Recentemente eu estava ouvindo uma notícia no rádio, onde uma fabricante de automóveis famosa convocava os proprietários de uma modalidade específica de carro para dirigir-se a montadora mais próxima para fazer o ‘recall’ de uma peça do veículo para a segurança dos passageiros. O Recall normalmente acontece quando um fabricante detecta uma falha na fabricação de uma peça, em seguida, eles imediatamente fazem a substituição da peça gratuitamente ao reconhecer esta falha.
Pensando nisso, a Bíblia afirma que também possuímos defeitos de fábrica. Não porque o Fabricante errou no protótipo, mas porque o representante da humanidade cometeu uma falha e gerou seus descendentes a sua própria imagem (Gn 5.3). Chamamos isso de pecado original, todo o ser humano gerado após o pecado cometido pelo representante da humanidade que é Adão, vem com defeito em seu número de série. Não é apenas uma peça corrompida, mas o corpo, os sentimentos e inclusive a vontade do ser humano que está prejudicada pelo pecado oriundo da matriz.
No manual do Fabricante existe uma garantia vitalícia para aqueles que confiam no Criador: todos ficarão são e salvos com seus “veículos” até o fim de sua vida. Mas, os defeitos os acompanharão até o fim. Pense comigo, já que é impossível que possamos reparar todas essas “falhas” no trajeto desta vida, e se o Fabricante realizasse um desejo pessoal nosso de reparo? E se pudéssemos fazer um pedido e, nos desse o direito de fazer apenas uma escolha de reparo para “melhorar” nossa condição? Teríamos que passar um scanner em nossa vida para discernir qual seria o melhor reparo possível já que teríamos o direito de apenas uma escolha.
Então pediríamos o conselho das pessoas mais próximas, e também o conselho dos profissionais para nos ajudar a fazer a escolha certa. Qual seria a “peça” que faria uma diferença vital para que eu tenha uma significante melhoria no trajeto da minha vida? Podemos pensar em algumas virtudes.
Existem algumas virtudes desenvolvidas de conceitos bíblicos que são pessoais e nos fortalecem como pessoa, mas também trazem benefícios para a sociedade. Alguns exemplos são: Amor, Justiça, Coragem, Temperança. Mas e se eu pudesse escolher apenas uma nesse momento, qual eu escolheria?
Existe uma palavra na língua grega chamada de enkrateia. Ela foi mencionada algumas vezes na Bíblia pelos apóstolos, mas Paulo parece ter explorado mais este conceito. Afinal, do que se trata? Vamos observar no seguinte texto:
Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível
RA, 1Co 9.25 (grifo do autor).
Filosofia Grega
Na antiguidade clássica, eles discutiam bastante sobre a antropologia. Esse conceito estava muito ligado ao uso da razão e da capacidade do homem praticá-la pelo seu esforço, sendo assim, a enkrateia era a capacidade do indivíduo de governar a si mesmo. Também interpretavam como uma virtude de quem não se deixava escravizar pelos prazeres do corpo (comida, bebida, sexo) ou pelas paixões (ira, medo).
Para Sócrates (conforme registrado por Xenofonte), a enkrateia não era apenas uma virtude entre outras, mas “a base de todas as virtudes” (virtutem fundamentum). Sem o domínio próprio, o ser humano seria incapaz de buscar a sabedoria ou a justiça, tornando-se indistinguível de um animal selvagem que apenas reage aos estímulos e cai em armadilhas pelo apetite.
Essas virtudes foram muito debatidas pelos filósofos, e com o passar do tempo, foram ganhando novos significados. Embora se assemelhe muito com a virtude da Temperança (Sophrosyne), não se trata dela, pois, teoricamente, para Aristóteles a temperança se refere a uma pessoa equilibrada cujos desejos já estão em perfeita harmonia com a razão. Essa pessoa não precisa “lutar” contra si mesma para executar esse domínio.
Teologia Paulina
Quando Paulo escreve suas epístolas em grego no século I, ele adota o termo enkrateia, mas subverte a sua mecânica interna. O autodomínio deixa de ser um esforço autônomo do ego e passa a ser uma consequência da habitação divina.
No famoso catálogo das virtudes cristãs, Paulo lista o autodomínio:
“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (enkrateia)…”
RA, Gl 5.22-23
O paradoxo teológico aqui é crucial: para a filosofia grega, a enkrateia vinha do eu (a razão governando os impulsos). Para Paulo, o domínio próprio é um fruto do Espírito Santo. É o “eu” sendo governado por Deus para, então, conseguir governar a si mesmo. Não é força de vontade isolada; é dependência espiritual.
Exemplo de Uso da Palavra Enkrateia
O conceito de autodomínio para o apóstolo não estava apenas no campo da ideia ou da razão, mas era uma marca que deveria acompanhar aqueles que nasceram de novo. Quando nos atentarmos para esta palavra e o seu significado, perceberemos que ela fazia parte do conteúdo da mensagem evangélica e Apostólica.Veja:
Dissertando ele (Paulo) acerca da justiça, do domínio próprio (enkrateia) e do Juízo vindouro, ficou Félix amedrontado e disse: Por agora, podes retirar-te, e, quando eu tiver vagar, chamar-te-ei;
RA, At 24.25.
Aqui existe algo interessante: se de um lado o conceito Paulino diz que aqueles que praticam o domínio próprio demonstram o fruto do Espírito e o pertencimento a Cristo (1 Co 6.20), por outro lado, aqueles que não praticam o domínio próprio demonstram que vivem como animais, “servem seu próprio ventre” (Rm 16.18; Fp 3.19), conforme o conceito filosófico secular. Essa palavra tem dois gumes.
Veja que diante de Félix a enkrateia mencionada menciona o testemunho cristão e prepara o caminho da mensagem do Juízo de Deus, mas para Félix o ímpio, o pavor toma conta de seu coração, pois ele havia roubado a mulher de outro Rei, estava em adultério.
Exemplos Práticos
Certo dia no seminário (2017), um professor de Língua Grega gastou alguns poucos minutos abordando a palavra enkrateia e nos alertou em sala de aula:
“…olha, se você tem dificuldades em se controlar diante de algumas situações, se você tem necessidade de ficar retrucando e e falando, não entre no ministério! isso é coisa séria!”
Confesso que ficou uma curiosidade sobre o estudo dessa palavra, e também um ar de indireta, mas eu nunca tinha estudado ela de fato até que agora, 9 anos depois, eu acordo as 4:30 pensando nela.
Após anos de formação, após ter caído no gap entre seminário e igreja, quando olho para trás e me pergunto porque ainda não estou de fato no ministério, ecoa o seguinte som: Enkrateia, enkrateia, enkrateia…
Porque não tenho sido um melhor pai e um melhor esposo? Enkrateia, enkrateia, enkrateia…
Ou então, porque nós discutimos nas redes sociaispor causa de teologia ou de políticos que pouco se importam conosco? Enkrateia…
Porque desejamos ser professores enquanto deveríamos ser alunos? Enkrateia…
Porque temos tanta necessidade em nos justificar quando somos questionados? Enkrateia…
Porque os políticos não se contentam com seu salário e acabam desviando dinheiro alheio? Falta de enkrateia…
Porque nosso orgulho se manifesta quando conversamos sobre assuntos que “dominamos”? Falta de domínio próprio…
Resumo
Existe uma riqueza muito grande em meditar sobre esse assunto, talvez um dia alguém escreva um livro apenas sobre esse tema, mas por hora, como uma introdução é suficiente para nossa meditação.
Talvez você já tenha maturidade e tenha esse domínio como “base de todas as virtudes“, isso não te exime de buscar as demais virtudes. Ou talvez, você, assim como eu, tenha discernido que precisa do recall dessa peça urgente.
Quando paro para refletir sobre a necessidade do domínio próprio, parece que ela é uma peça de convergência fundamental para a nossa maturidade. Temos uma facilidade muito grande em consumir conteúdo, mas esse conhecimento não tem convergido em uma estrutura sábia e madura que “encorpa” nossa vida. Parece que nossa cabeça está inflada com informações, mas nosso corpo está raquítico e fraco. É como uma pessoa que come e não engorda, o esôfago está inflamado, o estômago não tem exercido bem o seu papel. Parece que entre a boca e o órgão digestivo existisse o espaço da enkrateia, onde converge o alimento sólido em nutrientes para o corpo.
Precisamos do recall da enkrateia urgente!
É por isso que, hipoteticamente, já que o “Fabricante” me deu o direito de escolher apenas uma “peça” para me ajudar a viver nesse mundo e e servir ao próximo, o meu pedido é:
Óh Senhor, dá me enkrateia!
Não deixe que o impulso da minha carne revele que eu vivo apenas para mim,
Não deixe Óh Deus que minhas emoções e o meu orgulho roubem a tua glória,
Não deixe que as minhas reações maculem a imagem do Deus de toda a glória,
Dá me enkrateia Senhor!
Dá me a graça de ser teu servo em minha casa como almejo servir em tua igreja,
Dá me a graça de convergir o conhecimento adquirido em vida prática!
Dá me a graça de me calar quando o meu coração quer gritar,
Dá me a graça de desaparecer para que Cristo possa se manifestar!
Dá nos Senhor da tua graça.
Seu Servo,
Rafael Soletti
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