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#09 – Sobre Os Votos

Dos Votos

I. Nosso Consenso

No tocante aos votos, isto deve ser sabido: que não os condenamos totalmente, mas apenas nos esforçamos para restaurar a pureza da doutrina referente a este ponto, a qual tem sido corrompida e desfigurada pela Igreja de Roma de tempos em tempos. Nós defendemos, portanto, que um voto é uma promessa feita a Deus referente a alguns deveres a serem realizados a Ele e é duplo: geral ou especial.

O voto geral é aquele que diz respeito a todos os crentes, e é feito na aliança tanto da lei quanto do evangelho. Falarei aqui apenas do voto que é feito na aliança do evangelho, no qual há duas ações: uma de Deus, a outra do homem. Deus em misericórdia, de Sua parte, promete aos homens a remissão dos pecados e a vida eterna; e o homem de novo, de sua parte, promete crer em Cristo e obedecer a Deus em todos os Seus mandamentos. Todos os homens sempre fizeram este voto a Deus, como os judeus na circuncisão, o qual eles também renovavam tão frequentemente quanto recebiam a Páscoa. E no Novo Testamento, todos os que são batizados fazem o mesmo. E no batismo este voto é chamado de estipulação de uma boa consciência, pela qual nos propomos a renunciar a nós mesmos, a crer em Cristo e a produzir os frutos do verdadeiro arrependimento. E ele deve ser renovado tantas vezes quantas formos participantes da Ceia do Senhor. Este voto é necessário — e deve ser guardado como parte da verdadeira adoração a Deus — porque é uma promessa na qual votamos realizar todos os deveres ordenados por Deus seja na lei ou no evangelho. Pode-se perguntar, considerando que estamos obrigados à obediência, como nos obrigamos no batismo a isso. Resposta. Embora já estejamos obrigados, em parte pela natureza, e em parte pela Palavra escrita, ainda assim podemos renovar a mesma obrigação em um voto. E aquele que está obrigado pode ainda obrigar a si mesmo desde que seja para este fim, para ajudar a sua lentidão por falta de zelo e para se tornar mais zeloso nos deveres de amor aos homens e na adoração a Deus. Para este fim, Davi jurou guardar a lei de Deus [Sl 119:116] embora estivesse obrigado a ela pela natureza e pela própria lei escrita.

O voto especial é aquele que não alcança a pessoa de todos os crentes, mas diz respeito apenas a alguns homens especiais em algumas ocasiões especiais. E este tipo de voto é duplo:

O primeiro é o voto de um dever cerimonial na forma de serviço a Deus, e estava em prática na igreja dos judeus sob o Antigo Testamento. Os exemplos disto são especialmente dois. O primeiro foi o voto dos nazireus, ao qual nenhum tipo de homem estava obrigado pelo mandamento de Deus, mas eles obrigavam a si mesmos, prescrevendo Deus apenas a maneira e a ordem de guardá-lo com os ritos a ele pertinentes — como a abstinência de vinho, o não cortar de seus cabelos, e coisas semelhantes. O segundo exemplo é dos judeus, quando de livre vontade eles votavam dar a Deus casa ou terra, ovelhas, ou bois, ou quaisquer coisas semelhantes, para a manutenção da adoração legal; e disto também Deus prescreve certas regras [Levítico 27]. Ora, estes votos eram parte do pedagogo judaico ou lei cerimonial, na qual Deus treinou os judeus no Antigo Testamento. E sendo observados por eles, eram partes da adoração a Deus. Mas agora sob o evangelho eles não são, sendo todos abolidos com a lei cerimonial à qual Cristo pôs fim em Sua morte na cruz. É verdade, Paulo fez um voto e depois o guardou no tempo do Novo Testamento [Atos 18] — contudo não como uma parte da adoração a Deus, mas como uma coisa indiferente para a época, na qual ele apenas condescendeu com a fraqueza dos judeus — para que por este meio ele pudesse trazê-los melhor a Cristo. E enquanto Cristo é chamado de Nazareno [Mat. 2:23], não podemos pensar que Ele era dessa mesma ordem, porque Ele não se absteve de vinho. Mas Ele foi assim chamado porque Ele era a verdade e o cumprimento desta ordem. Pois por ela era significado que a igreja de Deus era um povo peculiar, separado ou escolhido do mundo, e que Cristo — no que diz respeito à santidade — era também separado de todos os pecadores. E as palavras em São Mateus, “Ele será chamado Nazareno”, são tomadas emprestadas do livro de Juízes, capítulo 13, onde são ditas propriamente de Sansão, e como tipo ou figura de Cristo. Pois assim como Sansão salvou Israel por sua morte, assim o fez Cristo salvando a Sua igreja. E assim como Sansão matou seus inimigos mais pela morte do que pela vida, assim o fez Cristo. É evidente, portanto, que este tipo de voto não nos obriga. Pois não há mais cerimônias a serem guardadas sob o evangelho como partes da adoração a Deus, além dos ritos exteriores do batismo e da Ceia do Senhor. Votos referentes a carnes, bebidas, trajes, toque, degustação, tempos, lugares, [e] dias, eram próprios dos judeus.

O segundo tipo de voto especial é aquele pelo qual um homem promete livremente realizar algum exercício exterior e corporal para algum bom fim. E este voto também (se for feito de acordo) é lícito e pertence tanto à igreja do Antigo quanto do Novo Testamento. No Antigo temos o exemplo dos recabitas [Jer. 35:6], os quais, por determinação de Jonadabe, seu pai, abstiveram-se de bebida forte e de vinho, de plantar vinhas e pomares — com o que Jonadabe pretendia apenas domá-los de antemão e familiarizá-los com sua futura condição e estado, de que seriam estrangeiros em uma terra estranha; para que assim pudessem preparar-se para suportar a dureza no tempo vindouro. E agora no Novo Testamento temos garantia de igual modo para votar — como se um homem, ao beber vinho ou bebida forte, se encontrar propenso à embriaguez, ele pode votar consigo mesmo não beber mais vinho nem bebida forte pelo tempo em que sentir que a bebida disto incitará sua fraqueza e ministrará ocasião de pecado. Deste tipo também são os votos nos quais propomos e prometemos a Deus guardar tempos estabelecidos de jejum, de nos aplicarmos à oração e à leitura das Sagradas Escrituras, e dar esmolas estabelecidas por causas especiais conhecidas por nós mesmos, e fazer vários deveres semelhantes. E para que não sejamos enganados ao fazer tais votos, certas regras devem ser lembradas:

  1. Que o voto esteja de acordo com a vontade e a Palavra de Deus, pois se for de outra forma, o fazê-lo — assim como o guardá-lo — é pecado. Os votos não devem ser laços de iniquidade.

  2. Deve ser feito de tal modo que possa subsistir com a liberdade cristã. Pois não podemos tornar obrigatórias na consciência coisas que Deus fez livres. Ora, a liberdade cristã nos permite o livre uso de todas as coisas indiferentes, desde que seja fora do caso de ofensa. Daí se segue que os votos devem ser feitos e guardados, ou não guardados, na medida em que na consciência eles possam subsistir, ou não subsistir, com a nossa liberdade comprada por Cristo.

  3. O voto deve ser feito com o consentimento dos superiores, se estivermos sob autoridade. Assim, entre os judeus, o voto de uma filha não poderia subsistir, a menos que houvesse o consentimento dos pais a ele.

  4. Deve estar no poder e na capacidade do seu autor de fazê-lo ou não fazê-lo. Um voto feito de uma coisa impossível não é um voto.

  5. Deve estar de acordo com o chamado daquele que o faz, isto é, tanto ao seu chamado geral como ele é um cristão quanto àquele chamado particular no qual ele vive. Se for contra um ou contra ambos, é ilícito.

  6. Deve ser feito com deliberação. Votos precipitados não são lícitos, embora as coisas votadas possam ser feitas licitamente.

  7. O fim deve ser bom, o qual é preservar e exercitar os dons da fé, oração, arrependimento, obediência e outras virtudes da mente; também para testemunhar nossa gratidão a Deus pelas bênçãos recebidas.

Estas são as principais regras que devem ser observadas ao se fazer votos; e com isso deve ser lembrado que votos feitos desta maneira não são por si mesmos parte da adoração a Deus, mas apenas ajudas e auxílios a ela — e assim devemos considerar todos os votos do Novo Testamento. E isso é o bastante sobre os votos especiais e sobre o nosso consenso nisto.

II. A Dissidência ou Diferença

Os pontos de diferença entre nós no tocante aos votos são especialmente três:

Ponto de Diferença 1. A Igreja de Roma ensina que no Novo Testamento somos tão obrigados a fazer votos como era a igreja dos judeus e isso até mesmo em exercícios externos. Nós dizemos não, considerando que a lei cerimonial agora está abolida, e nós temos apenas duas cerimônias por mandamento a serem observadas: o batismo e a Ceia do Senhor. Novamente, não somos tão obrigados a fazer ou guardar votos como os judeus eram, porque eles tinham um mandamento para assim fazer e nós não temos nenhum. Mas eles alegam o contrário no profeta Isaías, que falando do tempo do evangelho diz: “Os egípcios conhecerão o Senhor, e farão votos a Ele e os cumprirão” (Isa. 19:21). Eu respondo de duas maneiras: primeiro, que o profeta neste lugar expressa e significa a adoração espiritual do Novo Testamento pela adoração cerimonial então usada, como ele também o faz no último capítulo onde ele chama os ministros do Novo Testamento de sacerdotes e levitas. Segundo, nós concedemos, a igreja do Novo Testamento faz votos a Deus, mas eles são de deveres morais e evangélicos que não devem ser deixados por fazer — e se o voto de fato os promover, não deve ser negligenciado. E, portanto, tantas vezes quantas viermos à Mesa do Senhor, nós de coração renovamos o voto e a promessa de obediência. E embora os votos sejam feitos de coisas e ações indiferentes, ainda assim eles não são quaisquer partes da adoração a Deus, que é o ponto a ser provado.

Novamente, eles alegam: “Fazei votos a Deus e cumpri-os” (Sl 76:11). E eles dizem que este mandamento obriga todos os homens. Resposta. Esse mandamento em primeiro lugar obriga os judeus a fazerem votos cerimoniais. Novamente, Davi aqui fala de votar louvor e ação de graças a Deus, e assim ele expõe a si mesmo: “Os meus votos estão sobre mim, oferecerei louvores a Deus” (Sl 56:12). E este voto de fato diz respeito a todos os homens porque ele respeita um dever moral, que é manifestar o louvor de Deus.

Ponto de Diferença 2. Eles também defendem que votos feitos mesmo de coisas não ordenadas — como carnes, bebidas, trajes, etc. — são partes da adoração a Deus, sim, que eles tendem a um estado de perfeição, no qual a guarda deles leva o homem a um estado mais elevado do que a guarda da lei pode fazer. Nós dizemos categoricamente não, defendendo que os votos lícitos são certos suportes e esteios da adoração a Deus e não a adoração em si. Pois Paulo diz claramente: “O exercício corporal para pouco aproveita, mas a piedade para tudo é proveitosa” (1 Tim. 4:8). Novamente, assim como é o reino de Deus, assim deve ser a Sua adoração — e o reino de Deus não consiste em coisas exteriores, como no comer, beber e ações semelhantes — e, portanto, a Sua adoração não consiste em coisas exteriores.

Ponto de Diferença 3. Eles mantêm que sejam feitos tais votos que não estão de acordo com as regras antes nomeadas. E nisto também nós devemos discordar deles. O primeiro e principal é o voto de continência, pelo qual um homem promete a Deus guardar sempre a castidade na vida solteira, isto é, fora do estado de matrimônio. Este tipo de voto é frontalmente contra a Palavra de Deus e, portanto, ilícito. Pois Paulo diz: “Se não podem conter-se, que se casem” (1 Cor. 7:9). É “uma doutrina de demônios” (1 Tim. 4:1) proibir o casamento. “O casamento é honroso entre todos, e o leito sem mácula” (Heb. 13:4). Novamente, este voto não está no poder do próprio que vota, pois a continência é dom de Deus, que não a dá a todos, mas a quem Ele quer, e quando Ele quer, e por quanto tempo Ele quer. Eles alegam que na falta de continência, o jejum e a oração a obtêm. Resposta. Não é assim. Os dons de Deus são de duas sortes: alguns são comuns a todos os crentes, como o dom da fé, do arrependimento e do temor de Deus, etc. Outros são peculiares apenas a alguns, como o dom da continência. “Gostaria que todos os homens fossem como eu mesmo sou, mas cada homem tem de Deus o seu próprio dom, um desta maneira, outro daquela” (1 Cor. 7:7). Ora, se jejuarmos e orarmos pelo aumento dos dons comuns de Deus, como fé, arrependimento e todos os que são necessários à salvação, poderemos obtê-los em alguma medida, mas o mesmo não se pode dizer de dons particulares. O filho de Deus pode orar por saúde ou riqueza e não obter nenhum deles neste mundo; porque não é a vontade de Deus conceder estas bênçãos a todos os homens. E Paulo orou três vezes para ser liberto de uma tentação, e ainda assim não obteve seu pedido. E assim nós podemos da mesma forma orar por castidade no estado de solteiro, e contudo nunca obtê-la; porque, pode ser, é a vontade de Deus nos salvar sem ela. Este voto, portanto, nós o abominamos como uma coisa que até agora tem — e ainda continua — produzido inumeráveis abominações no mundo.

Contudo, aqui observe de que maneira nós o fazemos.

  • Primeiro de tudo, embora desaprovemos o voto, ainda assim nós aprovamos e elogiamos a vida de solteiro. O casamento de fato é melhor a dois respeitos: primeiro, porque Deus o ordenou para ser um remédio de continência a todas as pessoas tais que não podem se conter; segundo, porque é o seminário tanto da igreja quanto da sociedade (república); e ele produz uma semente de Deus para a ampliação do Seu reino [Mal. 2:15]. No entanto, a vida de solteiro naqueles que têm o dom da continência deve, em alguns aspectos, ser preferida. Primeiro, porque ela traz liberdade na perseguição. Assim, Paulo diz: “Suponho que seja bom para a presente necessidade que o homem assim permaneça” (1 Cor. 7:26). Segundo, porque livra os homens dos cuidados comuns, moléstias e distrações que existem na família. “Tais pessoas terão tribulação na carne, mas eu vos poupo” (v. 28). Terceiro, porque as pessoas solteiras comumente adoram a Deus com maior facilidade e liberdade corporal, sendo sempre pressuposto que elas tenham o dom da continência. “A mulher não casada cuida das coisas do Senhor, para ser santa tanto no corpo como no espírito” (v. 34).

  • Novamente, embora desaprovemos o voto, ainda assim defendemos e ensinamos que homens ou mulheres, estando assegurados de que têm o dom da continência, podem constantemente resolver e propor consigo mesmos viver e levar uma vida solteira. “Aquele que está firme em seu próprio coração, que não tem necessidade, mas tem poder sobre sua própria vontade, e assim decretou em seu coração que guardará sua virgindade, faz bem” (1 Cor. 7:37). E abraçamos o dito de Teodoreto sobre 1 Timóteo 4: “Pois ele não”, diz ele, “culpa a vida solteira ou a continência, mas ele acusa aqueles que por lei decretada obrigam os homens a seguirem estas coisas”. E homens se fizeram castos por causa do reino dos céus [Mat. 19:12], não por voto, mas por um propósito de coração, o qual é muito menos que um voto, e pode ser mudado na ocasião devida, enquanto um voto não pode, a menos que evidentemente pareça ser ilícito.

  • Terceiro, para tais pessoas que são capazes de se conter — de viverem solteiras para os fins antes nomeados — de fato nós consideramos não ser nenhum conselho de perfeição, contudo não negamos que seja um conselho de conveniência ou facilidade exterior, de acordo com o que Paulo diz: “Dou o meu conselho…” (v. 25), e, “Digo isto para o vosso proveito, não para vos enredar em um laço” (v. 35).

  • Por último, nós pensamos que, se alguém tendo o dom da continência fizer um voto de viver solteiro e ainda assim depois se casar (permanecendo o dito dom), eles pecaram. Contudo não porque estão casados, mas porque seu voto foi quebrado. E assim disse Agostinho de viúvas que casaram após seu voto: lib. de bono viduit. cap. 9.

O segundo é o voto de pobreza e vida monástica, no qual os homens dão tudo o que têm aos pobres e se entregam inteira e exclusivamente à oração e ao jejum. Este voto é contra a vontade de Deus. “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:35). “Não me dês nem a riqueza nem a pobreza” (Prov. 30:8). A pobreza é enumerada entre as maldições da lei [Deut. 28:22], das quais nenhuma deve ser votada. E a regra do Espírito Santo é: “Aquele que não quer trabalhar”, a saber, em algum chamado especial e justificável, “não deve comer” (2 Tes. 3:10). E, “Exorto que trabalhem com sossego, e comam o seu próprio pão” (v. 12). Ora, quando os homens vivem separados dos outros, entregando-se apenas à oração e ao jejum, eles vivem sem chamado nenhum. E é contra o voto geral feito no batismo, porque ele livra os homens de diversos deveres da lei moral e muda o fim apropriado da vida do homem. Pois todo homem deve ter dois chamados. O primeiro é o chamado geral de um cristão, em virtude do qual ele realiza a adoração a Deus e os deveres de amor aos homens. O segundo é um chamado particular, no qual, de acordo com o seu dom, ele deve prestar serviço aos homens em alguma função, pertinente quer à igreja quer à sociedade da qual ele é membro. E o primeiro destes dois deve ser realizado no segundo, e o segundo no e com o primeiro. O fim da vida do homem não é apenas servir a Deus pelos deveres da primeira tábua, mas servindo ao homem nos deveres da segunda tábua, servir a Deus. E, portanto, o amor ao nosso próximo é chamado de o “cumprimento de toda a lei” (Rom. 13:10), porque a lei de Deus não é praticada isoladamente, mas no e com o amor ao nosso próximo. Sendo isto assim, é manifesto que a pobreza votada na vida monástica faz muitos membros inúteis tanto da igreja quanto da sociedade.

E embora nós desaprovemos este voto também, ainda assim o fazemos mantendo estas conclusões:

  • Conclusão 1. Que um homem pode abandonar todos os seus bens mediante chamado especial, como os apóstolos fizeram quando foram enviados a pregar o evangelho por todo o mundo. Segundo, os bens podem ser abandonados, sim esposa, filhos, pais, irmãos, e tudo, no caso de confissão, isto é, quando um homem, pela religião de Cristo, é perseguido e constrangido a abandonar tudo o que ele tem. Pois então a segunda tábua dá lugar aos deveres da primeira [Marcos 10:29].

  • Conclusão 2. Que no tempo de perseguição os homens podem retirar-se (havendo justa ocasião) e ir à parte para os desertos ou lugares semelhantes [Heb. 11:38], contudo para o tempo de paz, não vejo causa para a vida solitária. Se for alegado que os homens vão à parte para a contemplação e exercícios espirituais, digo de novo, que as graças de Deus podem ser tão bem exercitadas na família quanto no claustro. A família é de fato como se fosse uma escola de Deus, na qual aqueles que têm apenas uma centelha de graça podem aprender e exercitar muitas virtudes: o reconhecimento de Deus, a invocação, o temor de Deus, o amor, a generosidade, a paciência, a mansidão, a fidelidade, etc. Não, aqui existem mais ocasiões de fazer ou receber o bem do que há ou pode haver num claustro.

  • Conclusão 3. Que não condenamos os velhos e antigos monges, embora não gostemos de tudo neles. Pois eles não viveram como ventres preguiçosos, mas no suor de suas próprias testas, como deveriam fazer. E muitos deles eram casados, e em sua carne, bebida, roupas, regras, votos, e em todo o curso de vida diferiam dos monges deste tempo; tanto quanto o céu está da terra.

O terceiro voto é uma obediência regular (submissão a uma regra monástica), pelo qual os homens se entregam a guardar alguma regra ou ordem inventada, consistindo mais comumente na observação de exercícios em coisas exteriores, como carnes, bebidas, e roupas, etc. Este voto é contra a liberdade cristã, pela qual é concedido um livre uso de todas as coisas indiferentes, desde que seja sem caso de ofensa. “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo vos libertou” (Gál. 5:1). “Ninguém vos julgue pelo comer e pelo beber” (Col. 2:16).

Para concluir, visto que os papistas engrandecem estes seus votos, e ainda assim não fazem tal consideração pelo voto no batismo, nós de nossa parte devemos ser contrários a eles, não apenas no julgamento, mas também na prática. E devemos ter especial cuidado em cumprir os votos que empenhamos a Deus segundo o Seu mandamento. Na nossa criação fizemos um voto de obediência. E sendo recebidos na aliança da graça, votamos crer em Cristo, e produzir frutos de nova obediência, e este voto é renovado tantas vezes quantas viermos à Mesa do Senhor. Nosso dever, portanto, é cumpri-los também a Deus, como Davi diz: “Fazei votos a Deus e cumpri-os” (Sl 76:11). E se não os cumprirmos, tudo se voltará para a nossa vergonha e confusão. Os homens apoiam-se muito em cumprir aquela palavra que deram aos homens, e isso é tido por um ponto de muita honestidade, como de fato é. Ora então, se há tamanho cuidado para guardar a aliança com os homens, muito mais deveríamos nós ter cuidado para guardar a aliança com Deus.


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