Livro

#16 – Sobre A Intercessão Dos Santos

Da Intercessão dos Santos

O nosso consenso com Roma

O nosso consenso com eles eu estabelecerei em duas conclusões.

Conclusão I. Os santos falecidos oram a Deus, rendendo graças a ele por sua própria redenção, e pela redenção de toda a Igreja de Deus sobre a terra, Apocalipse 5:8. Os quatro seres viventes e os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do cordeiro —, v. 9. e cantavam um novo cântico: Digno és de tomar o livro e de abrir os seus selos: porque foste morto e nos redimiste para Deus —. v. 13. E todas as criaturas que estão no céu —, ouvi dizer: Louvor e honra e glória e poder sejam àquele que está assentado sobre o trono e ao Cordeiro para todo o sempre.

Conclusão II. Os santos falecidos oram de forma geral pelo estado de toda a Igreja, Apocalipse 6:9. E vi debaixo do Altar, as almas daqueles que foram mortos por causa da palavra de Deus e ELES CLAMAVAM: Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro! não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra? Pelo que vemos que eles desejam um livramento final da Igreja, e a destruição dos seus inimigos; para que eles mesmos com todo o povo de Deus possam ser avançados à plenitude da glória em corpo e alma. Sim, diz-se que as criaturas mudas, Romanos 8:23, gemem e suspiram, esperando a adoção, a saber, a redenção dos nossos corpos: muito mais os Santos no céu desejam o mesmo. E até aqui nós consentimos.

II. A Dissidência ou Diferença com a Igreja de Roma.

Eles defendem e ensinam que os Santos no céu, como a Virgem Maria, Pedro, Paulo, etc., fazem intercessão a Deus por homens em particular, de acordo com as suas várias necessidades: e que, tendo recebido as orações de homens em particular, eles as apresentam a Deus. Mas esta doutrina nós renunciamos categoricamente com base nestes fundamentos e razões.

Razão I. Isaías 63:16. A igreja diz a Deus: sem dúvida tu és nosso pai, ainda que ABRAÃO NOS IGNORE, e Israel NÃO NOS CONHEÇA. Ora, se Abraão não conhecia a sua posteridade: nem Maria, nem Pedro, nem qualquer outro dos Santos falecidos nos conhecem e ao nosso estado: e consequentemente eles não podem fazer nenhuma intercessão particular por nós. Se disserem que Abraão e Jacó estavam então no Limbo, o qual eles querem que seja uma parte do inferno: que alegria poderia Lázaro ter no seio de Abraão, Lucas 16:25, e com que consolo poderia Jacó dizer em seu leito de morte: Ó Senhor, tenho esperado pela tua salvação. Gênesis 46:18.

Razão II. 2 Reis 22:20. A profetisa Hulda diz a Josias que ele deve ser reunido a seus pais, e colocado em sua sepultura em paz, para que seus olhos não vejam todo o mal que Deus traria sobre este lugar. Portanto, os Santos falecidos não veem o estado da Igreja na terra, muito menos conhecem os pensamentos e orações dos homens. Esta conclusão Agostinho confirma amplamente.

Razão III. Nenhuma criatura, Santo ou anjo pode ser um mediador para nós junto a Deus, salvo Cristo somente, que é de fato o único Advogado de sua Igreja. Pois em um mediador verdadeiro e suficiente deve haver três propriedades.

  • Primeiro de tudo, a palavra de Deus deve revelá-lo e propô-lo à Igreja, para que possamos em consciência estar assegurados de que, orando a ele e a Deus em seu nome, seremos ouvidos. Ora, não há nenhuma escritura que mencione Santos ou Anjos como mediadores em nosso favor, salvo Cristo somente.

  • Segundo, um mediador deve ser perfeitamente justo, de modo que nenhum pecado seja achado nele de forma alguma, 1 João 2:1. Se alguém pecar, temos um advogado para com o pai, Jesus Cristo, O JUSTO. Ora, os Santos no céu, por mais que sejam totalmente santificados por Cristo, contudo em si mesmos eles foram concebidos e nasceram em pecado: e portanto devem necessariamente estar eternamente diante de Deus pela mediação e mérito de um outro.

  • Terceiro, um mediador deve ser um propiciador, isto é, trazer algo a Deus que possa apaziguar e satisfazer a ira e a justiça de Deus por nossos pecados: portanto João acrescenta: e ele é a PROPICIAÇÃO pelos nossos pecados. Mas nem Santo nem Anjo pode satisfazer pelo menor de nossos pecados: Cristo somente é a propiciação por todos eles. A Virgem Maria e o restante dos Santos, sendo pecadores, não podiam satisfazer nem mesmo por si próprios.

Razão IV. O julgamento da igreja antiga.

  • Agostinho: Todos os homens cristãos encomendam-se uns aos outros em suas orações a Deus. E aquele que ORA POR TODOS, e por quem NINGUÉM ORA, este é aquele um e verdadeiro mediador.

  • E: Isto diz o teu Salvador, não tens PARA ONDE ir senão a mim, não tens NENHUM CAMINHO a seguir SENÃO POR MIM.

  • Crisóstomo: Não tens NECESSIDADE DE PATRONOS para com Deus, ou de muito discurso para que devas adular a outros: mas, ainda que estejas sozinho e te falte um patrono, e por ti mesmo ores a Deus, obterás o teu desejo.

  • E sobre o dito de João: Se alguém pecar, etc. Tuas orações não têm efeito a menos que sejam tais que O SENHOR ENCOMENDE a teu Pai.

  • E Agostinho, no mesmo lugar, tem estas palavras: Ele, sendo tal homem, não disse: tendes um Advogado, mas: se alguém pecar, nós temos: ele não disse vós tendes, nem disse ele, VÓS TENDES A MIM.

III. Objeções dos Papistas Respondidas.

Objeção I. Apocalipse 5:8, 9. Os vinte e quatro anciãos prostraram-se diante do cordeiro, tendo cada um harpas e taças de ouro, cheias de incenso que são as orações dos Santos. Daí os papistas concluem que os Santos no céu recebem as orações dos homens na terra e as oferecem ao Pai. Resposta. Ali, por orações dos Santos, entendem-se as suas próprias orações, nas quais cantam louvores a Deus e ao Cordeiro, como os versos seguintes declaram claramente. E estas orações também são apresentadas a Deus somente pela mão do anjo, que é o próprio Cristo.

Objeção II. Lucas 16:27. Dives (O rico) no inferno ora por seus irmãos sobre a terra, muito mais os Santos no céu oram por nós. Resposta. De uma parábola nada pode ser concluído, senão aquilo que é conforme à intenção e ao escopo da mesma: pois, pela mesma razão, poderia muito bem se concluir que a alma do rico, estando no inferno, tinha uma língua. Novamente, se fosse verdade o que eles concluem, poderíamos concluir também que os ímpios no inferno têm compaixão e amor por seus irmãos na terra, e um zelo pela glória de Deus: sendo tudo isso falso.

Objeção III. Os anjos no céu conhecem o estado de todo homem: eles sabem quando qualquer pecador se arrepende e se alegram com isso e oram por homens em particular: portanto, os Santos no céu fazem o mesmo, pois eles são iguais aos anjos bons, Luc. 20:36. Resposta. A passagem em Lucas deve ser entendida sobre o estado dos homens santos no dia do último juízo, como aparece em Mat. 22:30, onde se diz que os servos de Deus na ressurreição são como os anjos no céu. Segundo, eles são como os anjos não em ofício e ministério, pelo qual eles são espíritos ministradores para o bem dos homens: mas eles são como eles em glória.

Em segundo lugar, discordamos dos papistas porque eles não se contentam em dizer que os santos falecidos oram por nós em particular; mas eles acrescentam ainda que eles fazem intercessão por nós através de seus méritos no céu. Ora, os jesuítas negam isto, mas ouçam Lombardo: Penso (diz ele, falando de alguém que é de bondade mediana) que ele, como que passando pelo fogo, será salvo pelos MÉRITOS e intercessões da Igreja celestial; a qual faz sempre intercessão pelos fiéis por pedido e mérito, até que Cristo seja completo em seus membros. E o Catecismo Romano diz o mesmo: Os Santos devem ser tanto mais adorados e invocados; porque eles fazem orações diariamente pela salvação dos homens: e Deus, por mérito e favor deles, nos concede muitos benefícios.

Nós não negamos que os homens sobre a terra tenham ajuda e benefício pela fé e piedade que os Santos falecidos demonstraram, quando estavam nesta vida. Pois Deus usa de misericórdia para com aqueles que guardam os seus mandamentos até mil gerações. E Agostinho diz: foi bom para os judeus que eles tenham sido amados por Moisés, a quem Deus amou. Mas nós negamos totalmente que sejamos ajudados por méritos de Santos, quer vivos quer falecidos. Pois os Santos na glória receberam a recompensa completa de todos os seus méritos; se é que podiam merecer: e, portanto, não há nada mais que eles possam merecer.


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