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#13 – Sobre O Jejum

Do Jejum

I. Nosso Consenso

Nosso consenso pode ser estabelecido em três conclusões:

  • Conclusão 1. Nós não condenamos o jejum, mas mantemos três tipos dele: a saber, um jejum moral, um civil e um religioso. O primeiro, sendo moral, é uma prática de sobriedade ou temperança, quando, no uso de carnes (comidas) e bebidas, o apetite é contido para que não exceda a moderação. E isso deve ser usado por todos os cristãos durante todo o curso de suas vidas. O segundo, sendo civil, é quando, por algumas considerações particulares e políticas, os homens se abstêm de certas carnes; assim como nesta nossa comunidade a lei nos obriga a nos abster de carne em certas épocas do ano para estes fins especiais: preservar a procriação do gado, e manter a vocação do pescador. O terceiro, a saber, um jejum religioso, é quando os deveres da religião, como o exercício da oração e da humilhação, são praticados em jejum. E agora tratarei especialmente deste tipo.

  • Conclusão 2. Nós nos juntamos a eles na aprovação dos principais e corretos propósitos de um jejum religioso, e eles são três: O primeiro é que, por meio dele, a mente possa se tornar atenta na meditação dos deveres de piedade a serem realizados. O segundo é que a rebelião da carne possa ser subjugada — pois a carne mimada torna-se um instrumento de licenciosidade. O terceiro, e (como entendo) o principal propósito de um jejum religioso, é professar a nossa culpa e testemunhar a nossa humilhação perante Deus por nossos pecados. E para este fim, no jejum de Nínive, até o próprio animal foi levado a se abster.

  • Conclusão 3. Nós concedemos a eles que o jejum é uma ajuda e um auxílio para a adoração a Deus — sim, e uma boa obra também se for usado de uma boa maneira. Pois embora o jejum em si, sendo uma coisa indiferente — como comer e beber são — não deva ser chamado de uma boa obra; no entanto, sendo aplicado, e considerado em relação aos propósitos corretos antes falados e praticado de acordo, é uma obra permitida por Deus e altamente a ser estimada por todos os servos e povo de Deus.

II. A Dissidência ou Diferença

Nossa dissidência da Igreja de Roma na doutrina do jejum baseia-se em três coisas:

Primeiro, eles designam e prescrevem tempos definidos de jejum como necessários de serem guardados. Mas nós defendemos e ensinamos que prescrever o tempo de um jejum religioso está na liberdade da igreja e dos seus governantes, conforme alguma ocasião especial se ofereça. Quando os discípulos de João perguntaram a Cristo por que eles e os fariseus jejuavam frequentemente, mas os seus discípulos não jejuavam, Ele respondeu: “Podem porventura os filhos da câmara nupcial lamentar, enquanto o noivo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o noivo, e então jejuarão” (Mat. 9:15), onde Ele lhes dá a entender que eles devem jejuar à medida que ocasiões de lamento se ofereçam. Donde também eu concluo que um tempo definido de jejum não deve ser mais imposto do que um tempo definido de lamento. Foi a opinião de Agostinho que “nem Cristo nem Seus apóstolos designaram quaisquer tempos de jejum”. E Tertuliano diz que os do seu tempo “jejuavam de livre e espontânea vontade, sem lei ou mandamento, conforme as ocasiões e o tempo serviam”. E Eusébio diz que “Montano foi o primeiro que fez leis de jejum”.

Objeta-se que há um tempo determinado de jejum prescrito em Levítico 16:29. Resposta: Este jejum definido e prescrito foi ordenado por Deus como uma parte da adoração legal, a qual teve o seu fim na morte de Cristo. Portanto, ele não justifica um tempo definido de jejum no Novo Testamento, onde Deus deixou o homem à sua própria liberdade sem dar um mandamento semelhante. Alega-se novamente que em Zacarias 7:5 havia tempos determinados para a celebração de jejuns religiosos ao Senhor — o quinto e o sétimo meses. Resposta: Eles foram designados por ocasião das aflições presentes da igreja na Babilônia, e cessaram com o seu livramento. Algo semelhante, em ocasião semelhante, podemos nós designar. Objeta-se ainda que algumas igrejas dos Protestantes observam tempos definidos de jejum. Resposta: Em algumas igrejas existem dias e tempos definidos de jejum — não por necessidade, ou por causa da consciência ou da religião — mas por considerações políticas ou civis. Ao passo que, na Igreja Romana, é considerado um pecado mortal adiar o tempo definido do jejum para o dia seguinte.

Segundo, discordamos da Igreja de Roma quanto à maneira de guardar um jejum. Pois os mais eruditos entre eles permitem beber vinho, água, eletuários, e isso muitas vezes dentro do limite de seu jejum designado. Sim, eles permitem a ingestão de uma refeição num dia de jejum ao meio-dia e, havendo causa razoável, uma hora antes do tempo de jejum que ainda não terminou. Mas esta prática, de fato, é absurda e contrária à prática do Antigo Testamento [Juízes 10:26; 1 Samuel 1:12]. Sim, ela frustra o propósito do jejum. Pois a abstinência corporal é um meio e um sinal exterior pelo qual reconhecemos a nossa culpa e indignidade de quaisquer das bênçãos de Deus. Novamente, eles prescrevem uma diferença de carnes (comidas), como se só se devesse usar carne branca em seus dias de jejum, e isso por necessidade — e por motivo de consciência, na maioria dos casos. Mas nós consideramos essa distinção de carnes como sendo tanto tola quanto iníqua. Tola, porque em tais comidas como eles prescrevem, há tanto de fartura e de deleite quanto em quaisquer outras — como nomeadamente em peixe, frutas, vinho, etc., que eles permitem. E é contra o fim de um jejum religioso usar qualquer refrigério, na medida em que a necessidade de saúde e o decoro o permitirem. Assim, a igreja, em tempos passados, costumava se abster não apenas de comida e bebida, mas de todos os deleites, inclusive roupas macias e unguentos doces. “Santificai um jejum… saia o noivo da sua recâmara, e a noiva do seu aposento” (Joel 2:15). “Não comi pão desejável, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi de forma alguma, até que se cumpriram três semanas de dias” (Dan. 10:3). “Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração” (1 Cor. 7:5).

Novamente, nós consideramos esta prática como iníqua porque ela tira a liberdade dos cristãos, pela qual “para os puros todas as coisas são puras” (Tito 1:15). E o apóstolo, em Gálatas 5, nos pede para “estarmos firmes nesta liberdade”, a qual a Igreja de Roma gostaria assim de abolir. Para melhor compreensão disto, consideremos como o próprio Senhor, desde o princípio, manteve nas Suas próprias mãos, como mestre em Sua própria casa, a disposição das Suas criaturas para o uso do homem, para que este pudesse depender Dele e da Sua Palavra pelas bênçãos temporais. Na primeira era, Ele lhe designou para mantimento toda erva que dá semente na terra, e toda árvore em que há fruto que dá semente [Gênesis 1:27]. E quanto à carne, se Deus lhe deu liberdade para comer ou não comer, nós consideramos isso incerto. Após o dilúvio, o Senhor renovou a Sua concessão do uso das criaturas e deu ao Seu povo liberdade para comer a carne de criaturas vivas — ainda assim, de tal modo que Ele fez algumas coisas imundas e proibiu o comer delas; entre o resto, o comer de sangue. Mas desde a vinda de Cristo, Ele ampliou a Sua Palavra e deu liberdade a todos — tanto Judeus como Gentios — para comer de todos os tipos de carne [Atos 10:13, 15]. Nesta Sua Palavra nós descansamos; considerando uma doutrina de demônios que os homens ordenem, por motivo de consciência, a abstinência de alimentos que o próprio Deus criou para serem recebidos com ações de graças [1 Timóteo 4:4]. Sócrates, um historiógrafo cristão, diz que, “Os apóstolos deixaram livre a cada um o usar que tipo de carne quisessem nos dias de jejum e outros tempos. Espiridião, na quaresma, preparou carne de porco e pôs diante de um estrangeiro, comendo ele mesmo e pedindo ao estrangeiro que também comesse; que recusando e professando ser cristão, ‘Por isso’, disse ele, ‘mais ainda deves fazê-lo; pois aos puros todas as coisas são puras, como nos ensina a Palavra de Deus.'”

Objeção 1. Mas eles objetam Jeremias 35, onde Jonadabe ordenou aos recabitas que se abstivessem de vinho, cujo mandamento eles obedeceram, e são elogiados por fazerem bem em obedecê-lo. “Portanto”, dizem eles, “algum tipo de carnes pode legitimamente ser proibido”. Resposta. Jonadabe deu este mandamento não em via de religião, ou mérito, mas por outras considerações sábias e políticas. Pois ele ordenou à sua posteridade que não bebesse vinho, que não construísse casas, não semeasse sementes, não plantasse vinhas, ou não tivesse posses, mas que vivessem em tendas — para o fim de que pudessem estar preparados para suportar as calamidades que lhes sobreviriam no tempo vindouro. Mas a abstinência papista de certas carnes (comidas) tem respeito à consciência e à religião; e portanto é de um outro tipo, e não pode ter nenhuma garantia a partir daí.

Objeção 2. [Dan. 10:3.] Daniel, estando angustiado por três semanas de dias, absteve-se de carne; e seu exemplo é nossa garantia. Resposta. [Primeiro], era o modo dos homens santos nos tempos antigos, quando jejuavam muitos dias seguidos por livre vontade, abster-se livremente de diversas coisas — e assim Daniel se absteve de carne. Mas a abstinência papista da carne não é livre, mas está posta por mandamento — e a sua omissão é um pecado mortal. Novamente [segundo], se eles querem seguir a Daniel na abstinência de carne, por que também não se abstêm de todo pão desejável e vinho, e sim de unguentos? E por que hão de eles comer qualquer coisa no tempo do seu jejum; ao passo que não podem provar que Daniel tenha comido qualquer coisa até à tarde? E Molanus notou que os nossos antepassados se abstinham de vinho e de iguarias — e que alguns deles não comiam nada por dois ou três dias seguidos.

Objeção 3. Terceiro, eles alegam a dieta de João Batista, cuja comida era gafanhotos e mel silvestre, e de Timóteo, que se absteve de vinho. Resposta. O tipo de dieta deles e a abstinência que eles usavam, era apenas por motivo de temperança — não por consciência ou para merecer qualquer coisa através disso. Que eles provem o contrário, se puderem.

Terceiro e último, discordamos deles a respeito de certos propósitos do jejum. Pois eles fazem da própria abstinência, numa pessoa devidamente preparada, uma parte da adoração a Deus. Mas nós a consideramos uma coisa indiferente em si mesma, e portanto nenhuma parte da adoração a Deus; e no entanto com isso, sendo bem usada, estimamos como um suporte ou auxílio da adoração no fato de que através dela somos feitos mais aptos para adorar a Deus [Marcos 7:6]. E sobre isso alguns dos mais eruditos entre eles dizem: “Não a obra de jejuar feita, mas a devoção do operador, deve ser reputada como o serviço de Deus.” Novamente, eles dizem que “O jejum em — ou com — devoção, é uma obra de satisfação à justiça de Deus para a punição temporal de nossos pecados.” No que entendemos que eles derrogam de forma blasfema a Cristo, nosso Salvador, que é a satisfação inteira e perfeita pelo pecado, tanto em relação à culpa quanto à punição. Aqui eles alegam o exemplo dos ninivitas e o jejum de Acabe, por meio dos quais eles afastaram os juízos de Deus denunciados contra eles por Seus profetas. Nós respondemos, que a ira de Deus foi apaziguada em relação aos ninivitas não pelo seu jejum, mas pela fé lançando mão da misericórdia de Deus em Cristo, e assim detendo o Seu juízo. O jejum deles foi apenas um sinal do seu arrependimento — o arrependimento deles um fruto e um sinal da sua fé — pela qual eles creram na pregação de Jonas [Mateus 12:41]. Quanto à humilhação de Acabe, não é nada para o propósito em questão. Se eles obtêm algo com isso, que o tomem para si mesmos.

Para concluir, nós de nossa parte não condenamos este exercício de jejum, mas sim o seu abuso; e seria desejável que o jejum fosse mais usado por todos os cristãos em todos os lugares, considerando que o Senhor nos dá, diariamente, novas e especiais ocasiões de jejum público e privado.

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#12 – Sobre O Sacrifício Na Missa

O Sacrifício da Missa

O que é um Sacrifício? Tocante a este ponto, primeiro estabelecerei o que deve ser entendido pelo nome “sacrifício”. Um sacrifício é tomado de forma própria, ou de forma imprópria. Propriamente, é uma ação sagrada ou solene, na qual o homem oferece e consagra alguma coisa corporal externa a Deus para este fim, de agradá-lo e honrá-lo com isso. Assim, todos os sacrifícios do Antigo Testamento, e a oblação de Cristo na cruz no Novo Testamento, são sacrifícios. Impropriamente, isto é, apenas por via de semelhança, os deveres da lei moral são chamados de sacrifícios. E ao lidar com esta questão, entendo um sacrifício tanto propriamente quanto impropriamente por via de semelhança.

I. Nosso Consenso com Roma.

O nosso consenso eu proponho em duas conclusões.

Conclusão I. Que a Ceia do Senhor é um sacrifício, e pode verdadeiramente ser assim chamada como tem sido nas eras passadas; e isso a três respeitos. I. Porque é um memorial do verdadeiro sacrifício de Cristo na cruz, e contém adicionalmente uma ação de graças a Deus pelo mesmo, a qual ação de graças é o sacrifício e os novilhos dos nossos lábios. Heb. 13:15. II. Porque cada comunicante apresenta ali a si mesmo, corpo e alma, como um sacrifício vivo, santo e aceitável a Deus. Pois assim como neste sacramento Deus nos dá a Cristo, com os seus benefícios; assim nós, em resposta, nos entregamos a Deus como servos para andar na prática de toda a devida obediência. III. É chamado de um sacrifício em respeito àquilo que foi juntado ao sacramento, a saber, as esmolas dadas aos pobres como um testemunho da nossa gratidão a Deus. E a este respeito também, os antigos pais chamaram o sacramento de um sacrifício incruento (sem sangue): e a mesa, de um altar; os ministros de sacerdotes: e toda a ação uma oblação não a Deus, mas à congregação, e não apenas pelo sacerdote, mas pelo povo. Um cânone de um certo Concílio diz: Nós decretamos que todo dia do Senhor a oblação do altar seja oferecida por cada homem e mulher, tanto pão quanto vinho. E Agostinho diz que as mulheres oferecem um sacrifício no altar do Senhor, para que pudesse ser oferecido pelo sacerdote a Deus. (Epist. 122.) E usualmente, nos escritores antigos, a comunhão de todo o corpo da congregação é chamada de sacrifício ou oblação.

Conclusão II. Que o próprio corpo de Cristo é oferecido na Ceia do Senhor. Pois assim como tomamos o pão como sendo o corpo de Cristo sacramentalmente por semelhança e não de outra forma: assim o partir do pão é sacramentalmente o sacrifício ou oferecimento de Cristo na cruz. E assim os pais chamaram a Eucaristia de uma imolação de Cristo, porque é uma comemoração do seu sacrifício na cruz. Aug. Epist. 23. Nem mente aquele que diz que Cristo foi oferecido. Pois se os sacramentos não tivessem a semelhança das coisas das quais são sacramentos, eles não seriam de forma alguma sacramentos: mas de uma semelhança, eles frequentemente tomam os seus nomes. Novamente, Cristo é sacrificado na última ceia, em consideração à fé dos comunicantes, que faz com que uma coisa passada e feita seja como presente. Agostinho diz: Quando cremos em Cristo, ele é oferecido por nós diariamente. E: Cristo então é morto para cada um, quando este crê que ele foi morto por ele. (Lib. 2. quaest. vet. & Nov. Test. Ad Rom). Ambrósio diz: Cristo é sacrificado diariamente nas mentes dos crentes, como sobre um altar (Lib. 2 de Virg.). Jerônimo diz: Ele é sempre oferecido aos crentes. (Ad Damas).

II. A Diferença com Roma.

Eles fazem a Eucaristia ser um sacrifício real, externo, ou corporal oferecido a Deus: defendendo e ensinando que o ministro é um sacerdote propriamente dito: e que neste sacramento ele oferece o corpo e o sangue de Cristo a Deus, o Pai, real e propriamente, sob as formas do pão e do vinho. Nós não reconhecemos nenhum sacrifício real, exterior ou corporal para a remissão dos pecados, mas apenas a oblação de Cristo na cruz, oferecida uma única vez. Aqui está a principal diferença entre nós, no tocante a este ponto: e ela é de tal peso e importância, que eles, mantendo rigidamente a sua opinião (como o fazem), não podem ser Igreja de Deus. Pois este ponto destrói o fundamento até o fundo. E para que possa parecer melhor que nós declaramos a verdade, primeiro confirmarei a nossa doutrina pela Escritura, e em segundo lugar refutarei as razões que eles trazem para si mesmos.

III. Nossas Razões.

Razão I. Heb. 9, v. 15 e 26: e cap. 10, v. 10. O Espírito Santo diz: Cristo ofereceu a si mesmo apenas uma vez. Portanto, não muitas vezes: e assim não pode haver oferecimento real ou corporal do seu corpo e sangue no sacramento da sua Ceia: o texto é claro. Os papistas respondem assim. O sacrifício de Cristo (dizem eles) é um só quanto à substância, contudo em relação à maneira de oferecer ele é ou cruento ou incruento, e o Espírito Santo fala apenas do sacrifício cruento de Cristo: o qual foi de fato oferecido apenas uma vez. Nós respondemos: Mas o autor desta epístola toma como certo que o sacrifício de Cristo é apenas um, e que é o sacrifício cruento. Pois ele diz, Heb. 9, v. 25: Cristo não ofereceu a si mesmo muitas vezes, como os sumos sacerdotes faziam; e v. 26: Porque então ele teria que sofrer muitas vezes desde a fundação do mundo: mas agora no fim ele apareceu uma vez para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo. E v. 22: SEM DERRAMAMENTO DE SANGUE NÃO HÁ remissão de pecado. Por estas palavras é claro que a escritura nunca conheceu a dupla maneira de sacrificar a Cristo. E toda distinção na teologia não fundada na palavra escrita, é apenas uma invenção do cérebro humano. E se esta distinção fosse boa, como se manteria a razão do Apóstolo – Ele não se ofereceu senão uma vez, porque sofreu apenas uma vez.

Razão II. A Igreja de Roma defende que o sacrifício na Ceia do Senhor é tudo um só em substância com o sacrifício que ele ofereceu na cruz: se isto for assim, então o sacrifício na Eucaristia deve ser ou uma continuação daquele sacrifício que foi iniciado na cruz, ou senão uma iteração ou repetição dele. Ora, deixem que eles escolham destas duas qual eles querem: se disserem que é uma continuação do sacrifício na cruz, sendo Cristo apenas o iniciador e o sacerdote o consumador do mesmo, eles o tornam imperfeito: pois continuar uma coisa até que seja cumprida, é trazer-lhe perfeição: mas o sacrifício de Cristo na cruz foi então totalmente aperfeiçoado, como pelo seu próprio testemunho aparece, quando ele disse, consummatum est, está consumado. Novamente, se disserem que é uma repetição do sacrifício de Cristo, nisto também eles o fazem imperfeito, pois essa é a razão que o Espírito Santo usa para provar que os sacrifícios do Antigo Testamento eram imperfeitos, porque eram repetidos.

Razão III. Um sacrifício real e exterior em um sacramento é contra a natureza de um sacramento e especialmente da ceia do Senhor: pois um fim da mesma é manter na memória o sacrifício de Cristo. Ora, toda lembrança deve ser de uma coisa ausente, passada e feita: e se Cristo é diária e realmente sacrificado, o sacramento não é um memorial adequado do seu sacrifício. Novamente, o fim principal para o qual o sacramento foi ordenado, é que Deus pudesse dar e nós receber a Cristo com os seus benefícios: e, portanto, dar e tomar, comer e beber são aqui as ações principais. Ora, num sacrifício real Deus não dá a Cristo e o sacerdote não o recebe de Deus; mas, pelo contrário, ele dá e oferece a Cristo a Deus, e Deus recebe alguma coisa de nós. Para remediar a questão eles dizem, que este sacrifício não serve propriamente para fazer qualquer satisfação a Deus, mas antes para aplicar a nós a satisfação de Cristo já tendo sido feita. Mas esta resposta ainda vai contra a natureza de um sacramento, no qual Deus dá Cristo a nós: ao passo que em um sacrifício Deus recebe do homem, e o homem dá alguma coisa a Deus: um sacrifício, portanto, não é um meio adequado para nos aplicar qualquer coisa que seja dada por Deus.

Razão IV. Heb. 7:24, 25. O Espírito Santo faz uma diferença entre Cristo o sumo sacerdote do Novo Testamento, e todos os sacerdotes levíticos nisto, que eles eram muitos, sucedendo um ao outro: mas ele é apenas um, tendo um sacerdócio eterno, o qual não pode passar dele para nenhum outro. Ora, se esta diferença é boa, então Cristo somente, em sua própria pessoa, deve ser o sacerdote do Novo Testamento, e nenhum outro com, ou, debaixo dele: de outra forma, no Novo Testamento, haveria mais sacerdotes em número do que no Antigo. Se eles disserem que toda a ação permanece na pessoa de Cristo, e que o sacerdote é apenas um instrumento sob ele (como eles dizem) eu digo novamente que é falso; porque toda a oblação é atuada ou feita pelo próprio sacerdote; e aquele que faz tudo, é mais do que um mero instrumento.

Razão V. Se o sacerdote de fato oferece a Deus o verdadeiro corpo e sangue de Cristo para o perdão dos nossos pecados, então o homem se tornou um mediador entre Deus e Cristo. Ora, a Igreja de Roma diz, que o sacerdote em sua missa é um sacerdote propriamente dito, e seu sacrifício um sacrifício real diferindo apenas na maneira de oferecer do sacrifício de Cristo na cruz: e no próprio Cânone da missa eles insinuam isso, quando pedem a Deus que aceite os seus dons e ofertas, a saber o próprio Cristo oferecido, assim como ele aceitou os sacrifícios de Abel e Noé. Ora, é absurdo pensar que qualquer criatura deva ser um mediador entre Cristo e Deus. Portanto, Cristo não pode possivelmente ser oferecido por qualquer criatura a Deus.

Razão VI. O julgamento da igreja antiga. Um certo Concílio realizado em Toledo, na Espanha, reprova os Ministros de que eles ofereciam sacrifício frequentemente no mesmo dia sem a santa comunhão. As palavras do Cânone são estas: Foi-nos relatado que certos sacerdotes não recebem tantas vezes a graça da santa comunhão, como eles oferecem sacrifícios em um dia: mas em um dia, se eles oferecem muitos sacrifícios a Deus, em TODAS AS OBLAÇÕES, ELES SUSPENDEM A SI MESMOS DA COMUNHÃO. Aqui, observe que os sacrifícios nas antigas missas nada mais eram senão formas de serviço divino; porque ninguém comunicava, nem mesmo o próprio sacerdote. E em um outro Concílio, o nome da missa é colocado apenas para uma forma de oração. Aprouve a nós, que preces, súplicas, Missas, as quais devem ser permitidas no Concílio—, sejam usadas. E neste sentido é tomado quando se fala em fazer ou compor missas: pois o sacrifício propiciatório do corpo e do sangue de Cristo não admite nenhuma composição.

O abade Pascásio diz: porque pecamos diariamente Cristo é sacrificado por nós MISTICAMENTE, e a sua Paixão é dada em mistério. Estas suas palavras são contra o sacrifício real: mas contudo ele se explica mais claramente, Capítulo 10. O sangue é bebido EM MISTÉRIO ESPIRITUALMENTE: e, é tudo ESPIRITUAL o que comemos. e Capítulo 12. O sacerdote—, distribui a cada um não tanto quanto a visão exterior dá, mas tanto quanto a FÉ RECEBE. Capítulo 13. A PLENA similitude é exteriormente, e a carne imaculada do cordeiro é pela FÉ INTERIORMENTE—, para que a verdade não falte ao sacramento, e não seja ridículo para os pagãos que bebamos o sangue de um homem morto. Capítulo 6. Um come a carne de Cristo espiritualmente e bebe o seu sangue, outro parece não receber nem um pedaço de pão da mão do sacerdote: a sua razão é, porque eles vêm despreparados. Ora então, considerando que em todos estes lugares ele não faz recebimento nenhum senão o espiritual, nem tampouco ele faz nenhum sacrifício que não seja o espiritual.

IV. Objeções dos Papistas.

Objeção I. Gên. 14, v. 18. Quando Abraão estava voltando da matança dos Reis, Melquisedeque o encontrou e trouxe pão e vinho; e ele era sacerdote do Deus altíssimo. Ora, este pão e vinho (dizem eles) ele trouxe para oferecer por um sacrifício; porque é dito que ele era um sacerdote do Deus altíssimo: e eles raciocinam assim: Cristo era um sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque: portanto, assim como Melquisedeque ofereceu pão e vinho, assim Cristo, sob as formas de pão e vinho, oferece a si mesmo em sacrifício a Deus.

Resposta. Melquisedeque não foi tipo de Cristo em relação ao ato de sacrificar, mas em relação à sua pessoa e coisas pertinentes a isso, as quais são todas completamente expostas em Hebreus 7, a suma do que é isto: I. Melquisedeque foi tanto rei quanto sacerdote: assim foi Cristo. II. Ele era um príncipe de paz e de justiça: assim foi Cristo. III. Ele não tinha pai nem mãe: porque a Escritura, ao estabelecer a sua história, não faz menção do começo nem do fim de seus dias: e assim Cristo não tinha pai nem mãe: nenhum pai, como ele era homem; nenhuma mãe, como ele era Deus. IV. Melquisedeque, sendo maior que Abraão, o abençoou, e Cristo pelo poder de seu sacerdócio abençoa, isto é, justifica e santifica a todos aqueles que são da fé de Abraão.

Somente nestas coisas consiste a semelhança e não na oferta de pão e vinho. Novamente, o fim de trazer o pão e o vinho não foi fazer um sacrifício, mas revigorar a Abraão e aos seus servos, que vinham da matança dos Reis. E ele é chamado aqui de sacerdote do Deus altíssimo, não em relação a qualquer sacrifício; mas em consideração da sua bênção sobre Abraão, como a ordem das palavras ensina: E ele era sacerdote do Deus altíssimo, e portanto o abençoou. Terceiro, mesmo que fosse concedido que ele trouxe pão e vinho para oferecer em sacrifício, ainda assim não se seguiria que, no sacramento, o próprio Cristo devesse ser oferecido a Deus sob as formas nuas de pão e vinho. O pão e o vinho de Melquisedeque seriam tipos absurdos de não-pão e não-vinho, ou, de formas de pão e vinho no Sacramento.

Objeção II. O cordeiro pascal era tanto um sacrifício quanto um sacramento: ora, a Eucaristia entra no lugar dele.

Resposta. O cordeiro pascal era um sacramento, mas nenhum sacrifício. De fato, Cristo disse aos seus discípulos: Ide e preparai um lugar para sacrificar a Páscoa, Mar. 14:12; mas as palavras oferecer, ou sacrificar, muitas vezes não significam nada mais que matar. Como quando Jacó e Labão fizeram uma aliança; é dito: Jacó sacrificou animais, e chamou os seus irmãos para comer pão, Gên. 31:54, cujas palavras não devem ser entendidas de matar para sacrifício, mas de matar para um banquete: porque ele não poderia, de boa consciência, convidá-los para o seu sacrifício, visto que estavam fora da aliança, sendo (como eles eram) de outra religião: em segundo lugar, pode ser chamado de um sacrifício, porque foi morto à maneira de um sacrifício. Em terceiro lugar, quando Saul procurava as jumentas do seu pai e perguntou pelo Vidente, uma donzela lhe mandou subir com pressa: pois (ela disse) há um sacrifício do povo hoje no lugar alto, 1 Sam. 9:12, onde a festa que foi celebrada em Ramá, é chamada de sacrifício; com toda a probabilidade porque, no início dela, o sacerdote oferecia um sacrifício a Deus: e assim a Páscoa pode ser chamada de um sacrifício, porque os sacrifícios eram oferecidos dentro do âmbito da festa designada ou solenidade da Páscoa e contudo a coisa em si não era mais um sacrifício do que a festa em Ramá foi. Novamente, se fosse concedido que a Páscoa era ambos, isto não faria muito contra nós: pois a ceia do Senhor sucede a Páscoa apenas no que diz respeito ao fim principal dela, que é o aumento da nossa comunhão com Cristo.

Objeção III. Mal. 1:11. O profeta prediz um sacrifício puro que haverá no Novo Testamento: e que (dizem eles) é o sacrifício da Missa.

Resposta. Este lugar deve ser entendido de um sacrifício espiritual, como nós claramente perceberemos se o compararmos com 1 Tim. 2:8, onde o significado do profeta é adequadamente exposto. Quero (diz Paulo) que os homens orem em todos os lugares, LEVANTANDO MÃOS PURAS, sem ira nem dúvida. E este é o sacrifício puro dos gentios. Assim, Justino Mártir diz: Que súplicas e ações de graças são os ÚNICOS sacrifícios perfeitos que agradam a Deus, e que os cristãos aprenderam a OFERECER A ELES SOMENTE (Dialog. eum Triph.). E Tertuliano diz: Nós sacrificamos pela saúde do Imperador: como Deus ordenou com pura oração (Ad Scapulam.). E Irineu diz que esta oferenda pura a ser oferecida em todo lugar, são as orações dos Santos (Lib. 4. c. 3).

Objeção IV. Heb. 13:10. Temos um altar, do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo. Ora (dizem eles) se temos um altar, então nós devemos necessariamente ter um sacerdote: e também um sacrifício real.

Resposta. Aqui se entende não um altar corporal, mas espiritual; porque o altar é oposto ao Tabernáculo material: e o que é significado por ele é expresso no verso seguinte, no qual ele prova que nós temos um altar. Os corpos dos animais, cujo sangue era trazido para o santuário pelo sumo sacerdote por causa do pecado, eram queimados fora do acampamento; assim Jesus Cristo, para que pudesse santificar o povo com o seu próprio sangue, sofreu fora da porta. Ora, aplique a razão ou prova à coisa que é provada, e devemos necessariamente compreender o próprio Cristo, que era tanto o altar, como o sacerdote, e o sacrifício.

Objeção V. Por último, eles dizem, onde há alteração tanto da lei quanto da aliança: ali deve necessariamente haver um novo sacerdote e um novo sacrifício. Mas no Novo Testamento há alteração tanto da lei quanto da aliança: e, portanto, há tanto novo sacerdote quanto novo sacrifício.

Resposta. Tudo pode ser concedido: no Novo Testamento, há tanto novo sacerdote quanto sacrifício: contudo não nenhum sacerdote papista, mas apenas o próprio Cristo, tanto Deus quanto homem. O sacrifício também é Cristo como ele é homem: e o altar, Cristo como ele é Deus, que no Novo Testamento ofereceu a si mesmo um sacrifício ao seu Pai pelos pecados do mundo. Pois embora ele fosse o cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo, em relação ao propósito de Deus, em relação ao valor de seu mérito, e em relação à fé que faz as coisas vindouras como presentes, ele ainda não foi realmente oferecido até que chegasse a plenitude do tempo; e uma vez oferecendo a si mesmo, ele permanece sacerdote para sempre, e todos os outros sacerdotes além dele são supérfluos: sua única oferta, oferecida uma vez, sendo totalmente suficiente.

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#11 – Sobre A Presença Real De Cristo Na Ceia

Da Presença Real

Nosso Consenso com Roma

Nós defendemos e cremos em uma presença do corpo e do sangue de Cristo no Sacramento da Ceia do Senhor: e que não é uma presença fingida, mas verdadeira e real: a qual deve ser considerada de duas maneiras; primeiro no que diz respeito aos sinais, segundo no que diz respeito aos comunicantes.

Quanto ao primeiro, defendemos e ensinamos que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes com o pão e o vinho, sendo sinais no sacramento: mas como? não a respeito de lugar, de coexistência: mas por relação sacramental, desta maneira. Quando uma palavra é proferida, o som chega ao ouvido; e no mesmo instante, a coisa significada chega à mente; e assim por relação a palavra e a coisa falada estão ambas presentes juntas. Do mesmo modo, na mesa do Senhor, o pão e o vinho não devem ser considerados meramente como substâncias e criaturas, mas como sinais exteriores em relação ao corpo e ao sangue de Cristo e esta relação, surgindo da própria instituição do Sacramento, consiste nisto, que quando os elementos do pão e do vinho estão presentes na mão e na boca daquele que os recebe; no mesmíssimo momento o corpo e o sangue de Cristo são apresentados à mente; desta forma e não de outra é que Cristo está verdadeiramente presente com os sinais.

A segunda presença é no que diz respeito aos comunicantes, a cujos corações crentes ele também está realmente presente. Dir-se-á: que tipo de presença é esta? Resposta: Tal qual é a comunhão no sacramento, assim é a presença e pela comunhão devemos julgar a presença. Ora, a comunhão é desta maneira: Deus o Pai, segundo o teor da aliança evangélica, dá Cristo neste sacramento tão real e verdadeiramente quanto qualquer coisa possa ser dada ao homem, não por parte e aos pedaços (como dizemos), mas o Cristo todo, Deus e homem, desta forma. Em Cristo existem duas naturezas, a divindade e a humanidade. A divindade não é dada em consideração à substância ou essência: mas apenas em consideração à eficácia, méritos e operação transmitida dali para a humanidade. E, além disso, neste sacramento toda a humanidade de Cristo é dada, tanto corpo quanto alma, nesta ordem. Em primeiro lugar é dada a própria humanidade no que diz respeito à substância, e isso realmente: em segundo lugar os méritos e benefícios dela, a saber, a satisfação realizada pela e na humanidade, à justiça de Deus. E assim a humanidade inteira com os benefícios dela, são dados total e conjuntamente. Pois os dois sinais distintos do pão e do vinho não significam duas doações distintas do corpo à parte e do sangue à parte: mas a nutrição plena e perfeita das nossas almas.

Novamente, os benefícios da humanidade de Cristo são dados de diversas formas, alguns por imputação, que é uma ação de Deus aceitando aquilo que é feito por Cristo como feito por nós: e assim agradou a Deus dar a paixão de Cristo e a sua obediência. Alguns, de novo, são dados por um tipo de propagação, a qual não posso expressar adequadamente em palavras, mas eu a comparo assim. Assim como uma vela é acesa por outra, e uma tocha ou luz de vela é transmitida para vinte velas: da mesma forma a justiça inerente de cada crente é derivada do celeiro de justiça que está na humanidade de Cristo: pois a justiça de todos os membros nada mais é que o fruto dela, assim como a corrupção natural em toda a humanidade, nada mais é que um fruto daquele pecado original que estava em Adão.

Assim vemos como Deus, de sua parte, dá a Cristo, e isso realmente. Prosseguindo, quando Deus dá a Cristo, ele dá ao mesmo tempo o espírito de Cristo, o qual espírito cria no coração de quem recebe o instrumento da verdadeira fé, pelo qual o coração realmente recebe o Cristo dado por Deus, ao descansar sobre a promessa que Deus fez de que ele dará a Cristo e a sua justiça a todo crente verdadeiro. Ora, pois, quando Deus dá Cristo com os seus benefícios, e o homem por sua parte, pela fé, recebe as mesmas coisas como elas são dadas, surge aquela união que existe entre cada bom recebedor e o próprio Cristo. A qual união não é forjada, mas uma conjunção real, verdadeira e íntima; mais íntima que a qual, nenhuma existe ou pode existir: porque é feita por um solene dar e receber que se passa entre Deus e o homem: como também pelo vínculo de um e o mesmo espírito. Para ir direto ao ponto, então, considerando que há uma união real, e consequentemente uma comunhão real entre nós e Cristo (como eu provei), deve haver necessariamente um tal tipo de presença em que Cristo está verdadeira e realmente presente no coração daquele que recebe o sacramento em fé. E até este ponto consentimos com a Igreja Romana no tocante à presença real.

Onde Divergimos de Roma

Nós não diferimos no tocante à própria presença, mas apenas na maneira da presença. Pois embora defendamos uma presença real do corpo e do sangue de Cristo no sacramento, contudo não a consideramos como sendo local, corporal ou substancial, mas sim espiritual e mística; aos sinais por relação sacramental, e aos comunicantes pela fé somente. Pelo contrário, a Igreja de Roma mantém a transubstanciação, isto é, uma presença local, corporal e substancial do corpo e do sangue de Cristo, por uma mudança e conversão do pão e do vinho no dito corpo e sangue.

Nossas Razões para Divergir

Razão I. Esta presença corporal derruba vários artigos da fé. Pois cremos que o corpo de Cristo foi feito da substância pura da Virgem Maria, e que isso aconteceu apenas uma vez, a saber, quando ele foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu. Mas isto não pode subsistir, se o corpo de Cristo é feito de pão e o seu sangue de vinho, como necessariamente devem ser, se não houver sucessão ou aniquilação, mas uma conversão real de substâncias no sacramento: a menos que devamos crer em contrariedades, que o seu corpo foi feito da substância da Virgem, e não da Virgem; feito uma vez e não uma vez, mas muitas vezes. Novamente, se seu corpo e sangue estão sob as formas do pão e do vinho, então ele ainda não subiu ao céu, mas permanece ainda entre nós. Nem se pode dizer que ele virá do céu no dia do juízo: pois aquele que deve vir dali para julgar os vivos e os mortos, deve estar ausente da terra. E esta era a antiga fé.

  • Agostinho diz que Cristo, de acordo com a sua majestade, providência e graça está presente conosco até o fim do mundo: mas de acordo com a sua CARNE ASSUMIDA ELE NÃO ESTÁ sempre conosco. (Tract. 1. in Job.)

  • Cirilo diz: Ele está AUSENTE EM CORPO e presente em virtude, pela qual todas as coisas são governadas. (Lib. 9. in. cap. 21.)

  • Vigílio diz: Que ele partiu de nós de acordo com a sua humanidade: ele nos deixou em sua humanidade: na forma de um servo ausente de nós: quando a sua carne estava na terra, ela não estava no céu: estando na terra, ele não estava no céu: e estando agora no céu, ELE NÃO ESTÁ NA TERRA. (Contra Eutich. lib. 1. & 4.)

  • Fulgêncio diz: Um e o mesmo Cristo, de acordo com a sua substância humana, estava ausente do céu quando ele estava na terra: e DEIXOU A TERRA quando subiu ao céu. (Lib. 2. ad Thrasimundum.)

Razão II. Esta presença corporal derruba a natureza de um corpo verdadeiro, cuja natureza comum ou propriedade essencial é ter comprimento, largura e espessura, as quais sendo retiradas um corpo não é mais um corpo. E em razão destas três dimensões, um corpo pode ocupar apenas um lugar de cada vez, como Aristóteles disse, a propriedade de um corpo é estar assentado em algum lugar, de modo que um homem possa dizer onde ele está. Aqueles, portanto, que defendem que o corpo de Cristo está em muitos lugares de uma só vez, fazem com que não seja corpo algum: mas antes um espírito, e isso infinito. Eles alegam que Deus é Todo-Poderoso; isso é de fato verdade, mas nisto e em assuntos semelhantes não devemos disputar o que Deus pode fazer, mas o que ele fará. E eu digo mais, porque Deus é onipotente, portanto existem algumas coisas que ele não pode fazer, como a ele negar a si mesmo, mentir e fazer com que as partes de uma contradição sejam ambas verdadeiras ao mesmo tempo. Para ir direto ao ponto, se Deus fizesse o próprio corpo de Cristo estar em muitos lugares ao mesmo tempo, ele o faria não ser um corpo enquanto permanece um corpo: e ser circunscrito em algum lugar e não circunscrito, porque está em muitos lugares ao mesmo tempo: ser visível no céu e invisível no sacramento; e assim ele faria contradições serem verdadeiras: o que fazer é contra a sua natureza, e argumenta mais impotência do que poder. Agostinho diz a este respeito:

Se ele pudesse mentir, enganar, ser enganado, agir injustamente, ele não seria onipotente.

E,

Portanto, ele é onipotente, porque ele não pode fazer estas coisas.

Novamente,

Ele é chamado onipotente por fazer aquilo que ele quer, e não por fazer aquilo que ele não quer: o que se lhe acontecesse, ele não seria onipotente. (De Symb. ad Catech. l. 1. cap. 1.)

Razão III. A Transubstanciação derruba a própria Ceia do Senhor. Pois em cada sacramento deve haver um sinal, uma coisa significada, e uma proporção ou relação entre ambos. Mas a presença real papista tira tudo isso: pois quando o pão é realmente convertido no corpo de Cristo, e o vinho no seu sangue, então o sinal é abolido, e não resta nada além das formas exteriores ou aparência de pão e vinho. Novamente, ela abole os fins do sacramento, dos quais um é lembrar de Cristo até a sua volta, o qual estando corporalmente presente no sacramento, não necessita ser lembrado: porque ajudas de lembrança são para coisas ausentes. Outro fim é nutrir a alma para a vida eterna: mas pela transubstanciação a alimentação principal é do corpo e não da alma, a qual é apenas alimentada com comida espiritual, pois embora o corpo possa ser melhorado pelo alimento da alma, contudo a alma não pode ser alimentada com comida corporal.

Razão IV. No sacramento o corpo de Cristo é recebido como ele foi crucificado: e o seu sangue, como foi derramado na cruz: mas agora neste tempo o corpo de Cristo crucificado permanece ainda como um corpo, mas não como um corpo crucificado: porque o ato de crucificar cessou. Portanto é a fé somente, que faz com que Cristo crucificado esteja presente a nós no sacramento. Novamente, aquele sangue que escorreu dos pés e mãos e lado de Cristo na cruz, não foi recolhido novamente e colocado nas veias: não, o recolhimento era desnecessário, porque após a ressurreição, ele não viveu mais uma vida natural, mas espiritual: e ninguém sabe o que foi feito deste sangue. O Papista, portanto, não pode dizer que ele está presente sob a forma de vinho localmente: e nós podemos melhor dizer que é recebido espiritualmente pela fé, cuja propriedade é dar um ser às coisas que não são.

Razão V. 1 Cor. 10:3. Os pais do Antigo Testamento comeram a mesma comida espiritual, e beberam a mesma bebida espiritual: pois eles beberam da rocha que era Cristo. Ora, eles não poderiam comer o seu corpo que foi crucificado, ou beber o seu sangue derramado corporalmente, a não ser pela fé: porque então seu corpo e sangue não estavam na natureza. Os Papistas respondem que os pais comeram a mesma comida, e beberam a mesma bebida espiritual consigo mesmos, não conosco. Mas a resposta deles é contra o texto. Pois a intenção do Apóstolo é provar que os judeus eram em todos os sentidos iguais aos Coríntios, porque eles comeram a mesma comida espiritual, e beberam a mesma bebida espiritual com os Coríntios; de outra forma o seu raciocínio não prova o ponto que ele tem em mãos, a saber, que os israelitas não eram em nada inferiores aos Coríntios.

Razão VI. E é dito que o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado: da mesma forma pode-se dizer que o sacramento da Ceia do Senhor foi feito para o homem, e não o homem para ele: e, portanto, o homem é mais excelente que o sacramento. Mas se os sinais do pão e do vinho são realmente convertidos no corpo e no sangue de Cristo, então o sacramento é infinitamente melhor que o homem; o qual, em seu melhor estado, é apenas unido a Cristo, e feito um membro de seu corpo místico: ao passo que o pão e o vinho são feitos o próprio Cristo. Mas o sacramento ou os elementos exteriores de fato não são melhores que o homem: o fim sendo sempre melhor do que a coisa ordenada para o fim. Resta, portanto, que a presença de Cristo não é corporal, mas espiritual. Novamente, na Ceia do Senhor, cada crente recebe Cristo inteiro, Deus e homem, embora não a divindade: ora por esta ingestão carnal, não recebemos o Cristo inteiro, mas apenas uma parte de sua humanidade: e portanto no sacramento não há ingestão carnal, e consequentemente nenhuma presença corporal.

Razão VII. O julgamento da Igreja antiga.

Teodoreto

O mesmo Cristo, que chamou o seu corpo natural de comida e pão, o qual também chamou a si mesmo de videira, ele concedeu aos sinais visíveis o nome do seu próprio corpo, NÃO MUDANDO A NATUREZA, mas acrescentando graça à natureza; por onde ele entende a consagração. (Dialog. 1. immutable)

E

Os sinais místicos após a santificação não perdem a sua natureza própria. Pois eles PERMANECEM NA SUA PRIMEIRA NATUREZA, e mantêm a sua primeira figura e forma; e como antes, podem ser tocados e vistos: e aquilo no qual eles são feitos, é entendido, crido, adorado.

Gelásio

Pão e vinho passam para a substância do corpo e do sangue de Cristo, contudo de tal modo que a SUBSTÂNCIA OU NATUREZA DO PÃO E DO VINHO NÃO CESSA. E eles são convertidos na substância divina, contudo o pão e o vinho PERMANECEM AINDA NA PROPRIEDADE DA SUA NATUREZA. (Lib. de duob. nat. Christ.)

Lombardo

Se for perguntado que conversão é esta, se formal, ou substancial, ou de um outro tipo, eu não sou capaz de definir. (Lib. 4. dist. 11.)

E que os Pais não defendiam a transubstanciação, eu provo isso por várias razões.

  • Primeiro, em tempos passados, eles costumavam queimar com fogo aquilo que sobrava após a administração da Ceia do Senhor.

  • Segundo, pela união sacramental do pão e do vinho com o corpo e o sangue de Cristo, eles costumavam confirmar a união pessoal da humanidade de Cristo com a divindade contra os hereges: cujo argumento eles não teriam usado, se tivessem acreditado numa presença real papista.

  • Terceiro, era um costume em Constantinopla que, se restassem muitas partes do sacramento após o término da sua administração, criancinhas fossem chamadas da escola para comê-las; as quais, no entanto, eram excluídas da mesa do Senhor. E isto argumenta claramente que a Igreja naqueles dias tomava o pão, após o término da administração, como pão comum.

Novamente, foi outrora uma ordem na igreja Romana, que o vinho fosse consagrado mergulhando nele o pão, o qual tinha sido consagrado. Mas esta ordem não pode se manter com a presença real, na qual o pão é convertido tanto no corpo quanto no sangue. Nicolau Cabásilas diz:

Depois que ele usa de alguma fala ao povo, ele ergue as suas mentes, e levanta os seus pensamentos da terra, e diz, Sursum corda, Levantemos os nossos corações, PENSEMOS NAS COISAS LÁ DO ALTO, e não nas coisas que estão sobre a terra. Eles consentem e dizem, que elevam os seus corações para lá, onde está o seu tesouro, e onde Cristo está assentado à destra de seu pai. (Lib. de expos. Liturg. c. 26.)

Objeções dos Papistas.

Objeção I. A sua primeira razão é João 6:55. “A minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida”: portanto (dizem eles) o corpo de Cristo deve ser comido com a boca, e o seu sangue bebido concordantemente.

Resposta. O capítulo deve ser entendido de um comer espiritual de Cristo: o seu corpo é verdadeiramente comida, mas comida espiritual, e o seu sangue bebida espiritual, a serem recebidos não pela boca, mas pela fé. Este é o exato ponto que Cristo aqui intenciona provar, a saber que crer nele é comer a sua carne e beber o seu sangue, ambos são o mesmo. Novamente, este capítulo não deve ser entendido daquele comer especial de Cristo no sacramento: pois é dito em termos gerais, v. 53: “A não ser que comais a carne de Cristo e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós”: e se estas mesmas palavras (que são a substância do capítulo) devem ser entendidas de um comer sacramental, nenhum homem antes da vinda de Cristo foi salvo: pois nenhum comeu ou bebeu corporalmente o seu corpo ou sangue; considerando que não existiam então na natureza, mas apenas estavam presentes no coração crente pela fé.

Objeção II. Outro argumento é tirado das palavras da instituição: “Isto é o meu corpo”.

Resposta. Estas palavras não devem ser compreendidas no sentido próprio (literalmente), mas por uma figura: o seu corpo sendo colocado para o sinal e selo do seu corpo. Objeta-se que quando quaisquer pessoas fazem as suas últimas vontades e testamentos, elas falam o mais claramente que podem: ora, nesta ceia, Cristo ratifica a sua última vontade e testamento; e portanto ele falou claramente, sem qualquer figura. Cristo aqui fala claramente e também por meio de uma figura: pois sempre foi o modo usual do Senhor, ao falar de sacramentos, dar o nome da coisa significada ao sinal: como em Gênesis 17:10, a circuncisão é chamada a aliança de Deus e no verso seguinte, em forma de exposição, o sinal da aliança; e em Êxodo 12:11, o cordeiro pascal é chamado a passagem dos anjos por sobre as casas dos israelitas; ao passo que de fato era apenas um sinal disso; e 1 Cor. 10:4, a rocha era Cristo; 1 Cor. 5:7, a Páscoa era Cristo. E frase semelhante há de ser achada na instituição deste sacramento no que diz respeito ao cálice, que os próprios papistas confessam ser figurativo: quando é dito, em Lucas 22, Este cálice é o novo testamento no meu sangue, isto é, um sinal, selo e penhor disso. Novamente, o tempo em que estas palavras foram proferidas deve ser considerado, e foi antes da paixão de Cristo, enquanto o seu corpo ainda não havia sido crucificado nem seu sangue derramado: e consequentemente nenhum dos dois poderia ser recebido de maneira corporal, mas somente pela fé. Novamente, Cristo não era apenas o autor, mas o ministro deste sacramento no momento de sua instituição: e se o pão tivesse sido verdadeiramente convertido no seu corpo, e o vinho no seu sangue, Cristo com as suas próprias mãos deveria ter tomado o seu próprio corpo e sangue, e tê-los dado aos seus discípulos: mais ainda, o que é mais, ele deveria, com as suas próprias mãos, ter tomado a sua própria carne e bebido o seu próprio sangue, e ter comido a si mesmo. Pois o próprio Cristo comeu o pão e bebeu o vinho, para que ele pudesse, com sua própria pessoa, consagrar a sua última ceia, como ele já havia consagrado o batismo antes. E se estas palavras devessem ser compreendidas propriamente (literalmente), cada homem precisaria ser um homicida no seu comer de Cristo.

Por fim, por meio da presença real papista, acontece que os nossos corpos deveriam ser nutridos por qualidades nuas (acidentes) sem qualquer substância, o que em toda filosofia é falso e errôneo. Para remediar isso e os absurdos semelhantes, alguns papistas (Joh. de Com. bis comp. Theolog. lib. 6. cap. 14.) fazem nove maravilhas (milagres) no sacramento:

  • A primeira, que o corpo de Cristo está na Eucaristia em tão grande quantidade quanto ele estava na cruz, e está agora no céu, e contudo não excede a quantidade do pão.

  • A segunda, que existem acidentes sem um sujeito.

  • A terceira, que o pão é convertido no corpo de Cristo, e ainda assim não é a matéria do corpo, nem é reduzido a nada.

  • A quarta, que o corpo não aumenta pela consagração de muitas hóstias, e não diminui pelo frequente receber.

  • A quinta, que o corpo de Cristo está sob muitas hóstias consagradas.

  • A sexta, que quando a hóstia é dividida, o corpo de Cristo não é dividido, mas sob cada parte dela está o Cristo inteiro.

  • A sétima, que quando o padre segura a hóstia na sua mão, o corpo de Cristo não é sentido por si mesmo nem visto, mas as formas do pão e do vinho.

  • A oitava, que quando as formas do pão e do vinho cessam, o corpo e o sangue de Cristo cessam também de estar ali.

  • A nona, que os acidentes do pão e do vinho têm os mesmos efeitos que o próprio pão e o vinho, os quais são nutrir e saciar.

Desta maneira será fácil para qualquer homem defender a opinião mais absurda que existe ou possa existir, se ele tiver liberdade para responder aos argumentos alegados em contrário através de milagres.

Para concluir, visto que há uma comunhão real no sacramento entre Cristo e cada coração crente, o nosso dever, portanto, é depositar os nossos corações em Cristo, esforçando-nos para amá-lo, para nos alegrarmos nele, e ansiar por ele acima de todas as coisas: toda a nossa confiança deve estar nele, e com ele; nós, estando agora na terra, devemos ter a nossa conversação (cidadania) no céu. E esta é a verdadeira presença real, que a antiga Igreja de Deus nos recomendou: pois em todas estas liturgias estas palavras eram usadas, e ainda existem na missa papista: Levantai os vossos corações: nós os levantamos ao Senhor. Pelas quais palavras os comunicantes eram admoestados a dirigir as suas mentes e a sua fé a Cristo, assentado à destra de Deus. Assim disse Agostinho:

Se nós celebramos a ascensão do Senhor com devoção: ascendamos com ele, e levantemos os nossos corações.

Novamente,

Aqueles que já ressuscitaram com Cristo na fé e na esperança são convidados para a grande mesa do céu, à mesa dos Anjos, ONDE ESTÁ O PÃO. (Serm de Ascens. 1.)

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#10 – Sobre As Imagens

Das Imagens

Nosso Consenso com Roma

Conclusão I.

Nós reconhecemos o uso civil das imagens tão livre e verdadeiramente quanto a Igreja de Roma o faz. Por uso civil eu entendo aquele uso que se faz delas nas sociedades comuns dos homens, fora dos lugares designados para a adoração solene a Deus. E que isto seja lícito, parece claro: porque as artes de pintar e gravar são ordenança de Deus: e ser hábil nelas é dom de Deus, como declara o exemplo de Bezalel e Aoliabe, Êxodo 35:30. Este uso de Imagens pode ser em várias coisas. I. No adorno e decoração de edifícios: assim Salomão embelezou seu trono com a imagem de leões. E o Senhor ordenou que o seu templo fosse adornado com as imagens de palmeiras, de romãs, de touros, de querubins e coisas semelhantes. II. Serve para a distinção de moedas: de acordo com a prática de Imperadores e Príncipes de todas as nações. Quando perguntaram a Cristo, em Mateus 22, se era lícito dar tributo a César ou não, ele pediu um denário e disse: de quem é esta imagem ou inscrição? Eles disseram: de César. Ele então disse: dai a César as coisas que são de César; não condenando, mas aprovando o selo [estampa] ou imagem em sua moeda. E embora fosse proibido aos judeus fazer imagens como forma de representação, ou adoração do Deus verdadeiro: contudo, o siclo do santuário, que eles usavam, especialmente após o tempo de Moisés, era carimbado com a imagem da amendoeira, e do pote de Maná. III. As imagens servem para manter na memória os amigos falecidos a quem reverenciamos. E é provável que daí veio uma ocasião para as imagens que agora estão em uso na Igreja Romana. Pois nos dias após os Apóstolos, os homens costumavam guardar em particular as pinturas de seus amigos falecidos: e esta prática depois se infiltrou na congregação aberta; e por fim, ganhando força a superstição, as imagens começaram a ser adoradas.

Conclusão II.

Nós defendemos que o uso histórico de imagens é bom e lícito: e isto é, para representar aos olhos os atos das histórias, sejam elas humanas ou divinas; e assim pensamos que as histórias da Bíblia podem ser pintadas em lugares privados.

Conclusão III.

Em um caso é lícito fazer uma imagem para testemunhar a presença ou os efeitos da majestade de Deus, a saber, quando o próprio Deus dá algum mandamento especial para assim fazer. Neste caso, Moisés fez e erigiu uma serpente de bronze, para ser um tipo, sinal ou imagem para representar Cristo crucificado (João 3:14). E os Querubins sobre o propiciatório serviam para representar a majestade de Deus, a quem os anjos estão sujeitos. E no segundo mandamento não é simplesmente dito: Não farás imagem de escultura: mas com limitação, Não farás para ti mesmo, isto é, por tua própria cabeça, segundo a tua própria vontade e prazer.

Conclusão IV.

As imagens verdadeiras do Novo Testamento, que nós defendemos e reconhecemos, são a doutrina e a pregação do evangelho, e todas as coisas que, pela Palavra de Deus, a isso pertencem. Gál. 3: Quem vos enfeitiçou para não obedecerdes à verdade, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi antes DESCRITO E CRUCIFICADO ENTRE VÓS. Daí se segue que a pregação da Palavra é como uma pintura excelentíssima na qual Cristo e os seus benefícios são vivamente representados a nós. E não discordamos de Orígenes (contra Cels. lib. 8) que diz: Não temos imagens formadas por nenhum artífice vil, mas sim aquelas que são produzidas e formadas pela palavra de Deus, a saber, padrões de virtude e formas que se assemelham aos cristãos. Ele quer dizer que os próprios cristãos são as imagens dos cristãos.

A Diferença com Roma

Nossa dissidência em relação a eles no tocante às imagens baseia-se em três pontos:

A Primeira Diferença

A Igreja de Roma defende ser lícito para eles fazerem imagens para assemelhar-se a Deus, embora não em relação à sua natureza divina; contudo em relação a algumas propriedades e ações. Nós, pelo contrário, defendemos ser ilícito para nós fazer qualquer imagem, de qualquer forma, para representar o Deus verdadeiro: ou, fazer uma imagem de qualquer coisa na forma de religião, para adorar a Deus, e muito menos a criatura por meio dela. Pois o segundo mandamento diz claramente, Êxodo 20:4: Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há nos céus, etc. Os papistas dizem que o mandamento se refere às imagens de falsos deuses. Mas, quer eles queiram quer não, isto deve ser entendido das imagens do verdadeiro Jeová: e nos proíbe de assemelhar a Deus, seja em sua natureza, propriedades, ou obras, ou de usar qualquer semelhança dele para qualquer uso sagrado; como para ajudar a memória, quando estamos prestes a adorar a Deus. Tudo isso o Espírito Santo, que é o melhor expositor de si mesmo, ensina muito claramente, Deut. 4:15, 16. Não vistes imagem alguma (seja de falso ou verdadeiro deus) e portanto não fareis nenhuma semelhança de coisa alguma. E novamente o Profeta Isaías (40:18), reprovando os idólatras, pergunta a quem eles assemelharão a Deus, ou, que semelhança lhe aplicarão. E no versículo 21: Não sabeis nada? não tendes ouvido? não vos foi DITO DESDE O PRINCÍPIO? como se dissesse: esquecestes o segundo mandamento, que Deus deu a vossos pais? E assim ele reprova categoricamente a todos os que assemelham o Deus verdadeiro em imagens.

Mas eles dizem ainda que, por imagens no segundo mandamento se referem a ídolos, isto é (dizem eles) coisas tais que os homens adoram como deuses. Nós respondemos: se assim fosse, nós confundiríamos o primeiro e o segundo mandamentos. Pois o primeiro, “Não terás outros deuses diante da minha face”, proíbe todos os falsos deuses, os quais o homem perversamente forja para si mesmo, ao dar seu coração e as afeições principais deste a eles: e, portanto, ídolos também são aqui proibidos, quando são estimados como deuses. E a distinção que eles fazem de que uma imagem é a representação de coisas verdadeiras, e um ídolo de coisas supostas, é falsa.

Os antigos Teólogos concordam com tudo isto que eu disse:

  • Tertuliano diz que toda forma ou representação deve ser chamada de um ídolo. (de Idol. Lib 3)

  • Isidoro diz que os pagãos usavam os nomes de imagem e ídolo indiferentemente em uma e mesma significação. (Etym. l. 8).

  • Santo Estêvão em sua apologia, Atos 7:41, chama o bezerro de ouro de um ídolo.

  • Jerônimo diz que os ídolos são imagens de homens mortos. (sobre Isa. 37)

  • Lactâncio diz, Inst. lib. 2. cap. 19. Onde há imagens por causa da religião, não há religião.

  • O Concílio de Elvira, cânon 36, decretou que nada deveria ser pintado nas paredes das igrejas, que seja adorado pelo povo.

  • Orígenes diz: Nós não permitimos a ninguém adorar Jesus em altares, imagens e templos: PORQUE ESTÁ ESCRITO, Não terás outros deuses. (contra Celsum. lib. 7)

  • E Epifânio diz: É contra a autoridade das Escrituras ver a imagem de Cristo, ou de quaisquer Santos pendurada na Igreja. No sétimo Concílio de Constantinopla estas palavras de Epifânio são citadas contra os Encratitas. Sede lembrados, filhos amados, de não trazer imagens para a Igreja, nem as colocar nos lugares onde os Santos estão enterrados, MAS CARREGAI SEMPRE A DEUS EM VOSSOS CORAÇÕES: nem permitais que sejam toleradas em qualquer casa comum: pois não é conveniente que um Cristão seja ocupado pelos olhos, mas pela meditação da mente. (Epist. ad Joh. Heirs)

Argumentos dos Papistas

As razões que eles usam para defender as suas opiniões são estas.

Objeção I No templo de Salomão foram erigidos Querubins, que eram imagens de anjos, sobre o Propiciatório onde Deus era adorado: e por meio disso era assemelhada a majestade de Deus, portanto é lícito fazer imagens para assemelhar-se a Deus. Resposta Eles foram erigidos por mandamento especial de Deus, que prescreveu a própria forma deles e o lugar onde deveriam ser colocados: e com isso Moisés teve garantia para fazê-los; caso contrário ele teria pecado: que eles mostrem garantia semelhante para as suas imagens, se puderem. Em segundo lugar, os Querubins foram colocados no santo dos santos no lugar mais interior do Templo, e consequentemente foram removidos da vista do povo, que apenas ouvia falar deles e ninguém além do sumo sacerdote os via, e isso apenas uma vez ao ano. E os Querubins fora do véu, embora devessem ser vistos, contudo não deviam ser adorados. Êxodo 20:4. Portanto eles não servem absolutamente para nada a fim de justificar as imagens da Igreja de Roma.

Objeção II Deus apareceu na forma de um homem a Abraão, Gên. 18, e a Daniel, que viu o ancião de dias assentado sobre um trono, Dan. 9. Ora, assim como Deus apareceu, assim pode ele ser assemelhado: portanto (dizem eles) é lícito assemelhar-se a Deus na forma de um homem ou qualquer imagem semelhante na qual ele se mostrou aos homens. Resposta Nesta razão a proposição é falsa, pois Deus pode aparecer em qualquer forma que agrade à sua majestade; contudo não se segue que o homem deva, portanto, assemelhar a Deus naquelas formas: o homem não tendo liberdade para assemelhá-lo em qualquer forma: a menos que lhe seja ordenado assim fazer. Novamente, quando Deus apareceu na forma de um homem, aquela forma foi um sinal da presença de Deus apenas para o momento em que Deus apareceu e não mais do que isso: como o pão e o vinho no sacramento são sinais do corpo e do sangue de Cristo, não para sempre, mas para o tempo da administração: pois depois se tornam de novo como pão e vinho comuns. E quando o Espírito Santo apareceu na semelhança de uma pomba, aquela semelhança foi um sinal da sua presença não por mais tempo do que o Espírito Santo assim apareceu. E, portanto, aquele que nestas formas quisesse representar a Trindade, desonra grandemente a Deus, e faz aquilo para o qual não tem garantia.

Objeção III O homem é a imagem de Deus, mas é lícito pintar um homem, e, portanto, fazer a imagem de Deus. Resposta Uma verdadeira cavilação: pois em primeiro lugar um homem não pode ser pintado como sendo a imagem de Deus, a qual consiste nos dons espirituais da justiça e da verdadeira santidade. Novamente, a imagem de um homem pode ser pintada para uso civil ou histórico, mas pintar qualquer homem para este fim de representar a Deus, ou no caminho da religião, para que possamos melhor lembrar e adorar a Deus, é ilícito. Outras razões que eles usam são de pouca importância, e, portanto, eu as omito.

A Segunda Diferença

Eles ensinam e mantêm que imagens de Deus e de Santos podem ser adoradas com adoração religiosa, especialmente o crucifixo. Pois Tomás (de Aquino) diz: Visto que a cruz representa Cristo, que morreu numa cruz, e deve ser adorado com honra divina: segue-se que a cruz também deve ser adorada assim. (Summ. part 3. quest. 5. art. 3).

Nós, pelo contrário, defendemos que eles não podem. Nosso fundamento principal é o segundo mandamento, que contém duas partes: a primeira proíbe fazer imagens para se assemelhar ao Deus verdadeiro: a segunda proíbe adorá-las, ou a Deus nelas; nestas palavras: Não te encurvarás a elas. Ora, não pode haver adoração feita a qualquer coisa que seja menos do que o dobrar do joelho. Novamente, a serpente de bronze foi um tipo ou imagem de Cristo crucificado (João 3:14), designada pelo próprio Deus: contudo, quando o povo lhe queimou incenso (2 Reis 18:4), Ezequias a quebrou em pedaços, e é por isso elogiado. E quando o diabo pediu ao nosso Salvador Cristo apenas que dobrasse o joelho a ele, e ele lhe daria o mundo inteiro: Cristo rejeitou sua oferta, dizendo: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás (Mateus 4:10). Novamente, é lícito para um homem reverenciar a outro com honra civil, mas adorar o homem com honra religiosa é ilícito. Pois toda adoração religiosa é prescrita na primeira tábua: e a honra devida ao homem é prescrita apenas na segunda tábua e no primeiro mandamento dela, Honra a teu pai; cuja honra é, portanto, civil e não religiosa. Ora, o homem mais humilde que possa existir é uma imagem de Deus mais excelente do que todas as imagens de Deus ou dos Santos que são inventadas pelos homens. Agostinho, e muito depois dele Gregório, em termos claros negam que as imagens devam ser adoradas. (de morib. Eccles cap. 35. lib. 9. epist. 9).

Argumentos dos Papistas

Os papistas defendem suas opiniões por estas razões.

Objeção I. Salmo 99:5. Prostrai-vos diante do estrado de seus pés. Resposta. As palavras devem ser lidas assim: Curvai-vos no estrado de seus pés; isto é, na Arca e Propiciatório, pois ali ele fez uma promessa da sua presença: as palavras, portanto, não dizem para se curvar à Arca, mas a Deus na Arca.

Objeção II. Êxodo 3:5. Deus disse a Moisés: Fica de longe e tira os teus sapatos, porque o lugar é santo. Ora, se os lugares santos devem ser reverenciados, então muito mais as imagens santas, como a cruz de Cristo, e coisas semelhantes. Resposta. Deus ordenou a cerimônia de tirar os sapatos, para que ele pudesse, com isso, atingir Moisés com uma reverência religiosa, não pelo lugar, mas por sua própria majestade, cuja presença tornou o lugar santo. Que eles mostrem uma garantia semelhante para as imagens.

Objeção III. É lícito ajoelhar-se diante da cadeira de Estado na ausência do Rei ou da Rainha: portanto, muito mais às imagens de Deus e dos Santos glorificados no céu, estando ausentes de nós. Resposta. Ajoelhar-se à cadeira de estado não é mais do que um testemunho civil, ou sinal de reverência civil, pelo qual todos os bons súditos, quando lhes é oferecida a ocasião, mostram a sua lealdade e sujeição aos seus príncipes legítimos. E este ajoelhar-se desta maneira, e para nenhum outro fim, tem garantia suficiente na Palavra de Deus. Mas ajoelhar-se à imagem de qualquer Santo falecido é adoração religiosa e consequentemente mais do que adoração civil, como os próprios papistas confessam. O argumento então não prova nada, a menos que eles se restrinjam a um e o mesmo tipo de adoração.

A Terceira Diferença

Os papistas também ensinam que Deus pode ser legitimamente adorado em imagens, nas quais ele lhes apareceu: como o Pai, na imagem de um ancião: o Filho na imagem de um homem crucificado: e o Espírito Santo na semelhança de uma pomba, etc. Mas nós defendemos ser ilícito adorar a Deus em, por, ou diante de qualquer imagem: pois esta é a coisa que (como provei antes) o segundo mandamento proíbe. E o ato dos Israelitas, em Êxodo 32, adorando o bezerro de ouro é condenado como pura idolatria; muito embora eles não adorassem o bezerro, mas a Deus no bezerro: pois no versículo 5, Arão diz: Amanhã será a solenidade a Jeová: por meio do que ele nos dá a entender que o bezerro era apenas um sinal de Jeová a quem eles adoravam.

Argumentos dos Papistas

Objeção Parece que os israelitas adoraram o bezerro. Pois Arão diz no verso 4: Estes são os teus deuses (Ó Israel) que te tiraram do Egito. Resposta. O significado de Arão não é outra coisa senão que o bezerro de ouro era um sinal da presença do Deus verdadeiro. E o nome da coisa significada é dado ao sinal, como no palco é chamado de Rei aquele que representa o Rei. E Agostinho diz que as imagens costumam ser chamadas pelos nomes das coisas das quais são imagens, como a falsa representação de Samuel é chamada de Samuel. E não devemos considerá-los a todos como loucos por pensarem que um bezerro feito de seus brincos, tendo apenas um ou dois dias de existência, pudesse ser o Deus que os tirara do Egito com mão poderosa muitos dias antes.

E estes são os pontos de diferença no tocante às Imagens, nos quais devemos permanecer em divergência para sempre com a Igreja de Roma. Pois eles erram no fundamento da religião, fazendo de fato um ídolo do Deus verdadeiro, e adorando um outro Cristo além do que nós adoramos, sob novos termos, mantendo a idolatria dos pagãos. E portanto temos nos apartado deles: e assim ainda devemos fazer porque eles são Idólatras; como eu provei.

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#09 – Sobre Os Votos

Dos Votos

I. Nosso Consenso

No tocante aos votos, isto deve ser sabido: que não os condenamos totalmente, mas apenas nos esforçamos para restaurar a pureza da doutrina referente a este ponto, a qual tem sido corrompida e desfigurada pela Igreja de Roma de tempos em tempos. Nós defendemos, portanto, que um voto é uma promessa feita a Deus referente a alguns deveres a serem realizados a Ele e é duplo: geral ou especial.

O voto geral é aquele que diz respeito a todos os crentes, e é feito na aliança tanto da lei quanto do evangelho. Falarei aqui apenas do voto que é feito na aliança do evangelho, no qual há duas ações: uma de Deus, a outra do homem. Deus em misericórdia, de Sua parte, promete aos homens a remissão dos pecados e a vida eterna; e o homem de novo, de sua parte, promete crer em Cristo e obedecer a Deus em todos os Seus mandamentos. Todos os homens sempre fizeram este voto a Deus, como os judeus na circuncisão, o qual eles também renovavam tão frequentemente quanto recebiam a Páscoa. E no Novo Testamento, todos os que são batizados fazem o mesmo. E no batismo este voto é chamado de estipulação de uma boa consciência, pela qual nos propomos a renunciar a nós mesmos, a crer em Cristo e a produzir os frutos do verdadeiro arrependimento. E ele deve ser renovado tantas vezes quantas formos participantes da Ceia do Senhor. Este voto é necessário — e deve ser guardado como parte da verdadeira adoração a Deus — porque é uma promessa na qual votamos realizar todos os deveres ordenados por Deus seja na lei ou no evangelho. Pode-se perguntar, considerando que estamos obrigados à obediência, como nos obrigamos no batismo a isso. Resposta. Embora já estejamos obrigados, em parte pela natureza, e em parte pela Palavra escrita, ainda assim podemos renovar a mesma obrigação em um voto. E aquele que está obrigado pode ainda obrigar a si mesmo desde que seja para este fim, para ajudar a sua lentidão por falta de zelo e para se tornar mais zeloso nos deveres de amor aos homens e na adoração a Deus. Para este fim, Davi jurou guardar a lei de Deus [Sl 119:116] embora estivesse obrigado a ela pela natureza e pela própria lei escrita.

O voto especial é aquele que não alcança a pessoa de todos os crentes, mas diz respeito apenas a alguns homens especiais em algumas ocasiões especiais. E este tipo de voto é duplo:

O primeiro é o voto de um dever cerimonial na forma de serviço a Deus, e estava em prática na igreja dos judeus sob o Antigo Testamento. Os exemplos disto são especialmente dois. O primeiro foi o voto dos nazireus, ao qual nenhum tipo de homem estava obrigado pelo mandamento de Deus, mas eles obrigavam a si mesmos, prescrevendo Deus apenas a maneira e a ordem de guardá-lo com os ritos a ele pertinentes — como a abstinência de vinho, o não cortar de seus cabelos, e coisas semelhantes. O segundo exemplo é dos judeus, quando de livre vontade eles votavam dar a Deus casa ou terra, ovelhas, ou bois, ou quaisquer coisas semelhantes, para a manutenção da adoração legal; e disto também Deus prescreve certas regras [Levítico 27]. Ora, estes votos eram parte do pedagogo judaico ou lei cerimonial, na qual Deus treinou os judeus no Antigo Testamento. E sendo observados por eles, eram partes da adoração a Deus. Mas agora sob o evangelho eles não são, sendo todos abolidos com a lei cerimonial à qual Cristo pôs fim em Sua morte na cruz. É verdade, Paulo fez um voto e depois o guardou no tempo do Novo Testamento [Atos 18] — contudo não como uma parte da adoração a Deus, mas como uma coisa indiferente para a época, na qual ele apenas condescendeu com a fraqueza dos judeus — para que por este meio ele pudesse trazê-los melhor a Cristo. E enquanto Cristo é chamado de Nazareno [Mat. 2:23], não podemos pensar que Ele era dessa mesma ordem, porque Ele não se absteve de vinho. Mas Ele foi assim chamado porque Ele era a verdade e o cumprimento desta ordem. Pois por ela era significado que a igreja de Deus era um povo peculiar, separado ou escolhido do mundo, e que Cristo — no que diz respeito à santidade — era também separado de todos os pecadores. E as palavras em São Mateus, “Ele será chamado Nazareno”, são tomadas emprestadas do livro de Juízes, capítulo 13, onde são ditas propriamente de Sansão, e como tipo ou figura de Cristo. Pois assim como Sansão salvou Israel por sua morte, assim o fez Cristo salvando a Sua igreja. E assim como Sansão matou seus inimigos mais pela morte do que pela vida, assim o fez Cristo. É evidente, portanto, que este tipo de voto não nos obriga. Pois não há mais cerimônias a serem guardadas sob o evangelho como partes da adoração a Deus, além dos ritos exteriores do batismo e da Ceia do Senhor. Votos referentes a carnes, bebidas, trajes, toque, degustação, tempos, lugares, [e] dias, eram próprios dos judeus.

O segundo tipo de voto especial é aquele pelo qual um homem promete livremente realizar algum exercício exterior e corporal para algum bom fim. E este voto também (se for feito de acordo) é lícito e pertence tanto à igreja do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo temos o exemplo dos recabitas [Jer. 35:6], os quais, por determinação de Jonadabe, seu pai, abstiveram-se de bebida forte e de vinho, de plantar vinhas e pomares — com o que Jonadabe pretendia apenas domá-los de antemão e familiarizá-los com sua futura condição e estado, de que seriam estrangeiros em uma terra estranha; para que assim pudessem preparar-se para suportar a dureza no tempo vindouro. E agora no Novo Testamento temos garantia de igual modo para votar — como se um homem, ao beber vinho ou bebida forte, se encontrar propenso à embriaguez, ele pode votar consigo mesmo não beber mais vinho nem bebida forte pelo tempo em que sentir que a bebida disto incitará sua fraqueza e ministrará ocasião de pecado. Deste tipo também são os votos nos quais propomos e prometemos a Deus guardar tempos estabelecidos de jejum, de nos aplicarmos à oração e à leitura das Sagradas Escrituras, e dar esmolas estabelecidas por causas especiais conhecidas por nós mesmos, e fazer vários deveres semelhantes. E para que não sejamos enganados ao fazer tais votos, certas regras devem ser lembradas:

  1. Que o voto esteja de acordo com a vontade e a Palavra de Deus, pois se for de outra forma, o fazê-lo — assim como o guardá-lo — é pecado. Os votos não devem ser laços de iniquidade.

  2. Deve ser feito de tal modo que possa subsistir com a liberdade cristã. Pois não podemos tornar obrigatórias na consciência coisas que Deus fez livres. Ora, a liberdade cristã nos permite o livre uso de todas as coisas indiferentes, desde que seja fora do caso de ofensa. Daí se segue que os votos devem ser feitos e guardados, ou não guardados, na medida em que na consciência eles possam subsistir, ou não subsistir, com a nossa liberdade comprada por Cristo.

  3. O voto deve ser feito com o consentimento dos superiores, se estivermos sob autoridade. Assim, entre os judeus, o voto de uma filha não poderia subsistir, a menos que houvesse o consentimento dos pais a ele.

  4. Deve estar no poder e na capacidade do seu autor de fazê-lo ou não fazê-lo. Um voto feito de uma coisa impossível não é um voto.

  5. Deve estar de acordo com o chamado daquele que o faz, isto é, tanto ao seu chamado geral como ele é um cristão quanto àquele chamado particular no qual ele vive. Se for contra um ou contra ambos, é ilícito.

  6. Deve ser feito com deliberação. Votos precipitados não são lícitos, embora as coisas votadas possam ser feitas licitamente.

  7. O fim deve ser bom, o qual é preservar e exercitar os dons da fé, oração, arrependimento, obediência e outras virtudes da mente; também para testemunhar nossa gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas.

Estas são as principais regras que devem ser observadas ao se fazer votos; e com isso deve ser lembrado que votos feitos desta maneira não são por si mesmos parte da adoração a Deus, mas apenas ajudas e auxílios a ela — e assim devemos considerar todos os votos do Novo Testamento. E isso é o bastante sobre os votos especiais e sobre o nosso consenso nisto.

II. A Dissidência ou Diferença

Os pontos de diferença entre nós no tocante aos votos são especialmente três:

Ponto de Diferença 1. A Igreja de Roma ensina que no Novo Testamento somos tão obrigados a fazer votos como era a igreja dos judeus e isso até mesmo em exercícios externos. Nós dizemos não, considerando que a lei cerimonial agora está abolida, e nós temos apenas duas cerimônias por mandamento a serem observadas: o batismo e a Ceia do Senhor. Novamente, não somos tão obrigados a fazer ou guardar votos como os judeus eram, porque eles tinham um mandamento para assim fazer e nós não temos nenhum. Mas eles alegam o contrário no profeta Isaías, que falando do tempo do evangelho diz: “Os egípcios conhecerão o Senhor, e farão votos a Ele e os cumprirão” (Isa. 19:21). Eu respondo de duas maneiras: primeiro, que o profeta neste lugar expressa e significa a adoração espiritual do Novo Testamento pela adoração cerimonial então usada, como ele também o faz no último capítulo onde ele chama os ministros do Novo Testamento de sacerdotes e levitas. Segundo, nós concedemos, a igreja do Novo Testamento faz votos a Deus, mas eles são de deveres morais e evangélicos que não devem ser deixados por fazer — e se o voto de fato os promover, não deve ser negligenciado. E, portanto, tantas vezes quantas viermos à Mesa do Senhor, nós de coração renovamos o voto e a promessa de obediência. E embora os votos sejam feitos de coisas e ações indiferentes, ainda assim eles não são quaisquer partes da adoração a Deus, que é o ponto a ser provado.

Novamente, eles alegam: “Fazei votos a Deus e cumpri-os” (Sl 76:11). E eles dizem que este mandamento obriga todos os homens. Resposta. Esse mandamento em primeiro lugar obriga os judeus a fazerem votos cerimoniais. Novamente, Davi aqui fala de votar louvor e ação de graças a Deus, e assim ele expõe a si mesmo: “Os meus votos estão sobre mim, oferecerei louvores a Deus” (Sl 56:12). E este voto de fato diz respeito a todos os homens porque ele respeita um dever moral, que é manifestar o louvor de Deus.

Ponto de Diferença 2. Eles também defendem que votos feitos mesmo de coisas não ordenadas — como carnes, bebidas, trajes, etc. — são partes da adoração a Deus, sim, que eles tendem a um estado de perfeição, no qual a guarda deles leva o homem a um estado mais elevado do que a guarda da lei pode fazer. Nós dizemos categoricamente não, defendendo que os votos lícitos são certos suportes e esteios da adoração a Deus e não a adoração em si. Pois Paulo diz claramente: “O exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa” (1 Tim. 4:8). Novamente, assim como é o reino de Deus, assim deve ser a Sua adoração — e o reino de Deus não consiste em coisas exteriores, como no comer, beber e ações semelhantes — e, portanto, a Sua adoração não consiste em coisas exteriores.

Ponto de Diferença 3. Eles mantêm que sejam feitos tais votos que não estão de acordo com as regras antes nomeadas. E nisto também nós devemos discordar deles. O primeiro e principal é o voto de continência, pelo qual um homem promete a Deus guardar sempre a castidade na vida solteira, isto é, fora do estado de matrimônio. Este tipo de voto é frontalmente contra a Palavra de Deus e, portanto, ilícito. Pois Paulo diz: “Se não podem conter-se, que se casem” (1 Cor. 7:9). É “uma doutrina de demônios” (1 Tim. 4:1) proibir o casamento. “O casamento é honroso entre todos, e o leito sem mácula” (Heb. 13:4). Novamente, este voto não está no poder do próprio que vota, pois a continência é dom de Deus, que não a dá a todos, mas a quem Ele quer, e quando Ele quer, e por quanto tempo Ele quer. Eles alegam que na falta de continência, o jejum e a oração a obtêm. Resposta. Não é assim. Os dons de Deus são de duas sortes: alguns são comuns a todos os crentes, como o dom da fé, do arrependimento e do temor de Deus, etc. Outros são peculiares apenas a alguns, como o dom da continência. “Gostaria que todos os homens fossem como eu mesmo sou, mas cada homem tem de Deus o seu próprio dom, um desta maneira, outro daquela” (1 Cor. 7:7). Ora, se jejuarmos e orarmos pelo aumento dos dons comuns de Deus, como fé, arrependimento e todos os que são necessários à salvação, poderemos obtê-los em alguma medida, mas o mesmo não se pode dizer de dons particulares. O filho de Deus pode orar por saúde ou riqueza e não obter nenhum deles neste mundo; porque não é a vontade de Deus conceder estas bênçãos a todos os homens. E Paulo orou três vezes para ser liberto de uma tentação, e ainda assim não obteve seu pedido. E assim nós podemos da mesma forma orar por castidade no estado de solteiro, e contudo nunca obtê-la; porque, pode ser, é a vontade de Deus nos salvar sem ela. Este voto, portanto, nós o abominamos como uma coisa que até agora tem — e ainda continua — produzido inumeráveis abominações no mundo.

Contudo, aqui observe de que maneira nós o fazemos.

  • Primeiro de tudo, embora desaprovemos o voto, ainda assim nós aprovamos e elogiamos a vida de solteiro. O casamento de fato é melhor a dois respeitos: primeiro, porque Deus o ordenou para ser um remédio de continência a todas as pessoas tais que não podem se conter; segundo, porque é o seminário tanto da igreja quanto da sociedade (república); e ele produz uma semente de Deus para a ampliação do Seu reino [Mal. 2:15]. No entanto, a vida de solteiro naqueles que têm o dom da continência deve, em alguns aspectos, ser preferida. Primeiro, porque ela traz liberdade na perseguição. Assim, Paulo diz: “Suponho que seja bom para a presente necessidade que o homem assim permaneça” (1 Cor. 7:26). Segundo, porque livra os homens dos cuidados comuns, moléstias e distrações que existem na família. “Tais pessoas terão tribulação na carne, mas eu vos poupo” (v. 28). Terceiro, porque as pessoas solteiras comumente adoram a Deus com maior facilidade e liberdade corporal, sendo sempre pressuposto que elas tenham o dom da continência. “A mulher não casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa tanto no corpo como no espírito” (v. 34).

  • Novamente, embora desaprovemos o voto, ainda assim defendemos e ensinamos que homens ou mulheres, estando assegurados de que têm o dom da continência, podem constantemente resolver e propor consigo mesmos viver e levar uma vida solteira. “Aquele que está firme em seu próprio coração, que não tem necessidade, mas tem poder sobre sua própria vontade, e assim decretou em seu coração que guardará sua virgindade, faz bem” (1 Cor. 7:37). E abraçamos o dito de Teodoreto sobre 1 Timóteo 4: “Pois ele não”, diz ele, “culpa a vida solteira ou a continência, mas ele acusa aqueles que por lei decretada obrigam os homens a seguirem estas coisas”. E homens se fizeram castos por causa do reino dos céus [Mat. 19:12], não por voto, mas por um propósito de coração, o qual é muito menos que um voto, e pode ser mudado na ocasião devida, enquanto um voto não pode, a menos que evidentemente pareça ser ilícito.

  • Terceiro, para tais pessoas que são capazes de se conter — de viverem solteiras para os fins antes nomeados — de fato nós consideramos não ser nenhum conselho de perfeição, contudo não negamos que seja um conselho de conveniência ou facilidade exterior, de acordo com o que Paulo diz: “Dou o meu conselho…” (v. 25), e, “Digo isto para o vosso proveito, não para vos enredar em um laço” (v. 35).

  • Por último, nós pensamos que, se alguém tendo o dom da continência fizer um voto de viver solteiro e ainda assim depois se casar (permanecendo o dito dom), eles pecaram. Contudo não porque estão casados, mas porque seu voto foi quebrado. E assim disse Agostinho de viúvas que casaram após seu voto: lib. de bono viduit. cap. 9.

O segundo é o voto de pobreza e vida monástica, no qual os homens dão tudo o que têm aos pobres e se entregam inteira e exclusivamente à oração e ao jejum. Este voto é contra a vontade de Deus. “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35). “Não me dês nem a riqueza nem a pobreza” (Prov. 30:8). A pobreza é enumerada entre as maldições da lei [Deut. 28:22], das quais nenhuma deve ser votada. E a regra do Espírito Santo é: “Aquele que não quer trabalhar”, a saber, em algum chamado especial e justificável, “não deve comer” (2 Tes. 3:10). E, “Exorto que trabalhem com sossego, e comam o seu próprio pão” (v. 12). Ora, quando os homens vivem separados dos outros, entregando-se apenas à oração e ao jejum, eles vivem sem chamado nenhum. E é contra o voto geral feito no batismo, porque ele livra os homens de diversos deveres da lei moral e muda o fim apropriado da vida do homem. Pois todo homem deve ter dois chamados. O primeiro é o chamado geral de um cristão, em virtude do qual ele realiza a adoração a Deus e os deveres de amor aos homens. O segundo é um chamado particular, no qual, de acordo com o seu dom, ele deve prestar serviço aos homens em alguma função, pertinente quer à igreja quer à sociedade da qual ele é membro. E o primeiro destes dois deve ser realizado no segundo, e o segundo no e com o primeiro. O fim da vida do homem não é apenas servir a Deus pelos deveres da primeira tábua, mas servindo ao homem nos deveres da segunda tábua, servir a Deus. E, portanto, o amor ao nosso próximo é chamado de o “cumprimento de toda a lei” (Rom. 13:10), porque a lei de Deus não é praticada isoladamente, mas no e com o amor ao nosso próximo. Sendo isto assim, é manifesto que a pobreza votada na vida monástica faz muitos membros inúteis tanto da igreja quanto da sociedade.

E embora nós desaprovemos este voto também, ainda assim o fazemos mantendo estas conclusões:

  • Conclusão 1. Que um homem pode abandonar todos os seus bens mediante chamado especial, como os apóstolos fizeram quando foram enviados a pregar o evangelho por todo o mundo. Segundo, os bens podem ser abandonados, sim esposa, filhos, pais, irmãos, e tudo, no caso de confissão, isto é, quando um homem, pela religião de Cristo, é perseguido e constrangido a abandonar tudo o que ele tem. Pois então a segunda tábua dá lugar aos deveres da primeira [Marcos 10:29].

  • Conclusão 2. Que no tempo de perseguição os homens podem retirar-se (havendo justa ocasião) e ir à parte para os desertos ou lugares semelhantes [Heb. 11:38], contudo para o tempo de paz, não vejo causa para a vida solitária. Se for alegado que os homens vão à parte para a contemplação e exercícios espirituais, digo de novo, que as graças de Deus podem ser tão bem exercitadas na família quanto no claustro. A família é de fato como se fosse uma escola de Deus, na qual aqueles que têm apenas uma centelha de graça podem aprender e exercitar muitas virtudes: o reconhecimento de Deus, a invocação, o temor de Deus, o amor, a generosidade, a paciência, a mansidão, a fidelidade, etc. Não, aqui existem mais ocasiões de fazer ou receber o bem do que há ou pode haver num claustro.

  • Conclusão 3. Que não condenamos os velhos e antigos monges, embora não gostemos de tudo neles. Pois eles não viveram como ventres preguiçosos, mas no suor de suas próprias testas, como deveriam fazer. E muitos deles eram casados, e em sua carne, bebida, roupas, regras, votos, e em todo o curso de vida diferiam dos monges deste tempo; tanto quanto o céu está da terra.

O terceiro voto é uma obediência regular (submissão a uma regra monástica), pelo qual os homens se entregam a guardar alguma regra ou ordem inventada, consistindo mais comumente na observação de exercícios em coisas exteriores, como carnes, bebidas, e roupas, etc. Este voto é contra a liberdade cristã, pela qual é concedido um livre uso de todas as coisas indiferentes, desde que seja sem caso de ofensa. “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo vos libertou” (Gál. 5:1). “Ninguém vos julgue pelo comer e pelo beber” (Col. 2:16).

Para concluir, visto que os papistas engrandecem estes seus votos, e ainda assim não fazem tal consideração pelo voto no batismo, nós de nossa parte devemos ser contrários a eles, não apenas no julgamento, mas também na prática. E devemos ter especial cuidado em cumprir os votos que empenhamos a Deus segundo o Seu mandamento. Na nossa criação fizemos um voto de obediência. E sendo recebidos na aliança da graça, votamos crer em Cristo, e produzir frutos de nova obediência, e este voto é renovado tantas vezes quantas viermos à Mesa do Senhor. Nosso dever, portanto, é cumpri-los também a Deus, como Davi diz: “Fazei votos a Deus e cumpri-os” (Sl 76:11). E se não os cumprirmos, tudo se voltará para a nossa vergonha e confusão. Os homens apoiam-se muito em cumprir aquela palavra que deram aos homens, e isso é tido por um ponto de muita honestidade, como de fato é. Ora então, se há tamanho cuidado para guardar a aliança com os homens, muito mais deveríamos nós ter cuidado para guardar a aliança com Deus.

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#08 – Sobre As Tradições

Das Tradições

O que são as Tradições? Tradições são doutrinas transmitidas de mão em mão, seja de boca em boca ou por escrito, além da palavra escrita de Deus.

Nosso Consenso com Roma

Conclusão I.

Nós defendemos que a própria palavra de Deus foi entregue por tradição. Pois, primeiro, Deus revelou sua vontade a Adão de boca em boca: e renovou a mesma aos Patriarcas, não por escrito, mas pela fala, por sonhos e outras inspirações: e assim a palavra de Deus foi de homem para homem pelo espaço de dois mil e quatrocentos anos, até o tempo de Moisés, que foi o primeiro escritor da Sagrada Escritura, pois no que diz respeito à profecia de Enoque, nós comumente defendemos que ela não foi escrita por Enoque, mas por algum judeu sob o seu nome. E pelo espaço deste tempo, os homens adoraram a Deus e mantiveram os artigos de sua fé por tradição, não vinda de homens, mas imediatamente do próprio Deus. E a história do Novo Testamento (como alguns dizem) por oitenta anos, como alguns outros pensam, pelo espaço de vinte anos e mais, passou de mão em mão por tradição, até ser escrita pelos Apóstolos, ou, sendo escrita por outros, ser aprovada por eles.

Conclusão II.

Nós defendemos que os Profetas, nosso Salvador Cristo e seus Apóstolos, falaram e fizeram muitas coisas boas e verdadeiras que não foram escritas nas escrituras: mas chegaram a nós, ou aos nossos ancestrais, apenas por tradição. Como em 2 Timóteo 3:20 é dito que Janes e Jambres foram os magos que resistiram a Moisés: ora, nos livros do Antigo Testamento não os encontraremos nomeados nem uma vez, e, portanto, é provável que o Apóstolo tivesse seus nomes por tradição, ou por alguns escritos então existentes entre os judeus. Da mesma forma em Hebreus 12:21, o autor da Epístola registra sobre Moisés que, quando ele viu uma visão terrível no Monte Sinai, ele disse: “Eu tremo e tenho medo”; palavras estas que não se encontram em todos os livros do Antigo Testamento. Na Epístola de Judas faz-se menção de que o diabo contendeu com o Arcanjo Miguel sobre o corpo de Moisés: ponto este que (como também o anterior), considerando que não se encontra nas sagradas escrituras, parece que o Apóstolo o obteve por tradição dos judeus. Que o Profeta Isaías foi morto com um porrete de pisoeiro é recebido como verdade, mas ainda assim não está registrado nas Escrituras: e do mesmo modo que a Virgem Maria viveu e morreu virgem. E nos escritores Eclesiásticos, muitos ditos valiosos dos Apóstolos e de outros homens santos são registrados e recebidos por nós como verdadeiros, os quais, no entanto, não estão estabelecidos nos livros do Antigo ou do Novo Testamento. E muitas coisas nós defendemos como verdade que não estão escritas na palavra, desde que não sejam contra a palavra.

Conclusão III.

Nós defendemos que a Igreja de Deus tem poder para prescrever ordenanças, regras ou tradições, no tocante ao tempo e lugar da adoração a Deus, e no tocante à ordem e à decência a serem usadas na mesma: e, a este respeito, Paulo (1 Cor. 11:2) elogia a Igreja de Corinto por guardar as suas tradições, e em Atos 15 o Concílio em Jerusalém decretou que as igrejas dos gentios deveriam abster-se de sangue e das coisas sufocadas. Este decreto é chamado de tradição e esteve em vigor entre eles enquanto a ofensa dos judeus permaneceu. E este tipo de tradições, sejam feitas por Concílios gerais ou Sínodos particulares, temos o cuidado de manter e observar; lembrando-se destas ressalvas:

  • Primeiro, que elas não prescrevam nada infantil ou absurdo a ser feito.

  • Segundo, que elas não sejam impostas como quaisquer partes da adoração a Deus.

  • Terceiro, que elas sejam separadas de superstição ou opinião de mérito.

  • Por último, que a Igreja de Deus não seja sobrecarregada com a multidão delas. E é isto que defendemos no que diz respeito às Tradições.

A Diferença

Os papistas ensinam que, além da palavra escrita, existem certas tradições não escritas, nas quais se deve crer como proveitosas e necessárias para a salvação. E estas, eles dizem, são de dois tipos; Apostólicas, a saber, aquelas que foram entregues pelos Apóstolos e não escritas; e Eclesiásticas, as quais a Igreja decreta conforme a ocasião se oferece. Nós defendemos que as Escrituras são perfeitíssimas, contendo em si todas as doutrinas necessárias para a salvação, quer digam respeito à fé ou aos costumes: e, portanto, não reconhecemos tais tradições além da palavra escrita que sejam necessárias para a salvação; de modo que aquele que não nelas crê, não pode ser salvo.

Nossas Razões

Testemunho I.

Deut. 4:2. “Não acrescentareis às palavras que vos mando, nem diminuireis delas.” Portanto, a palavra escrita é suficiente para todas as doutrinas pertinentes à salvação. Se for dito que este mandamento é falado tanto da palavra não escrita quanto da escrita, eu respondo: que Moisés fala apenas da palavra escrita: pois estas mesmas palavras são um certo prefácio que ele colocou diante de um longo comentário feito da lei escrita, com o fim de tornar o povo mais atento e obediente.

Testemunho II.

Isaías 8:20. “À lei e ao testemunho. Se eles não falarem segundo esta palavra, é porque não há luz neles.” Aqui o profeta ensina o que deve ser feito em casos de dificuldade. Os homens não devem correr para o mago ou adivinho, mas para a lei e para o testemunho, e aqui ele recomenda a palavra escrita como suficiente para resolver todas as dúvidas e escrúpulos na consciência de qualquer tipo.

Testemunho III.

João 20:31. “Estas coisas, porém, foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, e para que, crendo, tenhais a vida eterna.” Aqui está estabelecido o fim completo do Evangelho, e de toda a palavra escrita: que é levar os homens à fé e, consequentemente, à salvação: e, portanto, a Escritura inteira por si só é suficiente para este fim, sem tradições. Se for dito que este lugar deve ser compreendido apenas sobre os milagres de Cristo: eu respondo que os milagres sem a doutrina de Cristo e o conhecimento dos seus sofrimentos não podem levar nenhum homem à vida eterna, e portanto este lugar deve ser compreendido sobre a doutrina de Cristo e não apenas sobre seus milagres, como Paulo ensina, Gálatas 1:8. “Se nós ou um anjo do céu vos pregar qualquer coisa ALÉM DAQUILO que vos pregamos, seja anátema.” E com este propósito ele culpa aqueles que ensinavam uma doutrina diversa daquela que ele havia ensinado (1 Tim. 1:3).

Testemunho IV.

2 Tim. 3:16, 17. “Toda a Escritura é dada por inspiração de Deus e é proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, e para instruir em justiça, para que o homem de Deus seja absoluto, sendo aperfeiçoado para toda boa obra.” Nestas palavras estão contidos dois argumentos, para provar a suficiência da Escritura sem as verdades não escritas. O primeiro: aquilo que é proveitoso para estes quatro usos; a saber, para ensinar toda verdade necessária, para refutar todos os erros, para corrigir falhas de costumes e para instruir na justiça, isto é, para informar a todos os homens em todos os bons deveres; isso é suficiente para a salvação. Mas a Escritura serve para todos esses usos: e, portanto, é suficiente: e as tradições não escritas são supérfluas. O segundo: aquilo que pode fazer o homem de Deus, isto é, profetas, apóstolos e os ministros da palavra, perfeitos em todos os deveres de seus chamados: essa mesma palavra é suficiente para fazer todos os outros homens perfeitos em toda boa obra. Mas a palavra de Deus é capaz de tornar o homem de Deus perfeito. Portanto, é suficiente para prescrever o caminho verdadeiro e perfeito para a vida eterna, sem a ajuda de tradições não escritas.

Testemunho V.

O julgamento da Igreja.

Tertuliano

Tira dos hereges as opiniões que eles mantêm com os pagãos, para que eles possam defender suas questões pela ESCRITURA SOMENTE, e eles não poderão permanecer de pé. Novamente, não precisamos de curiosidade após Cristo Jesus, nem de inquisição após o Evangelho. Quando cremos, desejamos NÃO CRER EM NADA ALÉM: pois nisso primeiramente cremos que NÃO HÁ MAIS NADA que possamos crer. (de resur. cranes)

Jerônimo

Em Mateus 23, escrevendo sobre uma opinião de que João Batista foi morto porque predisse a vinda de Cristo, diz assim: Isto, porque não tem autoridade das Escrituras, pode ser tão facilmente desprezado quanto aprovado. Nas quais palavras, há uma conclusão com uma premissa menor, e a premissa maior deve ser suprida pelas regras da lógica assim: Aquilo que não tem autoridade das Escrituras, pode ser tão facilmente desprezado quanto aprovado: mas esta opinião é assim: portanto, eis um argumento notável contra todas as tradições não escritas.

Agostinho

Naquelas coisas que estão claramente estabelecidas nas Escrituras, encontram-se TODOS AQUELES PONTOS QUE CONTÊM A FÉ E OS COSTUMES de viver bem. (Livro 2. c. 9. de doct. Christ)

Vicente de Lérins

O Cânone da Escritura é perfeito e totalmente suficiente por si mesmo PARA TODAS AS COISAS.

Além destes testemunhos, existem outras razões que servem para provar este ponto. I. A prática de Cristo e de seus Apóstolos, que para a confirmação da doutrina que ensinavam, usavam sempre o testemunho da Escritura, nem pode ser provado que eles alguma vez tenham confirmado qualquer doutrina por tradição. Atos 26:22. “Continuo até este dia, testemunhando tanto a pequenos como a grandes, dizendo NENHUMA OUTRA COISA SENÃO AQUELAS que os profetas e Moisés disseram que haviam de vir.” E por isso nos é dado a entender que devemos sempre recorrer à palavra escrita, como sendo suficiente para nos instruir em assuntos de salvação. II. Se a crença em tradições não escritas fosse necessária para a salvação, então deveríamos igualmente crer nos escritos dos antigos Pais, bem como nos escritos dos Apóstolos, porque as tradições Apostólicas não se encontram em nenhum outro lugar senão em seus livros. E não podemos crer em suas palavras como a palavra de Deus, porque eles frequentemente erram, sendo sujeitos ao erro: e por esta causa a sua autoridade, quando falam de tradições, pode ser suspeita: e nem sempre podemos crer neles sob a sua palavra.

Objeções a favor das Tradições

Objeção 1

Primeiro eles alegam, 2 Tes. 2:15, onde o Apóstolo ordena que a Igreja guarde as ordenanças que ele lhes ensinou, seja por palavra ou por carta. Daí eles concluem que, além da palavra escrita, existem tradições não escritas, que são de fato necessárias de serem guardadas e obedecidas.

Resposta É muito provável que esta Epístola aos Tessalonicenses tenha sido a primeira que Paulo escreveu a qualquer Igreja, embora em ordem não ocupe o primeiro lugar; e, portanto, no momento em que esta Epístola foi escrita, poderia muito bem acontecer que algumas coisas necessárias à salvação fossem entregues de boca em boca, não tendo ainda sido escritas por nenhum Apóstolo. Contudo, as mesmas coisas foram posteriormente estabelecidas por escrito, quer na segunda epístola ou nas epístolas de Paulo.

Objeção 2

Que a Escritura é Escritura, é um ponto em que se deve crer, mas isso é uma tradição não escrita; e, portanto, há uma tradição não escrita na qual devemos crer.

Resposta Que os livros do Antigo e do Novo Testamento são a Escritura, deve ser concluído e acreditado não com base em mera tradição, mas a partir dos próprios livros em si, desta maneira. Que um homem que é dotado do espírito de discernimento leia os vários livros, com o que ele deve considerar o seu autor professado, que é o próprio Deus, e a matéria neles contida, que é uma verdade divina e absoluta, cheia de piedade: a maneira e a forma de expressão, que é cheia de majestade na simplicidade das palavras. O fim para o qual eles visam totalmente, que é a honra e a glória somente de Deus, &c. e ele ficará resolvido de que a Escritura é a Escritura, até mesmo pela própria Escritura. Sim, e por este meio ele pode discernir qualquer parte da Escritura, dos escritos de quaisquer homens que sejam. Assim, então, a Escritura prova a si mesma ser a Escritura: e ainda assim não desprezamos o consentimento universal ou a tradição da Igreja neste caso: a qual, embora não persuada a consciência, é ainda um notável incentivo para nos mover à reverência e consideração pelos escritos dos profetas e apóstolos. Dir-se-á, onde está escrito que a Escritura é Escritura? Eu respondo, não em qualquer lugar ou livro particular das escrituras, mas em cada linha e página de toda a Bíblia para aquele que pode ler com o espírito de discernimento, e pode discernir a voz do verdadeiro pastor, como as ovelhas de Cristo podem fazer.

Objeção 3

Alguns livros do cânone da escritura estão perdidos, como o Livro das Guerras do Senhor [Deus] (Núm. 21:14), o Livro do Justo (Josué 10:13), os livros das Crônicas dos reis de Israel e Judá (1 Reis 14:19), o livro de certos profetas: Natã, Gade, Ido, Aías e Semaías: e, portanto, a matéria desses livros deve chegar a nós por tradição.

Resposta Embora seja concedido que alguns livros da Escritura canônica estejam perdidos: contudo, a escritura ainda permanece suficiente porque a matéria desses livros (na medida em que era necessária para a salvação) está contida nestes livros da Escritura que agora existem. Novamente, eu tomo isso por uma verdade (embora alguns pensem de outra forma) de que nenhuma parte do Cânone está perdida: pois Paulo diz, tudo o que outrora foi escrito, foi escrito para o nosso ensino, para que nós, através da paciência e da consolação das Escrituras, &c. (Rom. 15:4). Onde ele toma como certo, que todo o cânone da sagrada Escritura estava então existente. Pois se ele tivesse pensado que alguns livros das escrituras tivessem sido perdidos, ele teria dito: tudo o que foi escrito e agora existe, foi escrito para nosso aprendizado e consolo. Pois livros que estão perdidos não servem nem para ensino nem para consolo. Novamente, defender que quaisquer livros da escritura foram perdidos, coloca em questão a providência de Deus, e a fidelidade da Igreja, que tem os livros de Deus em sua guarda, e é por isso chamada a coluna e baluarte da verdade. E no que diz respeito aos livros antes mencionados, respondo o seguinte: O Livro das Guerras de Deus (Núm. 21:14) poderia ser algum breve relato ou narração de coisas feitas entre os israelitas, que nos dias de Moisés circulava de mão em mão. Pois algumas vezes um livro na Escritura significa um rolo ou catálogo, como o primeiro capítulo de Mateus, que contém a genealogia de nosso Salvador Cristo, é chamado o livro da geração de Jesus Cristo. Novamente, o livro do Justo, e os livros de Crônicas, que se dizem perdidos, eram apenas como as Crônicas da Inglaterra são para nós; meros registros políticos dos atos e eventos das coisas, no reino de Judá e Israel: a partir dos quais os Profetas recolheram coisas necessárias de serem conhecidas; e as colocaram nas sagradas Escrituras. Quanto aos livros de Ido, Aías, Semaías, Gade e Natã, eles estão contidos nos livros dos Reis e de Crônicas, e nos livros de Samuel, que não foram escritos somente por ele, mas por diversos profetas (1 Crô. 29:29), assim como também o foi o livro dos Juízes. Quanto aos livros de Salomão que estão perdidos, eles não diziam respeito à religião e questões de salvação, mas diziam respeito a assuntos de filosofia e coisas semelhantes.

Objeção 4

Moisés no Monte Sinai, além da lei escrita, recebeu de Deus uma doutrina mais secreta, que ele nunca escreveu, mas entregou por tradição ou de boca em boca aos profetas depois dele: e isto os judeus fixaram agora na sua Cabala.

Resposta Esta de fato é a opinião de alguns dos judeus, aos quais em efeito e substância vários Papistas seguem: mas nós a consideramos não melhor do que uma caduquice judaica. Pois se Moisés tivesse conhecido qualquer doutrina secreta além da lei escrita, ele nunca teria dado este mandamento sobre a referida lei: não acrescentarás nada a ela.

Objeção 5

Heb. 5:12. A palavra de Deus é de dois tipos: leite e carne forte. Por leite, devemos entender a palavra de Deus escrita, na qual Deus fala claramente à capacidade dos mais rudes: mas a carne forte são as tradições não escritas, uma doutrina que não deve ser transmitida a todos, mas àqueles que crescem em direção à perfeição.

Resposta Devemos saber, que a única e mesma palavra de Deus é leite e carne forte, quanto à maneira de manuseá-la e propô-la. Pois sendo entregue em geral e claramente, à capacidade dos mais simples, ela é leite; mas sendo tratada particularmente e de modo vasto, e assim adaptada para homens de maior entendimento, ela é carne forte. Como por exemplo: a doutrina da criação, da queda do homem e da redenção por Cristo, quando é ensinada superficial e claramente, ela é leite: mas quando a profundidade da mesma é completamente aberta, ela é carne forte. E portanto é uma imaginação do cérebro humano conceber que alguma palavra não escrita é significada por carne forte.

Objeção 6

Vários lugares da Escritura são duvidosos: e cada religião tem sua própria exposição deles, como os papistas têm a deles, e os protestantes a deles. Sendo assim, visto que só pode haver uma verdade, quando a questão for a interpretação da Escritura, o recurso deve ser feito à tradição da Igreja, para que o verdadeiro sentido possa ser determinado e a questão encerrada.

Resposta Não é assim: mas nos lugares duvidosos a própria Escritura é suficiente para declarar o seu próprio significado; primeiro pela analogia da fé, que é a soma da religião reunida a partir dos lugares mais claros da Escritura: em segundo lugar, pelas circunstâncias do lugar e a natureza e significação das palavras; terceiro, pela comparação de lugar com lugar. Por estas e ajudas semelhantes contidas nas Escrituras, podemos julgar qual é o sentido mais verdadeiro de qualquer lugar. A própria Escritura é o texto e a melhor glosa. E a escritura é falsamente chamada de matéria de contenda, não o sendo por si mesma, mas pelo abuso do homem.

E isso é tudo pelo nosso dissenso a respeito das tradições, no qual não devemos ser vacilantes, mas firmes, porque não obstante a nossa renúncia ao papismo, ainda assim inclinações e disposições papistas crescem frequentemente entre nós. Nosso povo comum afeiçoa-se maravilhosamente às tradições humanas: sim, a natureza humana é mais inclinada a agradar-se com elas, do que com a Palavra de Deus. A festa da natividade de nosso Salvador Cristo é apenas um costume e tradição da Igreja, e contudo os homens são comumente mais cuidadosos em guardá-la do que o Dia do Senhor, a guarda do qual se apoia na lei moral. As leis positivas não são suficientes para nos impedir de comprar e vender no sábado: contudo, dentro dos doze dias, nenhum homem faz feira. Novamente, veja a verdade disto em nossa afeição para com o ministério da Palavra: se o pregador alegar a Pedro e a Paulo, o povo considera como matéria comum, tal como qualquer homem pode trazer: mas deixe que os homens venham e aleguem a Ambrósio, Agostinho e o restante dos pais: oh, ele é o homem, ele é inigualável para eles. Novamente, que qualquer homem esteja em perigo de qualquer forma, e imediatamente ele envia ao homem sábio ou adivinho: a palavra de Deus não é suficiente para confortá-lo e direcioná-lo. Tudo isso argumenta que o papismo negado com a boca, permanece ainda no coração: e portanto devemos aprender a reverenciar a palavra escrita, atribuindo-lhe todo tipo de perfeição.

Vida Cristã

A Virtude Que Eu Preciso

Recentemente eu estava ouvindo uma notícia no rádio, onde uma fabricante de automóveis famosa convocava os proprietários de uma modalidade específica de carro para dirigir-se a montadora mais próxima para fazer o ‘recall’ de uma peça do veículo para a segurança dos passageiros. O Recall normalmente acontece quando um fabricante detecta uma falha na fabricação de uma peça, em seguida, eles imediatamente fazem a substituição da peça gratuitamente ao reconhecer esta falha.

Pensando nisso, a Bíblia afirma que também possuímos defeitos de fábrica. Não porque o Fabricante errou no protótipo, mas porque o representante da humanidade cometeu uma falha e gerou seus descendentes a sua própria imagem (Gn 5.3). Chamamos isso de pecado original, todo o ser humano gerado após o pecado cometido pelo representante da humanidade que é Adão, vem com defeito em seu número de série. Não é apenas uma peça corrompida, mas o corpo, os sentimentos e inclusive a vontade do ser humano que está prejudicada pelo pecado oriundo da matriz.

No manual do Fabricante existe uma garantia vitalícia para aqueles que confiam no Criador: todos ficarão são e salvos com seus “veículos” até o fim de sua vida. Mas, os defeitos os acompanharão até o fim. Pense comigo, já que é impossível que possamos reparar todas essas “falhas” no trajeto desta vida, e se o Fabricante realizasse um desejo pessoal nosso de reparo? E se pudéssemos fazer um pedido e, nos desse o direito de fazer apenas uma escolha de reparo para “melhorar” nossa condição? Teríamos que passar um scanner em nossa vida para discernir qual seria o melhor reparo possível já que teríamos o direito de apenas uma escolha.

Então pediríamos o conselho das pessoas mais próximas, e também o conselho dos profissionais para nos ajudar a fazer a escolha certa. Qual seria a “peça” que faria uma diferença vital para que eu tenha uma significante melhoria no trajeto da minha vida? Podemos pensar em algumas virtudes.

Existem algumas virtudes desenvolvidas de conceitos bíblicos que são pessoais e nos fortalecem como pessoa, mas também trazem benefícios para a sociedade. Alguns exemplos são: Amor, Justiça, Coragem, Temperança. Mas e se eu pudesse escolher apenas uma nesse momento, qual eu escolheria?

Existe uma palavra na língua grega chamada de enkrateiaEla foi mencionada algumas vezes na Bíblia pelos apóstolos, mas Paulo parece ter explorado mais este conceito. Afinal, do que se trata? Vamos observar no seguinte texto:

Todo atleta em tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a incorruptível

RA, 1Co 9.25 (grifo do autor).

 

Filosofia Grega

Na antiguidade clássica, eles discutiam bastante sobre a antropologia. Esse conceito estava muito ligado ao uso da razão e da capacidade do homem praticá-la pelo seu esforço, sendo assim, a enkrateia era a capacidade do indivíduo de governar a si mesmo. Também interpretavam como uma virtude de quem não se deixava escravizar pelos prazeres do corpo (comida, bebida, sexo) ou pelas paixões (ira, medo).

Para Sócrates (conforme registrado por Xenofonte), a enkrateia não era apenas uma virtude entre outras, mas “a base de todas as virtudes” (virtutem fundamentum). Sem o domínio próprio, o ser humano seria incapaz de buscar a sabedoria ou a justiça, tornando-se indistinguível de um animal selvagem que apenas reage aos estímulos e cai em armadilhas pelo apetite.

Essas virtudes foram muito debatidas pelos filósofos, e com o passar do tempo, foram ganhando novos significados. Embora se assemelhe muito com a virtude da Temperança (Sophrosyne), não se trata dela, pois, teoricamente, para Aristóteles a temperança se refere a uma pessoa equilibrada cujos desejos já estão em perfeita harmonia com a razão. Essa pessoa não precisa “lutar” contra si mesma para executar esse domínio.

Teologia Paulina

Quando Paulo escreve suas epístolas em grego no século I, ele adota o termo enkrateia, mas subverte a sua mecânica interna. O autodomínio deixa de ser um esforço autônomo do ego e passa a ser uma consequência da habitação divina.

No famoso catálogo das virtudes cristãs, Paulo lista o autodomínio:

“Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio (enkrateia)…”

RA, Gl 5.22-23

O paradoxo teológico aqui é crucial: para a filosofia grega, a enkrateia vinha do eu (a razão governando os impulsos). Para Paulo, o domínio próprio é um fruto do Espírito Santo. É o “eu” sendo governado por Deus para, então, conseguir governar a si mesmo. Não é força de vontade isolada; é dependência espiritual.

Exemplo de Uso da Palavra Enkrateia

O conceito de autodomínio para o apóstolo não estava apenas no campo da ideia ou da razão, mas era uma marca que deveria acompanhar aqueles que nasceram de novo. Quando nos atentarmos para esta palavra e o seu significado, perceberemos que ela fazia parte do conteúdo da mensagem evangélica e Apostólica.Veja:

Dissertando ele (Paulo) acerca da justiça, do domínio próprio (enkrateia) e do Juízo vindouro, ficou Félix amedrontado e disse: Por agora, podes retirar-te, e, quando eu tiver vagar, chamar-te-ei;

RA, At 24.25.

Aqui existe algo interessante: se de um lado o conceito Paulino diz que aqueles que praticam o domínio próprio demonstram o fruto do Espírito e o pertencimento a Cristo (1 Co 6.20), por outro lado, aqueles que não praticam o domínio próprio demonstram que vivem como animais, “servem seu próprio ventre” (Rm 16.18; Fp 3.19), conforme o conceito filosófico secular. Essa palavra tem dois gumes.

Veja que diante de Félix a enkrateia citada menciona o testemunho cristão e prepara o caminho da mensagem do Juízo de Deus, mas para Félix o ímpio, o pavor toma conta de seu coração, pois ele havia roubado a mulher de outro Rei, estava em adultério.

 

Exemplos Práticos

Certo dia no seminário (2017), um professor de Língua Grega gastou alguns poucos minutos abordando a palavra enkrateia e nos alertou em sala de aula:

“…olha, se você tem dificuldades em se controlar diante de algumas situações, se você tem necessidade de ficar retrucando e e falando, não entre no ministério! isso é coisa séria!”

Confesso que ficou uma curiosidade sobre o estudo dessa palavra, e também um ar de indireta, mas eu nunca tinha estudado ela de fato até que agora, 9 anos depois, eu acordo as 4:30 pensando nela.

Após anos de formação, após ter caído no gap entre seminário e igreja, quando olho para trás e me pergunto porque ainda não estou de fato no ministério, ecoa o seguinte som: Enkrateia, enkrateia, enkrateia

Porque não tenho sido um melhor pai e um melhor esposo? Enkrateia, enkrateia, enkrateia

Ou então, porque nós discutimos nas redes sociais por causa de teologia ou de políticos que pouco se importam conosco? Enkrateia…

Porque desejamos ser professores enquanto deveríamos ser alunos? Enkrateia…

Porque temos tanta necessidade em nos justificar quando somos questionados? Enkrateia…

Porque os políticos não se contentam com seu salário e acabam desviando dinheiro alheio? Falta de enkrateia

Porque nosso orgulho se manifesta quando conversamos sobre assuntos que “dominamos”? Falta de domínio próprio

 

Resumo

Existe uma riqueza muito grande em meditar sobre esse assunto, talvez um dia alguém escreva um livro apenas sobre esse tema, mas por hora,  como uma introdução é suficiente para nossa meditação.

Talvez você já tenha maturidade e tenha esse domínio como “base de todas as virtudes“, isso não te exime de buscar as demais virtudes. Ou talvez, você, assim como eu, tenha discernido que precisa do recall dessa peça urgente.

Quando paro para refletir sobre a necessidade do domínio próprio, parece que ela é uma peça de convergência fundamental para a nossa maturidade. Temos uma facilidade muito grande em consumir conteúdo, mas esse conhecimento não tem convergido em uma estrutura sábia e madura que “encorpa” nossa vida. Parece que nossa cabeça está inflada com informações, mas nosso corpo está raquítico e fraco. É como uma pessoa que come e não engorda, o esôfago está inflamado, o estômago não tem exercido bem o seu papel. Parece que entre a boca e o órgão digestivo existisse o espaço da enkrateia, onde converge o alimento sólido em nutrientes para o corpo.

Precisamos do recall da enkrateia urgente!

É por isso que, hipoteticamente, já que o “Fabricante” me deu o direito de escolher apenas uma “peça” para me ajudar a viver nesse mundo e e servir ao próximo, o meu pedido é:

Óh Senhor, dá me enkrateia!

Não deixe que o impulso da minha carne revele que eu vivo apenas para mim,

Não deixe Óh Deus que minhas emoções e o meu orgulho roubem a tua glória,

Não deixe que as minhas reações maculem a imagem do Deus de toda a glória,

Dá me enkrateia Senhor!

Dá me a graça de ser teu servo em minha casa como almejo servir em tua igreja,

Dá me a graça de convergir o conhecimento adquirido em vida prática!

Dá me a graça de me calar quando o meu coração quer gritar,

Dá me a graça de desaparecer para que Cristo possa se manifestar!

Dá nos Senhor da tua graça.

Vida Cristã

O que fazer quando sair do Brasil não é uma opção?

Sair do Brasil pode ser uma alternativa legítima para algumas famílias. Em certos casos, pode até ser uma decisão prudente. Há países com maior estabilidade institucional, mais segurança jurídica, melhor qualidade de vida e ambientes culturais menos hostis àqueles que desejam viver e educar seus filhos segundo convicções morais e religiosas cristãs.

A ilusão de um lugar seguro

Mas é importante entender algo desde o início: deixar o Brasil não é a única resposta possível. E, para muita gente, nem sequer é uma opção realista. Nem todos possuem recursos financeiros, profissão compatível, domínio de outro idioma ou possibilidade concreta de recomeçar em outro país. Além disso, há pais idosos, vínculos familiares, responsabilidades profissionais e raízes profundas que tornam essa mudança extremamente difícil. Tratar a emigração como solução para todos acaba produzindo frustração em muitos e arrogância em alguns.

Mais importante ainda: não existe lugar completamente imune ao avanço contra as liberdades individuais. O problema não é apenas brasileiro. Há uma pressão cultural crescente, em escala global, contra os valores morais cristãos, contra as estruturas familiares estáveis e contra qualquer visão de mundo que se recuse a se submeter integralmente ao espírito totalitário desta época.

As Escrituras já nos alertam que o mundo jaz no maligno, e que nenhuma sociedade humana será plenamente justa antes da consumação de todas as coisas. Em alguns lugares, esse processo de decadência moral está mais avançado. Em outros, ainda há maior espaço para resistência e liberdade. Ainda assim, o avanço de sociedades cada vez mais burocratizadas, centralizadoras e hostis às liberdades históricas tem se tornado um fenômeno amplo, gradual e internacional.

A ideia de que existe “refúgio seguro” em outro país, protegido das tensões religiosas, culturais, políticas e morais do mundo contemporâneo, é em grande parte uma fantasia.

As pessoas foram acostumadas a pensar quase sempre em termos grandiosos, mas sociedades fortes nascem de pequenas fidelidades repetidas ao longo do tempo

Isso não significa que todos os países sejam iguais. Não são. Existem diferenças importantes entre eles, e algumas sociedades ainda preservam melhor certos princípios fundamentais. Mas significa que nenhuma mudança geográfica elimina automaticamente os problemas humanos mais profundos: pecado, orgulho, egoísmo, desordem moral, totalitarismo estatal e rebelião contra Deus.

Quem deposita a esperança apenas na mudança de país corre o risco de trocar uma ilusão por outra. Afinal, crises culturais profundas não desaparecem simplesmente porque atravessamos uma fronteira. Em muitos casos, elas apenas assumem outra forma. Países mais organizados também enfrentam erosão moral, fragmentação social, crise de natalidade, isolamento humano e perda de referências comuns. O cenário muda; a fragilidade humana permanece.

O que ainda está ao nosso alcance

Por isso, quem não pode sair precisa abandonar a fantasia da imigração como solução total e voltar sua atenção ao que ainda está ao seu alcance.

Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis do nosso tempo. As pessoas foram acostumadas a pensar quase sempre em termos grandiosos: grandes soluções, grandes rupturas, grandes salvadores políticos, grandes mudanças instantâneas. Mas a vida real quase nunca é construída assim.

Sociedades fortes nascem de pequenas fidelidades repetidas ao longo do tempo. Trabalhar melhor. Honrar compromissos. Formar a própria família. Educar os filhos com seriedade. Cultivar disciplina. Fortalecer vínculos reais. Construir amizades sólidas. Participar da vida local. Aproximar pessoas que compartilham valores semelhantes. Desenvolver estabilidade emocional, intelectual e espiritual. Crescer na fé no Senhor Jesus Cristo. Cultuar fielmente em uma igreja saudável, ancorada nas Escrituras e na tradição cristã histórica.

Viver na verdade em uma cultura da mentira
Tudo isso parece pequeno diante das crises nacionais. Mas, no longo prazo, é exatamente esse tipo de ação que sustenta uma civilização.

Uma sociedade não desmorona apenas por causa de más decisões políticas. Ela começa a ruir quando as estruturas intermediárias da vida humana – a família, a vizinhança, a igreja, a escola, a confiança mútua, o senso de dever e a responsabilidade pessoal – se enfraquecem. Quando essas estruturas se tornam frágeis, o indivíduo fica isolado. E indivíduos isolados são muito mais fáceis de manipular, controlar e intimidar.

Fortalecer a vida comum, portanto, não é uma fuga da realidade política. É uma das formas mais concretas de resistência moral, cultural e espiritual.

Há pessoas que passam horas discutindo os rumos do país, mas negligenciam aquilo que poderiam construir ao redor de si. Falam constantemente sobre decadência social, mas não conhecem os vizinhos. Criticam a destruição da família, mas não fazem refeições com os filhos. Reclamam da pobreza intelectual do país, mas nunca leem bons livros nem incentivam outros a ler.

Nenhuma sociedade melhora apenas por meio de indignação permanente. Ela melhora quando pessoas comuns assumem responsabilidades comuns diante de Deus.

Nenhuma sociedade se mantém saudável por muito tempo se sua base estiver apodrecida

A reconstrução começa de baixo para cima

Existe uma tentação constante de acreditar que tudo depende apenas das disputas políticas, das eleições ou das decisões tomadas nas esferas mais altas do poder. Essas coisas importam, evidentemente. Mas nenhuma sociedade se mantém saudável por muito tempo se sua base estiver apodrecida.

A reconstrução verdadeira quase sempre começa de baixo para cima. Ela começa dentro de casa, quando pais decidem levar a sério a formação espiritual, moral e intelectual dos filhos. Começa quando famílias abandonam o consumo permanente de superficialidade e reaprendem a conversar, ler, estudar e conviver. Começa quando amigos desenvolvem laços reais, e não apenas relações frágeis mediadas por redes sociais. Começa quando igrejas deixam de funcionar apenas como espaços de entretenimento religioso e voltam a proclamar com fidelidade o evangelho de Jesus Cristo, formando caráter, virtude, responsabilidade e coragem. Começa quando pessoas comuns resolvem viver com dignidade mesmo em ambientes deteriorados.

Nada disso produz resultados imediatos. Não gera manchetes. Não cria sensação instantânea de vitória. Pelo contrário: é um trabalho lento, discreto e muitas vezes ingrato. Mas quase tudo o que possui valor duradouro é construído dessa maneira.

As grandes civilizações do passado não foram sustentadas apenas por governos fortes ou líderes brilhantes. Elas dependeram de famílias estruturadas, comunidades coesas, senso de continuidade cultural e disposição de transmitir valores às próximas gerações.

Quando essas bases desaparecem, o declínio começa, mesmo que ainda exista prosperidade econômica ou aparência de estabilidade. Uma sociedade pode continuar rica e tecnologicamente avançada enquanto se torna espiritualmente vazia, emocionalmente instável e culturalmente fragmentada. E, quando isso acontece, cresce também o desejo por controle, tutela permanente e soluções totalitárias capazes de substituir os vínculos humanos que foram destruídos.

Assim, a reconstrução de uma sociedade livre não depende apenas de eleições ou disputas políticas. Ela depende da existência de famílias fortes, comunidades vivas, igrejas saudáveis, responsabilidade pessoal e vínculos sociais capazes de limitar a concentração de poder e preservar espaços reais de liberdade. Tal reconstrução é sobrevivência cultural. E, para os cristãos, é uma forma de fidelidade em meio a uma geração confusa e instável.

Permanecer exige coragem

Existe, às vezes, uma tendência de tratar quem permanece em seu país de origem como alguém acomodado ou resignado. Mas permanecer também pode exigir coragem.

É preciso coragem para criar filhos com convicções firmes em ambientes hostis. É preciso coragem para preservar princípios quando isso produz isolamento social. É preciso coragem para construir estabilidade em meio à instabilidade. É preciso coragem para continuar trabalhando, ensinando, cultivando vínculos e sustentando responsabilidades quando o ambiente coletivo parece desanimador.

Nem toda resistência assume forma heroica ou espetacular. Muitas vezes ela aparece na perseverança silenciosa de pessoas comuns que se recusam a abandonar aquilo que é verdadeiro, bom e belo. E, no fim, são justamente essas pessoas que impedem uma sociedade de desmoronar completamente.

Toda época de crise produz a tentação da fuga emocional, do cinismo ou do desespero. Algumas pessoas passam a viver apenas consumindo notícias, alimentando medo e indignação contínuos. Outras simplesmente desistem de qualquer responsabilidade coletiva. Mas nenhuma dessas atitudes constrói algo duradouro.

É preciso coragem para continuar trabalhando, ensinando, cultivando vínculos e sustentando responsabilidades quando o ambiente coletivo parece desanimador

A esperança cristã não nasce da negação dos problemas, mas da confiança de que Cristo reina mesmo em meio ao caos da história. Os cristãos não trabalham porque acreditam que construirão o paraíso na terra por seus próprios esforços. Trabalham porque sabem que toda fidelidade ao Senhor produz frutos eternos.

Quando não se pode mudar de país, ainda se pode fortalecer a casa, a igreja, a escola, a vizinhança e a cidade. Ainda se pode criar filhos mais fortes do que o ambiente ao redor. Ainda se pode formar pequenas comunidades de confiança, amizade e ajuda mútua. Ainda se pode viver com responsabilidade, lucidez e esperança. Porque nenhuma reconstrução verdadeira começa em outro lugar.

E, acima de tudo, os cristãos seguem trabalhando, servindo, construindo e perseverando porque sabem que a história não terminará no triunfo da decadência, da tirania ou do caos, obras do anticristo. Ela terminará no total triunfo de Jesus Cristo, Rei dos reis e Senhor dos senhores.
No fim, todo joelho se dobrará diante dele. Toda soberba humana será julgada. Todo império passará. Todo pecado será julgado. Mas o reino de Cristo permanecerá para sempre. Por isso, mesmo em tempos difíceis, os cristãos continuam confessando com esperança: Jesus Cristo é Senhor.

 

FRANKLIN FERREIRA

Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Bíblia e Teologia pela Universidade Luterana do Brasil, Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil e Doutor em Divindade pelo Puritan Reformed Theological Seminary. É reitor e professor de teologia sistemática e história da igreja no Seminário Martin Bucer, em São José dos Campos, São Paulo, professor-adjunto no Puritan Reformed Theological Seminary, em Grand Rapids-MI, nos Estados Unidos, e consultor acadêmico de Edições Vida Nova. Autor de vários livros, entre eles Avivamento para a igreja, Contra a idolatria do Estado, A igreja cristã na história, Pilares da fé, Por amor de Sião, Teologia sistemática (em coautoria com Alan Myatt) e Teologia sistemática (Curso Vida Nova de Teologia Básica), publicados por Edições Vida Nova, e Servos de Deus e O Credo dos Apóstolos, publicados pela Editora Fiel.

Academia

E Esse Papo de Autoridade Espiritual?

Recentemente eu estava no posto de saúde para tomar uma injeção para aliviar as dores de garganta e um irmão de ministério Batista que está passando por alguns momentos conturbados em sua igreja local, me escreveu pedindo que eu gravasse um audio respondendo algumas perguntas. Como eu estava com a garganta inflamada, enquanto eu aguardava o médico me chamar, decidi escrever uma resposta.

Perguntas Feitas

O que você pensa sobre autoridade pastoral? Explane o que pensa.

Ela é impositiva? Eu preciso dizer “sou pastor, me respeite”?

O que seria ser “dominadores” que Pedro advertiu?

A autoridade, conforme Pedro instrui, emana do pastor local? Emana do próprio Cristo?

Qual a autoridade do pastor local sobre o rebanho?

Em que esse pastor é responsável?

Um pastor é responsável direto pela vida dos irmãos? Ao ponto de “se não seguir o que eu digo, esse irmão torna-se rebelde por não se submeter a autoridade de seu pastor local”?

Texto Base

Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda coparticipante da glória que há de ser revelada: 2 pastoreai o rebanho de Deus que há entre vós, não por constrangimento, mas espontaneamente, como Deus quer; nem por sórdida ganância, mas de boa vontade; 3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, antes, tornando-vos modelos do rebanho. 4 Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória.

1Pedro 5.1–4, RA – Grifo do autor, pois nosso interesse está aqui.

Resposta

Não responderei cada pergunta, mas de maneira geral, levando em consideração que o âmago da questão está nessa possível ideia de “autoridade impositiva“, segue minha resposta:

Querido irmão, o conceito de presbítero regente está muito deturpado na igreja, principalmente no meio Batista.

De maneira simples, o presbítero tem a função de governar o rebanho de Cristo. Esse é um conceito que vem do Antigo Testamento na forma do Ancião, Sacerdote, Profeta e Rei.

Lembre-se que esses homens são recipientes da graça de Deus. Recebem dons para liderar o rebanho e também passaram pelo crivo de 1 Tm 3; Tt 1.5-9, etc. Estabelecidos pelos Apóstolos para pastorear a igreja.

Numa igreja séria, deveria ser levado em conta que esses homens não pastoreiam por “constrangimento ou por necessidade”, mas eles “almejam o episcopado” (1 Tm 3.1), e foram chamados por uma igreja local.

Com isso, se configura os critérios estabelecidos para uma ordenação legítima, ou seja, o chamado interno (sabem que Deus os chamou e almejam o episcopado) e o chamado externo (a igreja local reconheceu que Deus o capacitou para tal ofício e o chamou para tal). Esses foram os critérios estabelecidos pelos reformadores.

Agora, uma vez que se tornaram presbíteros do rebanho, 1 Pe 5.1-4 (leia o texto base na parte destacada acima) Pedro está exortando os presbíteros sobre as motivações e o modo correto de governar o rebanho de Cristo.

Paulo parece ter a mesma ideia de Pedro quando diz:

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.

Ef 4.1–6, RA – grifo do autor.

Até aqui a primeira parte da estrutura da nossa conversa. A responsabilidade pastoral. A vocação para pastorear é real e vem de Deus, os presbíteros docentes e regentes devem governar o rebanho com moderação e intencionalidade. A igreja deve ratificar a importância deles.

Segundo texto base:

Obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles; pois velam por vossa alma, como quem deve prestar contas, para que façam isto com alegria e não gemendo; porque isto não aproveita a vós outros.

Hebreus 13.17, RA – Grifo do autor

O autor de Hebreus exorta a igreja em como deve olhar para o ofício desses homens. A frase “como quem deve prestar contas”, deve trazer um peso de responsabilidade tanto pra quem lidera, quanto pra quem é liderado.

Esses homens que foram legitimamente ordenados, devem ser vistos como o próprio Cristo governando o rebanho, pois receberam do próprio Cristo os dons para edificação, exortação e consolo da igreja (1 Co 14.3). Logo, é o próprio Cristo que está exercendo o cuidado do rebanho pela instrumentalidade do oficial. Cristo é a cabeça, os oficiais fazem parte dos membros do corpo.

Me parece que o autor de Hebreus tem em mente as palavras do profeta Ezequiel ao mencionar uma possível prestação de contas, veja:

Quando eu disser ao perverso: Certamente, morrerás, e tu não o avisares e nada disseres para o advertir do seu mau caminho, para lhe salvar a vida, esse perverso morrerá na sua iniquidade, mas o seu sangue da tua mão o requererei.

Ez 3.18, RA – Grifo do autor.

Sendo assim, a possível controvérsia da autoridade pastoral está na ideia de que esses homens estão “acima do rebanho”, como se fosse uma pirâmide hierárquica. Dessa ideia surgem modelos de igreja de “Cobertura Espiritual“, onde há uma prestação de contas, inclusive de aspectos pessoais da vida da ovelha. Um desses modelos de igrejas no Brasil é o chamado MDA (Meu Discipulo Amado) que já foi combatido pela própria Convenção Batista. Mas, parece que a influência desses movimentos entraram nas igrejas mesmo que sem a intencionalidade ou o conhecimento dele. É o mundanismo entrando na igreja.

Veja o que Cristo disse sobre esse tema:

Mas Jesus, chamando-os para junto de si, disse-lhes: Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. 43 Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; 44 e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos. 45 Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.

Mc 10.42–45, RA – Grifo do autor.

Na verdade, os líderes devem ser vistos pela igreja como “ao lado” do rebanho. Pois em sua humanidade, também são miseráveis e beneficiários da graça de Deus como os demais. Também carecem de orações, encorajamento, ofertas para o desempenho do ofício e saúde.

Cada um tem sua função no corpo conforme Paulo fala em 1 Co 12.12-26. E todo o corpo com suas funções devem cooperar para o crescimento, edificação e cuidado da igreja. Não existe dons superiores nesse sentido, todos tem o mesmo propósito.

Agora, no aspecto do ministério, deveriam se portar/considerar como “abaixo” do rebanho. A ideia de servo apresentada por Cristo é a ideia de escravo, aquele que faz o serviço que ninguém deseja. Foi justamente o que Cristo fez e ensinou ao lavar os pés dos discípulos (Jo 13.1-11), e propriamente o que fez ao ensinar “[que] não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate…“.

Sendo assim, a ideia de “como quem deve prestar contas” contida nos textos acima, é um processo de conduzir o rebanho para “a porta”.

É necessário que sejam estabelecido limites. Algumas vezes “puxam com o cajado”, exortam as ovelhas que estão saindo do rebanho ou do caminho, outras vezes ensinam por onde andar, outras vezes choram juntos a fim de consolar. Éssa foi justamente a essência da mensagem dos profetas no Antigo Testamento e que permanece no Novo Testamento (1 Co 14.3).

Resta observarmos a instrução “obedecei aos vossos guias e sede submissos para com eles“, com isso recai na congregação a responsabilidade de como obediencia e submissão para com os líderes, mas até que ponto? Sobre isso falaremos abaixo.

Até aqui a segunda parte da estrutura da resposta. A igreja precisa reconhecer, responder bem e ter uma alto estima sobre seus líderes. Entretanto, Deus não quer apenas a motivação correta do coração, mas a praxes correta do líder e o dever e responsabilidade do liderado. A prestação de contas é para ambas as partes.

Terceiro Texto Base

“…Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens”.

At 5.29, RA.

Terceiro e último ponto, se o pastor estiver indo contra a Palavra, não deve ser obedecido. O princípio está na afirmação de Pedro.

Vale lembrar que, como não há unidade nas igrejas de hoje em dia por não serem confessionais, as igrejas ficam sem identidade e cada uma pensa de uma forma. Recomendo o livro que estou estudando O Imperativo Confessional de Carl R. Trueman – Editora Monergismo.

As vezes as igrejas são pastoreadas por um presbitério em que não existe unanimidade doutrinária em aspectos fundamentais (não digo sobre os aspectos secundários). Em outros momentos são pastoreadas por um homem só, a ideia de “Pastor Títular” onde “manda quem pode e obedece quem tem juízo“, esses homens estão “acima” do rebanho e sempre que são questionados tratam as ovelhas como rebeldes que não estão obedecendo a “autoridade instituída por Deus“. São governos chamados de episcopais e são questionáveis à luz da Palavra em igrejas congregacionais como sua igreja, ou em outros modelos como os presbiterianos.

Esse tipo de governo não tem base bíblica, porque em todas as vezes vimos que os apóstolos falando sobre o assunto, foi na ideia do estabelecimento de presbíteros nas igrejas,  o ofício sempre está no plural e não no singular (pesquise). É um desleixo doutrinário.

Vejo isso no meio Batista, por exemplo. Uma igreja que perdeu sua identidade por abrir mão dos documentos que protegem o rebanho. A leitura recomendada, trás novamente a importância dos tais em nossos dias.

Sendo assim, acredito que seja possível pensar “fora da caixa” e discordar de assuntos em “como” os pastores estão lidando com a igreja, assuntos eclesiológicos. Nesse sentido somos livres para discordar e acredito que temos a opção de escolha.

Enfim, precisamos nos lembrar que temos a opção de escolher uma igreja para congregar, mas não temos a opção de não congregar em algum lugar “como é costume de alguns” (Hb 10.25).

Dizia um teólogo Luterano:

In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas.

Nas coisas essenciais, a unidade; nas não essenciais, a liberdade; em todas as coisas, a caridade.

Peter Meiderlin

Resta você julgar a si mesmo sobre como tem visto esses homens em sua vida, quais as motivações que o levam a discordar. Também em como eles estão lidando com você nesse processo, se tem exercido com temor a vocação do ofício pela instrumentalidade do Bom Pastor.

Terminei um livro nessa semana chamado Os Conflitos no Lar e as Escolhas do Pacificador de Sande e Tom Raabe – Editora Nutra. E me lembro que no final, ao aconselhar o leitores em como saber lidar com as críticas, os autores nos lembram a ponderar pelo filtro da nossa miséria e condição decaída. Fomos justificados por Cristo na condição do pecado original, então sempre que formos criticados, precisamos treinar nosso coração para nos lembrar do que Cristo fez por nós “…sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).

No final ele nos encoraja a não ficarmos tentando nos justificar a toda a custa, Cristo já fez isso no madeiro. Precisamos ser pacificadores em toda discordância e agradecidos pela misericórdia de Cristo.

Resumo

O autoritarismo é um pecado. A insubmissão também é um pecado. Promover facções e contendas na igreja é grave.

Existe liberdade para escolhermos onde congregar. Também existe a possibilidade de congregarmos onde a divergências em assuntos secundários.

Faça um bom uso dessa palavra. Fico à disposição!


Se você leu até aqui, deixe sua opinião ou comente: Leitura feita.

Muito obrigado.

Seu Conservo,

Rafael Soletti.