POR CARLOS COSTA
A sociedade atual não encoraja, celebra ou ensina a verdadeira humildade. A mídia social por si só oferece uma variedade de maneiras de nos vangloriarmos de nossas realizações, diplomas, conquistas, beleza, corpo, bens, viagens e compartilhar tudo o que estamos fazendo e expressar tudo o que pensamos. Não quero dizer que não podemos compartilhar boas notícias ou como Deus está trabalhando em Sua Igreja, mas há uma diferença entre dar glória a Deus e dar glória a nós mesmos.
Não pense que nascemos com humildade e gentileza. A humildade é algo absolutamente indispensável para o cristão. Sem ela, não pode haver conhecimento de si mesmo, nem arrependimento, nem fé, nem salvação. Para João Crisóstomo, “a humildade é o jardim de todas as virtudes”. Já Agostinho disse: “Se me perguntarem qual o primeiro preceito do cristianismo, responderei que o primeiro, o segundo e o terceiro preceito é a humildade”.
Agostinho considerava a humildade central para a fé cristã. Através da experiência de sua busca espiritual durante seus primeiros trinta anos de vida, ele veio a ver claramente que somente uma pessoa com humildade pode seguir a Cristo. Para ele, a humildade era muito mais do que simplesmente uma das muitas virtudes que um cristão deveria praticar. Por causa de sua própria experiência de conversão à religião cristã, Agostinho passou a ensinar que a humildade (o oposto do orgulho) é a virtude cristã básica.
“A verdadeira humildade” — disse alguém — “é um agradável ornamento; ela é o único traje adequado a um pecador salvo!” Oh, esforcemo-nos, portanto, para nos vestirmos com esse manto — para sermos achados em silêncio, sem procurar chamar atenção, aos pés de nosso Criador e Redentor.
Se o orgulho é um mal epidêmico, a humildade é a virtude ameaçada. A humildade é tão rara porque ela não é natural do próprio homem. Somente um verdadeiro cristão, que tem o Espírito de Deus, pode aprender a humildade. “A humildade é a raiz, a mãe, a ama-de-leite, o alicerce e o vínculo de todas as virtudes”, expressou Crisóstomo. Para John Mason, “a mais preciosa pérola na coroa de virtudes do cristão é a humildade”. Humildade é algo pelo qual devemos orar constantemente, mas nunca agradecer a Deus por isso. Nada coloca um cristão tão fora do alcance do diabo quanto a humildade.
Alguém já disse que “a humildade é um paradoxo. No momento em que você pensa que finalmente encontrou, você a perdeu”. Geralmente, quando você descobre que a possui, você a perde. A humildade é como uma flor rara – coloque-a em exposição e ela instantaneamente murcha e perde sua fragrância! A humildade é um traço de caráter que nunca pode surgir de si próprio; não é algo para ser anunciado do alto… não, humildade não é algo para ser anunciado. Pois então, se você consegue imaginar a ironia disso, você ficou orgulhoso de sua humildade.
A humildade é aquela graça pela qual um homem faz pouco ou nenhum caso de si mesmo (Jó 42.6; Ezequiel 20.43). É uma graça do Espírito de Deus, pela qual um homem, a partir do verdadeiro conhecimento de si mesmo, de seu estado e condição, se considera vil e age de acordo diante de Deus e dos homens. Todo homem piedoso é humilde (Provérbios 30.2; Lucas 18.13). A pobreza de espírito é o primeiro passo para o céu (Mateus 5.3). “Alto em valor e humilde de coração”, disse Nazianzeno sobre Atanásio. Todas as estrelas, quanto mais altas são, tanto menores parecem; assim também devem ser todos os santos.
Primislaus, o primeiro Rei da Boêmia, mantinha seus sapatos perto dele para lembrá-lo de onde ele veio. Lemos sobre Agatocles, aquele Rei que era inicialmente filho de um oleiro e posteriormente elevado ao Reino da Sicília, que teria, junto com seu serviço de ouro e prata, recipientes de barro em sua despensa para lembrá-lo de sua condição anterior. Jacó disse: “Sou menos que o menor de todas as tuas misericórdias.” Abraão se chamava “pó e cinza”. Davi se considerava um “cão morto” (1 Samuel 2.4), uma pulga, ou seja, uma pessoa pobre, insignificante, básica, sem valor. Paulo se considerava “o menor de todos os santos” e “o maior dos pecadores” (1 Timóteo 1.15). “Embora eu não seja nada”, disse ele, “e eu seja o menor de todos os apóstolos, não digno de ser chamado apóstolo”.
A humildade tem a promessa de benefícios tanto temporais (Provérbios 22.4) quanto espirituais: graça (Provérbios 3.34), sabedoria (Provérbios 11.4), o temor de Deus e, finalmente, a bem-aventurança (Mateus 5.3).
A HUMILDADE PROCEDE DE DEUS
Deus é a fonte da humildade. Por natureza, o homem é uma criatura que aspira à glória, é orgulhoso e vaidoso e tem pensamentos elevados sobre si mesmo. Ele é motivado por si mesmo, está focado em si mesmo e deseja que o objetivo de todos seja estimá-lo, honrá-lo, temê-lo, servi-lo e obedecê-lo. O coração que o Senhor dá ao seu povo é diferente, porém, porque Ele faz com que Cristo se forme neles, para que, também na humildade, se assemelhem a Cristo.
Assim, a humildade resulta de um julgamento correto de si mesmo. Os humildes reconhecem que são feitos de pó e residem em tabernáculos de barro. Eles sabem que pecaram e destituídos estão da glória de Deus; são cegos, miseráveis, nus e miseráveis, e que são, portanto, abomináveis, odiosos e intoleráveis diante de Deus, dos anjos e dos homens. Eles sabem que não são dignos de que os céus os cubram, que o sol brilhe sobre eles, ou que caminhem sobre a terra, desfrutando da companhia dos homens, tendo um pedaço de pão para comer e tendo roupas para o corpo. Pelo contrário, eles são dignos de terem sido lançados no inferno há muito tempo.
Tal é o julgamento que fazem de si mesmos, e eles concordam com isso – mesmo que isso os condene. Percebem assim como seria errado se elevarem, fingindo que são dignos de alguma coisa. Quando se comparam com os outros, percebem-se como tolos, sem compreensão, com um caráter vergonhoso e difícil, e suas ações como dignas de desprezo. É assim que outros os conheceriam se os conhecessem tão bem internamente como os conhecem externamente. Como eles deveriam então ter pensamentos elevados sobre si mesmos? Eles consideram que outros estariam errados se pensassem algo deles ou desejassem prestar-lhes alguma honra. Eles reconhecem que o bem encontrado neles – do qual estão cientes e altamente—foi dado a eles por outro, a saber, Deus. Visto que isto continua a ser de Deus, eles seriam culpados da maior tolice se cobiçassem honra, amor ou estima por algo que lhes foi emprestado. (Um mendigo atrairia o desprezo se se vangloriasse de uma roupa cara que alguém lhe emprestou por um dia.)
O poema de Theodore Monod (1836-1921), mostra-nos o caminho para o quebrantamento e a morte para o ego.
NADA DO EU, TUDO DE TI!
Ai! Que tempo vergonhoso
Quando altivo resisti,
Ao meu Salvador bondoso
Respondendo desdenhoso:
Quero o Eu, não quero a Ti!Mas o Seu amor vencia
Quando sobre a Cruz O vi
E Jesus por mim pedia
Já meu coração dizia:
Quero o Eu e quero a Ti!Com ternura me amparava
Graça e força recebi
Mais e mais eu exultava
Mais humilde segredava:
Menos do Eu e mais de Ti!Por Seu grande amor vencido
Tudo ao meu Senhor cedi
Ao meu Salvador unido
Esse agora é o meu pedido:
Nada do Eu, só quero a Ti!