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#06 Sobre os Méritos

O Que é Mérito?

Por mérito, entendemos qualquer coisa ou obra pela qual o favor de Deus e a vida eterna são obtidos; e isso devido à dignidade e excelência da obra ou coisa realizada. Ou, ainda, uma boa obra feita, que obriga aquele que a recebe a retribuir da mesma forma.

Nosso Consentimento com Roma

No que diz respeito aos méritos, concordamos com Roma em duas conclusões.
A primeira conclusão é que os méritos são necessários até certo ponto, pois sem eles não pode haver salvação.
A segunda é que Cristo, nosso Mediador e Redentor, é a raiz e a fonte de todo mérito.

A Dissidência ou Diferença com Roma

A Igreja papista coloca os méritos dentro do homem, fazendo duas distinções: o mérito da pessoa e o mérito da obra.

  • O mérito da pessoa é uma dignidade inerente à pessoa, pela qual ela é digna da vida eterna. E isso (segundo eles) se encontra nos bebês que morrem após o batismo, os quais, embora careçam de boas obras, não estão desprovidos desse tipo de mérito, pelo qual recebem o Reino dos Céus.
  • O mérito da obra é uma dignidade ou excelência na obra, pela qual ela se torna apta e capaz de merecer a vida eterna para quem a realiza. E as obras (segundo ensinam) são meritórias de duas formas:
    1. Por aliança, porque Deus prometeu recompensa a elas.
    2. Pela sua própria dignidade, pois Cristo mereceu para que nossas obras também pudessem merecer.

E essa é a essência de sua doutrina. Dela discordamos nos seguintes pontos:

  1. Renunciamos a todos os méritos pessoais, ou seja, qualquer mérito dentro da pessoa de qualquer mero homem.
  2. Renunciamos a todo mérito das obras, ou seja, qualquer mérito de qualquer obra feita por qualquer mero homem.

O verdadeiro mérito pelo qual esperamos alcançar o favor de Deus e a vida eterna encontra-se unicamente na pessoa de Cristo, que é o repositório de todos os nossos méritos. É prerrogativa exclusiva Dele ser a única pessoa em quem Deus tem prazer. O favor de Deus é de dignidade infinita, e nenhuma criatura é capaz de realizar uma obra que possa equivaler ao favor de Deus, exceto Cristo. Devido à dignidade de Sua pessoa, sendo não apenas um mero homem, mas Deus-Homem, Ele pode realizar obras de dignidade infinita, plenamente proporcionais ao favor de Deus, e, portanto, suficientes para merecê-lo por nós.

E embora o mérito ou a obra meritória pertença apenas à pessoa de Cristo, ele nos é imputado. Assim como Sua justiça nos é imputada, assim também os méritos que dela dependem. Mas Sua justiça nos é imputada, como já demonstrei. Daqui decorre outro ponto, a saber: assim como a justiça de Cristo nos é realmente imputada para nos tornar justos, assim também, pelo mérito de Sua justiça imputada a nós, merecemos e obtemos a vida eterna.

Essa é a nossa doutrina. Em resumo, o papista sustenta os méritos de suas próprias obras; mas nós os rejeitamos totalmente e confiamos apenas no mérito de Cristo. E para demonstrar que nossa doutrina é verdadeira e a deles falsa, apresentarei várias razões e responderei aos seus argumentos contrários.


Nossas Razões

Razão 1

A primeira razão é baseada nas propriedades e condições que devem estar presentes em uma obra meritória, e são quatro:

  1. O homem deve realizá-la por si mesmo e para si mesmo, pois se for feita por outro, o mérito não pertence propriamente ao agente.
  2. O homem deve realizá-la voluntariamente e não por obrigação, pois, ao fazer o que é seu dever, ele não faz mais do que sua obrigação.
  3. A obra deve ser feita em benefício de outro, que, por consequência, deve ser obrigado a retribuir da mesma forma.
  4. A recompensa e a obra devem ser proporcionais, pois, se a recompensa for maior que a obra, ela não é uma retribuição de mérito, mas um presente de boa vontade.

Daí decorre uma conclusão notável: a humanidade de Cristo, considerada separadamente de Sua divindade, não pode merecer diante de Deus, ainda que seja incomparavelmente mais excelente que todos os homens e anjos juntos. Pois, assim considerada, nada faz por si mesma, mas apenas pela graça recebida da divindade, ainda que sem medida. Além disso, a humanidade de Cristo é uma criatura e, como tal, está obrigada a fazer tudo o que faz. E, sendo homem, Cristo não pode dar nada a Deus senão aquilo que Dele recebeu. Assim, a humanidade de Cristo, por si só, não pode merecer, mas apenas enquanto unida pessoalmente à divindade do Filho. Se isso é verdade, então muito menos pode qualquer mero homem ou anjo merecer algo diante de Deus. Sim, é uma loucura pensar que nossas ações ou pessoas possam ser dignas de algum mérito pelo qual possamos alcançar a vida eterna.

Razão 2

Em Êxodo 20:8, está escrito: “E uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos.”
Daqui se conclui: onde a recompensa é concedida por misericórdia, não há mérito. Mas a recompensa é dada por misericórdia àqueles que cumprem a lei. Logo, não há mérito. O que podemos merecer se nossa recompensa final depende da misericórdia? Isso também fica claro em relação a Adão: se ele tivesse permanecido obediente até hoje, não poderia, por sua contínua e perfeita obediência, ter obtido um favor maior de Deus, mas apenas mantido o estado feliz no qual foi criado.

Razão 3

A Escritura condena diretamente o mérito das obras. Romanos 6:23 declara: “O salário do pecado é a morte, mas o DOM GRATUITO DE DEUS é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.”
O argumento exige que Paulo dissesse: “A recompensa das boas obras é a vida eterna”, se esta pudesse ser merecida. Mas isso ele não disse, pois a vida eterna é um dom gratuito.

Novamente, em Tito 3:5, lemos: “Ele nos salvou, não por obras de justiça que tivéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia.” E Efésios 2:8-10 diz: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é dom de Deus; não vem das obras, para que ninguém se glorie.”

Se alguma obra fosse coroada com mérito, certamente seriam os sofrimentos dos mártires. Mas Paulo afirma em Romanos 8:18: “Os sofrimentos deste tempo presente NÃO SÃO DIGNOS de serem comparados com a glória que em nós há de ser revelada.” Então, onde está o valor e a dignidade das outras obras?

Razão 4

Quem quer que deseje merecer deve cumprir toda a lei, mas ninguém pode guardá-la integralmente. Pois está escrito: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos.” (1 João 1:8) E “Quem tropeça em um só mandamento torna-se culpado de todos.” (Tiago 2:10) Como, então, pode merecer algo aquele que é culpado de transgredir toda a lei?

Razão 5

Fomos ensinados a orar assim: “O pão nosso de cada dia nos dá hoje.” (Mateus 6:11)
Ao fazer isso, reconhecemos que cada pedaço de pão é um dom gratuito de Deus, sem mérito nosso. Quanto mais devemos reconhecer que a vida eterna é um dom gratuito de Deus? Portanto, é uma presunção satânica qualquer homem imaginar que pode merecer a vida eterna por suas obras, quando não pode sequer merecer pão.

Razão 6

O consentimento da Igreja Antiga.

Bernardo
Aqueles que chamamos de nossos méritos são o caminho para o Reino, e não A CAUSA DE REINAR.

Agostinho
Toda a minha esperança está na morte do meu Senhor. Sua morte é o meu mérito—: meu MÉRITO É A PAIXÃO DO SENHOR. Não ficarei sem méritos, enquanto a misericórdia de Deus não me faltar. (Manual, cap. 22.)

Basílio
No Salmo 114. O descanso eterno está reservado para aqueles que lutaram legitimamente nesta vida: não PELOS MÉRITOS de suas obras, mas pela graça do Deus mais generoso, na qual confiaram.

Agostinho sobre o Salmo 120
“Ele te coroa, porque coroa os seus próprios dons, não os teus méritos.”
E, no Salmo 142: “Senhor, tu me vivificarás na tua justiça, não na minha: não porque eu tenha merecido, mas porque tu tens compaixão.”


Objeções dos Papistas

Objeção 1

Em vários lugares da Escritura, é feita a promessa de recompensa para aqueles que creem e fazem boas obras; portanto, nossas obras merecem, pois recompensa e mérito são relativos.

Resposta
A recompensa é de dois tipos: por dívida e por misericórdia. A vida eterna não é uma recompensa por dívida, mas por misericórdia, dada pela boa vontade de Deus, sem que o homem tenha feito algo para merecê-la.

Em segundo lugar, o Reino dos Céus é propriamente uma herança dada de um Pai para um filho e, portanto, é chamado de recompensa não de forma estrita, mas figurada. Assim como um trabalhador, tendo terminado seu labor, recebe seu salário; da mesma forma, após os homens terem conduzido suas vidas e concluído sua jornada mantendo a fé e a boa consciência, Deus lhes concede a vida eterna.

Em terceiro lugar, se eu concedesse que a vida eterna é uma recompensa merecida, não seria por nossas obras, mas pelo mérito de Cristo imputado a nós, fazendo com que, por meio Dele, possamos merecê-la.


Objeção 2

Cristo, por sua morte, mereceu que nossas obras também merecessem a vida eterna.

Resposta
Isso é falso. Tudo o que encontramos na Escritura é que Cristo, por seu mérito, obteve o perdão dos pecados, a imputação da justiça e a vida eterna. Em nenhum lugar da Palavra de Deus está dito que Cristo mereceu que nossas obras também merecessem.

Cristo morreu não para que nossas boas obras fossem capazes de satisfazer a ira de Deus, mas para que nossos pecados fossem perdoados. Isso é tudo o que a Escritura ensina.

Além disso, Cristo é o único Mediador. Se os homens pudessem merecer aumento de graça e felicidade por suas próprias obras, então teriam parte na obra da redenção, o que é contrário à verdade bíblica.


Objeção 3

Nossas obras merecem por barganha ou pacto, porque Deus prometeu recompensá-las.

Resposta
A Palavra de Deus estabelece dois pactos: um legal e outro evangélico. No pacto legal, a vida eterna é prometida àqueles que cumprem a Lei: “Faz estas coisas e viverás.” Mas nenhum homem pode cumprir toda a Lei, e, portanto, ninguém pode merecer a vida eterna.

No pacto evangélico, as promessas não são feitas às obras, mas às pessoas que crêm em Cristo. Assim, a promessa “Sê fiel até a morte, e eu te darei a coroa da vida” (Apocalipse 2:10) não é feita à fidelidade em si, mas à pessoa fiel em Cristo.


Objeção 4

Boas obras são perfeitas e sem culpa, pois são obras do Espírito Santo, que não pode pecar; portanto, elas merecem.

Resposta
Se as obras procedessem apenas e imediatamente do Espírito Santo, então seriam sem culpa. Mas como são feitas através da vontade e entendimento do homem, são manchadas pelo pecado.

Assim como a água pura de uma fonte, passando por um canal sujo, se contamina, assim também nossas boas obras são afetadas por nossa natureza pecaminosa.


Objeção 5

Cristo disse em Apocalipse 3:4 que os fiéis de Sardes andarão com Ele de branco, porque são dignos; logo, os crentes merecem.

Resposta
Os crentes são dignos de andar com Cristo, mas não por mérito próprio, e sim porque estão unidos a Cristo e enriquecidos com seus méritos e justiça.


Objeção 6

Em 2 Timóteo 4:8, a vida eterna é chamada de “coroa de justiça”, dada por um justo juiz; portanto, o homem merece essa recompensa por suas obras.

Resposta
A vida eterna é chamada de “coroa” apenas por analogia, pois assim como um corredor deve terminar sua corrida antes de ser coroado, também devemos perseverar até o fim para receber a vida eterna.

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#05 – A Doutrina Reformada a Respeito da Justificação de um Pecador

Nossa doutrina sobre a justificação de um pecador, proponho em quatro regras.

Regra 1
Que a justificação é uma ação de Deus, pela qual Ele absolve um pecador e o aceita para a vida eterna pela justiça e mérito de Cristo.

Regra 2
Que a justificação consiste em duas coisas: primeiro, na remissão dos pecados pelo mérito da morte de Cristo; segundo, na imputação da justiça de Cristo; que é outra ação de Deus pela qual Ele considera e estima aquela justiça que está em Cristo como a justiça daquele pecador que crê nele. Pela justiça de Cristo devemos entender duas coisas: primeiro, seus sofrimentos, especialmente em sua morte e paixão; segundo, sua obediência em cumprir a lei; ambas as quais andam juntas: pois Cristo, ao sofrer, obedeceu, e ao obedecer, sofreu. E o próprio derramamento de seu sangue, ao qual nossa salvação é atribuída, não deve ser considerado apenas como algo passivo, isto é, um sofrimento, mas também como algo ativo, isto é, uma obediência, na qual Ele demonstrou seu amor excedente tanto ao Pai quanto a nós, e assim cumpriu a lei por nós. Se alguns tivessem refletido bem sobre este ponto, não teriam colocado toda a justificação na remissão dos pecados, como o fazem.

Regra 3
Que a justificação vem da mera misericórdia e graça de Deus, obtida somente pelo mérito de Cristo.

Regra 4
Que o homem é justificado somente pela fé; porque a fé é o único instrumento criado no coração pelo Espírito Santo, pelo qual um pecador se apega à justiça de Cristo e a aplica a si mesmo. Não há esperança, nem amor, nem qualquer outra graça de Deus no homem que possa fazer isso, mas somente a fé.

A Doutrina da Igreja Romana sobre a Justificação de um Pecador

Eles sustentam que antes da justificação ocorre uma preparação; que é uma ação realizada em parte pelo Espírito Santo e em parte pelo poder da livre vontade natural, pela qual o homem se dispõe à sua própria justificação futura.

Na preparação, consideram o fundamento da justificação e as coisas que dela procedem. O fundamento é a fé, que definem como um conhecimento geral, pelo qual entendemos e acreditamos que a doutrina da palavra de Deus é verdadeira. As coisas que procedem dessa fé são as seguintes: uma visão dos nossos pecados, o temor do inferno, a esperança da salvação, o amor de Deus, o arrependimento e semelhantes: todas estas, quando os homens as alcançam, dizem eles, tornam-se plenamente dispostos para sua justificação.

Feita essa preparação, então vem a própria justificação: que é uma ação de Deus, pela qual Ele torna o homem justo. Ela tem duas partes: a primeira e a segunda. A primeira é quando um pecador, sendo um homem mau, se torna um homem bom. E para isso, são necessárias duas coisas: primeiro, o perdão dos pecados, que é uma parte da primeira justificação; segundo, a infusão de justiça interior, pela qual o coração é purificado e santificado: e este hábito de justiça consiste especialmente em esperança e caridade.

Após a primeira justificação, segue-se a segunda; que é quando um homem bom ou justo se torna melhor e mais justo: e isso, dizem eles, pode proceder das obras de graça: porque aquele que é justo pela primeira justificação pode produzir boas obras, pelas quais se torna mais justo e mais reto: e ainda assim, concedem que a primeira justificação vem apenas da misericórdia de Deus, pelo mérito de Cristo.

Agora, vamos aos pontos de diferença entre nós e eles a respeito da justificação.

I. Diferença na MATÉRIA da Justificação

A primeira grande diferença está na matéria da justificação, que será vista pela resposta tanto do Protestante quanto do Papista a esta única questão:


O que é a coisa própria que faz um homem se manter justo diante de Deus e ser aceito à vida eterna? Nós respondemos: nada além da justiça de Cristo, que consiste em parte nos seus sofrimentos e em parte na sua obediência ativa no cumprimento rigoroso da lei. E aqui devemos considerar o quão próximo os Papistas chegam dessa resposta, e onde discordam.

Consentimento 1
Eles concedem que, na justificação, o pecado é perdoado pelos méritos de Cristo, e que ninguém pode ser justificado sem a remissão dos pecados: e isso está bem.

Consentimento 2
Eles concedem que a justiça pela qual um homem é feito justo diante de Deus vem de Cristo, e de Cristo somente.

Consentimento 3
Os mais eruditos entre eles dizem que a satisfação de Cristo e o mérito de sua morte são imputados a todo pecador que crê, para sua satisfação diante de Deus (Bellar. de justif. lib. 2. cap. 7) e até aqui estamos de acordo.

O ponto exato de diferença é este: nós sustentamos que a satisfação feita por Cristo em sua morte, e sua obediência à lei, é imputada a nós e se torna nossa justiça. Eles dizem que é nossa satisfação, e não nossa justiça, pela qual estamos justificados diante de Deus, porque ela é inerente na pessoa de Cristo, como em um sujeito.

Agora, a resposta do Papista à questão anterior é mais ou menos esta: A coisa (diz ele) que nos faz justos diante de Deus, e nos faz ser aceitos à vida eterna, é a remissão dos pecados, e o hábito de justiça interior, ou caridade com seus frutos. Nós concordamos e reconhecemos que o hábito de justiça, que chamamos de santificação, é um excelente dom de Deus: e tem sua recompensa de Deus: e é a matéria de nossa justificação diante dos homens, porque serve para nos declarar reconciliados com Deus e justificados: ainda assim, negamos que seja a coisa que nos faz passar de pecadores a justos diante de Deus.

E este é o primeiro ponto de nossa discordância na matéria da justificação: o que deve ser observado, porque se não houvesse mais pontos de diferença entre nós, este único seria suficiente para nos impedir de unir nossas religiões, pois por meio disso a Igreja de Roma destrói o próprio fundamento.

Agora, vejamos com quais razões justificamos nossa doutrina e, em segundo lugar, respondemos às objeções contrárias.

Nossas Razões

Razão 1
A coisa mesma que deve ser nossa justiça diante de Deus deve satisfazer a justiça da lei, que diz: faça essas coisas e você viverá. Agora, nada pode satisfazer a justiça da lei, a não ser a justiça ou obediência de Cristo por nós. Se alguém alegar a justiça civil, isso não serve de nada: pois Cristo diz: “Se a vossa justiça não exceder a justiça dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus.” O que? Devemos dizer que as obras nos tornam justos? Isso não pode ser: pois as obras de todos os homens são defeituosas em relação à justiça da lei. Devemos dizer nossa santificação, pela qual somos renovados à imagem de Deus em justiça e verdadeira santidade? Isso também é imperfeito e não pode satisfazer a justiça de Deus requerida na lei, como Isaías disse de si mesmo e do povo: “Toda nossa justiça é como um pano de mulher menstruada.” Ter uma consciência limpa diante de Deus é uma parte principal da justiça interior; e sobre isso Paulo, em sua própria pessoa, diz: “Nada sei contra mim mesmo, mas não me considero justificado por isso” (1 Coríntios 4:4). Portanto, nada pode nos procurar uma absolvição e aceitação para a vida eterna, a não ser a justiça imputada de Cristo. E isso ficará claro se considerarmos como devemos comparecer um dia diante do tribunal de Deus, para ser julgados segundo o rigor da justiça, pois devemos trazer algo que possa contrabalançar a justiça de Deus, não apenas aceitação pela misericórdia, mas também aprovação pela justiça, Deus sendo não só misericordioso, mas também um justo juiz.

Razão 2
2 Coríntios 5:21: “Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós, para que nós fôssemos feitos a justiça de Deus nele.” Daí eu raciocino assim: Assim como Cristo foi feito pecado por nós, nós fomos feitos a justiça de Deus nele: mas Cristo foi feito pecado, ou pecador, pela imputação dos nossos pecados, sendo ele mesmo totalmente santo; portanto, o pecador é feito justo diante de Deus, quando a justiça de Cristo é imputada e aplicada a ele. Agora, se alguém disser que o homem é justificado pela justiça infusa, então, com o mesmo raciocínio, eu digo que Cristo foi feito pecado por nós pela infusão do pecado, o que é blasfêmia. E a explicação desse versículo por São Jerônimo não deve ser desprezada. Cristo (diz ele) sendo oferecido pelos nossos pecados, tomou o nome de pecado, para que nós pudéssemos ser feitos a justiça de Deus nele, NÃO NOSSA, NEM EM NÓS. Se essa justiça de Deus não é nem nossa, nem em nós, então não pode ser uma justiça inerente, mas deve ser uma justiça imputada. E Crisóstomo, sobre este versículo, diz: “Ela é chamada justiça de Deus, porque não é de obras, e porque deve ser SEM MANCHA ou falta; e isso não pode ser justiça inerente.” Anselmo diz: “Ele foi feito pecado como nós somos feitos justiça: não nossa, mas de Deus, não em nós, mas nele; assim como ele foi feito pecado não seu, mas nosso; não em si mesmo, mas em nós.”

Razão 3
Romanos 5:19: “Assim como pela desobediência de um homem muitos se tornaram pecadores, assim pela obediência de um, muitos serão feitos justos.” Observe aqui uma comparação entre o primeiro e o segundo Adão. Daí, raciocino assim: Assim como pela desobediência do primeiro Adão os homens se tornaram pecadores, assim pela obediência do segundo Adão, nós somos feitos justos. Agora, não somos feitos apenas pecadores pela propagação da corrupção natural, mas pela imputação. Pois o primeiro pecado de Adão foi o comer do fruto proibido; esse ato específico não é uma ofensa pessoal, mas é imputado a toda a sua posteridade, em quem todos nós pecamos. Os Pais (Irineu, lib. 5, cap. 17; Crisóstomo, homilia a Neófitos) chamam esse pecado de “escrita de Adão”, fazendo-nos devedores de Deus. Portanto, da mesma forma, a obediência de Cristo é feita a justiça de todo crente, não por infusão, mas por imputação.

Razão 4
Uma satisfação feita pela falta daquela justiça ou obediência que a lei exige de nossas mãos, é aceita por Deus como a própria justiça. Mas a obediência de Cristo é uma satisfação feita pela falta daquela justiça ou obediência que a lei exige, como os próprios Papistas afirmam. Portanto, essa satisfação é nossa justiça. E, a meu ver, os Papistas, considerando isso, têm pouco motivo para discordar de nós. Pois, se eles fazem da obediência de Cristo sua satisfação, por que não deveriam se unir totalmente a nós e também fazer dela sua justiça?

Razão 5
O consentimento da Igreja antiga.

Bernardo
Ele diz, na epístola 190: “A JUSTIÇA DE OUTRO é atribuída ao homem: aquele que não tinha sua própria justiça, estava endividado, e o homem fez o pagamento. A SATISFAÇÃO DE UM É IMPUTADA a todos. E por que a justiça não pode ser de outro, assim como a culpabilidade é de outro?”
Em Cântico, sermão 25, ele afirma: “Basta-me, para toda a justiça, ter ele sozinho misericórdia de mim, contra quem eu pequei. E não pecar é a justiça de Deus, A JUSTIÇA DO HOMEM É A MISERICÓRDIA DE DEUS.”
Em sermão 61: “Devo cantar minha própria justiça? Senhor, eu lembrarei apenas de tua justiça, pois ELA É TAMBÉM MINHA, visto que até mesmo tu foste feito para mim justiça de Deus. O que, devo temer que um não seja suficiente para ambos? Não é um manto curto que não pode cobrir dois; ele cobrirá tanto a ti quanto a mim largamente, sendo ambos uma grande e eterna justiça.”

Agostinho
No Salmo 22, ele ora por nossas falhas e fez nossas falhas suas, para que ele pudesse fazer SUA JUSTIÇA NOSSA JUSTIÇA.


Objeções dos Papistas

As objeções dos Papistas que tentam provar que a justiça inerente é a matéria da nossa justiça diante de Deus são as seguintes:

Objeção 1
É absurdo que um homem seja feito justo pela justiça de outro, pois é o mesmo que se um homem fosse feito sábio pela sabedoria de outro.

Resposta
É verdade que nenhum homem pode ser feito justo pela justiça pessoal de outro, porque isso diz respeito apenas a um homem. E porque a sabedoria que está em um homem é inteiramente dele, ela não pode ser a sabedoria de outro; assim como a saúde e a vida de um corpo não podem ser a saúde de outro. Mas é diferente com a justiça de Cristo: ela é dele de fato, porque é inerente a ele como sujeito; não é somente dele, mas dele e nossa, pelo acordo da Aliança da Graça. Cristo, como Mediador, é dado a todo crente tão realmente e verdadeiramente como a terra é dada de homem a homem; e com ele são dadas todas as coisas que concernem à salvação, sendo feitas nossas pelo dom gratuito de Deus, entre as quais está a justiça de Cristo. Por meio dela, portanto, como sendo uma coisa nossa, podemos ser justificados diante de Deus e aceitos para a vida eterna.

Objeção 2
Se um pecador for justificado pela justiça de Cristo, então todo crente será tão justo quanto Cristo, o que não pode ser.

Resposta
A proposição é falsa, pois a justiça de Cristo não é aplicada a nós da mesma maneira em que está em Cristo; nem na mesma medida, nem da mesma forma. Pois a obediência dele ao cumprir a lei está acima da justiça de Adão, sim, acima da justiça de todos os anjos. Pois todos eles eram apenas criaturas, e sua obediência era a obediência de criaturas; mas a obediência de Cristo é a obediência ou justiça de Deus, como está em Romanos 1:17-18, 2 Coríntios 5:21, não apenas porque Deus a aceitou, mas porque estava na pessoa que é Deus. Quando Cristo obedeceu, Deus obedeceu; e quando ele sofreu, Deus sofreu: não porque a divindade sofreu ou realizou alguma obediência, mas porque a pessoa que, segundo uma natureza, é Deus, obedeceu e sofreu. E por isso, a justiça dele tem valor, preço, mérito e eficácia infinitos. Daí também resulta que essa obediência de Cristo serve não só para justificar uma única pessoa (como a de Adão), mas todas e cada uma das pessoas eleitas; sim, ela é suficiente para justificar muitos milhares de mundos. Agora, para chegar ao ponto, essa justiça que está em Cristo, em sua largueza e medida, pertence a nós de maneira mais estreita, porque é recebida pela fé, na medida em que serve para justificar qualquer crente particular. Mas eles argumentam ainda mais, dizendo: “Se a justiça de Cristo é a justiça de cada crente, então todo homem deveria ser um Salvador”, o que é absurdo.


Eu respondo como antes, e de forma ainda mais clara: a justiça de Cristo é imputada à pessoa deste ou daquele homem, não como o preço da redenção para toda a humanidade, mas como o preço da redenção para um homem particular: por exemplo, a justiça de Cristo é imputada a Pedro, não como o preço da redenção de todos, mas como o preço da redenção de Pedro. E, portanto, a justiça de Cristo não é aplicada a nenhum pecador naquela largueza e medida em que está na pessoa de Cristo, mas somente até o ponto em que serve para satisfazer a lei em favor do referido pecador, e para fazer sua pessoa aceita por Deus como justa, e não mais.

Objeção 3
Se somos feitos justos pela justiça de Cristo verdadeiramente, então Cristo é um pecador verdadeiramente pelos nossos pecados: mas Cristo não é de fato um pecador pelos nossos pecados.

Resposta
Podemos, com reverência à sua majestade, dizer de forma adequada que Cristo foi um pecador, e verdadeiramente, não por qualquer infusão de pecado em sua pessoa mais santa; mas porque os nossos pecados foram colocados sobre ele: assim diz o Espírito Santo, “aquele que não conheceu pecado, foi feito pecado por nós,” e ele foi contado entre os pecadores, Isaías 53:3, mas ainda assim, mesmo então, em si mesmo ele estava sem mancha, sim, mais santo do que todos os homens e anjos. Crisóstomo, em 2 Coríntios 5:21, disse: “Deus permitiu que Cristo fosse condenado como pecador. Ele fez o Justo ser um pecador, para que ele pudesse fazer os pecadores justos.”

Objeção 4
Se um homem é feito justo por imputação, então Deus julga os pecadores como justos: mas Deus não julga nenhum pecador como justo, pois isso é abominação para o Senhor.

Resposta
Quando Deus justifica um pecador pela justiça de Cristo, ao mesmo tempo, ele deixa de ser pecador em relação à culpa e, a quem Deus imputa justiça, ele santifica nesse mesmo instante pelo seu Espírito Santo; dando também à corrupção original a ferida mortal.

Objeção 5
Aquilo que Adão nunca perdeu, nunca foi dado por Cristo: mas ele nunca perdeu a justiça imputada; portanto, nunca foi dada a ele.

Resposta
A proposição não é verdadeira: pois a fé salvadora, que Adão nunca perdeu, nos é dada em Cristo; e Adão nunca teve este privilégio, que após a primeira graça, a segunda o seguisse; e, por isso, sendo deixado a si mesmo, ele caiu de Deus; e ainda assim, essa misericórdia é concedida a todos os crentes, que após sua primeira conversão, Deus continuará a confirmá-los com nova graça; e por meio disso, eles perseveram até o fim. E quanto à afirmação de que Adão não teve justiça imputada: respondo que ele a teve substancialmente, embora não no modo de aplicação por imputação.

Objeção 6
A justificação é eterna: mas a imputação da justiça de Cristo não é eterna, pois ela cessa no fim desta vida; portanto, não é ela que justifica o pecador.

Resposta
A imputação da justiça de Cristo é eterna: pois aquele que é considerado justo nesta vida pela justiça de Cristo, é aceito como justo para sempre; e a remissão dos pecados concedida nesta vida é continuada para sempre. E embora a santificação seja perfeita no mundo vindouro, ela não justificará; pois devemos conceber isso da seguinte forma após esta vida: como um fruto que brota da justiça imputada de Cristo, sem a qual não poderia existir. E um bom filho não jogará fora a primeira vestimenta, porque seu pai lhe dá uma segunda. E o que se, a justiça interna for perfeita no fim desta vida, devemos nós então fazer dela a matéria de nossa justificação? Deus o proíba. Pois a justiça pela qual os pecadores são justificados, deve ser obtida durante a vida, antes das dores da morte.

II. Diferença sobre o MODO de Justificação.
A Primeira Diferença
Todos, tanto Papistas quanto Protestantes, concordam que um pecador é justificado pela fé. Essa concordância é apenas em palavras, e a diferença entre nós é de fato grande. E pode ser reduzida a esses três pontos. Primeiro, o Papista, ao dizer que um homem é justificado pela fé, entende uma fé geral ou católica, pela qual um homem acredita que os artigos da religião são verdadeiros. Mas nós sustentamos que a fé que justifica é uma fé particular, pela qual aplicamos a nós mesmos as promessas de justiça e vida eterna por Cristo. E que a nossa opinião é a verdade, já provei anteriormente, mas vou adicionar uma ou duas razões.

Razão 1
A fé pela qual vivemos é a fé pela qual somos justificados: mas a fé pela qual vivemos espiritualmente é uma fé particular pela qual aplicamos Cristo a nós mesmos, como Paulo diz em Gálatas 2.20: “Eu vivo, isto é, espiritualmente, pela fé no Filho de Deus,” fé que ele mostra ser uma fé particular em Cristo, nas próprias palavras seguintes: “que me AMOU e se entregou POR MIM, particularmente.” E dessa maneira de crer, Paulo foi e é um exemplo para todos os que devem ser salvos, 1 Tim. 1.16 e Filipenses 3.15.

Razão 2
Aquilo que devemos pedir a Deus em oração, devemos crer que nos será dado, conforme pedimos: mas em oração devemos pedir o perdão dos nossos próprios pecados e o mérito da justiça de Cristo para nós mesmos; portanto, devemos crer o mesmo de forma particular. A proposição é uma regra da palavra de Deus, que exige que em cada petição levemos uma fé particular, pela qual cremos que a coisa pedida de forma legítima será dada conforme o pedido. Marcos 11.24. A menor também é evidente, e não pode ser negada: pois somos ensinados pelo próprio Cristo a orar assim: “Perdoa-nos as nossas dívidas”, e a isso dizemos: Amém, isto é, que nossas petições serão sem dúvida alguma concedidas a nós. (Agostinho, sermão sobre o Tempo, 182).

E note aqui que a Igreja de Roma, na doutrina da justificação pela fé, corta a parte principal e a propriedade dela. Pois na fé justificadora, duas coisas são exigidas: primeiro, o CONHECIMENTO REVELADO na palavra sobre os meios de salvação; segundo, a APLICAÇÃO das coisas conhecidas a nós mesmos, o que alguns chamam de confiança. Agora, o primeiro, eles reconhecem, mas o segundo, que é a própria substância e parte principal disso, eles negam.

Razão 3
O julgamento da Igreja antiga.

Agostinho
Agora, eu pergunto, tu crês em Cristo, ó pecador? Tu dizes: Eu creio. O que crês tu? Que todos OS TEUS PECADOS podem ser livremente perdoados por Ele. TU TENS AQUILO QUE CRESTES, (de verbis Dei, serm. 7).

Bernardo
O Apóstolo pensa que um homem é justificado gratuitamente pela fé. Se tu crês que os teus pecados não podem ser perdoados senão por Ele, contra quem foram cometidos, mas vai além e crê também nisso, que por Ele OS TEUS PECADOS SÃO PERDOADOS. Este é o testemunho que o Espírito Santo dá no coração, dizendo: os teus pecados são perdoados, (Serm. 1, de Annunc).

Cipriano
Deus te promete a imortalidade, quando saíres deste mundo, E TU DUVIDAS? Isso de fato não é conhecer a Deus, e isso é para um membro da igreja na casa da fé não ter fé. Se acreditamos em Cristo, creiamos em suas palavras e promessas, e nunca morreremos, e chegaremos a Cristo com SEGURANÇA ALEGRE, com Ele para reinar para sempre, (Serm. de Natal).

A Segunda Diferença
A segunda diferença acerca da fé no ato da justificação é a seguinte. O papista diz que somos justificados pela fé, porque ela dispõe o pecador para sua justificação da seguinte maneira: Pela fé (diz ele) a mente do homem é iluminada no conhecimento da lei e do evangelho: o conhecimento desperta o medo do inferno, com uma consideração da promessa de felicidade, assim como o amor e o medo de Deus, e a esperança da vida eterna. Agora, quando o coração está assim preparado, Deus infunde o hábito da caridade e outras virtudes, pelas quais o pecador é justificado diante de Deus. Nós dizemos de outra forma, que a fé justifica porque é um instrumento sobrenatural criado por Deus no coração do homem em sua conversão, pelo qual ele apreende e recebe a justiça de Cristo para sua justificação.

Nesta doutrina deles, há um erro duplo:

Primeiro Erro
Eles fazem com que a fé que justifica vá antes da própria justificação, tanto na ordem natural quanto no tempo, enquanto pela palavra de Deus, no exato momento em que qualquer homem crê pela primeira vez, ele é então justificado e santificado. Pois aquele que crê, come e bebe o corpo e o sangue de Cristo, e já passou da morte para a vida, João 6. 54.

Segundo Erro
O segundo erro é que, para eles, a fé não é nada mais do que uma iluminação da mente, que desperta a vontade; sendo movida e ajudada, ela causa no coração muitos movimentos espirituais, e assim dispõe o homem para sua futura justificação. Mas isso, de fato, é o mesmo que se disséssemos que os mortos, apenas ajudados, podem se preparar para sua futura ressurreição. Pois todos nós, por natureza, estamos mortos em pecados, e, portanto, não devemos ser apenas iluminados na mente, mas também renovados na vontade, antes que possamos sequer querer ou desejar o que é bom.

Agora, nós (como já disse) ensinamos de outra forma: que a fé justifica como um instrumento para apreender e aplicar Cristo com sua obediência; que é o fundamento de nossa justificação. Esta é a verdade, e provamo-la assim: No pacto da graça, duas coisas devem ser consideradas: a substância e a condição. A substância do pacto é que a justiça e a vida eterna são dadas à Igreja e ao povo de Deus por Cristo. A condição é que devemos, de nossa parte, receber os benefícios mencionados pela fé: e essa condição é pela graça, assim como a substância. Agora, para que possamos alcançar a salvação por Cristo, Ele deve ser dado a nós realmente, como é proposto no tenor do referido pacto. E, para dar Cristo, Deus estabeleceu ordenanças especiais, como a pregação da palavra e a administração dos sacramentos. A palavra pregada é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê: e o fim dos sacramentos é comunicar Cristo com todos os seus benefícios aos que participam deles; como se vê mais claramente na ceia do Senhor, na qual o dar do pão e do vinho aos diversos participantes é um sinal e garantia de que Deus dá particularmente o corpo e o sangue de Cristo, com todos os seus méritos, a eles. E esse dar da parte de Deus não pode ser eficaz sem o receber da nossa parte: e, portanto, a fé deve ser um instrumento ou mão para receber aquilo que Deus dá, para que possamos encontrar conforto nesse dar.

A Terceira Diferença
A terceira diferença acerca da fé é a seguinte: O papista diz que um homem é justificado pela fé; porém, não pela fé somente, mas também por outras virtudes, como a esperança, o amor, o temor de Deus, etc. As razões que são apresentadas para sustentar essa opinião não têm relevância:

I. Razão
Lucas 7. 47. Muitos pecados lhe são perdoados, PORQUE ela amou muito. Daí eles concluem que a mulher aqui mencionada foi justificada e obteve o perdão dos pecados por amor.
Resposta: Neste texto, o amor não é feito causa impulsiva para mover Deus a perdoar os pecados dela, mas apenas um sinal para mostrar e manifestar que Deus já os perdoou. Algo semelhante ocorre no versículo de João, que diz, 1 João 3. 14: Nós passamos da morte para a vida, PORQUE amamos os irmãos: onde o amor não é causa da mudança, mas um sinal e consequência disso.

II. Razão
Gálatas 5. 6. Nem a circuncisão nem a incircuncisão têm valor algum, mas A FÉ QUE OPERA PELO AMOR. Daí eles concluem que a fé justifica juntamente com o amor.
Resposta: A propriedade da verdadeira fé é apreender e receber algo para si mesma: e o amor, que sempre anda com a fé, como um fruto e companheiro inseparável dela, tem outra natureza. Pois ele não recebe para si, mas como que se dá em todos os deveres da primeira e segunda tábua, para com Deus e com o homem: e isso, a fé por si mesma não pode fazer, e, portanto, Paulo diz que a fé opera pelo amor. A mão tem a propriedade de estender-se, de pegar algo e de receber um presente: mas a mão não tem a propriedade de cortar um pedaço de madeira sozinha, sem ser com serra, faca ou algum instrumento semelhante; e, ainda assim, com a ajuda desses, ela pode dividir ou cortar. Da mesma forma, é a natureza da fé, sair de si mesma e receber Cristo no coração: quanto aos deveres da primeira e segunda tábua, a fé não pode, por si só, realizá-los; assim como a mão não pode dividir ou cortar: mas, quando o amor se junta à fé, então ela pode praticar os deveres que são ordenados para com Deus e para com o homem. E esta é a interpretação que dou a este texto, que não fala de justificação pela fé, mas apenas da prática de deveres comuns, que a fé põe em execução com a ajuda do amor.

III. Razão. A fé nunca está sozinha, portanto, ela não justifica sozinha.
Resposta. A razão não tem valor, e poderiam tão bem argumentar assim: O olho nunca está sozinho da cabeça, e, portanto, não vê sozinho; o que é absurdo. E embora em relação à substância o olho nunca esteja sozinho, em relação à visão, ele está sozinho; assim, embora a fé não subsista sem o amor, a esperança e outras graças de Deus, em relação ao ato da justificação, ela está sozinha, sem todas elas.

IV. Razão. Se a fé sozinha justifica, então somos salvos somente pela fé; mas não somos salvos somente pela fé; portanto, não somos justificados somente pela fé.
Resposta. A proposição é falsa, pois mais coisas são necessárias para o fim principal do que para os meios subordinados. E a premissa é falsa, pois somos salvos somente pela fé, se falarmos da fé como um instrumento que apreende Cristo para nossa salvação.

V. Razão. Somos salvos pela esperança; portanto, não pela fé somente.
Resposta. Somos salvos pela esperança, não porque ela seja causa de nossa salvação. O significado de Paulo é apenas isto: que não temos a salvação ainda em posse, mas esperamos pacientemente por ela, para que, no futuro, ela seja possuída por nós, aguardando o momento de nossa plena libertação; isso é tudo o que pode ser justamente deduzido daqui.

Nossa Doutrina em Contrário
Agora, a doutrina que ensinamos em contrário é que o pecador é justificado diante de Deus pela fé; sim, SOMENTE PELA FÉ. O significado disso é que nada dentro do homem, e nada que o homem possa fazer, seja por natureza ou por graça, contribui para o ato de justificação diante de Deus, como qualquer causa desse ato, seja eficiente, material, formal ou final, exceto a fé sozinha. Todos os outros dons e graças, como a esperança, o amor, o temor de Deus, são necessários para a salvação, como sinais disso e consequentes da fé. Nada em nós contribui como causa para essa obra senão pela fé sozinha. E a fé em si mesma não é uma causa principal, mas apenas uma causa instrumental, pela qual recebemos, apreendemos e aplicamos Cristo e sua justiça para nossa justificação.

Razão I. João 3. 14, 15: “Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Nestes versos, Cristo faz uma comparação assim: quando qualquer um dos israelitas era picado até a morte por serpentes flamejantes, sua cura não vinha por nenhuma cirurgia física, mas apenas pelo levantar de seu olhar para a serpente de bronze que Moisés tinha erguido por ordem de Deus; assim, na cura de nossas almas, quando somos picados até a morte pelo pecado, não é necessário nada dentro de nós para nossa recuperação, exceto que levantemos e fixemos o olhar de nossa fé em Cristo e sua justiça.

Razão II. As formas exclusivas de fala usadas nas escrituras provam isso: somos justificados gratuitamente, não pela lei, não pela lei, sem a lei, sem obras, não de obras, não segundo as obras, não de nós, não pelas obras da lei, mas pela fé. Gálatas 2. 16. Todo o orgulho excluído: basta crer. Lucas 8. 50. Estas distinções, pelas quais as obras e a lei são excluídas na obra da justificação, incluem isso: que a fé sozinha justifica.

Razão III. A razão mesma pode ensinar isso: pois nenhum dom no homem é adequado e apto como uma mão espiritual para receber e aplicar Cristo e sua justiça a um pecador, senão a fé. De fato, o amor, a esperança, o temor de Deus e o arrependimento têm seus devidos usos nos homens, mas nenhum serve para este fim de apreender Cristo e seus méritos; nenhum deles tem essa propriedade de receber; e, portanto, não há nada em nós que justifique como uma causa senão a fé sozinha.

Razão IV. O julgamento da Igreja Antiga.
Ambrose
Em Romanos 4: “Bem-aventurados aqueles a quem, SEM TRABALHO OU AÇÃO ALGUMA, as iniquidades são perdoadas e o pecado coberto: NENHUM TRABALHO DE ARREPENDIMENTO é exigido deles, mas SOMENTE QUE CREIAM.”
Em Romanos 3: “Nem fazendo alguma coisa, nem retribuindo algo, são justificados pela FÉ SOMENTE, pelo dom de Deus.”
Em 1 Coríntios 1: “Isso é determinado por Deus, que todo aquele que crer em Cristo será salvo sem nenhuma obra, PELA FÉ SOMENTE, recebendo gratuitamente o perdão dos pecados” (de verbis Dei, sermão 40).

Agostinho
Há UMA PROPITIÇÃO para todos os pecados, crer em Cristo.

Hesíquio
A graça que é da misericórdia é APREENDIDA PELA FÉ SOMENTE, e não pelas obras (em Levítico, livro 1, capítulo 2).

Bernardo
“Quem for tocado por seus pecados e desejar a justiça, que creia em Ti, que justifica o pecador, e sendo justificado pela FÉ SOMENTE, terá paz com Deus.” (supra Cant. sermão 22).

Crisóstomo
Em Gálatas 3: “Disseram que quem descansa na fé somente é maldito; mas Paulo mostra que é abençoado quem descansa NA FÉ SOMENTE.”

Basílio
“Que o homem reconheça que lhe falta a verdadeira justiça, e que é justificado SOMENTE PELA FÉ em Cristo” (Basil de Humil).

Orígenes
Em Romanos 3: “Nós pensamos que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei; e ele diz que a justificação pela fé só é suficiente, de modo que o homem, crendo, possa ser justificado. E, portanto, cabe a nós procurar quem foi justificado pela fé sem obras. E para um exemplo, penso no ladrão que, sendo crucificado com Cristo, clamou para ele: ‘Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino’, e não há nenhuma outra boa obra dele mencionada no Evangelho; mas por esta única fé, Jesus lhe disse: ‘Esta noite estarás comigo no Paraíso’.”

III. Diferença sobre as Boas Obras
A terceira diferença sobre a justificação é sobre este ponto: até que ponto as boas obras são exigidas para isso.
A doutrina da Igreja de Roma é que existem dois tipos de justificação: a primeira e a segunda, como já disse. A primeira é quando um homem de mal se torna bom; e nesta, as obras são completamente excluídas, sendo totalmente pela graça. A segunda é quando um homem de justo se torna mais justo. E isso eles querem que aconteça a partir das obras da graça, pois (dizem eles) assim como um homem, quando já nasce, pode, comendo e bebendo, tornar-se maior, embora não tenha feito nada para se tornar homem; assim, um pecador, tendo a sua primeira justificação, pode depois, pela graça, tornar-se mais justo. Portanto, eles afirmam duas coisas:

  1. Que as boas obras são causas meritórias da segunda justificação, que chamam de “Ativa”.
  2. Que as boas obras são meios para aumentar a primeira justificação, que chamam de “Habitual”.

Agora, vejamos até onde devemos concordar com eles neste ponto. Nosso consentimento, portanto, está em três conclusões.

Conclusão 1
Que as boas obras feitas pelos justificados agradam a Deus, são aprovadas por Ele e, portanto, têm uma recompensa.

Conclusão 2
As boas obras são necessárias para a salvação de duas maneiras: primeiro, não como causas da salvação, seja conservadoras, auxiliares ou geradoras, mas apenas como consequências da fé; pois são companheiras inseparáveis e frutos da fé, que é, de fato, necessária para a salvação. Em segundo lugar, são necessárias como marcas de um caminho, e como o próprio caminho que nos direciona à vida eterna.

Conclusão 3
Nós cremos e afirmamos que o homem justo, de certa forma, é justificado pelas obras: pois assim o Espírito Santo fala clara e verdadeiramente em Tiago 2:21, que Abraão foi justificado pelas obras.

Até aqui, concordamos com eles; e a verdadeira diferença é esta: eles dizem que somos justificados pelas obras, como causas da justificação; nós dizemos que somos justificados pelas obras como sinais e frutos da nossa justificação diante de Deus, e de nenhum outro modo. E nesse sentido, deve-se entender o trecho de São Tiago, que diz que Abraão foi justificado, ou seja, declarado e manifestado como justo, de fato, pela sua obediência, e isso até mesmo diante de Deus. Agora, que a nossa doutrina é a verdade, isso se demonstrará pelas razões de ambos os lados.

Nossas Razões

Razão 1
Romanos 3:28. Concluímos que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei. Alguns respondem que aqui se excluem as obras cerimoniais; outros, as obras morais; outros, as obras que precedem a fé. Mas que eles se esforcem para encontrar uma explicação para si mesmos: a verdade é que Paulo exclui todas as obras, como aparecerá pelo próprio texto. Pois no versículo 24 ele diz: “Somos justificados GRATUITAMENTE pela sua graça”, ou seja, pelo simples dom de Deus, dando-nos a entender que o pecador, em sua justificação, é meramente passivo, isto é, não fazendo nada da sua parte para que Deus o aceite para a vida eterna. E no versículo 27 ele diz: “A justificação pela fé exclui todo tipo de jactância”, e portanto, qualquer tipo de obra é excluído, especialmente aquelas que mais são objeto de jactância, ou seja, as boas obras. Pois, se um pecador, depois de ser justificado pelo mérito de Cristo, fosse justificado ainda mais por suas próprias obras, ele poderia ter algum motivo para se vangloriar. E para que não duvidemos do sentido de Paulo, consideremos e lemos Efésios 2:8-9: “Pela graça (diz ele) sois salvos mediante a fé, e isto não vem de vós; é o dom de Deus; não vem de obras, para que ninguém se glorie.” Aqui, Paulo exclui todas e quaisquer obras, e diretamente as obras da graça em si mesmas, como aparece pela razão seguinte: “Porque somos feitura sua, CRIADOS em Cristo Jesus para as BOAS OBRAS, as quais Deus preparou para que andássemos nelas.” Agora, que me digam os papistas, quais são as obras que Deus preparou para que os homens andassem nelas, e para as quais eles foram regenerados, a não ser as obras mais excelentes da graça? E que observem como Paulo as exclui totalmente da obra da justificação e da salvação.

Razão 2
Gálatas 5:3. “Se fostes circuncidados, estais obrigados a toda a lei, e de Cristo vos despojastes.” Aqui, Paulo contesta aqueles que querem ser salvos, em parte, por Cristo e, em parte, pelas obras da lei. Daí, eu argumento assim: se um homem quiser ser justificado pelas obras, está obrigado a cumprir toda a lei, segundo a sua rigidez; esse é o fundamento de Paulo. Agora, assumo que ninguém pode cumprir a lei segundo a sua rigidez, pois as vidas e obras dos homens mais justos são imperfeitas, e manchadas pelo pecado. Portanto, eles são ensinados a dizer todos os dias: “Perdoa-nos as nossas ofensas.” Além disso, nosso conhecimento é imperfeito, e portanto nossa fé, arrependimento e santificação são igualmente imperfeitos. E, finalmente, o homem regenerado é, em parte, carne e, em parte, espírito; e portanto, suas melhores obras vêm em parte da carne e em parte do espírito. Assim, para qualquer homem estar sujeito à rigidez de toda a lei, é o mesmo que se estivesse sujeito à sua própria condenação.

Razão 3
A eleição para a salvação é pela graça, sem obras; portanto, a justificação de um pecador é apenas pela graça, sem obras. Pois é uma regra certa que a causa de uma causa é a causa do que foi causado. Agora, a graça sem obras é a causa da eleição, e essa eleição é a causa da nossa justificação; e portanto, a graça sem obras é a causa da nossa justificação.

Razão 4
Um homem deve ser totalmente justificado antes que possa fazer uma boa obra; pois a pessoa deve agradar a Deus antes que suas obras possam agradá-lo. Mas a pessoa de um pecador não pode agradar a Deus até que seja perfeitamente justificado; e portanto, até ser justificado, não pode fazer uma única boa obra. Assim, as boas obras não podem ser causas meritórias da justificação, pois estão em outro tempo e ordem de natureza. Em uma palavra, enquanto eles fazem duas justicações distintas, nós reconhecemos que há graus de santificação, mas ainda assim, a justificação é apenas uma, consistindo no perdão dos pecados e na aceitação de Deus de nós para a vida eterna por Cristo; e essa justificação não tem graus, mas é perfeita desde o princípio.

Objeções dos Papistas Respondidas

Objeção 1
Salmo 7:8. “Julga-me segundo a minha justiça.” Daí, raciocinam assim: se Davi for julgado segundo sua justiça, então ele pode ser justificado por ela, mas Davi deseja ser julgado segundo sua justiça; logo, ele foi justificado por ela.
Resposta
Existem dois tipos de justiça: uma da pessoa, e a outra da causa ou ação. A justiça da pessoa é a que a torna aceitável para o favor de Deus e para a vida eterna. A justiça da ação ou causa é quando a ação ou causa é julgada por Deus como boa e justa. Agora, Davi, neste salmo, fala apenas da justiça da ação, ou da inocência de sua causa, pois foi falsamente acusado de buscar o reino. Da mesma forma, é dito de Fineias, no Salmo 106:31, que seu ato de matar Zimri e Cosbie foi imputado a ele como justiça, não porque fosse uma satisfação para a lei, cuja rigidez não poderia ser cumprida naquela única ação, mas porque Deus a aceitou como uma obra justa, como um sinal de sua justiça e zelo pela glória de Deus.

Objeção 2
A Escritura diz em vários lugares que os homens são bem-aventurados por fazerem boas obras. Salmo 119:1: “Bem-aventurado o homem que é íntegro de coração e anda na lei do Senhor.”
Resposta
O homem é bem-aventurado por esforçar-se em guardar os mandamentos de Deus. Porém, ele não é bem-aventurado simplesmente por fazer isso, mas porque está em Cristo, por meio de quem ele faz isso; e sua obediência à lei de Deus é um sinal disso.

Objeção 3
Quando o homem confessa seus pecados e se humilha por meio de oração e jejum, a ira de Deus é apaziguada e detida; portanto, oração e jejum são causas de justificação diante de Deus.
Resposta
De fato, os homens que verdadeiramente se humilham por meio de oração e jejum apaziguam a ira de Deus; mas não propriamente por essas ações, mas pela fé expressa e testificada nelas, pela qual eles apreendem aquilo que apazigua a ira de Deus, até mesmo os méritos de Cristo, em quem o Pai está bem contente, e por cuja causa Ele está bem contente conosco.

Objeção 4
Diversas pessoas nas Escrituras são elogiadas por sua perfeição: como Noé, Abraão, Zacarias e Isabel; e Cristo nos manda ser perfeitos; e onde há qualquer perfeição nas obras, as obras também podem justificar.
Resposta
Existem dois tipos de perfeição: a perfeição em partes e a perfeição em graus. A perfeição em partes ocorre quando, sendo regenerados e tendo as sementes de todas as virtudes necessárias, nos esforçamos para obedecer a Deus, não em algumas poucas, mas em todas as partes da lei; como Josias se voltou para Deus conforme toda a lei de Moisés. A perfeição em graus é quando um homem guarda todos os mandamentos de Deus, e isso conforme a rigidez deles, no grau mais elevado. Agora, quando somos comandados a ser perfeitos e temos exemplos dessa perfeição nas Escrituras, tanto os mandamentos quanto os exemplos devem ser entendidos como perfeição em partes, e não em graus, que não podem ser alcançados nesta vida; embora, por nossa parte, devamos lutar diariamente para nos aproximarmos disso o máximo possível.

Objeção 5
2 Coríntios 4:17. “Nossas leves aflições momentâneas produzem para nós um peso eterno de glória.” Agora, se as aflições trabalham nossa salvação, então as obras também devem fazer o mesmo.
Resposta
As aflições trabalham para a salvação, não como causas que a obtêm, mas como meios que nos direcionam para ela. E assim devemos sempre considerar as obras, no que se refere à nossa salvação, como um caminho ou um sinal dentro dele, que nos orienta à glória, mas não como causas que a geram.

Objeção 6
Somos justificados pela mesma coisa pela qual somos julgados: mas somos julgados pelas nossas boas obras; logo, somos justificados também.
Resposta
A proposição é falsa, pois o julgamento é um ato de Deus, declarando um homem justo que já é justo; e a justificação é outro ato distinto de Deus, pelo qual Ele torna justo aquele que, por natureza, era injusto. E portanto, equitativamente, o último julgamento deve ocorrer pelas obras, porque elas são os meios mais adequados para testar a causa de cada homem, e servem adequadamente para declarar quem Deus justificou nesta vida.

Objeção 7
Os homens ímpios são condenados por suas obras más; portanto, os homens justos são justificados por boas obras.
Resposta
O raciocínio não é válido, pois há grande diferença entre obras más e boas. Uma obra má é perfeitamente má e merece condenação, mas não há obra boa de nenhum homem que seja perfeitamente boa, e portanto não pode justificar.

Objeção 8
Crer em Cristo é uma obra, e por isso somos justificados por ela; e se uma obra justifica, por que não poderíamos ser justificados por todas as obras da lei?
Resposta
A fé deve ser considerada de duas maneiras: primeiro, como uma obra, qualidade ou virtude; segundo, como um instrumento, ou uma mão que se estende para receber o mérito de Cristo. E somos justificados pela fé, não como uma obra, virtude ou qualidade, mas como um instrumento para receber e aplicar aquilo pelo qual somos justificados. Portanto, é uma expressão figurativa dizer: “Somos justificados pela fé.” A fé, considerada por si mesma, não faz ninguém justo; nem a ação da fé, que é apreender, justifica; mas o objeto da fé, que é a obediência de Cristo apreendida.

Essas são as principais razões usadas, que, como vemos, não têm fundamento. Para concluir, afirmamos que as obras concorrem para a justificação, e que somos justificados por elas como sinais e efeitos, não como causas; pois tanto o início, o meio e o cumprimento de nossa justificação estão somente em Cristo; e por isso João diz: “Se alguém (já justificado) pecar, temos um Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, e Ele é a propiciação pelos nossos pecados.” E fazer com que nossas boas obras sejam meios ou causas da nossa justificação é fazer de cada homem um salvador de si mesmo.

Livro

#04 – Certeza da Salvação

1. Nosso Consentimento com a Igreja de Roma

Conclusão 1
Sustentamos e acreditamos que um homem, nesta vida, pode ter certeza da salvação: e a mesma coisa a Igreja de Roma ensina e sustenta.

Conclusão 2
Sustentamos e acreditamos que um homem deve colocar uma confiança certa na misericórdia de Deus em Cristo para a salvação de sua alma: e a mesma coisa, por consentimento comum, sustenta a referida Igreja: este ponto não é a diferença entre nós.

Conclusão 3
Sustentamos que à certeza da salvação em nossos corações está unida a dúvida: e não há homem tão certo de sua salvação que, em algum momento, não duvide dela, especialmente em tempos de tentação: e, nisso, os Papistas concordam conosco, e nós com eles.

Conclusão 4
Eles vão além e dizem que um homem pode ter certeza da salvação dos homens ou da Igreja pela fé católica: e nós também afirmamos isso.

Conclusão 5
Eles sustentam que um homem, pela fé, pode ter certeza de sua própria salvação por meio de uma revelação extraordinária, como Abraão e outros tiveram; e nós também.

Conclusão 6
Eles ensinam que devemos ter certeza de nossa salvação por uma fé especial em relação a Deus que promete: embora, em relação a nós mesmos e à nossa indisposição, não possamos: e, nesse ponto, eles concordam conosco.

2. A Dissensão ou Diferença entre Nós e a Igreja de Roma

O ponto principal da diferença reside na forma da certeza.

Conclusão 1
Sustentamos que um homem pode ter certeza de sua salvação em sua própria consciência, mesmo nesta vida, e isso por uma fé ordinária e especial. Eles sustentam que um homem só pode ter certeza de sua salvação pela esperança: ambos sustentamos uma certeza, nós pela fé, eles pela esperança.

Conclusão 2
Além disso, sustentamos e afirmamos que nossa certeza pela verdadeira fé é infalível: eles dizem que sua certeza é apenas provável.

Conclusão 3
Além disso, embora ambos digamos que temos confiança na misericórdia de Deus em Cristo para nossa salvação, fazemos isso com alguma diferença. Nossa confiança vem de uma fé certa e ordinária: a deles vem da esperança, ministrando (como dizem) apenas uma certeza conjectural.

Assim se dá a diferença.

3. Objeções dos Papistas Contra Nós

Objeção 1
Onde não há palavra, não há fé: pois essas duas são correlativas: mas não há palavra de Deus dizendo: “Cornélio, creia”, “Pedro, creia”: ou “Tu serás salvo”. Portanto, não existe essa fé ordinária para crer na salvação particular de um homem.

Resposta
A proposição é falsa, a menos que seja complementada com uma cláusula desta maneira: onde não há palavra de promessa, nem qualquer coisa que contrabalance uma promessa particular, não há fé. Mas (dizem eles) não há tal palavra particular. É verdade que Deus não fala aos homens particularmente: “Creia tu, e tu serás salvo”. Mas ainda assim Ele faz aquilo que é equivalente a isso, ao dar uma promessa geral, com um mandamento para aplicá-la: e ordenou o santo ministério da palavra para aplicar a mesma às pessoas dos ouvintes em Seu próprio nome: e isso é tão bom quanto se o próprio Senhor falasse aos homens particularmente.

Para falar mais claramente, nas Escrituras, as promessas de salvação são apresentadas de forma indefinida; não é dito em lugar algum: se João crer, ele será salvo, ou se Pedro crer, ele será salvo: mas quem crer será salvo. Agora, então, vem o ministro da palavra, que, estando no lugar de Deus e representando o próprio Cristo, toma as promessas indefinidas do Evangelho e as aplica aos corações de cada homem em particular: e isso, na prática, é o mesmo que se o próprio Cristo dissesse: Cornélio, creia, e tu serás salvo: Pedro, creia, e tu serás salvo.

Argumenta-se que essa aplicação do Evangelho depende da fé e do arrependimento dos homens, e que os homens se enganam a respeito de sua própria fé e arrependimento; e, portanto, falham em aplicar a palavra a si mesmos.

De fato, essa maneira de aplicação é falsa em todos os hipócritas, hereges e pessoas impenitentes: pois eles aplicam [as promessas] com presunção carnal, e não pela fé. Contudo, é verdadeira para todos os Eleitos, que possuem o espírito de graça e oração: pois quando Deus, no ministério da palavra (sendo esta Sua própria ordenança), diz: Buscai o meu rosto, o coração dos filhos de Deus responde verdadeiramente: Ó Senhor, eu buscarei o teu rosto. (Salmo 17:8). E quando Deus diz: Vós sois o meu povo, eles respondem novamente: O Senhor é o meu Deus. (Zacarias 13:6).

E é uma verdade de Deus que aquele que crê sabe que crê; e aquele que verdadeiramente se arrepende sabe que se arrepende; exceto no início de nossa conversão e no tempo de angústia e tentação. De outra forma, como poderia haver gratidão pela graça recebida?

Objeção 2
Não é um artigo do Credo que um homem deve acreditar em sua própria salvação; portanto, nenhum homem é obrigado a isso.

Resposta
Por meio deste argumento, torna-se evidente que os próprios pilares da Igreja de Roma não entendem o Credo: pois, naquilo que é comumente chamado de Credo dos Apóstolos, cada artigo implica essa fé particular. E no primeiro artigo, Creio em Deus, estão contidas três coisas:

(i) A primeira, acreditar que existe um Deus;
(ii) A segunda, acreditar que este mesmo Deus é o meu Deus;
(iii) A terceira, colocar minha confiança Nele para minha salvação.

E o mesmo se aplica aos outros artigos, que são concernentes a Deus. Quando Tomé disse (João 20:28-29): Meu Senhor e meu Deus, Cristo respondeu: Tu creste, Tomé. Vemos aqui que acreditar em Deus é acreditar que Deus é nosso Deus. E no Salmo 78:22, acreditar em Deus e confiar Nele são uma e a mesma coisa: Não acreditaram em Deus e não confiaram em Sua ajuda.

E os artigos que dizem respeito à remissão dos pecados e à vida eterna incluem, e nós reconhecemos neles, nossa fé especial concernente à nossa própria salvação. Pois acreditar nisso ou naquilo é acreditar que tal coisa existe e que essa mesma coisa pertence a mim: como quando Davi disse: Eu teria desfalecido, a menos que cresse que veria a bondade do Senhor na terra dos viventes (Salmo 27:13). Argumenta-se que, nesses artigos, apenas professamos acreditar que a remissão dos pecados e a vida eterna são concedidas ao povo e à Igreja de Deus. Essa, de fato, é a exposição de muitos, mas não se sustenta pela razão comum. Pois se essa fosse toda a fé que ali é confessada, o diabo teria uma fé tão boa quanto a nossa. Ele sabe e acredita que há um Deus: e que este Deus concede a remissão dos pecados e a vida eterna à Sua Igreja. E, para que nós, sendo filhos de Deus, possamos, pela fé, superar todos os demônios do inferno, devemos acreditar, além disso, que a remissão dos pecados e a vida eterna nos pertencem: e, a menos que particularmente apliquemos esses artigos a nós mesmos, pouco ou nada diferiremos do diabo na confissão de fé.

Objeção 3
Somos ensinados a orar pelo perdão de nossos pecados dia após dia (Mateus 6:12), e tudo isso seria desnecessário se pudéssemos ter certeza do perdão nesta vida.

Resposta
A quarta petição deve ser entendida não tanto como referente a nossas dívidas ou pecados antigos, mas aos nossos pecados presentes e novos: pois, à medida que prosseguimos de dia em dia, adicionamos pecado a pecado; e, pelo perdão deles, devemos nos humilhar e orar.

Respondo novamente que oramos pelo perdão de nossos pecados, não porque não temos certeza disso, mas porque nossa certeza é fraca e pequena; crescemos de graça em graça em Cristo, como crianças crescem para a maturidade, pouco a pouco.

O coração de todo crente é como um vaso com um gargalo estreito, que, ao ser lançado ao mar, não se enche de imediato; mas, por causa da passagem estreita, recebe água gota a gota. Deus nos dá, em Cristo, um mar de misericórdia, mas o mesmo é apreendido e recebido por nós apenas aos poucos, à medida que a fé cresce de idade em idade: e essa é a razão pela qual os homens, tendo certeza, oram por mais.

4. Nossas Razões em Contrário

Razão 1
A primeira razão pode ser extraída da natureza da fé desta maneira: a verdadeira fé é tanto uma certeza infalível quanto uma certeza particular da remissão dos pecados e da vida eterna. E, portanto, por essa fé, um homem pode ter certeza, de maneira particular, da remissão dos pecados e da vida eterna.

Para que essa razão tenha força, duas coisas devem ser provadas:
(1) Que a verdadeira fé é uma certeza da misericórdia de Deus para com aquele em quem ela está.
(2) Que a fé é uma certeza particular disso.

Quanto ao primeiro ponto, que a fé é uma certeza, Cristo diz a Pedro (Mateus 14:31): Ó tu, de pouca fé, por que duvidaste? Aqui Ele faz uma oposição entre fé e dúvida: dando-nos diretamente a entender que ser certo e fornecer segurança faz parte da natureza da fé. Em Romanos 4:20-22, Paulo diz de Abraão que ele não duvidou da promessa de Deus por incredulidade; mas foi fortalecido na fé e deu glória a Deus, estando plenamente certo de que aquele que havia prometido era também capaz de cumprir. Aqui, observo duas coisas:

(i) A dúvida é apresentada como fruto da incredulidade; e, portanto, a certeza infalível e a segurança, sendo contrárias à dúvida, devem necessariamente proceder da verdadeira fé, considerando que efeitos contrários vêm de causas contrárias.
(ii) A força da fé de Abraão consistia em uma plenitude de certeza: pois o texto diz que ele foi fortalecido na fé, estando plenamente certo.

Além disso, em Hebreus 11:1, a verdadeira fé salvadora é chamada de substância das coisas esperadas e evidência das coisas que não se veem. Mas a fé não pode ser substância ou evidência das coisas, a menos que seja, por natureza, certeza em si mesma. Assim, o primeiro ponto é manifesto. O segundo ponto, de que a fé salvadora é uma certeza particular, é provado pelo fato de que a propriedade da fé é apreender e aplicar a promessa e a coisa prometida, ou seja, Cristo com Seus benefícios. Em João 1:12, São João diz: Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem em seu nome. Nessas palavras, acreditar em Cristo e receber Cristo são apresentados como uma e a mesma coisa. Agora, receber Cristo é apreendê-Lo e aplicá-Lo com todos os Seus benefícios a nós mesmos, como Ele é oferecido nas promessas do Evangelho. No capítulo seguinte, Cristo se apresenta não apenas como Redentor em geral, mas também como o pão da vida e a água da vida; além disso, descreve seus melhores ouvintes como comedores de Seu corpo e bebedores de Seu sangue. Por fim, demonstra que comer Seu corpo e beber Seu sangue são equivalentes a crer Nele. Portanto, se Cristo é alimento, e se comer e beber o corpo e sangue de Cristo é crer Nele, deve haver uma proporção entre comer e crer. Assim como não pode haver comer sem tomar ou receber alimento, não pode haver crer em Cristo sem recebê-Lo espiritualmente. Da mesma forma que o corpo tem mãos, boca e estômago para tomar, receber e digerir alimento para nutrir cada parte, assim também a alma possui a fé, que é tanto mão, boca e estômago para apreender, receber e aplicar Cristo e todos os Seus méritos para a nutrição da alma. Paulo afirma de forma ainda mais clara que, pela fé, recebemos a promessa do Espírito (Gálatas 3:14). Assim, a propriedade de apreender e aplicar Cristo pertence à fé e não à esperança, ao amor ou a qualquer outro dom ou graça de Deus. Primeiro, pela fé, devemos apreender Cristo e aplicá-Lo a nós mesmos antes de podermos ter qualquer esperança ou confiança Nele. Essa aplicação parece ser feita não por uma afeição da vontade, mas por um ato sobrenatural da mente, que é reconhecer, estabelecer e crer que a remissão dos pecados e a vida eterna pelos méritos de Cristo nos pertencem particularmente.

Razão 2
Tudo o que o Espírito Santo testifica para nós, podemos e devemos crer com certeza pela fé. Mas o Espírito Santo testifica particularmente para nós sobre nossa adoção, a remissão de nossos pecados e a salvação de nossas almas. Portanto, podemos e devemos crer particularmente e com certeza na mesma coisa. A primeira parte desta razão é verdadeira e não pode ser negada por ninguém. A segunda parte é provada assim: Paulo diz em Romanos 8:15-16: Porque não recebestes o espírito de escravidão para temer novamente; mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Aqui o apóstolo apresenta duas testemunhas de nossa adoção: o Espírito de Deus e nosso próprio espírito, ou seja, a consciência santificada pelo Espírito Santo. Os Papistas, para contornar essa razão, alegam que o Espírito de Deus de fato testemunha sobre nossa adoção por meio de sentimentos confortadores do amor e favor de Deus, mas que tais sentimentos são fracos e frequentemente enganosos. No entanto, por permissão deles, o testemunho do Espírito é mais do que um mero senso ou sentimento da graça de Deus. É chamado de penhor e garantia do Espírito de Deus em nossos corações (2 Coríntios 1:21). Portanto, é adequado para remover toda ocasião de dúvida sobre nossa salvação, assim como o penhor dado em um contrato remove todas as incertezas entre as partes envolvidas. Bernardo de Claraval afirma que o testemunho do Espírito é um testemunho muitíssimo seguro (Epístola 107).

Razão 3
Aquilo pelo qual devemos orar por mandamento de Deus, isso devemos crer; mas cada homem deve orar pelo perdão de seus próprios pecados e pela vida eterna — disso não há dúvida. Portanto, ele é obrigado a crer na mesma coisa. A proposição é bastante questionável, mas é provada da seguinte forma:

Em toda petição, devem existir duas coisas: o desejo pelas coisas que pedimos e uma fé particular pela qual acreditamos que aquilo que pedimos nos será dado. Assim diz Cristo: Tudo o que desejardes, quando orardes, crede que o recebereis, e ser-vos-á concedido.

São João aponta ainda essa fé particular, chamando-a de nossa segurança de que Deus nos dará tudo o que pedirmos de acordo com a Sua vontade (1 João 5:14). Assim, em toda petição, devem existir dois fundamentos: um mandamento que nos autorize a fazer o pedido e uma promessa que nos assegure o cumprimento dele. Sobre esses dois fundamentos, segue necessariamente uma aplicação das coisas que pedimos a nós mesmos.

Razão 4
Tudo o que Deus ordena no Evangelho, um homem deve e pode cumprir; mas Deus, no Evangelho, nos ordena a crer no perdão de nossos próprios pecados e na vida eterna. Portanto, devemos acreditar nisso e podemos ter certeza disso.

Essa proposição é clara pela distinção entre os mandamentos da Lei e do Evangelho. Os mandamentos da Lei mostram-nos o que devemos fazer, mas não oferecem poder para realizar o que deve ser feito; no entanto, a doutrina e os mandamentos do Evangelho são diferentes. Por isso são chamados de espírito e vida: pois Deus, junto com o mandamento, dá graça para que o que é prescrito possa ser realizado. Agora, crer na remissão dos pecados é um mandamento do Evangelho, pois isso era a essência do ministério de Cristo: Arrependei-vos e crede no Evangelho. Isso não significa crer, de forma geral, que Cristo é o Salvador e que as promessas feitas Nele são verdadeiras (pois até os demônios creem assim, com temor), mas acreditar particularmente que Cristo é o meu Salvador e que as promessas de salvação em Cristo pertencem especialmente a mim. Como São João diz: Este é o Seu mandamento: que creiamos no nome de Jesus Cristo. Agora, crer em Cristo é depositar confiança Nele, o que ninguém pode fazer sem primeiro estar seguro de Seu amor e favor. Assim, na medida em que somos ordenados a depositar nossa confiança em Cristo, também somos ordenados a crer em nossa reconciliação com Ele, que consiste na remissão de nossos pecados e na aceitação à vida eterna.

Razão 5

Os Papistas ensinam que um homem pode ter certeza de sua salvação por esperança; mas, mesmo assim, segue-se que ele pode estar infalivelmente seguro dela. Pois a característica da esperança verdadeira e viva é nunca envergonhar um homem (Romanos 5:5).

Além disso, a verdadeira esperança segue a fé e sempre pressupõe a certeza da fé: nenhum homem pode verdadeiramente esperar pela sua salvação, a menos que pela fé tenha alguma medida de certeza dela.

Primeira Objeção dos Papistas

Eles dizem que não pode ser provado que um homem seja tão certo de sua salvação pela fé quanto é dos artigos do Credo.

Resposta
Primeiramente, provamos que devemos ser tão certos de uma coisa quanto da outra. Pois, assim como temos um mandamento para acreditar nos artigos da fé, temos um mandamento semelhante para crer no perdão de nossos próprios pecados, como já foi demonstrado. Além disso, esses argumentos provam que é da natureza essencial da fé assegurar o homem de sua salvação tão certamente quanto o assegura dos artigos que ele acredita. Embora, geralmente, os homens não creiam na salvação como algo infalível, como fazem com os artigos da fé, alguns homens especiais o fazem; tendo a palavra de Deus aplicada pelo Espírito como fundamento seguro de sua fé, pelo qual acreditam em sua própria salvação, assim como acreditam nos artigos de sua fé. Certamente, Abraão estava seguro de sua própria salvação, assim como os profetas, os apóstolos e os mártires de Deus em todas as épocas. Por essa segurança, sem dúvidas, eles se dispuseram a dar suas vidas pelo nome de Cristo, no qual estavam seguros de receber a felicidade eterna. Não há dúvida de que muitos agora, pela longa e frequente experiência da misericórdia de Deus e pelo testemunho interno do Espírito Santo, alcançaram a plena certeza de sua salvação.

Segunda Objeção dos Papistas

Embora um homem possa estar seguro de seu estado atual, nenhum homem pode ter certeza de sua perseverança até o fim.

Resposta
Isso não é verdade. Na sexta petição do Pai Nosso, Não nos deixes cair em tentação, oramos para que Deus não permita que sejamos completamente vencidos pelo diabo em qualquer tentação. Para esta petição, temos uma promessa correspondente: Deus, com a tentação, dará também um escape (1 Coríntios 10:13). Portanto, embora o diabo possa nos atacar, incomodar e ferir os servos de Deus, ele nunca será capaz de vencê-los completamente. Além disso, quem é membro de Cristo uma vez, nunca poderá ser totalmente separado d’Ele. Se alguém fosse completamente afastado de Cristo por um tempo, ao retornar, precisaria ser batizado novamente; pois o batismo é o sacramento de iniciação e enxerto em Cristo. Isso levaria à absurda conclusão de que deveríamos ser batizados toda vez que caíssemos em pecado. São João declara: Eles saíram de nós, mas não eram dos nossos; pois, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco (1 João 2:19). Ele toma como certo que aqueles que estão em Cristo nunca serão completamente separados ou cairão d’Ele. Embora nossa comunhão com Cristo possa ser diminuída, a união e o vínculo de conexão nunca são dissolvidos.

Terceira Objeção dos Papistas

Eles afirmam que devemos acreditar em nossa salvação da parte de Deus, mas precisamos duvidar de nós mesmos, porque as promessas de remissão dos pecados são condicionais à fé e ao arrependimento do homem. Dizem que não podemos ter certeza de que possuímos verdadeira fé e arrependimento, pois podemos estar em pecados secretos e, assim, carecer do que supomos ter.

Resposta
Afirmo novamente que aquele que verdadeiramente se arrepende e crê, sabe pela graça de Deus que se arrepende e crê. Caso contrário, Paulo jamais teria dito: Examinem-se para ver se estão na fé; testem-se (2 Coríntios 13:5). O mesmo apóstolo diz: Não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que vem de Deus, para que possamos saber as coisas que nos foram dadas por Deus (1 Coríntios 2:12). Essas coisas incluem não apenas a vida eterna, mas também a justificação, a santificação e outras semelhantes. Quanto aos pecados secretos, eles não anulam nosso arrependimento. Quem verdadeiramente se arrepende de seus pecados conhecidos também se arrepende dos desconhecidos e recebe o perdão de todos. Deus não exige arrependimento expresso ou específico dos pecados desconhecidos, mas aceita como suficiente um arrependimento geral, como Davi disse: Quem pode discernir os próprios erros? Perdoa os meus pecados ocultos (Salmo 19:12). Além disso, dizem que fé e arrependimento devem ser suficientes. Respondo que a suficiência da fé e do arrependimento está na sua verdade, e não na sua medida ou perfeição. A verdade de ambos, onde estão presentes, é certamente discernida.

Razão 6

O julgamento da Igreja antiga

Agostinho
“De um servo mau, foste feito um bom filho; portanto, não presumas de teus próprios feitos, mas da graça de Cristo. Não é arrogância, mas fé, reconhecer o que recebeste; isso não é orgulho, mas devoção.” (De verbis Dei, sermão 28).

E também: Que ninguém pergunte a outro homem, mas volte ao seu próprio coração; se encontrar caridade ali, terá segurança para sua passagem da vida para a morte. (Trato 5 sobre a Epístola de João).

Hilário
“Sobre Mateus 5: O reino dos céus, que nosso Senhor professou estar em Si mesmo, deve ser esperado sem nenhuma dúvida de vontade incerta. Caso contrário, não há justificação pela fé, se a própria fé for tornada duvidosa.”

Bernardo de Claraval
“Quem é o homem justo senão aquele que, sendo amado por Deus, O ama novamente? Isso não ocorre sem que o Espírito revele pela fé o propósito eterno de Deus sobre sua salvação futura. Essa revelação é nada mais que a infusão da graça espiritual; pela qual, quando as obras da carne são mortificadas, o homem é preparado para o reino dos céus.” (Epístola 107).

Conclusão
Os Papistas não têm grande motivo para discordar de nós neste ponto. Eles ensinam e professam que acreditam, por uma fé especial, na sua própria salvação com certeza e infalibilidade em relação a Deus, que promete.

O que os impede é a indisposição e indignidade deles próprios (como dizem), o que os impede de serem certos, exceto em uma esperança provável. No entanto, esse impedimento é facilmente removido.

Primeiro, em relação a nós mesmos e à nossa disposição, não podemos ter certeza de maneira alguma, mas devemos desesperar da salvação até o momento da morte. Sempre diremos com Jacó: Sou indigno de todas as Tuas misericórdias (Gênesis 32:10); com Davi: Não entres em juízo com o Teu servo, pois ninguém vivo será justificado diante de Ti (Salmo 143:2); e com o centurião: Senhor, não sou digno de que entres em minha casa (Mateus 8:8).

Segundo, Deus, ao fazer promessas de salvação, não respeita a dignidade dos homens. Ele nos escolheu para a vida eterna quando ainda não existíamos; redimiu-nos da morte quando éramos inimigos; e nos dá direito à promessa de salvação, se reconhecermos que somos pecadores e se buscarmos Sua graça.

Terceiro, aquele que está em Cristo tem todas as suas indignidades cobertas e perdoadas em Sua morte. Assim, em Cristo, temos razão para ser certos de nossa salvação, mesmo em relação a nós mesmos.

Livro

#03 Pecado Original Após o Batismo


I. Nosso consentimento.
Eles dizem que a corrupção natural após o batismo é abolida, e nós também dizemos isso. Mas vejamos até que ponto ela é abolida. No pecado original existem três aspectos:

I. O castigo, que é a primeira e a segunda morte.
II. A culpa, que é a vinculação da criatura ao castigo.
III. A falta ou a ofensa a Deus, na qual incluo nossa culpa no primeiro pecado de Adão, assim como a corrupção do coração, que é uma inclinação natural e propensão para qualquer coisa que seja má ou contra a lei de Deus.

Para o primeiro, dizemos que, após o batismo, nos regenerados, o castigo do pecado original é removido: “Agora, pois, nenhuma condenação há” (diz o apóstolo) “para os que estão em Cristo Jesus” (Romanos 8.1).
Para o segundo, ou seja, a culpa, concordamos ainda mais e dizemos que também é removida nos que nascem de novo: pois, considerando que não há condenação para eles, nada os liga ao castigo. Contudo, este aviso deve ser lembrado: a culpa é removida da pessoa regenerada, mas não do pecado na pessoa; mas isso será tratado mais adiante.

Terceiro, a culpa no primeiro pecado de Adão é perdoada. E, no que diz respeito à corrupção do coração, afirmo duas coisas:

  1. Que o poder ou a força pela qual ela reina no homem é removida nos regenerados.
  2. Que essa corrupção é abolida (assim como a falta de todo pecado atual passado) na medida em que é a falta e o pecado do homem em quem ela está. De fato, ela permanece até a morte e é pecado considerado em si mesmo enquanto permanece, mas não é imputada à pessoa; e, nesse sentido, é como se não existisse, pois está perdoada.

II. O desacordo ou diferença
Até aqui concordamos com a Igreja de Roma: agora a diferença entre nós não está na abolição, mas no modo e na medida da abolição desse pecado.

Os papistas ensinam que o pecado original é tão completamente removido após o batismo que deixa de ser um pecado propriamente dito e é nada mais do que uma falta, defeito ou fraqueza, tornando o coração apto e pronto para conceber pecado: algo semelhante ao pavio de fogo, que, embora não seja fogo em si, está muito apto e predisposto a pegá-lo. E eles, da Igreja de Roma, negam que seja pecado propriamente dito para sustentar algumas opiniões grosseiras deles, a saber: que um homem nesta vida pode cumprir a lei de Deus e fazer boas obras sem pecado; que pode permanecer justo no tribunal de julgamento de Deus por elas.

Mas nós ensinamos de outra forma: que, embora o pecado original seja removido nos regenerados, e isso de várias maneiras, ele permanece neles após o batismo, não apenas como uma falta ou fraqueza, mas como pecado, e isso propriamente dito: como pode ser provado pelas seguintes razões.

Razão I
Romanos 7.17: Paulo diz diretamente: “De modo que não sou mais eu quem o faz, mas o pecado que habita em mim”, ou seja, o pecado original. Os papistas respondem novamente que é chamado assim de forma imprópria, porque vem do pecado e também é uma ocasião para que o pecado seja cometido. Mas, pelas circunstâncias do texto, é pecado propriamente dito: pois, nas palavras seguintes, São Paulo diz que esse pecado habitando nele o fez fazer o mal que ele odiava. E, no verso 24, ele clama: “Miserável homem que eu sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” Daí eu raciocino assim:
Aquilo que uma vez foi pecado propriamente dito e que, permanecendo no homem, o faz pecar, o envolve no castigo do pecado e o torna miserável: isso é pecado propriamente dito. Mas o pecado original faz tudo isso. Logo…

Razão II
Crianças batizadas e regeneradas morrem a morte corporal antes de atingirem a idade da razão: portanto, o pecado original nelas é pecado propriamente dito; ou então elas não morreriam, não tendo causa de morte nelas: pois a morte é o salário do pecado, como o apóstolo diz (Romanos 6.23), e (Romanos 5.12) a morte entrou no mundo pelo pecado. Quanto ao pecado atual, elas não têm nenhum, se morrem logo após nascerem, antes de terem qualquer uso de razão ou afeto.

Razão III
Aquilo que luta contra o espírito e, ao lutar, tenta, e, ao tentar, atrai e conduz o coração ao pecado, é, por natureza, pecado em si mesmo: mas a concupiscência nos regenerados luta contra o espírito (Gálatas 5.17) e tenta, como já disse (Tiago 1.14): “Deus não tenta ninguém, mas cada um é tentado, quando atraído e seduzido pela sua própria concupiscência. Então, a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado”. Portanto, é pecado propriamente dito: tal como o fruto é, tal é a árvore.
Agostinho diz: “A concupiscência contra a qual o espírito luta É PECADO, porque nela há desobediência contra a regra da mente: e é o castigo do pecado porque acontece ao homem pelos méritos de sua desobediência: e é a causa do pecado” (Agostinho, Contra Juliano, Livro 5, Capítulo 3).

Razão IV
O julgamento da Igreja antiga.

O testemunho dos Pais é evidente. Santo Agostinho, grande campeão da graça contra os Pelagianos, em vários lugares afirma que o pecado original nos regenerados permanece como pecado propriamente dito, embora não seja imputado à pessoa. No livro Contra duas cartas dos Pelagianos, Livro 1, Capítulo 13, ele escreve:

“O pecado original é perdoado no batismo, não para que não exista, mas para que não seja imputado.”

E em seu livro Confissões, ele diz:

“Toda a minha vida é pecado.”

E na Epístola 29 ele escreve:

“O pecado é destruído na culpa, não na substância.”

Tais testemunhos abundam nos escritos dos Pais da Igreja, confirmando a ideia de que, nos regenerados, o pecado original é pecado propriamente dito, mas não lhes é imputado por conta da justificação em Cristo.


O ponto de discordância

Dessa forma, enquanto concordamos com a Igreja de Roma em vários aspectos da doutrina do pecado original e do batismo, divergimos deles na questão central: a natureza do pecado original após o batismo. Para nós, o pecado original, embora perdoado e sem condenação, ainda permanece como uma realidade em sua essência; não é meramente uma fraqueza ou tendência, mas pecado propriamente dito.

Eles, por outro lado, sustentam que o pecado original deixa de ser pecado em sua própria essência, sendo reduzido a uma inclinação ou defeito. Essa diferença tem implicações profundas em nossa compreensão da santidade, da graça e da capacidade do homem regenerado de viver uma vida sem pecado nesta terra.


Conclusão

Em suma, nós ensinamos que o pecado original é perdoado, mas permanece como pecado em sua essência nos regenerados até a morte, não sendo imputado graças à obra redentora de Cristo. Esta doutrina ressalta nossa contínua dependência da graça divina e a necessidade da obra santificadora do Espírito Santo em nossas vidas.

Agostinho
A caridade em alguns é maior, em outros menor, em outros nenhuma: o mais alto grau de caridade, que não pode ser aumentado, não está em ninguém enquanto o homem viver na terra. E enquanto ela puder ser aumentada, AQUILO QUE É MENOR DO QUE DEVERIA SER ESTÁ EM FALTA: por essa falta, não há homem justo na terra que faça o bem e não peque; por essa falta, ninguém que viva será justificado aos olhos de Deus; por essa falta, se dissermos que não temos pecado, não há verdade em nós; por isso também, embora progridamos muito, é necessário dizermos: “Perdoa-nos as nossas dívidas”, embora todas as nossas palavras, ações e pensamentos já estejam perdoados no batismo (Agostinho, epístola 29).

De fato, Agostinho, em vários lugares, parece negar que a concupiscência seja pecado após o batismo; mas sua intenção é que a concupiscência nos regenerados não é o pecado da pessoa em quem ela está. Pois assim ele se explica: Não ter pecado significa não ser culpado de pecado (Ad Valer. lib. 1, cap. 24).
E: A lei do pecado no batismo é remida e não TERMINADA (Contra Juliano, Livro 2).
E: Que o pecado não reine: ele não diz, que o pecado não exista, mas que ele não reine. Pois enquanto viveres, é necessário que o pecado esteja em teus membros; pelo menos, que ele não reine em ti, etc. (Trato 42 sobre João).


Respostas às objeções dos papistas
Os argumentos que a Igreja de Roma apresenta em contrário são os seguintes:

Objeção I
No batismo, os homens recebem o perdão perfeito e absoluto do pecado; e o pecado, sendo perdoado, é totalmente removido; portanto, o pecado original após o batismo deixa de ser pecado.

Resposta
O pecado é abolido de duas maneiras: primeiro em relação à imputação à pessoa; segundo em relação à existência e ser do pecado. Por essa razão, Deus concede ao homem duas bênçãos no batismo: remissão do pecado e mortificação do mesmo. A remissão ou perdão abole o pecado completamente no que diz respeito à imputação ao homem, mas não simplesmente em relação à sua existência. A mortificação, portanto, vai mais longe e abole, em todos os poderes do corpo e da alma, a própria concupiscência ou corrupção, no que diz respeito à sua existência. E porque a mortificação não é concluída até a morte, a corrupção original permanece até a morte, embora não imputada.

Objeção II
Todo pecado é voluntário; mas o pecado original em nenhum homem após o batismo é voluntário; portanto, não é pecado.

Resposta
A proposição é uma regra política pertencente aos tribunais dos homens, e deve ser entendida em relação a ações feitas de um homem para outro: e não pertence ao tribunal da consciência, que Deus mantém e guarda nos corações dos homens, no qual toda falta de conformidade à lei é considerada pecado. Em segundo lugar, respondo que o pecado original foi voluntário em nosso primeiro pai Adão: pois ele pecou e trouxe essa miséria sobre nós voluntariamente, embora em nós seja diferente, por uma causa justa. O pecado atual veio primeiro nele, e então a corrupção original; mas em nós, a corrupção original vem primeiro, e então o pecado atual.

Objeção III
Onde a forma de algo é removida, ali a própria coisa também cessa: mas após o batismo nos regenerados, a forma do pecado original, ou seja, a culpa, é completamente removida; portanto, o pecado cessa de ser pecado.

Resposta
A culpa, ou obrigação ao castigo, não é a forma da corrupção original, mas (como dizemos nas escolas) um acidente ou companheira necessária dela. A verdadeira forma do pecado original é um defeito e privação daquilo que a lei exige de nós, em nossa mente, vontade, afeições e em todos os poderes tanto da alma quanto do corpo. Mas eles pressionam ainda mais esse raciocínio, dizendo: onde a culpa e o castigo são removidos, não resta nenhuma falta: mas após o batismo a culpa e o castigo são removidos; portanto, embora a corrupção original permaneça, não é como uma falta que nos torne culpados perante Deus, mas apenas como uma fraqueza.

Resposta
A culpa é removida, e não removida. Ela é removida da pessoa regenerada, que não permanece culpada por qualquer pecado original ou atual; mas a culpa não é removida do próprio pecado; ou, como alguns respondem, existem dois tipos de culpa: atual e potencial. A culpa atual é aquela pela qual o pecado torna o homem culpado perante Deus; e isso é removido nos regenerados. Mas a culpa potencial, que é a aptidão do pecado para tornar o homem culpado se ele pecar, não é removida; e, portanto, o pecado ainda permanece pecado. Para este ou efeito semelhante, diz Agostinho:

“Dizemos que a culpa da concupiscência, não aquela pela qual ela é culpada (pois ela não é uma pessoa), mas aquela pela qual tornou o homem culpado desde o princípio, é perdoada, e que a própria coisa É MÁ, de forma que os regenerados desejam ser curados dessa praga.” (Contra Juliano, Livro 6, Cap. 6).

Objeção IV
Por fim, para nos desacreditar, eles alegam que, em nossa doutrina, ensinamos que o pecado original após o batismo é apenas aparado ou cortado, como o cabelo da cabeça de um homem, cujas raízes ainda permanecem na carne, crescendo e aumentando após serem cortadas, como antes.

Resposta
Nossa doutrina é mal interpretada: pois no corte de qualquer coisa, como no corte do cabelo ou na poda de uma árvore, a raiz permanece intocada, e a partir disso cresce novamente como antes. Mas na mortificação do pecado original após o batismo, não sustentamos tal aparo: ensinamos que, no instante da conversão do pecador, o pecado recebe sua ferida mortal na raiz, nunca mais podendo se recuperar.

Livro

#02 Sobre o Livre Arbítrio

  1. Nosso Consentimento com Roma
    O livre-arbítrio, tanto para eles quanto para nós, é entendido como um poder misto na mente e na vontade do homem; pelo qual, discernindo o que é bom e o que é mau, ele escolhe ou recusa conforme o caso.

Conclusão 1
O homem deve ser considerado em quatro estados: (I) como foi criado; (II) como foi corrompido; (III) como é renovado; (IV) como será glorificado.

No primeiro estado, atribuímos à vontade do homem a liberdade da natureza, na qual ele podia querer ou não tanto o bem quanto o mal; no terceiro, a liberdade da graça; no último, a liberdade da glória. A dúvida reside no segundo estado; e, mesmo nele, concordamos, como as conclusões seguintes irão declarar.

Conclusão 2
As questões sobre as quais o livre-arbítrio se ocupa são principalmente as ações dos homens, que são de três tipos: naturais, humanas e espirituais.

As ações naturais são aquelas comuns aos homens e aos animais, como comer, beber, dormir, ouvir, ver, cheirar, provar e mover-se de um lugar para outro: em todas essas, unimo-nos aos papistas e sustentamos que o homem tem livre-arbítrio e, mesmo após a queda de Adão, por um poder natural da mente, realiza livremente qualquer uma dessas ações ou semelhantes.

Conclusão 3
As ações humanas são aquelas comuns a todos os homens, bons e maus, como falar e usar a razão, praticar todas as artes mecânicas e liberais, e o desempenho externo de deveres civis e eclesiásticos, como ir à igreja, falar e pregar a palavra, estender a mão para receber o sacramento e emprestar o ouvido para ouvir externamente o que é ensinado. E aqui podemos incluir as ações externas das virtudes civis; a saber, justiça, temperança, gentileza, liberalidade. E nestas também nos unimos à Igreja de Roma e dizemos (como a experiência ensina) que os homens têm uma liberdade natural de vontade, para realizá-las ou não. Paulo diz em Romanos 2:14: “Os gentios que não têm a lei fazem as coisas da lei POR NATUREZA”, ou seja, por força natural; e ele diz de si mesmo, que antes de sua conversão, “quanto à justiça da lei, era irrepreensível” (Filipenses 3:6). E por essa obediência externa, os homens naturais recebem recompensa em coisas temporais (Mateus 6:5; Ezequiel 29:19). E, no entanto, aqui devem ser lembradas algumas advertências:

(I) Que nas ações humanas, a vontade do homem é fraca e frágil, e seu entendimento escuro e limitado; e, por isso, ele frequentemente falha nelas. E em todas essas ações, como Agostinho, entendo que a vontade do homem está apenas ferida ou meio morta.

(II) Que a vontade do homem está sob a vontade de Deus, e portanto deve ser ordenada por ela; como Jeremias diz, capítulo 10, versículo 23: “Ó Senhor, sei que o caminho do homem não está em si mesmo; nem é do homem caminhar e dirigir seus passos”.

Conclusão 4
O terceiro tipo de ações são espirituais, concernentes mais intimamente ao coração e à consciência, e estas são de dois tipos: ou dizem respeito ao reino das trevas, ou ao reino de Deus. As que dizem respeito ao reino das trevas são pecados propriamente ditos; e nestes também nos unimos aos papistas e ensinamos que, nos pecados ou ações más, o homem tem liberdade de vontade. Alguém pode dizer que pecamos necessariamente, porque quem peca não pode deixar de pecar, e que o livre-arbítrio e a necessidade não podem coexistir. De fato, a necessidade de compulsão ou coação e o livre-arbítrio não podem concordar; mas há outro tipo de necessidade que pode coexistir com a liberdade de vontade: pois algumas coisas podem ser feitas necessariamente e também livremente. Um homem que está em prisão fechada, deve necessariamente ali permanecer e não pode, de forma alguma, sair e andar onde quiser; ainda assim, ele pode se mover livremente e andar dentro da prisão; assim também, embora a vontade do homem esteja acorrentada naturalmente pelos laços do pecado, e portanto não possa deixar de pecar, e, por conseguinte, peque necessariamente, ela também peca livremente.

Conclusão 5
O segundo tipo de ações ou coisas espirituais diz respeito ao reino de Deus; como arrependimento, fé, a conversão de um pecador, nova obediência e semelhantes: nas quais também, em parte, concordamos com a Igreja de Roma e dizemos que, na primeira conversão de um pecador, a vontade do homem concorre com a graça de Deus, como uma parceira ou cooperadora em certo sentido. Pois na conversão de um pecador são necessários três elementos: a palavra, o Espírito de Deus e a vontade do homem: pois a vontade do homem não é passiva em todos os aspectos, mas tem uma ação na primeira conversão e mudança da alma. Quando qualquer homem é convertido, essa obra de Deus não é feita por compulsão, mas ele é convertido voluntariamente: e no momento em que é convertido, pela graça de Deus ele quer sua conversão. Para este fim, disse Agostinho: “Aquele que te fez sem ti, não te salvará sem ti”. Além disso, é certo que nossa vontade é necessária para que possamos fazer bem qualquer coisa boa: mas não temos isso de nosso próprio poder, pois é Deus quem opera em nós o querer. Pois, ao mesmo tempo que Deus dá a graça, Ele também dá o desejo e a vontade de receber essa mesma graça; por exemplo, quando Deus opera a fé, ao mesmo tempo ele age sobre a vontade, fazendo-a desejar a fé e receber de bom grado o dom de crer. Deus transforma a vontade não desejosa em uma vontade desejosa; porque ninguém pode receber graça totalmente contra sua vontade, considerando que uma vontade forçada não é vontade. Mas aqui devemos lembrar que, embora no tempo a operação da graça pelo Espírito de Deus e a vontade dela no homem ocorram juntas, quanto à ordem, a graça é primeiro operada, e a vontade do homem deve primeiro ser atuada e movida pela graça, e então ela também age, deseja e move a si mesma. E este é o último ponto de consentimento entre nós e a Igreja Romana quanto ao livre-arbítrio; nem podemos ir além com eles.

2. Nossa Divergência ou Diferença com Roma
O ponto de diferença reside na causa da liberdade da vontade do homem em questões espirituais, que dizem respeito ao reino de Deus. Os papistas dizem que a vontade do homem concorre e trabalha com a graça de Deus na primeira conversão de um pecador por si mesma e por seu próprio poder natural, sendo apenas ajudada pelo Espírito Santo. Nós dizemos que a vontade do homem trabalha com a graça na primeira conversão, mas não por si mesma, e sim pela graça. Ou seja: Eles dizem que a vontade tem uma cooperação natural; nós negamos isso e dizemos que ela tem cooperação apenas pela graça, sendo em si mesma não ativa, mas passiva; querendo o bem apenas na medida em que é movida pela graça, pela qual deve ser primeiro atuada e movida, antes que possa agir ou querer.

E para que possamos entender melhor a diferença, usarei esta comparação: a Igreja de Roma apresenta a condição de um pecador pela situação de um prisioneiro, e nós fazemos o mesmo; observe então a diferença. Roma supõe que esse prisioneiro está acorrentado de mãos e pés com correntes e grilhões e, além disso, está doente e fraco, ainda que não totalmente morto, mas vivo em parte; supõe também que, estando nessa condição, ele não se move em busca de ajuda, embora tenha capacidade e poder para se mover. Nisso, se o carcereiro vier e tirar suas correntes e grilhões, segurá-lo pela mão e ajudá-lo a levantar-se, ele pode e irá, por si mesmo, ficar de pé, andar e sair da prisão: do mesmo modo (dizem eles) está o pecador acorrentado de mãos e pés pela corrente de seus pecados; e, no entanto, ele não está morto, mas doente, como o homem ferido no caminho entre Jericó e Jerusalém. E, portanto, ele não quer nem busca o que é bom; mas, se o Espírito Santo vier e apenas desatar suas amarras, e lhe estender a mão da graça, ele poderá então levantar-se por si mesmo e querer sua própria salvação, ou qualquer outra coisa que seja boa.

Da mesma forma, nós concedemos que um prisioneiro representa bem o homem natural; mas, ainda assim, ele deve ser um prisioneiro que não está apenas doente e fraco, mas completamente morto, incapaz de se mover, ainda que o carcereiro desate suas correntes e grilhões, nem ouvir, ainda que soem uma trombeta em seu ouvido; e, se o carcereiro desejasse que ele se movesse, deveria dar-lhe não apenas sua mão para ajudá-lo, mas também alma e vida. E tal é cada homem por natureza; não apenas acorrentado e preso em seus pecados, mas completamente morto neles; como alguém que jaz apodrecendo na sepultura, sem qualquer capacidade ou poder para se mover ou mexer-se: e, portanto, ele não pode sequer desejar ou fazer algo que seja verdadeiramente bom por si mesmo, mas Deus deve primeiro vir e colocar uma nova alma nele, mesmo o espírito da graça para vivificá-lo e renová-lo: e então, sendo assim revivido, a vontade começa a querer as coisas boas no exato momento em que Deus, por seu Espírito, primeiro infunde graça. E esta é a verdadeira diferença entre nós e a Igreja de Roma nesse ponto do livre-arbítrio.

3. Nossas Razões
Agora, para confirmar a doutrina que defendemos, a saber, que o homem não deseja sua própria conversão por si mesmo, seja em parte ou no todo, mas unicamente pela graça; estas razões podem ser apresentadas.

Primeira Razão
A primeira é tirada da natureza e da medida da corrupção do homem, que pode ser dividida em duas partes. A primeira é a ausência daquela justiça original que existia no homem pela criação; a segunda é uma inclinação e tendência para aquilo que é mau, e para nada que seja verdadeiramente bom. Isso é evidente em Gênesis 8:21: “A imaginação do coração do homem (diz o Senhor) é má desde a infância”; ou seja, a disposição do entendimento, da vontade, das afeições, com tudo o que o coração do homem idealiza, forma ou imagina, é totalmente má. E Paulo diz em Romanos 8:7: “A inclinação da carne é INIMIZADE contra Deus”. Estas palavras são muito significativas: pois o termo grego ???????, traduzido como “inclinação”, significa que os melhores pensamentos, os melhores desejos, as afeições e os esforços que há em qualquer homem natural, mesmo aqueles que se aproximam mais da verdadeira santidade, não são apenas contrários a Deus, mas são, em si mesmos, inimizade. E daí eu deduzo que o próprio coração, ou seja, a vontade e a mente, de onde vêm esses desejos e pensamentos, também são inimizade contra Deus. Pois, tal como é a ação, tal é a faculdade de onde ela procede; tal como é o fruto, tal é a árvore; tal como são os ramos, tais são as raízes. Por esses dois trechos, fica evidente que, no homem, não há apenas uma falta, ausência ou privação da justiça original, mas também uma tendência, por natureza, para o que é mau, tendência essa que inclui uma inclinação não para poucos, mas para todos e cada um dos pecados, inclusive o próprio pecado contra o Espírito Santo. Daí, portanto, eu raciocino da seguinte forma:

Se cada homem por natureza carece de justiça original e é também propenso a todo mal, então ele carece de livre-arbítrio natural para querer aquilo que é verdadeiramente bom.

Mas todo homem, por natureza, carece de justiça original e é também propenso a todo mal.

Logo, todo homem carece naturalmente de livre-arbítrio para querer o que é bom.

Segunda Razão
1 Coríntios 2:14: “O homem natural NÃO PERCEBE as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucura, nem pode conhecê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Nestas palavras, São Paulo estabelece os seguintes pontos:

(I) Que o homem natural não pensa sequer nas coisas reveladas no Evangelho.

(II) Que, ao ouvir e conceber mentalmente essas coisas, o homem não pode dar seu consentimento a elas, nem, por julgamento natural, aprová-las; pelo contrário, ele as considera loucura.

(III) Que ninguém pode dar assentimento às coisas de Deus, a menos que seja iluminado pelo Espírito de Deus. E, assim, raciocino da seguinte maneira:

Se um homem, por natureza, não conhece e percebe as coisas de Deus e, ao conhecê-las, não pode naturalmente dar assentimento a elas, então ele não tem poder para desejá-las.

Mas o primeiro ponto é evidentemente verdadeiro. Logo.

Primeiro, a mente deve aprovar e dar assentimento antes que a vontade possa escolher ou desejar; e quando a mente não tem poder para conceber nem dar assentimento, então a vontade não tem poder para desejar.

Terceira Razão
O Espírito Santo afirma em Efésios 2:1 e Colossenses 2:13 que todos os homens por natureza estão mortos em pecados e transgressões; não como dizem os papistas, fracos, doentes ou meio mortos. Daí eu deduzo que o homem não possui poder natural, não para desejar simplesmente, mas para desejar livre e espontaneamente aquilo que é verdadeiramente bom. Um homem morto em sua sepultura não pode mexer o mínimo dedo, pois lhe falta o próprio poder de vida, de senso e de movimento; da mesma forma, aquele que está morto em pecado não pode desejar o mínimo bem; se ele pudesse desejar ou fazer algum bem, não poderia estar morto em pecado. E, assim como um homem morto na sepultura não pode se levantar, exceto pelo poder de Deus, aquele que está morto em pecado só pode se levantar pelo poder da graça de Deus, sem qualquer poder próprio.

Quarta Razão
Na conversão e salvação de um pecador, a Escritura atribui tudo a Deus e nada ao livre-arbítrio do homem. João 3:3: “A não ser que um homem nasça de novo, não pode ver o reino de Deus”. Efésios 2:10: “Somos feitura dele, CRIADOS em Cristo Jesus para boas obras”. E em Efésios 4:24: “o novo homem é CRIADO à imagem de Deus”. Ora, nascer de novo é uma obra de importância não menor do que a nossa primeira criação; e, portanto, deve ser inteiramente atribuída a Deus, assim como nossa criação. De fato, Paulo em Filipenses 2:12-13 exorta os filipenses a trabalharem por sua salvação com temor e tremor, sem a intenção de atribuir a eles um poder de fazer o bem por conta própria. E, assim, no versículo seguinte, ele acrescenta: “É Deus quem efetua em vós tanto o querer como o realizar”, excluindo diretamente todo livre-arbítrio natural nas coisas espirituais; e, ainda assim, ele reconhece que a vontade do homem tem um papel em fazer o que é bom, não por natureza, mas por graça. Pois, quando Deus dá ao homem o poder de querer coisas boas, então ele pode desejá-las; e, quando Ele lhe dá o poder de fazer o bem, então ele pode fazê-lo e o faz. Pois, embora não haja uma cooperação natural da vontade do homem com o Espírito de Deus na conversão, há uma cooperação sobrenatural pela graça, capacitando o homem, quando está prestes a ser convertido, a desejar sua conversão; e, segundo isso, São Paulo diz em 1 Coríntios 15:10: “Trabalhei mais abundantemente do que todos eles”; mas, para que alguém não imagine que isso foi feito por algum poder natural, ele acrescenta: “todavia, não eu, mas a graça de Deus que está em mim”, capacitando minha vontade a fazer o bem que faço.

Quinta Razão
O julgamento da antiga Igreja.

Agostinho
A vontade do regenerado é acesa apenas pelo Espírito Santo: para que eles possam, portanto, ser capazes porque querem; e eles querem, porque Deus OPERA NELAS O QUERER (Agostinho, De correptione et gratia, capítulo 12). E, “Perdemos o nosso livre-arbítrio para amar a Deus pela grandeza do nosso pecado” (Epístola 105).

Fulgêncio
(Sermão 2 sobre as palavras do Apóstolo). Quando foi criado, o homem recebeu uma grande força em seu livre-arbítrio; mas, ao pecar, ELE O PERDEU (Fulgêncio, Livro sobre a Graça).

Deus concede graça livremente aos indignos, pela qual o homem perverso, sendo justificado, é iluminado, COM O DOM DA BOA VONTADE e com a FACULDADE DE FAZER O BEM: para que, por misericórdia preveniente, ele possa COMEÇAR A QUERER BEM, e por misericórdia subsequente, ele possa fazer o bem que quer.

Bernardo
Bernardo diz: “É INTEIRAMENTE PELA GRAÇA DE DEUS que somos criados, curados, salvos” (Concílio de Orange II, capítulo 6). “Crer e querer é DADO de cima por INFUSÃO e inspiração do Espírito Santo” (Bernardo, Livro sobre o Livre-arbítrio).

Outros testemunhos e razões poderiam ser apresentados para provar essa conclusão, mas estes serão suficientes. Agora vamos ver quais razões são alegadas em contrário.

Objeções dos Papistas Respondidas

Objeção 1
Primeiro, eles alegam que o homem, por natureza, pode fazer aquilo que é bom, e, portanto, quer o que é bom; pois ninguém pode fazer o que ele nem quer nem pensa em fazer, mas primeiro ele deve querer e depois fazer. Agora (dizem eles), os homens podem fazer o bem por natureza, como dar esmolas, dizer a verdade, fazer justiça e praticar outros deveres de virtude civil; e, portanto, desejam o que é bom.

Resposta
Um homem natural pode fazer boas obras no que diz respeito à substância do ato externo, mas não em relação à bondade do modo; estes são dois aspectos diferentes. Um homem sem graça sobrenatural pode dar esmolas, fazer justiça, dizer a verdade, etc., que são coisas boas consideradas em si mesmas, conforme ordenado por Deus; mas ele não pode fazê-las bem. Pensar coisas boas e fazer coisas boas são obras naturais; mas pensar coisas boas de uma boa maneira, e fazê-las bem, de modo que Deus aceite a ação realizada, são obras da graça. E, portanto, a boa ação realizada por um homem natural é pecado, em relação ao seu autor; porque ela falha tanto em sua origem correta, que é um coração puro, uma boa consciência e uma fé não fingida, quanto em seu objetivo, que é a glória de Deus.

Objeção 2
Deus ordenou a todos os homens que creiam e se arrependam; portanto, eles têm livre-arbítrio natural, pelo qual (sendo ajudados pelo Espírito de Deus) podem crer e se arrepender.

Resposta
Essa razão não é válida; pois, com tais mandamentos, Deus não mostra o que os homens são capazes de fazer, mas o que eles devem fazer, e o que não conseguem fazer. Além disso, a razão não está bem formulada; ela deveria ser assim: Porque Deus ordena aos homens que se arrependam e creiam, portanto eles têm o poder de se arrepender e crer, seja por natureza ou pela graça: e então concordamos com eles. Pois, quando Deus no Evangelho ordena aos homens que se arrependam e creiam, ao mesmo tempo, por Sua graça, Ele os capacita tanto a desejar crer e arrepender-se, como a realmente arrepender-se e crer.

Objeção 3
Se o homem não tem livre-arbítrio para pecar ou não pecar, então ninguém deve ser punido por seus pecados, porque ele peca por uma necessidade inevitável.

Resposta
A razão não é válida; pois, embora o homem não possa deixar de pecar, a culpa está nele mesmo, e, portanto, ele deve ser punido; assim como um falido não é, por isso, liberado de suas dívidas, porque não é capaz de pagá-las; mas as dívidas contra ele continuam em vigor, pois a dívida ocorreu por sua própria falha.

Objeção 4
Eles alegam que as ações dos homens após a queda não podem ser boas nem más, a menos que tenham algum tipo de liberdade ou vontade espontânea. No entanto, os papistas argumentam que, se todas as nossas ações são forçadas, então nenhuma pode ser considerada boa ou má.

Resposta
Respondemos que, de fato, as ações dos homens podem ser boas ou más sem essa liberdade absoluta. Pois, conforme as Escrituras, todos os atos humanos após a queda são inclinados ao mal, e a regeneração de uma pessoa pelo Espírito Santo transforma sua disposição, de modo que seus atos, por essa nova natureza, se inclinam ao bem.

Livro

#01 Separação de Roma Ordenada nas Escrituras

E ouvi outra voz do céu, dizendo: Sai dela, povo meu, para que não sejas participante dos seus pecados, e para que não incorras nas suas pragas. Apocalipse 18:4

No capítulo anterior, São João apresenta uma descrição da prostituta da Babilônia, e isso de forma ampla, como a viu em uma visão que lhe foi descrita. No décimo sexto versículo do mesmo capítulo, ele prediz sua destruição; e, nos três primeiros versículos deste décimo oitavo capítulo, ele continua a expor essa destruição de maneira ainda mais direta e clara, apresentando, ao mesmo tempo, argumentos para prová-la em todos os versículos seguintes. Agora, neste quarto versículo, é feita uma advertência para alertar todo o povo de Deus, para que possam escapar do julgamento que recairá sobre a prostituta; e as palavras contêm duas partes: um mandamento e uma razão.

O mandamento: “Sai dela, povo meu”, ou seja, da Babilônia.

A razão: derivada do evento, para que não sejais participantes das suas pragas. Em relação ao mandamento, primeiro vou buscar o significado correto dele e, em seguida, expor seu uso e a doutrina que dele flui.

O Significado Correto do Mandamento

Na história, portanto, são mencionadas três Babilônias: uma é a Babilônia da Assíria, situada no rio Eufrates, onde ocorreu a confusão das línguas e onde os judeus estavam em cativeiro, sendo esta Babilônia repreendida nas Escrituras por idolatria e outras iniquidades. A segunda Babilônia está no Egito, às margens do rio Nilo, e agora é chamada de Cairo; é mencionada em 1 Pedro 5:13 (segundo alguns pensam), embora, de fato, seja mais provável e comumente acreditado que ali se refere à Babilônia da Assíria. A terceira Babilônia é mística, da qual a Babilônia da Assíria era um tipo e figura; e essa é Roma, que sem dúvida é o que se deve entender aqui. E a prostituta da Babilônia, como se pode deduzir de todas as circunstâncias, é o estado ou governo de um povo que são os habitantes de Roma e a ela pertencem.

Isso pode ser comprovado pela interpretação do Espírito Santo: pois no último versículo do capítulo 17, a mulher que é a prostituta da Babilônia é dita ser uma cidade que reina sobre os reis da Terra; agora, nos dias em que São João escreveu este livro do Apocalipse, não havia cidade no mundo que governasse sobre os reis da Terra, exceto Roma, que era então o local onde o imperador exercia sua autoridade imperial. Além disso, no sétimo versículo, ela é dita estar sentada sobre uma besta que tem sete cabeças e dez chifres, sendo as sete cabeças sete colinas (versículo 9), sobre as quais a mulher está sentada, e também representam sete reis. Portanto, a prostituta da Babilônia significa uma cidade situada sobre sete colinas. Agora, é bem sabido, não apenas pelos estudiosos da Igreja de Deus, mas até pelos próprios pagãos, que somente Roma é a cidade construída sobre sete colinas distintas (chamadas Caelius, Aventinus, Esquilinus, Tarpeius ou Capitolinus, Viminalis, Palatinus, Quirinalis). Os papistas, para se defenderem, alegam que a antiga Roma ficava sobre sete colinas, mas agora foi transferida para a planície de Campus Martius. Respondo que, embora a maior parte da cidade, em termos de habitação, não esteja agora sobre as sete colinas, em termos de governo e prática religiosa, está: pois, mesmo hoje, sobre essas colinas estão situadas certas igrejas e mosteiros e outros lugares onde a autoridade papal é exercida; e, assim, Roma, representando um estado e governo, ainda hoje permanece sobre as sete colinas. E, embora tenha acontecido que a prostituta em seus últimos dias tenha mudado de sede, em relação aos seus primeiros tempos, quando foi criada e nasceu, ela estava sobre as sete colinas.

Outros, porque temem ferir suas próprias cabeças, esforçam-se para dar a essas palavras outro significado, e dizem que por “prostituta” se entende o conjunto de todos os homens ímpios no mundo, onde quer que estejam, sendo o diabo a cabeça deles. Mas essa interpretação é totalmente contrária ao texto: pois, no segundo versículo do capítulo 18, ela é oposta aos reis da Terra, com os quais é dito que cometeu fornicação; e, no último versículo, ela é chamada de cidade situada sobre sete colinas e que reina sobre os reis da Terra (como já mencionei); e, portanto, deve ser necessariamente um estado de homens em algum local particular. E os próprios papistas, percebendo que essa interpretação não lhes serve, fazem duas Romas: a Roma pagã, e aquela da qual o Papa é o chefe; agora (dizem eles), a prostituta mencionada é a Roma pagã, que era governada por tiranos cruéis, como Nero, Domiciano e outros; e que a Roma da qual o Papa é chefe não é a que está mencionada aqui. Eis uma distinção vã e tola: pois a Roma Eclesiástica, em termos de estado, domínio régio e crueldade em perseguir os santos de Deus, é toda igual ao Império pagão; a sede do bispo sendo transformada na corte do imperador, como mostram todas as histórias.

Mas deixemos que a distinção seja como eles supõem; ainda assim, por suas concessões, aqui por “prostituta” deve-se entender não apenas a Roma pagã, mas também a Roma papal ou eclesiástica: pois, no versículo 3 deste capítulo, o Espírito Santo diz claramente que ela embebedou todas as nações com o vinho da ira de sua fornicação; e é acrescentado que ela cometeu fornicação com os reis da Terra, pelo que se entende que ela se esforçou para envolver todas as nações da Terra em sua idolatria espiritual e levar os reis da Terra para sua religião. Essa descrição não pode ser entendida como referente à Roma pagã, pois esta permitia que todos os reis da Terra mantivessem suas próprias religiões e idolatrias; e eles também não se esforçaram para trazer reis estrangeiros a adorarem seus deuses. Além disso, no capítulo 18, versículo 16, é dito que os dez chifres, que representam dez reis, odiarão a prostituta e a deixarão desolada e nua, o que não pode ser entendido como referindo-se à Roma pagã, mas sim à Roma papal; pois, enquanto em tempos passados todos os reis da Terra se submetiam à prostituta, agora eles começaram a se retirar dela e deixá-la desolada, como o rei da Boêmia, Dinamarca, Alemanha, Inglaterra, Escócia e outras partes; portanto, essa distinção também é fútil.

Eles ainda alegam que a prostituta da Babilônia está embriagada com o sangue dos santos e mártires (Ap 17:6), que não foi derramado em Roma, mas em Jerusalém, onde o Senhor foi crucificado, e onde os dois profetas mortos jazem nas ruas (Ap 11:8). Mas este lugar não se refere a Jerusalém, como ensina completamente Jerônimo, mas pode ser bem entendido como referindo-se a Roma: Cristo foi crucificado lá, ou porque a autoridade pela qual Ele foi crucificado vinha do Império Romano, ou porque Cristo em Seus membros foi e é lá diariamente crucificado, embora, em Sua pessoa física, Ele tenha sido crucificado em Jerusalém. E assim, apesar de tudo o que foi dito, devemos entender aqui por “prostituta” o Estado e o Império de Roma, não tanto sob os imperadores pagãos, mas sob o chefe atual, o Papa; o que, além da autoridade do texto, tem o favor e a defesa de homens antigos e eruditos. Bernardo diz: “Eles são ministros de Cristo, mas servem ao Anticristo”.

Além disso, a besta mencionada no Apocalipse, à qual é dada uma boca para falar blasfêmias e fazer guerra contra os santos de Deus, agora se senta na cadeira de Pedro, como um leão preparado para sua presa. Dir-se-á que Bernardo fala essas últimas palavras de alguém que chegou ao Papado por intrusão ou usurpação. É verdade, de fato; mas por que ele era um usurpador? Ele dá a razão disso no mesmo lugar: porque o Antipapa chamado Inocêncio foi escolhido pelos reis da Alemanha, França, Inglaterra, Escócia, Espanha, Jerusalém, com o consentimento de todo o clero e povo dessas nações, e o outro não. E assim, Bernardo deu seu veredicto de que não apenas esse usurpador, mas todos os Papas de muitos anos até agora são a besta do Apocalipse; porque agora eles são escolhidos apenas pelo colégio dos Cardeais. Com isso concorda o decreto do Papa Nicolau II, de 1059, de que o Papa deve ser eleito pelos votos dos bispos cardeais de Roma, com o consentimento do resto do clero e povo, e do próprio Imperador; e todos os Papas são excomungados e amaldiçoados como Anticristos, se entrarem de outra forma, como fazem todos agora. O Abade Joachimus disse: “O Anticristo há muito nasceu em Roma e será ainda mais elevado na Sé Apostólica”. Petrarca disse: “Um dia Roma, agora Babilônia”. E Irineu, no livro 5, capítulo final, disse antes de todos eles, que o Anticristo deveria ser Lateinus, um romano.

O Uso

Novamente, este mandamento não deve ser entendido tanto como uma partida física, em relação à coabitação e presença, mas como uma separação espiritual, em relação à fé e religião. E o significado do Espírito Santo é que os homens devem se afastar da Igreja Romana em termos de julgamento e doutrina, em termos de sua fé e adoração a Deus.

Assim, então, vemos que as palavras contêm um mandamento de Deus, ordenando que Sua Igreja e Seu povo façam uma separação de Babilônia. Daí observo que todos os que querem ser salvos devem se afastar e separar-se da fé e da religião da atual Igreja de Roma. E quanto a serem acusados de cisma por se separarem dessa maneira, a verdade é que eles não são cismáticos ao fazê-lo, pois têm o mandamento de Deus como justificativa; e o partido cismático é aquele em que reside a causa dessa separação, ou seja, na Igreja de Roma, nomeadamente o cálice de abominação na mão da prostituta, que é sua religião herética e cismática.

Vida Cristã

Como o Mundanismo Ministerial Prejudica o Rebanho de Deus

Joel R. Beeke

“Cuidai, pois, de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue”. Atos 20:28

Todos os títulos dados nas Escrituras aos ministros estão dentro dos parâmetros da exortação de Paulo para dar atenção a todo o rebanho. Mas nosso título mais claro e amplo é o de pastor (Ef 4:11). Paulo menciona isso especificamente em Atos20:28, “Apascenta (literalmente, ‘seja um pastor para’) a igreja de Deus.”

Ovelhas são criaturas únicas. Elas estão entre as criaturas mais dependentes e tolas da Terra. Elas são propensas a vagar. Elas deixarão pastos ricos por pastos estéreis, e então não conseguirão encontrar o caminho de volta. E elas têm vontades teimosas, até o ponto de lutar contra aquelas pessoas e aquelas medidas que serviriam aos seus melhores interesses.

Sem a orientação de um pastor, as ovelhas se destruirão de uma forma ou de outra. Sem um pastor, as ovelhas não podem se alimentar, se defender de ataques ou se tratar quando feridas. Sem seu pastor, as ovelhas não podem fazer nada.

Pastorear a igreja de Deus é uma tarefa incrível. Baseado no Salmo 23, aqui está o que devemos cultivar como pastores:

  • Precisamos de um coração de pastor que bata com amor incondicional pelo rebanho de Deus.
  • Precisamos da mão de um pastor para guiar as ovelhas de Deus nos caminhos da justiça e afastá-las do pecado.
  • Precisamos do olhar de um pastor para proteger nossas ovelhas dos predadores e detectar seus desvios.
  • Precisamos do ouvido de um pastor para ouvir seus gritos de angústia.
  • Precisamos do conhecimento de um pastor para conhecer suas doenças, alegrias, tristezas, pontos fortes e fracos.
  • Precisamos da habilidade de um pastor para conduzi-los a pastos que atendam às suas necessidades e dar-lhes o remédio certo para suas enfermidades.
  • Precisamos da fidelidade de um pastor para permanecer com eles em tempos de necessidade.
  • Precisamos da força de um pastor para usar a vara da Palavra de Deus para guiá-los de volta aos caminhos certos e usar o cajado para ajudá-los nas dificuldades, sempre apontando-os para o Bom e Supremo Pastor, Jesus Cristo.

Cada uma dessas qualidades de pastoreio pode ser destruída por um espírito mundano. Como você pode curar os pobres, feridos e de coração partido se seu coração se apega às riquezas mundanas? Como você pode recuperar ovelhas perdidas se você mesmo está se perdendo no mundo? Como você pode conhecer as fraquezas, tentações, forças e dons do rebanho se você ama as coisas deste mundo mais do que o povo de Deus?

Ministros mundanos deixam as ovelhas famintas em vez de alimentá-las. Veja como:

  • A mundanidade promove o profissionalismo. A mundanidade transforma o ministério em uma carreira ou mero emprego. Pregação, evangelismo, aconselhamento e visitação não são mais feitos sob a restrição do chamado divino. As tarefas ainda são feitas, mas de forma rotineira e obediente, vazias de um senso do chamado do Espírito.

Clérigos profissionais muitas vezes se alimentam de seu profissionalismo. Eles amam o que Spurgeon chamou de “ministerialismo” mais do que o ministério. Eles são púlpitos em vez de pregadores, atores em vez de aplicadores, egocêntricos em vez de centrados em Deus. Eles confiam em suas próprias habilidades em vez de olhar para Cristo e Seu Espírito.

No final, seu profissionalismo destruirá as ovelhas, pois as ovelhas precisam de um pastor pessoal e atencioso. Não devemos pensar em nossas igrejas como estações de trabalho e nossos paroquianos como casos; em vez disso, devemos pensar em nossas igrejas como hospitais onde pessoas feridas encontram cuidado amoroso e terno. Como Jesus, devemos sofrer com nossas ovelhas. Podemos evitar a armadilha do profissionalismo somente amando o Senhor da igreja, Seu povo e a obra que Ele nos chamou para fazer. Como Spurgeon disse: “Nunca economizaremos mais até que amemos mais.”

Ouça o que Horatius Bonar disse sobre profissionalismo: “O amor está faltando, amor profundo, amor forte como a morte, amor tal como fez Jeremias chorar em lugares secretos pelo orgulhode Israel. Na pregação e na visita, no aconselhamento e na reprovação, que formalidade, que frieza, quão pouca ternura e afeição!”

  • A mundanidade promove a petrificação. No ministério, ou se vive e cresce ou se decompõe e se petrifica. Não importa quão experiente seja um pastor, ele deve continuar crescendo espiritual e intelectualmente. A mundanidade impede esse crescimento. Ela impede que os ministros vivam no limite do crescimento. O apóstolo Paulo pretendia nunca parar de crescer. Enquanto estava na prisão, esperando o machado do carrasco, Paulo pediu a Timóteo que trouxesse seus “livros e pergaminhos” (2 Timóteo 4:13) para que ele pudesse continuar seus estudos.

Uma maneira de evitar a petrificação é trabalhar em vários níveis. Por exemplo, ensine e escreva abaixo do seu nível em algum ministério para crianças. Ao mesmo tempo, pregue, ensine e escreva no seu nível atual. Então, também, estique e cresça estudando material acima do seu nível.

Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar nosso tempo ou dar lugar à preguiça. Devemos orar muito, meditar frequentemente e estudar muito. Devemos ler os melhores livros e aprender a usá-los proveitosamente. Devemos organizar cada hora do nosso tempo, mas permanecer flexíveis para responder às necessidades do nosso povo. Devemos lembrar dos três D’s: descartar a papelada desnecessária, delegar tudo o que pudermos e lidar com cada item apenas uma vez.

O diário de George Whitefield diz que ele estava de joelhos chorando por ter desperdiçado trinta minutos em um dia, embora notemos de passagem que não é perda de tempo refrescar nossas mentes e corpos com descanso sazonal e recreação saudável. Na visão dos teólogos de Westminster, o Sexto Mandamento exige que façamos uso moderado e “sóbrio de carne, bebida, medicina, sono, trabalho e recreações” (Catecismo Maior, Perguntas 135- 136).

  • O mundanismo promove um ministério focado no prazer. Quando um ministro fala mais sobre esportes do que sobre Cristo, passa mais tempo com um jornal do que com a Bíblia, mais tempo navegando na Internet do que em oração, mais tempo acumulando bens materiais do que promovendo o bem-estar das almas de seu rebanho, sua busca por prazeres minará seu ministério. No final do dia, o homem que se concentra mais em prazeres temporários do que em disciplinas piedosas pode muito bem sucumbir ao alcoolismo, adultério ou algum outro pecado da carne. Em todos os casos, as ovelhas são as perdedoras. Podemos esperar que o nível de santidade do rebanho se eleve acima do de seu pastor terreno?

Precisamos evitar toda forma de materialismo. Nossas casas, carros, móveis, bens e roupas não devem se tornar fins em si mesmos. Não é certo que um ministro “ande em vão” (cf. Sl 39:6). Se pregarmos ao nosso povo que eles não devem colocar seus corações em coisas terrenas enquanto nosso estilo de vida mostra que nós mesmos o fazemos, nosso ministério perde credibilidade.

Nossa conversa diária também não deve se concentrar muito em coisas terrenas. Se dissermos às pessoas que “da abundância do coração, a boca fala”, e nossa conversa se concentrar mais em posses e buscas terrenas do que em nossa herança celestial, nosso ministério perde credibilidade. Qualquer coisa que façamos ou digamos que coloque o prazer terreno em primeiro lugar e o serviço divino em último lugar destrói a eficácia do nosso ministério.

O materialismo é perigoso porque é a prática da cobiça. A cobiça nos governa de dentro. É como uma enchente que rompe as margens de nossos corações e transborda em nossas vidas, causando destruição. A cobiça esquece que a felicidade não consiste em coisas, mas em pensamentos. Não deixe que dinheiro, posses e desejos carnais se tornem mais importantes para você do que a utilidade para Deus e Seu povo. Tal cobiça o esvaziará e diminuirá. Ela azedará seu gosto pelo ministério.

Deus odeia a cobiça porque ela o exclui, insulta e nos insensibiliza. Irmãos no ministério, vamos crucificar a cobiça e andar de forma digna de nossa vocação. Não pense no ministério em termos de salário, mas como um investimento espiritual que oferece dividendos eternos. Como Paulo, vamos aprender a ser humilhados e a abundar em contentamento.

Não cobice os dons de ninguém. Use os talentos que Deus lhe deu. Quando Robert Murray M’Cheyne visitou Israel, Deus usou William Burns para inaugurar o reavivamento na igreja de M’Cheyne. M’Cheyne ficou tão feliz com o reavivamento como se ele próprio o tivesse liderado. Ele se alegrou com os dons de Burns. Ele seguiu o caminho mais excelente de Deus em vez dos caminhos cobiçosos deste mundo. “Por humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3).

Finalmente, não cobice mulheres, e especialmente as esposas de outros homens. Ande circunspectamente. Ore diariamente para ser guardado da tentação. Apoie-se na força do Espírito. Agradeça a Ele por preservá-lo removendo o desejo quando a tentação estava presente e removendo a tentação quando o desejo estava presente. Recuse-se a se envolver em qualquer forma de flerte. A melhor maneira de evitar a cobiça é cultivar um casamento excelente com sua esposa e mostrar sua devoção sincera a ela. Poucas mulheres tentarão flertar com você quando virem o quão dedicado você é à sua esposa. Pense nestas palavras de Isaías: “Sede limpos, vós que levais os vasos do SENHOR” (52:11). E lembre-se desta oração de um pastor:

Eu seria verdadeiro, pois há aqueles que confiam em mim; eu seria puro, pois há aqueles que se importam; eu seria forte, pois há muito a sofrer; eu seria corajoso, pois há muito a ousar.

Lembre-se também do que Jesus disse aos Seus discípulos: “Vigiai e orai, para que não caiais em tentação.” É como se Jesus dissesse: “Eu vos treinei. Vocês testemunharam o Meu exemplo. Mas não pensem que, porque foram matriculados no melhor seminário da Terra, vocês estão além da tentação. Vigiai e orai.”

Vigilância, oração e leitura diária da Bíblia são os melhores antídotos para a tentação. Poucos ministros caíram mantendo essas disciplinas espirituais. Leve a sério o aviso de Abraham Booth: “Embora eu tenha tido uma parcela maior de estima entre pessoas religiosas do que eu tinha qualquer razão para esperar; ainda assim, afinal, é possível para mim, em uma única hora de tentação, destruir meu caráter, arruinar minha utilidade pública e fazer com que meus amigos cristãos mais calorosos se envergonhem de me reconhecer. Sustenta-me, ó Senhor, e estarei seguro!”

  • O mundanismo promove a frivolidade. Ministros que não têm sobriedade e não transmitem nenhuma atitude de seriedade sobre a vida, o julgamento vindouro e a eternidade, criam ao redor de si uma atmosfera que extingue o temor de Deus. Eles instilam em seu povo uma atitude de complacência e indiferença, deixando-os adormecidos e inconscientes da aproximação do perigo.

Há um lugar para o humor no ministério, especialmente em conversas privadas. Um ministro não deve ser triste, enfadonho e antissocial. Mas o humor deve ser mantido dentro dos limites e nunca deve degradar-se em algo sugestivo ou indecente (Ef. 4:29; cf. Ef. 5:12). Uma conversa séria e piedosa deve ser o coração de cada visita que fazemos. E cada visita deve ser temperada com oração. Seja como James Hervey, que resolveu “nunca entrar em nenhuma companhia, onde não pudesse obter acesso para seu Mestre”.

Considere o que Thomas Boston disse: “Quando você estiver em qualquer momento em companhia, deixe algo que cheire a céu cair de seus lábios. Aprenda a química celestial de extrair algo espiritual das coisas terrenas. Oh, que vergonha é para você se sentar em companhia, e se levantar novamente, e se separar deles, e nunca uma palavra de Cristo ser ouvida.” Se nossa conversa não for governada por uma sobriedade calorosa e atenciosa, o espírito da conversa mundana inevitavelmente prevalecerá. E a conversa mundana é dominada, como diz Charles Bridge, “pelo medo do homem, indulgência carnal e descrença prática.” Não há lucro em multiplicar palavras sem conhecimento (Jó 35:16).Não podemos edificar aqueles confiados aos nossos cuidados se apenas os envolvermos em conversas mundanas. Desonraremos o Espírito ao deixar de falar de Sua obra na alma, e não devemos nos surpreender quando, no devido tempo, qualquer demanda por conversa piedosa e vida piedosa for ridicularizada como legalismo.

  • O mundanismo promove a indiferença. Como alguns médicos que veem os pacientes como números, alguns ministros tratam as pessoas como objetos a serem manipulados em vez de almas a serem salvas. Esses ministros são carentes de oração, preguiçosos na preparação de sermões, ineficazes na pregação e negligentes na visitação pastoral.

Recentemente, um pastor visitou uma pessoa no hospital em resposta ao pedido de um parente. Depois de visitá-la, ele leu as Escrituras com ela, comentou brevemente sobre elas e encerrou com uma oração. Quando ele se despediu, a mulher chorou e disse: “Meu pastor veio também, mas ele falou mais sobre si mesmo e sobre o clima do que sobre minha condição. Ele não leu as Escrituras, não falou sobre o Senhor, e sua oração foi curta e superficial. Vocês acham que ele se importa com minha alma?

Irmãos, se não vamos pastorear nosso povo com nossas mentes e corações, devemos deixar o ministério. Um pastor indiferente é um mercenário, não um pastor. Horatius Bonar descreveu bem tais homens: “Associando-nos muito e muito intimamente com o mundo, nós nos acostumamos em grande medida aos seus costumes. Daí nossos gostos terem sido viciados, nossas consciências embotadas, e aquela ternura sensível de sentimento que, embora não recue do sofrimento, mas recue do contato mais remoto com o pecado, se desgastou e deu lugar a uma quantidade de insensibilidade da qual nós, outrora, em dias mais frescos, acreditávamos ser incapazes.”

“Deus salva todos os tipos de pessoas, até mesmo ministros”, escreveu John Kershaw, um pastor batista do século XIX. Embora o ministério tenda a isolar um pastor das atrações do mundo, um dos maiores perigos do ministério é que ele permite que um pastor manuseie o sagrado com tanta frequência que se torna banal para ele. É verdade que podemos manusear a Palavra de Deus como se não fosse nada mais do que as palavras dos homens. Podemos tomar o que é santo como garantido enquanto vivemos vidas profanas. Podemos incitar outros à santidade, mas, como os fariseus, não nos mover um centímetro nessa direção. Eventualmente, operamos nossos ministérios mais por indiferença e descrença do que por fé.

Tome cuidado, irmãos, pois a indiferença é o fruto da mundanidade. Ela nos torna frios em nossa pregação, preguiçosos em nossas visitas, irreverentes em lidar com realidades eternas e negligentes em todos os nossos deveres sagrados.

Não se deixe vencer por um espírito mundano e incrédulo. Lembre-se de que tudo o que você diz é filtrado pela grade da mente do nosso povo. Se o registro cumulativo de tudo o que eles sabem sobre você indica mais mundanismo do que piedade, nossas ovelhas se sentirão famintas, mesmo enquanto se alimentam de todas as nossas mensagens.

Não podemos amar a Deus e ao mundo. Não podemos servir a dois senhores. Como podemos nós, como ministros, manter nossa integridade espiritual, nosso amor a Deus, nossos corações pastorais e nossa caminhada piedosa se secretamente flertamos com o mundo? Como podemos viver como um peregrino e um peregrino quando ansiamos mais pela terra do que pelo céu?

Preste atenção ao rebanho. Alimente a igreja com a Palavra; não a deixe passar fome com mundanismo. Preste atenção ao aviso de Thomas Scott: “O ministro que não quer que seu povo ceda à conformidade mundana, tal como ele desaprova, deve manter-se a uma distância considerável. Se ele anda perto da beira do abismo, outros cairão no precipício.”

Devocionais

POR QUE VOCÊ ESTÁ RESPIRANDO?

Por Carlos Costa

Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor. Salmo 150.6

A cada inspiração que você inspira, o oxigênio do ar sai dos pulmões para a corrente sanguínea. Ao mesmo tempo, o dióxido de carbono sai desses rios escuros e silenciosos e entra nas cavernas dos pulmões. A partir daí, ele volta para o mundo. Você faz isso cerca de 20.000 vezes por dia, cerca de 8 milhões ou mais por ano.


Em algum momento, você sabe que isso vai parar. Você provavelmente ainda não aceita isso. Muitas pessoas não o fazem, penso eu, até estarem às portas da morte, olhando para trás, para o sonho surreal da vida, perguntando-se como tal coisa poderia realmente acabar. Mas pelo menos em teoria você sabe que isso vai acontecer. Se tudo vai acabar, então qual é o propósito agora?


Um renomado teólogo judeu, disse certa vez: “É a gratidão que engrandece a alma”. Imagine que você está em um perigo extremo. Você caiu em águas profundas e a corrente está puxando você contra sua vontade. Você se debate e se debate na água e começa a sentir que está afundando, incapaz de recuperar o controle, incapaz de respirar. Então, de repente, você sente os braços de alguém ao seu redor, assumindo o controle e puxando você para a superfície, puxando-o para um local seguro. Imagine o quão grato você se sentiria. Momentos antes, você não conseguia nem respirar – e agora pode respirar. Sua vida foi poupada.


A verdade é que a cada segundo de cada dia Deus nos dá ar para respirar e nos permite viver mais um dia. Respirar é algo que quase todo mundo considera natural. É a primeira coisa que fazemos quando nascemos e a última coisa que fazemos quando morremos. Fazemos isso mesmo quando estamos dormindo ou quando não estamos pensando nisso.
O Salmo 150, o último salmo, trata de louvar a Deus e ser grato. A última linha diz: “Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor! [Aleluia!].

GRAÇAS A DEUS POR CADA RESPIRAÇÃO

A palavra hebraica para respiração é ???????? (neshamah), a mesma palavra para “a alma”. Em outras palavras, a alma, a vida que Deus soprou nas narinas de Adão, o sopro que continua através de cada pessoa viva até hoje, é razão suficiente para louvar a Deus. A mensagem de despedida do Rei Davi para nós é para sermos gratos por tudo o que temos, começando pela capacidade de respirar a cada dia.


O Livro dos Salmos trata principalmente de louvar a Deus por nossas bênçãos ou de orar a Deus para nos resgatar em tempos difíceis. Para a maioria de nós, o louvor e o agradecimento a Deus acontecem quando recebemos alguma bênção óbvia, como ser curado de uma doença, ou quando somos abençoados materialmente além de nossas expectativas. E essa é uma resposta muito apropriada e natural.


A maioria de nós considera a respiração algo trivial, mas apenas alguns minutos sem respirar e perderíamos a consciência. Pouco depois, a morte seria uma realidade.

Jó registra que o Senhor tem em Suas mãos “a vida de todos os seres viventes e o fôlego de toda a humanidade” (Jó 12:10). Ele nos dá o dom de inspirar e expirar todos os dias para que possamos honrá-Lo e glorificá-Lo com nossas vidas (Isaías 43:7; Mateus 5:16; 1 Coríntios 6:19-20).


A cada inspiração de oxigênio, devemos exalar louvor ao nosso Criador, Aquele que nos deu a respiração em primeiro lugar. No Jardim do Éden, somos informados: “O Senhor soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem tornou-se um ser vivente ” (Gênesis 2:7) .

Cada respiração que respiramos nos é concedida graciosamente por Deus. Mesmo enquanto você lê esta frase, Ele está sustentando sua vida. Parece tão óbvio, mas consideramos cada respiração algo natural, não é?

SE VOCÊ ESTÁ RESPIRANDO, LOUVE AO SENHOR!

Conta-se a história de um pregador que um dia estava ao lado da cama de uma senhora cristã idosa que estava à beira da morte. Ela pediu-lhe que lesse uma Escritura da Bíblia, e quando ele lhe perguntou qual Escritura ela queria que ele lesse, ela disse: “Faça sua própria seleção, pregador, mas que seja de louvor”.

Embora ela estivesse no processo de dar seus últimos suspiros na terra, ela queria que seu testemunho de despedida ecoasse os sentimentos do salmista: “Todo aquele que tem fôlego louve ao Senhor” (Salmos 150:6).

“Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor.” Na verdade, isso é justo, pois o Senhor “Ele mesmo dá a todos vida e fôlego” (Atos 17:25). Como Spurgeon explica: “É assim que vivemos espiritualmente: inspiramos o ar pela oração e expiramos pelo louvor! Esta é a respiração sagrada da vida de um cristão! em hebraico (YHWH) é composto mais por respirações do que por letras, para mostrar que toda respiração vem Dele: portanto, que seja usada PARA Ele.” Wiersbe acrescenta que “o fôlego é a coisa mais fraca que temos, mas podemos dedicá-lo ao serviço mais elevado: louvar ao Senhor”. Portanto, enquanto ainda temos fôlego, vamos continuamente “louvar o nome de Jeová” (Sl 113:1b).


Spurgeon nos exorta perguntando “toda a natureza ao nosso redor não canta? Na verdade, se ficarmos em silêncio, seríamos uma exceção no universo. O trovão não O louva enquanto ressoa como tambores na marcha do Deus dos exércitos? O oceano não O louva ao bater palmas?” O salmista acrescenta: “Louvem-no os céus e a terra, os mares e tudo o que neles se move” (Sl 69:34 ). Na verdade, até mesmo “fogo e granizo, neve e nuvens, ventos tempestuosos” louvam ao Senhor (Sl 148:7-8).


Mas quantos de nós louvamos e agradecemos a Deus pelo dom da respiração, pela própria vida? Já agradecemos a Deus hoje pelo ar que Ele nos permitiu respirar?


O último versículo dos Salmos nos lembra que não importa quão difíceis sejam as circunstâncias, sempre podemos ser gratos pela nossa capacidade de respirar e pelo fato de estarmos vivos. Enquanto vivermos, podemos ter esperança, consertar, mudar e crescer. Quando podemos agradecer a Deus por cada respiração, podemos ser gratos por tudo. Tudo o que tem fôlego louve ao Senhor.

Soli Deo Gloria!

Vida Cristã

O JARDIM DE TODAS AS VIRTUDES

POR CARLOS COSTA

A sociedade atual não encoraja, celebra ou ensina a verdadeira humildade. A mídia social por si só oferece uma variedade de maneiras de nos vangloriarmos de nossas realizações, diplomas, conquistas, beleza, corpo, bens, viagens e compartilhar tudo o que estamos fazendo e expressar tudo o que pensamos. Não quero dizer que não podemos compartilhar boas notícias ou como Deus está trabalhando em Sua Igreja, mas há uma diferença entre dar glória a Deus e dar glória a nós mesmos.
Não pense que nascemos com humildade e gentileza. A humildade é algo absolutamente indispensável para o cristão. Sem ela, não pode haver conhecimento de si mesmo, nem arrependimento, nem fé, nem salvação. Para João Crisóstomo, “a humildade é o jardim de todas as virtudes”. Já Agostinho disse: “Se me perguntarem qual o primeiro preceito do cristianismo, responderei que o primeiro, o segundo e o terceiro preceito é a humildade”.

Agostinho considerava a humildade central para a fé cristã. Através da experiência de sua busca espiritual durante seus primeiros trinta anos de vida, ele veio a ver claramente que somente uma pessoa com humildade pode seguir a Cristo. Para ele, a humildade era muito mais do que simplesmente uma das muitas virtudes que um cristão deveria praticar. Por causa de sua própria experiência de conversão à religião cristã, Agostinho passou a ensinar que a humildade (o oposto do orgulho) é a virtude cristã básica.


“A verdadeira humildade” — disse alguém — “é um agradável ornamento; ela é o único traje adequado a um pecador salvo!” Oh, esforcemo-nos, portanto, para nos vestirmos com esse manto — para sermos achados em silêncio, sem procurar chamar atenção, aos pés de nosso Criador e Redentor.


Se o orgulho é um mal epidêmico, a humildade é a virtude ameaçada. A humildade é tão rara porque ela não é natural do próprio homem. Somente um verdadeiro cristão, que tem o Espírito de Deus, pode aprender a humildade. “A humildade é a raiz, a mãe, a ama-de-leite, o alicerce e o vínculo de todas as virtudes”, expressou Crisóstomo. Para John Mason, “a mais preciosa pérola na coroa de virtudes do cristão é a humildade”. Humildade é algo pelo qual devemos orar constantemente, mas nunca agradecer a Deus por isso. Nada coloca um cristão tão fora do alcance do diabo quanto a humildade.


Alguém já disse que “a humildade é um paradoxo. No momento em que você pensa que finalmente encontrou, você a perdeu”. Geralmente, quando você descobre que a possui, você a perde. A humildade é como uma flor rara – coloque-a em exposição e ela instantaneamente murcha e perde sua fragrância! A humildade é um traço de caráter que nunca pode surgir de si próprio; não é algo para ser anunciado do alto… não, humildade não é algo para ser anunciado. Pois então, se você consegue imaginar a ironia disso, você ficou orgulhoso de sua humildade.


A humildade é aquela graça pela qual um homem faz pouco ou nenhum caso de si mesmo (Jó 42.6; Ezequiel 20.43). É uma graça do Espírito de Deus, pela qual um homem, a partir do verdadeiro conhecimento de si mesmo, de seu estado e condição, se considera vil e age de acordo diante de Deus e dos homens. Todo homem piedoso é humilde (Provérbios 30.2; Lucas 18.13). A pobreza de espírito é o primeiro passo para o céu (Mateus 5.3). “Alto em valor e humilde de coração”, disse Nazianzeno sobre Atanásio. Todas as estrelas, quanto mais altas são, tanto menores parecem; assim também devem ser todos os santos.


Primislaus, o primeiro Rei da Boêmia, mantinha seus sapatos perto dele para lembrá-lo de onde ele veio. Lemos sobre Agatocles, aquele Rei que era inicialmente filho de um oleiro e posteriormente elevado ao Reino da Sicília, que teria, junto com seu serviço de ouro e prata, recipientes de barro em sua despensa para lembrá-lo de sua condição anterior. Jacó disse: “Sou menos que o menor de todas as tuas misericórdias.” Abraão se chamava “pó e cinza”. Davi se considerava um “cão morto” (1 Samuel 2.4), uma pulga, ou seja, uma pessoa pobre, insignificante, básica, sem valor. Paulo se considerava “o menor de todos os santos” e “o maior dos pecadores” (1 Timóteo 1.15). “Embora eu não seja nada”, disse ele, “e eu seja o menor de todos os apóstolos, não digno de ser chamado apóstolo”.


A humildade tem a promessa de benefícios tanto temporais (Provérbios 22.4) quanto espirituais: graça (Provérbios 3.34), sabedoria (Provérbios 11.4), o temor de Deus e, finalmente, a bem-aventurança (Mateus 5.3).

A HUMILDADE PROCEDE DE DEUS


Deus é a fonte da humildade. Por natureza, o homem é uma criatura que aspira à glória, é orgulhoso e vaidoso e tem pensamentos elevados sobre si mesmo. Ele é motivado por si mesmo, está focado em si mesmo e deseja que o objetivo de todos seja estimá-lo, honrá-lo, temê-lo, servi-lo e obedecê-lo. O coração que o Senhor dá ao seu povo é diferente, porém, porque Ele faz com que Cristo se forme neles, para que, também na humildade, se assemelhem a Cristo.


Assim, a humildade resulta de um julgamento correto de si mesmo. Os humildes reconhecem que são feitos de pó e residem em tabernáculos de barro. Eles sabem que pecaram e destituídos estão da glória de Deus; são cegos, miseráveis, nus e miseráveis, e que são, portanto, abomináveis, odiosos e intoleráveis diante de Deus, dos anjos e dos homens. Eles sabem que não são dignos de que os céus os cubram, que o sol brilhe sobre eles, ou que caminhem sobre a terra, desfrutando da companhia dos homens, tendo um pedaço de pão para comer e tendo roupas para o corpo. Pelo contrário, eles são dignos de terem sido lançados no inferno há muito tempo.


Tal é o julgamento que fazem de si mesmos, e eles concordam com isso – mesmo que isso os condene. Percebem assim como seria errado se elevarem, fingindo que são dignos de alguma coisa. Quando se comparam com os outros, percebem-se como tolos, sem compreensão, com um caráter vergonhoso e difícil, e suas ações como dignas de desprezo. É assim que outros os conheceriam se os conhecessem tão bem internamente como os conhecem externamente. Como eles deveriam então ter pensamentos elevados sobre si mesmos? Eles consideram que outros estariam errados se pensassem algo deles ou desejassem prestar-lhes alguma honra. Eles reconhecem que o bem encontrado neles – do qual estão cientes e altamente—foi dado a eles por outro, a saber, Deus. Visto que isto continua a ser de Deus, eles seriam culpados da maior tolice se cobiçassem honra, amor ou estima por algo que lhes foi emprestado. (Um mendigo atrairia o desprezo se se vangloriasse de uma roupa cara que alguém lhe emprestou por um dia.)

O poema de Theodore Monod (1836-1921), mostra-nos o caminho para o quebrantamento e a morte para o ego.

NADA DO EU, TUDO DE TI!

Ai! Que tempo vergonhoso
Quando altivo resisti,
Ao meu Salvador bondoso
Respondendo desdenhoso:
Quero o Eu, não quero a Ti!

Mas o Seu amor vencia
Quando sobre a Cruz O vi
E Jesus por mim pedia
Já meu coração dizia:
Quero o Eu e quero a Ti!

Com ternura me amparava
Graça e força recebi
Mais e mais eu exultava
Mais humilde segredava:
Menos do Eu e mais de Ti!

Por Seu grande amor vencido
Tudo ao meu Senhor cedi
Ao meu Salvador unido
Esse agora é o meu pedido:
Nada do Eu, só quero a Ti!

Apologética

NÃO SAO DELE

Esses dias atrás estava conversando com um irmão em Cristo sobre Deus e Sua Palavra. Uma senhora estava do lado, só ouvindo, não frequentava nenhum meio Cristão. Depois que terminamos ela comentava o como era gostoso ouvir nossa conversa. No fim, ela disse que queria uma Bíblia.

Em contrapartida, várias pessoas saem de perto quando começamos a falar sobre Deus. Algumas se dizem da igreja, mas quando falamos sobre alguns assuntos contrário ao seu entendimento sobre Deus, dizem: “Religião, política e futebol não se discute” e acabam saindo de fininho do ambiente, não tem prazer ou intenção no crescimento da fé.

Nessas horas eu me lembro de textos como:

Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas. Jo 10.14–15.

As obras que eu faço em nome de meu Pai testificam a meu respeito. Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Jo 10.25–27.

Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. At 13.48.

Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. Jo 6.44.

É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; Jo 17.9.

VOCÊ É DELE?

Rafael Soletti