Do Jejum
I. Nosso Consenso
Nosso consenso pode ser estabelecido em três conclusões:
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Conclusão 1. Nós não condenamos o jejum, mas mantemos três tipos dele: a saber, um jejum moral, um civil e um religioso. O primeiro, sendo moral, é uma prática de sobriedade ou temperança, quando, no uso de carnes (comidas) e bebidas, o apetite é contido para que não exceda a moderação. E isso deve ser usado por todos os cristãos durante todo o curso de suas vidas. O segundo, sendo civil, é quando, por algumas considerações particulares e políticas, os homens se abstêm de certas carnes; assim como nesta nossa comunidade a lei nos obriga a nos abster de carne em certas épocas do ano para estes fins especiais: preservar a procriação do gado, e manter a vocação do pescador. O terceiro, a saber, um jejum religioso, é quando os deveres da religião, como o exercício da oração e da humilhação, são praticados em jejum. E agora tratarei especialmente deste tipo.
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Conclusão 2. Nós nos juntamos a eles na aprovação dos principais e corretos propósitos de um jejum religioso, e eles são três: O primeiro é que, por meio dele, a mente possa se tornar atenta na meditação dos deveres de piedade a serem realizados. O segundo é que a rebelião da carne possa ser subjugada — pois a carne mimada torna-se um instrumento de licenciosidade. O terceiro, e (como entendo) o principal propósito de um jejum religioso, é professar a nossa culpa e testemunhar a nossa humilhação perante Deus por nossos pecados. E para este fim, no jejum de Nínive, até o próprio animal foi levado a se abster.
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Conclusão 3. Nós concedemos a eles que o jejum é uma ajuda e um auxílio para a adoração a Deus — sim, e uma boa obra também se for usado de uma boa maneira. Pois embora o jejum em si, sendo uma coisa indiferente — como comer e beber são — não deva ser chamado de uma boa obra; no entanto, sendo aplicado, e considerado em relação aos propósitos corretos antes falados e praticado de acordo, é uma obra permitida por Deus e altamente a ser estimada por todos os servos e povo de Deus.
II. A Dissidência ou Diferença
Nossa dissidência da Igreja de Roma na doutrina do jejum baseia-se em três coisas:
Primeiro, eles designam e prescrevem tempos definidos de jejum como necessários de serem guardados. Mas nós defendemos e ensinamos que prescrever o tempo de um jejum religioso está na liberdade da igreja e dos seus governantes, conforme alguma ocasião especial se ofereça. Quando os discípulos de João perguntaram a Cristo por que eles e os fariseus jejuavam frequentemente, mas os seus discípulos não jejuavam, Ele respondeu: “Podem porventura os filhos da câmara nupcial lamentar, enquanto o noivo está com eles? Dias, porém, virão, em que lhes será tirado o noivo, e então jejuarão” (Mat. 9:15), onde Ele lhes dá a entender que eles devem jejuar à medida que ocasiões de lamento se ofereçam. Donde também eu concluo que um tempo definido de jejum não deve ser mais imposto do que um tempo definido de lamento. Foi a opinião de Agostinho que “nem Cristo nem Seus apóstolos designaram quaisquer tempos de jejum”. E Tertuliano diz que os do seu tempo “jejuavam de livre e espontânea vontade, sem lei ou mandamento, conforme as ocasiões e o tempo serviam”. E Eusébio diz que “Montano foi o primeiro que fez leis de jejum”.
Objeta-se que há um tempo determinado de jejum prescrito em Levítico 16:29. Resposta: Este jejum definido e prescrito foi ordenado por Deus como uma parte da adoração legal, a qual teve o seu fim na morte de Cristo. Portanto, ele não justifica um tempo definido de jejum no Novo Testamento, onde Deus deixou o homem à sua própria liberdade sem dar um mandamento semelhante. Alega-se novamente que em Zacarias 7:5 havia tempos determinados para a celebração de jejuns religiosos ao Senhor — o quinto e o sétimo meses. Resposta: Eles foram designados por ocasião das aflições presentes da igreja na Babilônia, e cessaram com o seu livramento. Algo semelhante, em ocasião semelhante, podemos nós designar. Objeta-se ainda que algumas igrejas dos Protestantes observam tempos definidos de jejum. Resposta: Em algumas igrejas existem dias e tempos definidos de jejum — não por necessidade, ou por causa da consciência ou da religião — mas por considerações políticas ou civis. Ao passo que, na Igreja Romana, é considerado um pecado mortal adiar o tempo definido do jejum para o dia seguinte.
Segundo, discordamos da Igreja de Roma quanto à maneira de guardar um jejum. Pois os mais eruditos entre eles permitem beber vinho, água, eletuários, e isso muitas vezes dentro do limite de seu jejum designado. Sim, eles permitem a ingestão de uma refeição num dia de jejum ao meio-dia e, havendo causa razoável, uma hora antes do tempo de jejum que ainda não terminou. Mas esta prática, de fato, é absurda e contrária à prática do Antigo Testamento [Juízes 10:26; 1 Samuel 1:12]. Sim, ela frustra o propósito do jejum. Pois a abstinência corporal é um meio e um sinal exterior pelo qual reconhecemos a nossa culpa e indignidade de quaisquer das bênçãos de Deus. Novamente, eles prescrevem uma diferença de carnes (comidas), como se só se devesse usar carne branca em seus dias de jejum, e isso por necessidade — e por motivo de consciência, na maioria dos casos. Mas nós consideramos essa distinção de carnes como sendo tanto tola quanto iníqua. Tola, porque em tais comidas como eles prescrevem, há tanto de fartura e de deleite quanto em quaisquer outras — como nomeadamente em peixe, frutas, vinho, etc., que eles permitem. E é contra o fim de um jejum religioso usar qualquer refrigério, na medida em que a necessidade de saúde e o decoro o permitirem. Assim, a igreja, em tempos passados, costumava se abster não apenas de comida e bebida, mas de todos os deleites, inclusive roupas macias e unguentos doces. “Santificai um jejum… saia o noivo da sua recâmara, e a noiva do seu aposento” (Joel 2:15). “Não comi pão desejável, nem carne nem vinho entraram na minha boca, nem me ungi de forma alguma, até que se cumpriram três semanas de dias” (Dan. 10:3). “Não vos priveis um ao outro, senão por consentimento mútuo por algum tempo, para vos aplicardes ao jejum e à oração” (1 Cor. 7:5).
Novamente, nós consideramos esta prática como iníqua porque ela tira a liberdade dos cristãos, pela qual “para os puros todas as coisas são puras” (Tito 1:15). E o apóstolo, em Gálatas 5, nos pede para “estarmos firmes nesta liberdade”, a qual a Igreja de Roma gostaria assim de abolir. Para melhor compreensão disto, consideremos como o próprio Senhor, desde o princípio, manteve nas Suas próprias mãos, como mestre em Sua própria casa, a disposição das Suas criaturas para o uso do homem, para que este pudesse depender Dele e da Sua Palavra pelas bênçãos temporais. Na primeira era, Ele lhe designou para mantimento toda erva que dá semente na terra, e toda árvore em que há fruto que dá semente [Gênesis 1:27]. E quanto à carne, se Deus lhe deu liberdade para comer ou não comer, nós consideramos isso incerto. Após o dilúvio, o Senhor renovou a Sua concessão do uso das criaturas e deu ao Seu povo liberdade para comer a carne de criaturas vivas — ainda assim, de tal modo que Ele fez algumas coisas imundas e proibiu o comer delas; entre o resto, o comer de sangue. Mas desde a vinda de Cristo, Ele ampliou a Sua Palavra e deu liberdade a todos — tanto Judeus como Gentios — para comer de todos os tipos de carne [Atos 10:13, 15]. Nesta Sua Palavra nós descansamos; considerando uma doutrina de demônios que os homens ordenem, por motivo de consciência, a abstinência de alimentos que o próprio Deus criou para serem recebidos com ações de graças [1 Timóteo 4:4]. Sócrates, um historiógrafo cristão, diz que, “Os apóstolos deixaram livre a cada um o usar que tipo de carne quisessem nos dias de jejum e outros tempos. Espiridião, na quaresma, preparou carne de porco e pôs diante de um estrangeiro, comendo ele mesmo e pedindo ao estrangeiro que também comesse; que recusando e professando ser cristão, ‘Por isso’, disse ele, ‘mais ainda deves fazê-lo; pois aos puros todas as coisas são puras, como nos ensina a Palavra de Deus.'”
Objeção 1. Mas eles objetam Jeremias 35, onde Jonadabe ordenou aos recabitas que se abstivessem de vinho, cujo mandamento eles obedeceram, e são elogiados por fazerem bem em obedecê-lo. “Portanto”, dizem eles, “algum tipo de carnes pode legitimamente ser proibido”. Resposta. Jonadabe deu este mandamento não em via de religião, ou mérito, mas por outras considerações sábias e políticas. Pois ele ordenou à sua posteridade que não bebesse vinho, que não construísse casas, não semeasse sementes, não plantasse vinhas, ou não tivesse posses, mas que vivessem em tendas — para o fim de que pudessem estar preparados para suportar as calamidades que lhes sobreviriam no tempo vindouro. Mas a abstinência papista de certas carnes (comidas) tem respeito à consciência e à religião; e portanto é de um outro tipo, e não pode ter nenhuma garantia a partir daí.
Objeção 2. [Dan. 10:3.] Daniel, estando angustiado por três semanas de dias, absteve-se de carne; e seu exemplo é nossa garantia. Resposta. [Primeiro], era o modo dos homens santos nos tempos antigos, quando jejuavam muitos dias seguidos por livre vontade, abster-se livremente de diversas coisas — e assim Daniel se absteve de carne. Mas a abstinência papista da carne não é livre, mas está posta por mandamento — e a sua omissão é um pecado mortal. Novamente [segundo], se eles querem seguir a Daniel na abstinência de carne, por que também não se abstêm de todo pão desejável e vinho, e sim de unguentos? E por que hão de eles comer qualquer coisa no tempo do seu jejum; ao passo que não podem provar que Daniel tenha comido qualquer coisa até à tarde? E Molanus notou que os nossos antepassados se abstinham de vinho e de iguarias — e que alguns deles não comiam nada por dois ou três dias seguidos.
Objeção 3. Terceiro, eles alegam a dieta de João Batista, cuja comida era gafanhotos e mel silvestre, e de Timóteo, que se absteve de vinho. Resposta. O tipo de dieta deles e a abstinência que eles usavam, era apenas por motivo de temperança — não por consciência ou para merecer qualquer coisa através disso. Que eles provem o contrário, se puderem.
Terceiro e último, discordamos deles a respeito de certos propósitos do jejum. Pois eles fazem da própria abstinência, numa pessoa devidamente preparada, uma parte da adoração a Deus. Mas nós a consideramos uma coisa indiferente em si mesma, e portanto nenhuma parte da adoração a Deus; e no entanto com isso, sendo bem usada, estimamos como um suporte ou auxílio da adoração no fato de que através dela somos feitos mais aptos para adorar a Deus [Marcos 7:6]. E sobre isso alguns dos mais eruditos entre eles dizem: “Não a obra de jejuar feita, mas a devoção do operador, deve ser reputada como o serviço de Deus.” Novamente, eles dizem que “O jejum em — ou com — devoção, é uma obra de satisfação à justiça de Deus para a punição temporal de nossos pecados.” No que entendemos que eles derrogam de forma blasfema a Cristo, nosso Salvador, que é a satisfação inteira e perfeita pelo pecado, tanto em relação à culpa quanto à punição. Aqui eles alegam o exemplo dos ninivitas e o jejum de Acabe, por meio dos quais eles afastaram os juízos de Deus denunciados contra eles por Seus profetas. Nós respondemos, que a ira de Deus foi apaziguada em relação aos ninivitas não pelo seu jejum, mas pela fé lançando mão da misericórdia de Deus em Cristo, e assim detendo o Seu juízo. O jejum deles foi apenas um sinal do seu arrependimento — o arrependimento deles um fruto e um sinal da sua fé — pela qual eles creram na pregação de Jonas [Mateus 12:41]. Quanto à humilhação de Acabe, não é nada para o propósito em questão. Se eles obtêm algo com isso, que o tomem para si mesmos.
Para concluir, nós de nossa parte não condenamos este exercício de jejum, mas sim o seu abuso; e seria desejável que o jejum fosse mais usado por todos os cristãos em todos os lugares, considerando que o Senhor nos dá, diariamente, novas e especiais ocasiões de jejum público e privado.
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