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#19 – Sobre A Supremacia Em Causas Eclesiásticas

Da Supremacia em Causas Eclesiásticas

I. Nosso Consenso

No tocante ao ponto da supremacia eclesiástica, estabelecerei quão perto podemos chegar da Igreja Romana em duas conclusões:

Conclusão 1. Para a fundação da igreja primitiva, o ministério da Palavra foi distinguido por graus não apenas de ordem, mas também de poder — e Pedro foi chamado ao grau mais elevado. Cristo “subiu ao alto e deu dons aos homens”, para o bem da Sua igreja, “uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e doutores” (Ef. 4:11). Ora, embora um apóstolo não esteja acima de outro, ou um evangelista acima de outro, ou um pastor acima de outro, contudo um apóstolo estava acima de um evangelista, e um evangelista acima de todos os pastores e mestres. E Pedro era, por chamado, um apóstolo, e, portanto, estava acima de todos os evangelistas e pastores, tendo o lugar mais alto no ministério do Novo Testamento, tanto por ordem quanto por autoridade.

Conclusão 2. Entre os doze apóstolos, Pedro tinha um tríplice privilégio ou prerrogativa: 1. A prerrogativa de autoridade. 2. De primazia. 3. De principalidade.

  • Pelo primeiro, pelo privilégio de autoridade, quero dizer uma preeminência em relação à estimação, pela qual ele era tido em reverência acima do resto dos doze apóstolos; pois Cefas, com Tiago e João “são chamados de colunas” e “pareciam ser grandes” (Gál. 2:6, 9).

  • Novamente, ele tinha a preeminência de primazia porque foi o primeiro nomeado, como o líder da busca. “Os nomes dos doze apóstolos são estes: o primeiro é Simão, chamado Pedro” (Mat. 10:2).

  • Terceiro, ele tinha a preeminência de principalidade entre os doze porque, no que diz respeito à medida da graça, ele excedeu o resto. Pois quando Cristo perguntou aos Seus discípulos quem diziam que Ele era, Pedro, por ser de maior capacidade e zelo, respondeu por todos eles [Mat. 16:16]. Uso esta cláusula, entre os doze, porque Paulo excedeu a Pedro em todos os sentidos — em aprendizado, zelo, compreensão — tanto quanto Pedro excedeu os demais. E é até aqui que chegamos perto da supremacia papista.

II. A Diferença

A Igreja de Roma dá a Pedro uma supremacia sob Cristo acima de todas as causas e pessoas. Isto é, pleno poder para governar e ordenar a Igreja Católica em toda a terra, tanto para a doutrina quanto para o regime. Esta supremacia consiste (como eles ensinam) em um poder de julgamento, para determinar o verdadeiro sentido de todos os lugares das Escrituras; para determinar todas as causas de fé; para reunir concílios gerais; para ratificar os decretos dos ditos concílios; para excomungar qualquer homem na terra que viva dentro da igreja, mesmo príncipes e nações; para apropriadamente absolver e perdoar pecados; para decidir causas trazidas a ele por apelação de todas as partes da terra; por último, para fazer leis que obrigarão a consciência. Esta plenitude de poder com um consentimento é atribuída a Pedro e aos bispos de Roma que o seguem em uma suposta sucessão.

Ora, nós defendemos, pelo contrário, que nem Pedro, nem qualquer bispo de Roma, tem qualquer supremacia sobre a igreja católica, mas que toda a supremacia sob Cristo pertence a reis e príncipes dentro dos seus domínios. E que esta nossa doutrina é boa e a deles falsa e forjada, eu o tornarei manifesto por diversas razões:

Razão 1. Cristo deve ser considerado por nós como rei de duas maneiras. Primeiro, como Ele é Deus; e assim Ele é um rei absoluto sobre todas as coisas no céu e na terra, com o Pai e o Espírito Santo, pelo direito da criação. Segundo, Ele é um rei como Ele é um redentor da humanidade; e pelo direito de redenção Ele é um rei soberano sobre toda a igreja, e isso de maneira especial. Ora, como Cristo é Deus com o Pai e o Espírito Santo, Ele tem Seus deputados (representantes) na terra para governar o mundo, a saber, reis e príncipes, que por isso são chamados deuses nas Escrituras. Mas, como Cristo é Mediador, e, consequentemente, um Rei sobre os Seus redimidos, Ele não tem colega nem deputado (representante). Nem colega — pois então Ele seria um mediador imperfeito. Nem deputado — pois nenhuma criatura é capaz deste ofício, de fazer, no lugar e em vez de Cristo, aquilo que Ele mesmo faz. Porque toda obra do Mediador é uma obra composta, que surge dos efeitos de duas naturezas que concorrem numa e na mesma ação, a saber, a Divindade e a humanidade. E, portanto, para a efetivação da referida obra, requer-se um poder infinito que excede em muito a força de qualquer natureza criada. Novamente [em] Hebreus 7:24, diz-se que Cristo tem um sacerdócio que não pode passar da Sua pessoa para nenhuma outra. Donde se segue que nem o Seu ofício real nem o Seu ofício profético podem passar Dele para nenhuma criatura — nem no todo nem em parte — porque os três ofícios de mediação a este respeito são iguais. Não, é desnecessário que Cristo tenha um deputado para colocar em execução qualquer parte de Sua mediação, considerando que um deputado serve apenas para suprir a ausência do principal, enquanto que Cristo está sempre presente com a Sua igreja por Sua Palavra e Espírito. Pois onde dois ou três estiverem reunidos em Seu nome, Ele está no meio deles. Poder-se-ia dizer que os ministros na obra do ministério são deputados de Cristo. Eu respondo que eles não são deputados, mas instrumentos ativos. Pois na pregação da Palavra existem duas ações: a primeira é a emissão ou proposição da mesma ao ouvido; a segunda é a operação interior do Espírito Santo no coração, que de fato é o principal e pertence somente a Cristo, sendo a ação de falar no ministro apenas instrumental. Da mesma forma, a igreja de Deus, ao cortar qualquer membro por excomunhão, não é mais que um instrumento realizando um ministério em nome de Cristo; e isto é, testificar e pronunciar a quem o próprio Cristo cortou do reino dos céus — a quem Ele também quer, por esta causa, que seja separado da companhia do Seu próprio povo até que se arrependa. E assim é em todas as ações eclesiásticas. Cristo não tem nenhum deputado, mas apenas instrumentos, sendo toda a ação inteira pessoal em relação a Cristo. Somente esta conclusão já derruba não apenas a supremacia do papa, mas também muitos outros pontos do papismo.

Razão 2. Todos os apóstolos em relação ao poder e autoridade eram iguais, pois a comissão apostólica, tanto pelo direito quanto pela execução, foi dada igualmente a todos eles, como as próprias palavras importam: “Ide e ensinai a todas as nações, batizando-as, etc.” (Mat. 28:19). E a promessa: “Eu te darei as chaves do reino dos céus”, não é privada de Pedro, mas é feita na pessoa dele aos demais, conforme a sua confissão foi em nome dos demais. Assim diz Teofilato, [sobre] Marcos 16: “Têm o poder de perdoar e reter os que recebem o dom de bispo, como Pedro.” E Ambrósio diz, no Salmo 38: “O que é dito a Pedro é dito aos apóstolos.” Portanto, Pedro não tinha supremacia sobre os demais apóstolos em relação ao direito à comissão, que eles dizem pertencer somente a ele, e a execução da mesma aos demais. Mas digamos que seja concedido que Pedro estava em comissão acima dos demais durante o tempo da sua vida. Contudo, daí não se pode deduzir qualquer superioridade para os bispos de Roma porque a autoridade dos apóstolos era pessoal, e consequentemente cessou com eles, sem ser transmitida a nenhum outro porque o Senhor não concedeu semelhante honra a ninguém depois deles. Pois, em primeiro lugar, foi privilégio dos apóstolos serem chamados imediatamente, e verem o Senhor Jesus. Segundo, eles tinham poder de dar o dom do Espírito Santo pela imposição das mãos. Terceiro, eles tinham tal medida da assistência do Espírito que, em seus sermões públicos, e na escrita da Palavra, não podiam errar. E todas estas coisas foram negadas àqueles que os seguiram. E que a sua autoridade cessou nas suas pessoas, sustenta-se também na razão, porque foi dada de maneira tão ampla para a fundação da igreja do Novo Testamento; a qual uma vez fundada, era necessário apenas que houvesse pastores e mestres para a sua edificação até o fim do mundo.

Razão 3. Quando os filhos de Zebedeu pediram a Cristo os maiores lugares de honra em Seu reino (julgando que Ele seria um rei terreno), Cristo lhes responde de novo: “Sabeis que os senhores dos gentios dominam e os que são grandes exercem autoridade sobre eles: mas não será assim entre vós”. Bernardo aplica estas mesmas palavras ao Papa Eugênio desta maneira: “É claro”, diz ele, “que aqui o domínio é proibido aos apóstolos. Ide pois; ousai, se quiserdes, assumir sobre vós o governar e o apostolado, ou em vosso apostolado governar ou dominar; se quiserdes ter ambos igualmente, perdereis ambos. De outra forma não deveis julgar-vos isento do número daqueles dos quais o Senhor se queixa assim: reinaram, mas não por mim; foram, e eu não os conheci.”

Razão 4. [Ef. 4:11.] É feita menção de dons que Cristo deu à Sua igreja após a Sua ascensão, pelos quais uns foram apóstolos, uns profetas, uns evangelistas, uns pastores e mestres. Ora, se tivesse existido um ofício no qual os homens, como deputados de Cristo, devessem governar toda a igreja até o fim do mundo, o chamado poderia aqui ter sido nomeado adequadamente com um dom a ele pertinente. E Paulo (sem dúvida) não o teria ocultado aqui onde ele menciona chamados de menor importância.

Razão 5. A supremacia do papa foi julgada por sentenças da Escritura e condenada muito antes de se manifestar no mundo; o Espírito de profecia prevendo e predizendo o estado das coisas por vir. “O homem do pecado (que é aquele Anticristo) exaltar-se-á acima de tudo o que se chama Deus, etc.” (2 Tes. 2:3-4). Ora, este capítulo inteiro, com todas as suas circunstâncias, adequa-se perfeitamente à sé de Roma e ao seu líder. E a coisa que então detinha a revelação do homem do pecado [v. 6], é pela maioria exposta como sendo o imperador Romano. Citarei um testemunho no lugar de muitos. Crisóstomo diz sobre este lugar: “Enquanto o império for temido, nenhum homem se submeterá diretamente ao Anticristo; mas depois que esse império for dissolvido, o Anticristo invadirá a posição do império que ficou vazia, e se esforçará para puxar para si mesmo o império tanto do homem quanto de Deus”. E descobrimos agora, por experiência, que isso é verdade, pois a sé de Roma nunca floresceu até que o Império decaísse, e a sua sede fosse removida da cidade de Roma. Novamente, [em] Apocalipse 13, é feita menção de duas bestas, uma subindo do mar, que os papistas confessam ser o Imperador Romano pagão; a segunda subindo da terra, a qual faz tudo o que a primeira besta poderia fazer antes dela. E isto adequa-se perfeitamente aos papas de Roma, os quais fazem e têm feito todas as coisas que o imperador fez ou poderia fazer, e isso sob a sua própria vista.

Razão 6. O julgamento da igreja antiga.

  • Cipriano diz: “Sem dúvida, os demais apóstolos eram o mesmo que Pedro era, dotados de igual companheirismo tanto de honra quanto de poder; mas faz-se um começo pela unidade para que a igreja possa parecer ser uma só.”

  • Gregório diz: “Se um for chamado bispo universal, a igreja universal entra em decadência.” E capítulo 144: “Eu digo ousadamente, que todo aquele que se chama ou deseja chamar-se sacerdote universal, na sua soberba é um precursor do Anticristo”. E: “Eis que no prefácio da epístola que me dirigiste, mandaste pôr um título orgulhoso, chamando-me papa universal.”

  • Bernardo: “Considera que não és um senhor dos bispos, mas um deles. As igrejas estão mutiladas no fato de que o bispo romano puxa todo o poder para si mesmo.”

  • Novamente o próprio Gregório, sendo papa, diz ao imperador: “Eu que estou sujeito ao seu mandamento… de todas as maneiras cumpri aquilo que era devido na medida em que prestei a minha lealdade ao imperador, e não ocultei o que pensei em nome de Deus”.

  • E o Papa Leão Quarto, 200 anos depois de Gregório, reconheceu o Imperador Lotário como “seu príncipe soberano” e professou obediência sem contradição aos seus mandamentos imperiais.

Para concluir, embora eles digam que há uma dupla cabeça da igreja, uma imperial, que é somente Cristo, a outra ministerial, que é o papa governando toda a igreja sob Cristo; eu respondo, esta distinção rouba a Cristo da Sua honra porque, ao erigir a sua cabeça ministerial, eles são obrigados a tomar emprestado de Cristo coisas que Lhe são próprias, como o privilégio de propriamente perdoar pecados e o poder de governar toda a terra fazendo leis que obrigarão as consciências tão verdadeiramente quanto as leis de Deus, etc.


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