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#15 – Sobre a Adoração e Invocação Dos Santos

Da Adoração aos Santos, Especialmente da Invocação

I. Nosso Consenso

Conclusão 1. Os verdadeiros santos de Deus — como profetas, apóstolos e mártires, e outros semelhantes — devem ser adorados e honrados, e isso [de] três maneiras:

  1. Mantendo a memória deles de maneira piedosa. Assim, a virgem Maria — como uma profetisa — prediz que “todas as nações a chamarão bem-aventurada” (Lucas 1:48). Quando uma certa mulher derramou um vaso de unguento sobre a cabeça de Cristo, Ele diz: “este feito será falado em memória dela, onde quer que este evangelho seja pregado em todo o mundo” (Marcos 14:9). Este dever também foi praticado por Davi para com Moisés, Arão, Fineias e o restante que são elogiados (Salmos 105 e 106), e pelo autor da epístola aos Hebreus sobre os patriarcas e os profetas — e muitos outros que se destacaram na fé nos tempos do Antigo e do Novo Testamento.

  2. Eles devem ser honrados rendendo graças a Deus por eles, e pelos benefícios que Deus concedeu por meio deles à Sua igreja. Assim Paulo diz que, quando as igrejas ouviram sobre a sua conversão, elas “glorificaram a Deus por ele”, ou “nele” (Gál. 1:23). E o mesmo deve ser feito pelos santos falecidos.

  3. Eles devem ser honrados por uma imitação da sua fé, humildade, mansidão, arrependimento, o temor de Deus, e todas as boas virtudes nas quais eles se destacaram. Por esta causa, os exemplos de homens piedosos no Antigo e no Novo Testamento são chamados de uma “nuvem de testemunhas” por alusão. Pois assim como a nuvem guiou os israelitas através do deserto para a terra de Canaã, assim os fiéis agora devem ser guiados para a Canaã celestial pelos exemplos de homens bons que creram em Deus antes de nós e andaram no caminho reto para a vida eterna.

Conclusão 2. Novamente, suas verdadeiras relíquias, isto é, suas virtudes e bons exemplos deixados a toda a posteridade para serem seguidos, nós guardamos e respeitamos com a devida reverência. Sim, se qualquer homem puder nos mostrar a relíquia corporal de qualquer santo verdadeiro e provar que assim o é, embora não a adoremos, contudo não a desprezaremos, mas a guardaremos como um monumento, se isso puder ser feito convenientemente sem ofensa. E até aqui consentimos com a Igreja de Roma. Mais além não devemos ir.

II. A Dissidência

Nossa diferença baseia-se na maneira de adorar os santos. Os papistas fazem dois graus de adoração religiosa. O mais alto eles chamam de latria, pela qual o próprio Deus é adorado, e somente Ele. O segundo, inferior ao primeiro, é chamado de dulia, pelo qual os santos e anjos que estão no favor especial de Deus, e glorificados com glória eterna no céu, são adorados. Esta adoração eles colocam na adoração exterior, no dobrar do joelho, e no curvar do corpo a eles estando no céu: na invocação pela qual os chamam; na dedicação de igrejas e casas de religião a eles; em sábados e dias festivos; por último, em peregrinações às suas relíquias e imagens. Nós semelhantemente distinguimos a adoração ou culto, pois é religioso ou civil. A adoração religiosa é aquela que é feita Àquele que é o Senhor de todas as coisas, o esquadrinhador e provador do coração, onipotente, presente em todo lugar, capaz de ouvir e ajudar aqueles que O invocam em todo lugar, o Autor e primeira causa de toda coisa boa; e isso simplesmente por Si mesmo porque Ele é a própria bondade absoluta. E esta adoração é devida somente a Deus, sendo também ordenada no primeiro e segundo mandamentos da primeira tábua. A adoração civil é a honra feita aos homens colocados acima de nós pelo próprio Deus, seja em respeito aos seus excelentes dons ou em respeito aos seus ofícios e autoridade pelos quais governam outros. O fim correto desta adoração é testemunhar e declarar que reverenciamos os dons de Deus e aquele poder que Ele colocou naqueles que são Seus instrumentos. E este tipo de adoração é ordenado apenas na segunda tábua e no primeiro mandamento dela, “Honra a teu pai e a tua mãe” (Êx. 20:12). Baseado nesta distinção podemos julgar qual honra é devida a cada um. Honra deve ser dada a Deus e a quem Ele ordena. Ele ordena que os inferiores devam honrar ou adorar (reverenciar) os seus superiores. Portanto, as criaturas irracionais, e entre as demais as imagens, não devem ser adoradas — nem com adoração civil nem religiosa — sendo de fato muito mais vis do que o próprio homem é. Novamente, os espíritos imundos, os inimigos de Deus, não devem ser adorados; sim, honrá-los de qualquer forma é desonrar a Deus. Os anjos bons, porque excedem os homens tanto em natureza quanto em dons, quando apareciam eram legitimamente honrados; contudo de tal forma, que quando a menor significação de honra que era própria a Deus lhes foi dada, eles a recusaram. E porque eles não aparecem agora como nos tempos passados, nem mesmo adoração civil em qualquer gesto corporal deve ser feita a eles. Por último, os governadores e magistrados têm a adoração civil como algo devido a eles, e não pode ser omitida sem ofensa. Assim, Abraão adorou (reverenciou) os heteus [Gênesis 23] e José os seus irmãos [Gênesis 50]. Para ir direto ao ponto, com base na distinção anterior, negamos contra os papistas que qualquer adoração civil no dobrar do joelho ou prostração do corpo deva ser dada aos santos — estando eles ausentes de nós — muito menos qualquer adoração religiosa, como nomeadamente a invocação significada por qualquer adoração corporal. Pois é a própria honra do próprio Deus; que eles a chamem de latria, ou dulia, ou pelo nome que quiserem.

Nossas Razões

Razão 1. Toda verdadeira invocação e oração feita de acordo com a vontade de Deus deve ter um duplo fundamento: um mandamento e uma promessa. Um mandamento, para nos mover a orar; e uma promessa, para nos assegurar de que seremos ouvidos. Pois toda e qualquer oração deve ser feita com fé; e sem um mandamento ou promessa, não há fé. Sobre este fundamento infalível, eu concluo que não podemos orar aos santos falecidos. Pois na Escritura não há nenhuma palavra, quer nos ordenando a orar a eles, quer nos assegurando que seremos ouvidos quando orarmos. Não, a nós é ordenado apenas invocar a Deus: “A ele só servirás” (Mat. 4:10). E “como invocarão aquele em quem não creram?” (Rom. 10:14). E não temos nenhuma promessa de sermos ouvidos, senão por causa de Cristo. Portanto, orações feitas aos santos falecidos são ilícitas. A resposta que é dada é que “A invocação dos santos é garantida por milagres e revelações, os quais são correspondentes a mandamentos e promessas.” Resposta. Mas os milagres e revelações tiveram um fim antes que este tipo de invocação tomasse qualquer lugar na igreja de Deus — e isso foi cerca de trezentos anos depois de Cristo. Novamente, julgar qualquer ponto de doutrina por milagres é enganoso a menos que três coisas concorram: a primeira é a doutrina da fé e da piedade a ser confirmada; a segunda é a oração a Deus, para que algo possa ser feito para a ratificação da referida doutrina; a terceira é a edificação manifesta da igreja pelos dois anteriores. Onde qualquer um destes três estiver faltando, os milagres podem ser suspeitos, porque de outra forma falsos profetas têm seus milagres para provar os homens se eles se apegarão a Deus ou não [Deut. 13:1, 3]. Novamente, milagres não são feitos — ou a serem feitos — para aqueles que creem, mas para os infiéis que não creem. Como Paulo diz: “As línguas são um sinal, não para os que creem, mas para os descrentes” (1 Cor. 14:22). E com isto concordam Crisóstomo, Ambrósio e Isidoro, que diz: “Eis que um sinal não é necessário aos crentes que já creram, mas aos infiéis, para que possam ser convertidos.” Por último, a nossa fé deve ser confirmada, não por revelação e aparições de homens mortos, mas pelos escritos dos apóstolos e profetas [Lucas 16:29].

Razão 2. Orar aos santos falecidos — dobrar o joelho a eles enquanto estão no céu — é atribuir a eles aquilo que é próprio do próprio Deus: a saber, conhecer o coração com os desejos interiores e movimentos do mesmo, e conhecer as falas e os comportamentos de todos os homens em todos os lugares da terra em todos os tempos. Os papistas respondem que os santos no céu veem e ouvem todas as coisas na terra não por si mesmos (pois isso seria fazê-los deuses), mas em Deus, e no espelho da Trindade, no qual eles veem as orações dos homens reveladas a eles. Eu respondo, primeiro, que os santos ainda são feitos mais do que criaturas porque se diz que eles conhecem os pensamentos e todas as ações de todos os homens em todos os tempos, o que nenhum poder criado pode bem compreender de uma só vez. Segundo, eu respondo que este espelho, no qual se diz que todas as coisas são vistas, é apenas uma invenção do cérebro humano, e eu o provo assim. Os próprios anjos, que veem mais fundo em Deus do que os homens podem fazer, nunca souberam de todas as coisas em Deus, o que confirmo desta maneira: No templo, sob a lei, sobre a arca, foram colocados dois querubins, significando os anjos bons de Deus. E eles olhavam para baixo, para o propiciatório cobrindo a arca, o qual era uma figura de Cristo. E o seu olhar para baixo figurava o seu desejo de ver dentro do mistério da encarnação de Cristo e da nossa redenção por Ele; como Pedro aludindo, sem dúvida, a este tipo no Antigo Testamento diz: “Para as quais coisas os anjos anelam olhar” (1 Pedro 1:12). E Paulo diz: “A multiforme sabedoria de Deus é revelada pela igreja aos principados e potestades nos lugares celestiais” (Efés. 3:10), isto é, aos anjos. Mas como, e por quais meios? Pela igreja, e isso de duas maneiras: Primeiro, pela igreja, como por um exemplo no qual os anjos viram a infinita sabedoria e misericórdia de Deus na vocação dos gentios. Segundo, pela igreja, conforme ela foi fundada e honrada pela pregação dos apóstolos. Pois parece que o ministério apostólico no Novo Testamento revelou coisas relativas a Cristo que os anjos nunca souberam antes daquele tempo. Assim, Crisóstomo, por ocasião deste texto de Paulo, diz que “Os anjos aprenderam alguma coisa pela pregação de João Batista.” Novamente, Cristo diz que “eles não sabem a hora do último juízo” (Mat. 24:36). Muito menos os santos conhecem todas as coisas em Deus. E daí é que é dito que eles estão debaixo do altar onde clamam: “Até quando, Senhor, santo e verdadeiro! Não vingarás o nosso sangue?” (Apoc. 6:10), como sendo ignorantes do dia de sua plena libertação. E os judeus em aflição confessam que Abraão os ignorava e ao seu estado [Isa. 63:16].

Razão 3. Cristo recusou-se até mesmo a dobrar o joelho a Satanás, sob este fundamento, porque estava escrito: “Adorarás ao Senhor teu Deus, e só a ele servirás” (Mat. 4:10). Daí foi que Pedro não permitiu que Cornélio sequer se ajoelhasse diante dele, embora Cornélio não pretendesse honrá-lo como Deus. Portanto, nem santo nem anjo deve ser honrado, nem sequer com o dobrar do joelho, se isso carrega a menor significação de honra divina ou religiosa.

Razão 4. O julgamento da igreja antiga. Agostinho: “Nós honramos os santos com caridade e não por servidão; nem erigimos igrejas a eles.” E: “Que não seja religião para nós adorar homens mortos.” E: “Eles devem ser honrados por imitação, e não adorados por religião.” Epifânio: “Nem Tecla, nem qualquer santo deve ser adorado, para que esse antigo erro não nos domine, de modo que deixemos o Deus vivo e adoremos as coisas feitas por Ele.” Novamente: “Que Maria esteja em honra; que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam adorados. Que ninguém adore Maria — quero dizer, nem mulher nem homem.” Novamente: “Maria é bela, santa e honrada, contudo não para adoração.” Quando Juliano objetou aos cristãos que eles adoravam os seus mártires como Deus, Cirilo concede a memória e a honra deles, mas nega a sua adoração. E de invocação ele não faz nenhuma menção de modo algum. Ambrósio sobre Romanos 1: “Acaso há alguém tão louco que dê ao Conde a honra do Rei? — contudo estes homens não se julgam culpados ao dar a honra do nome de Deus a uma criatura e, deixando o Senhor, adoram os seus conservos, como se houvesse algo mais reservado para Deus.”

III. Objeções dos Papistas

Objeção 1. “Que o anjo que me guardou abençoe os teus filhos” (Gên. 48:16). “Aqui”, dizem eles, “há uma oração feita a anjos.” Resposta. Pelo anjo entende-se Cristo, que é chamado o anjo da aliança [Mal. 3:1], e o anjo que guiou Israel no deserto [1 Cor. 10:9 comparado com Êx. 23:20].

Objeção 2. [Êx. 32:13.] “Moisés ora para que Deus respeite o Seu povo, por amor a Abraão, e por Isaque e Israel Seus servos, que não estavam mais vivos.” Resposta. Moisés ora para que Deus seja misericordioso com o povo, não pela intercessão de Abraão, Isaque e Jacó, mas por causa da Sua aliança que Ele havia feito com eles [Salmos 132:10-11]. Novamente, pela doutrina papista, os pais falecidos não conheciam o estado dos homens na terra, nem oravam por eles — porque então eles não estavam no céu, mas no Limbo Patrum (Limbo dos Patriarcas).

Objeção 3. “Um homem vivo faz intercessão a Deus por outro; portanto, muito mais os santos na glória, que estão cheios de amor, oram a Deus por nós.” Resposta. A razão é nula — pois nós temos um mandamento, de que um homem vivo ore por outro, e que deseje que outros orem por nós. Mas não há garantia na Palavra de Deus para desejarmos as orações dos homens falecidos. Segundo, há uma grande diferença entre estas duas coisas: pedir a nosso amigo — quer de boca ou por carta — que ore por nós, e por invocação pedir àqueles que estão ausentes de nós e partiram desta vida que orem por nós. Pois isto é de fato uma adoração, na qual é dado a eles um poder para ouvir e ajudar a todos os que os invocam em qualquer lugar ou momento para sempre — sim, embora eles não estejam presentes no lugar em que são adorados — e consequentemente, a visão do coração, a presença em todos os lugares, e poder infinito para ajudar a todos os que oram a eles, coisas estas que não cabem a criatura alguma senão a Deus somente. Terceiro, quando um homem vivo pede a outro que ore por ele, ele apenas o faz seu companheiro e co-membro na sua oração feita em nome do nosso Mediador, Cristo. Mas quando os homens invocam santos no céu, eles, estando então ausentes, fazem-nos mais do que co-membros, mas sim mediadores entre Cristo e eles.


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