecemos e obtemos a vida eterna.

Essa é a nossa doutrina. Em resumo, o papista sustenta os méritos de suas próprias obras; mas nós os rejeitamos totalmente e confiamos apenas no mérito de Cristo. E para demonstrar que nossa doutrina é verdadeira e a deles falsa, apresentarei várias razões e responderei aos seus argumentos contrários.


Nossas Razões

Razão 1

A primeira razão é baseada nas propriedades e condições que devem estar presentes em uma obra meritória, e são quatro:

  1. O homem deve realizá-la por si mesmo e para si mesmo, pois se for feita por outro, o mérito não pertence propriamente ao agente.
  2. O homem deve realizá-la voluntariamente e não por obrigação, pois, ao fazer o que é seu dever, ele não faz mais do que sua obrigação.
  3. A obra deve ser feita em benefício de outro, que, por consequência, deve ser obrigado a retribuir da mesma forma.
  4. A recompensa e a obra devem ser proporcionais, pois, se a recompensa for maior que a obra, ela não é uma retribuição de mérito, mas um presente de boa vontade.

Daí decorre uma conclusão notável: a humanidade de Cristo, considerada separadamente de Sua divindade, não pode merecer diante de Deus, ainda que seja incomparavelmente mais excelente que todos os homens e anjos juntos. Pois, assim considerada, nada faz por si mesma, mas apenas pela graça recebida da divindade, ainda que sem medida. Além disso, a humanidade de Cristo é uma criatura e, como tal, está obrigada a fazer tudo o que faz. E, sendo homem, Cristo não pode dar nada a Deus senão aquilo que Dele recebeu. Assim, a humanidade de Cristo, por si só, não pode merecer, mas apenas enquanto unida pessoalmente à divindade do Filho. Se isso é verdade, então muito menos pode qualquer mero homem ou anjo merecer algo diante de Deus. Sim, é uma loucura pensar que nossas ações ou pessoas possam ser dignas de algum mérito pelo qual possamos alcançar a vida eterna.

Razão 2

Em Êxodo 20:8, está escrito: “E uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”
Daqui se conclui: onde a recompensa é concedida por misericórdia, não há mérito. Mas a recompensa é dada por misericórdia àqueles que cumprem a lei. Logo, não há mérito. O que podemos merecer se nossa recompensa final depende da misericórdia? Isso também fica claro em relação a Adão: se ele tivesse permanecido obediente até hoje, não poderia, por sua contínua e perfeita obediência, ter obtido um favor maior de Deus, mas apenas mantido o estado feliz no qual foi criado.

Razão 3

A Escritura condena diretamente o mérito das obras. Romanos 6:23 declara: “O salário do pecado é a morte, mas o DOM GRATUITO DE DEUS é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
O argumento exige que Paulo dissesse: “A recompensa das boas obras é a vida eterna”, se esta pudesse ser merecida. Mas isso ele não disse, pois a vida eterna é um dom gratuito.

Novamente, em Tito 3:5, lemos: “Ele nos salvou, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia.” E Efésios 2:8-10 diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie.”

Se alguma obra fosse coroada com mérito, certamente seriam os sofrimentos dos mártires. Mas Paulo afirma em Romanos 8:18: “Os sofrimentos deste tempo presente NÃO SÃO DIGNOS de serem comparados com a glória que em nós há de ser revelada.” Então, onde está o valor e a dignidade das outras obras?

Razão 4

Quem quer que deseje merecer deve cumprir toda a lei, mas ninguém pode guardá-la integralmente. Pois está escrito: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos.” (1 João 1:8) E “Quem tropeça em um só mandamento torna-se culpado de todos.” (Tiago 2:10) Como, então, pode merecer algo aquele que é culpado de transgredir toda a lei?

Razão 5

Fomos ensinados a orar assim: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje.” (Mateus 6:11)
Ao fazer isso, reconhecemos que cada pedaço de pão é um dom gratuito de Deus, sem mérito nosso. Quanto mais devemos reconhecer que a vida eterna é um dom gratuito de Deus? Portanto, é uma presunção satânica qualquer homem imaginar que pode merecer a vida eterna por suas obras, quando não pode sequer merecer pão.

Razão 6

O consentimento da Igreja Antiga.

Bernardo
Aqueles que chamamos de nossos méritos são o caminho para o Reino, e não A CAUSA DE REINAR.

Agostinho
Toda a minha esperança está na morte do meu Senhor. Sua morte é o meu mérito—: meu MÉRITO É A PAIXÃO DO SENHOR. Não ficarei sem méritos, enquanto a misericórdia de Deus não me faltar. (Manual, cap. 22.)

Basílio
No Salmo 114. O descanso eterno está reservado para aqueles que lutaram legitimamente nesta vida: não PELOS MÉRITOS de suas obras, mas pela graça do Deus mais generoso, na qual confiaram.

Agostinho sobre o Salmo 120
“Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos.”
E, no Salmo 142: “Senhor, tu me vivificarás na tua justiça, não na minha: não porque eu tenha merecido, mas porque tu tens compaixão.”


Objeções dos Papistas

Objeção 1

Em vários lugares da Escritura, é feita a promessa de recompensa para aqueles que creem e fazem boas obras; portanto, nossas obras merecem, pois recompensa e mérito são relativos.

Resposta
A recompensa é de dois tipos: por dívida e por misericórdia. A vida eterna não é uma recompensa por dívida, mas por misericórdia, dada pela boa vontade de Deus, sem que o homem tenha feito algo para merecê-la.

Em segundo lugar, o Reino dos Céus é propriamente uma herança dada de um Pai para um filho e, portanto, é chamado de recompensa não de forma estrita, mas figurada. Assim como um trabalhador, tendo terminado seu labor, recebe seu salário; da mesma forma, após os homens terem conduzido suas vidas e concluído sua jornada mantendo a fé e a boa consciência, Deus lhes concede a vida eterna.

Em terceiro lugar, se eu concedesse que a vida eterna é uma recompensa merecida, não seria por nossas obras, mas pelo mérito de Cristo imputado a nós, fazendo com que, por meio Dele, possamos merecê-la.


Objeção 2

Cristo, por sua morte, mereceu que nossas obras também merecessem a vida eterna.

Resposta
Isso é falso. Tudo o que encontramos na Escritura é que Cristo, por seu mérito, obteve o perdão dos pecados, a imputação da justiça e a vida eterna. Em nenhum lugar da Palavra de Deus está dito que Cristo mereceu que nossas obras também merecessem.

Cristo morreu não para que nossas boas obras fossem capazes de satisfazer a ira de Deus, mas para que nossos pecados fossem perdoados. Isso é tudo o que a Escritura ensina.

Além disso, Cristo é o único Mediador. Se os homens pudessem merecer aumento de graça e felicidade por suas próprias obras, então teriam parte na obra da redenção, o que é contrário à verdade bíblica.


Objeção 3

Nossas obras merecem por barganha ou pacto, porque Deus prometeu recompensá-las.

Resposta
A Palavra de Deus estabelece dois pactos: um legal e outro evangélico. No pacto legal, a vida eterna é prometida àqueles que cumprem a Lei: “Faz estas coisas e viverás.” Mas nenhum homem pode cumprir toda a Lei, e, portanto, ninguém pode merecer a vida eterna.

No pacto evangélico, as promessas não são feitas às obras, mas às pessoas que crêm em Cristo. Assim, a promessa “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida” (Apocalipse 2:10) não é feita à fidelidade em si, mas à pessoa fiel em Cristo.


Objeção 4

Boas obras são perfeitas e sem culpa, pois são obras do Espírito Santo, que não pode pecar; portanto, elas merecem.

Resposta
Se as obras procedessem apenas e imediatamente do Espírito Santo, então seriam sem culpa. Mas como são feitas através da vontade e entendimento do homem, são manchadas pelo pecado.

Assim como a água pura de uma fonte, passando por um canal sujo, se contamina, assim também nossas boas obras são afetadas por nossa natureza pecaminosa.


Objeção 5

Cristo disse em Apocalipse 3:4 que os fiéis de Sardes andarão com Ele de branco, porque são dignos; logo, os crentes merecem.

Resposta
Os crentes são dignos de andar com Cristo, mas não por mérito próprio, e sim porque estão unidos a Cristo e enriquecidos com seus méritos e justiça.


Objeção 6

Em 2 Timóteo 4:8, a vida eterna é chamada de “coroa de justiça”, dada por um justo juiz; portanto, o homem merece essa recompensa por suas obras.

Resposta
A vida eterna é chamada de “coroa” apenas por analogia, pois assim como um corredor deve terminar sua corrida antes de ser coroado, também devemos perseverar até o fim para receber a vida eterna.

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