Livro

#11 – Sobre A Presença Real De Cristo Na Ceia

Da Presença Real

Nosso Consenso com Roma

Nós defendemos e cremos em uma presença do corpo e do sangue de Cristo no Sacramento da Ceia do Senhor: e que não é uma presença fingida, mas verdadeira e real: a qual deve ser considerada de duas maneiras; primeiro no que diz respeito aos sinais, segundo no que diz respeito aos comunicantes.

Quanto ao primeiro, defendemos e ensinamos que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes com o pão e o vinho, sendo sinais no sacramento: mas como? não a respeito de lugar, de coexistência: mas por relação sacramental, desta maneira. Quando uma palavra é proferida, o som chega ao ouvido; e no mesmo instante, a coisa significada chega à mente; e assim por relação a palavra e a coisa falada estão ambas presentes juntas. Do mesmo modo, na mesa do Senhor, o pão e o vinho não devem ser considerados meramente como substâncias e criaturas, mas como sinais exteriores em relação ao corpo e ao sangue de Cristo e esta relação, surgindo da própria instituição do Sacramento, consiste nisto, que quando os elementos do pão e do vinho estão presentes na mão e na boca daquele que os recebe; no mesmíssimo momento o corpo e o sangue de Cristo são apresentados à mente; desta forma e não de outra é que Cristo está verdadeiramente presente com os sinais.

A segunda presença é no que diz respeito aos comunicantes, a cujos corações crentes ele também está realmente presente. Dir-se-á: que tipo de presença é esta? Resposta: Tal qual é a comunhão no sacramento, assim é a presença e pela comunhão devemos julgar a presença. Ora, a comunhão é desta maneira: Deus o Pai, segundo o teor da aliança evangélica, dá Cristo neste sacramento tão real e verdadeiramente quanto qualquer coisa possa ser dada ao homem, não por parte e aos pedaços (como dizemos), mas o Cristo todo, Deus e homem, desta forma. Em Cristo existem duas naturezas, a divindade e a humanidade. A divindade não é dada em consideração à substância ou essência: mas apenas em consideração à eficácia, méritos e operação transmitida dali para a humanidade. E, além disso, neste sacramento toda a humanidade de Cristo é dada, tanto corpo quanto alma, nesta ordem. Em primeiro lugar é dada a própria humanidade no que diz respeito à substância, e isso realmente: em segundo lugar os méritos e benefícios dela, a saber, a satisfação realizada pela e na humanidade, à justiça de Deus. E assim a humanidade inteira com os benefícios dela, são dados total e conjuntamente. Pois os dois sinais distintos do pão e do vinho não significam duas doações distintas do corpo à parte e do sangue à parte: mas a nutrição plena e perfeita das nossas almas.

Novamente, os benefícios da humanidade de Cristo são dados de diversas formas, alguns por imputação, que é uma ação de Deus aceitando aquilo que é feito por Cristo como feito por nós: e assim agradou a Deus dar a paixão de Cristo e a sua obediência. Alguns, de novo, são dados por um tipo de propagação, a qual não posso expressar adequadamente em palavras, mas eu a comparo assim. Assim como uma vela é acesa por outra, e uma tocha ou luz de vela é transmitida para vinte velas: da mesma forma a justiça inerente de cada crente é derivada do celeiro de justiça que está na humanidade de Cristo: pois a justiça de todos os membros nada mais é que o fruto dela, assim como a corrupção natural em toda a humanidade, nada mais é que um fruto daquele pecado original que estava em Adão.

Assim vemos como Deus, de sua parte, dá a Cristo, e isso realmente. Prosseguindo, quando Deus dá a Cristo, ele dá ao mesmo tempo o espírito de Cristo, o qual espírito cria no coração de quem recebe o instrumento da verdadeira fé, pelo qual o coração realmente recebe o Cristo dado por Deus, ao descansar sobre a promessa que Deus fez de que ele dará a Cristo e a sua justiça a todo crente verdadeiro. Ora, pois, quando Deus dá Cristo com os seus benefícios, e o homem por sua parte, pela fé, recebe as mesmas coisas como elas são dadas, surge aquela união que existe entre cada bom recebedor e o próprio Cristo. A qual união não é forjada, mas uma conjunção real, verdadeira e íntima; mais íntima que a qual, nenhuma existe ou pode existir: porque é feita por um solene dar e receber que se passa entre Deus e o homem: como também pelo vínculo de um e o mesmo espírito. Para ir direto ao ponto, então, considerando que há uma união real, e consequentemente uma comunhão real entre nós e Cristo (como eu provei), deve haver necessariamente um tal tipo de presença em que Cristo está verdadeira e realmente presente no coração daquele que recebe o sacramento em fé. E até este ponto consentimos com a Igreja Romana no tocante à presença real.

Onde Divergimos de Roma

Nós não diferimos no tocante à própria presença, mas apenas na maneira da presença. Pois embora defendamos uma presença real do corpo e do sangue de Cristo no sacramento, contudo não a consideramos como sendo local, corporal ou substancial, mas sim espiritual e mística; aos sinais por relação sacramental, e aos comunicantes pela fé somente. Pelo contrário, a Igreja de Roma mantém a transubstanciação, isto é, uma presença local, corporal e substancial do corpo e do sangue de Cristo, por uma mudança e conversão do pão e do vinho no dito corpo e sangue.

Nossas Razões para Divergir

Razão I. Esta presença corporal derruba vários artigos da fé. Pois cremos que o corpo de Cristo foi feito da substância pura da Virgem Maria, e que isso aconteceu apenas uma vez, a saber, quando ele foi concebido pelo Espírito Santo e nasceu. Mas isto não pode subsistir, se o corpo de Cristo é feito de pão e o seu sangue de vinho, como necessariamente devem ser, se não houver sucessão ou aniquilação, mas uma conversão real de substâncias no sacramento: a menos que devamos crer em contrariedades, que o seu corpo foi feito da substância da Virgem, e não da Virgem; feito uma vez e não uma vez, mas muitas vezes. Novamente, se seu corpo e sangue estão sob as formas do pão e do vinho, então ele ainda não subiu ao céu, mas permanece ainda entre nós. Nem se pode dizer que ele virá do céu no dia do juízo: pois aquele que deve vir dali para julgar os vivos e os mortos, deve estar ausente da terra. E esta era a antiga fé.

  • Agostinho diz que Cristo, de acordo com a sua majestade, providência e graça está presente conosco até o fim do mundo: mas de acordo com a sua CARNE ASSUMIDA ELE NÃO ESTÁ sempre conosco. (Tract. 1. in Job.)

  • Cirilo diz: Ele está AUSENTE EM CORPO e presente em virtude, pela qual todas as coisas são governadas. (Lib. 9. in. cap. 21.)

  • Vigílio diz: Que ele partiu de nós de acordo com a sua humanidade: ele nos deixou em sua humanidade: na forma de um servo ausente de nós: quando a sua carne estava na terra, ela não estava no céu: estando na terra, ele não estava no céu: e estando agora no céu, ELE NÃO ESTÁ NA TERRA. (Contra Eutich. lib. 1. & 4.)

  • Fulgêncio diz: Um e o mesmo Cristo, de acordo com a sua substância humana, estava ausente do céu quando ele estava na terra: e DEIXOU A TERRA quando subiu ao céu. (Lib. 2. ad Thrasimundum.)

Razão II. Esta presença corporal derruba a natureza de um corpo verdadeiro, cuja natureza comum ou propriedade essencial é ter comprimento, largura e espessura, as quais sendo retiradas um corpo não é mais um corpo. E em razão destas três dimensões, um corpo pode ocupar apenas um lugar de cada vez, como Aristóteles disse, a propriedade de um corpo é estar assentado em algum lugar, de modo que um homem possa dizer onde ele está. Aqueles, portanto, que defendem que o corpo de Cristo está em muitos lugares de uma só vez, fazem com que não seja corpo algum: mas antes um espírito, e isso infinito. Eles alegam que Deus é Todo-Poderoso; isso é de fato verdade, mas nisto e em assuntos semelhantes não devemos disputar o que Deus pode fazer, mas o que ele fará. E eu digo mais, porque Deus é onipotente, portanto existem algumas coisas que ele não pode fazer, como a ele negar a si mesmo, mentir e fazer com que as partes de uma contradição sejam ambas verdadeiras ao mesmo tempo. Para ir direto ao ponto, se Deus fizesse o próprio corpo de Cristo estar em muitos lugares ao mesmo tempo, ele o faria não ser um corpo enquanto permanece um corpo: e ser circunscrito em algum lugar e não circunscrito, porque está em muitos lugares ao mesmo tempo: ser visível no céu e invisível no sacramento; e assim ele faria contradições serem verdadeiras: o que fazer é contra a sua natureza, e argumenta mais impotência do que poder. Agostinho diz a este respeito:

Se ele pudesse mentir, enganar, ser enganado, agir injustamente, ele não seria onipotente.

E,

Portanto, ele é onipotente, porque ele não pode fazer estas coisas.

Novamente,

Ele é chamado onipotente por fazer aquilo que ele quer, e não por fazer aquilo que ele não quer: o que se lhe acontecesse, ele não seria onipotente. (De Symb. ad Catech. l. 1. cap. 1.)

Razão III. A Transubstanciação derruba a própria Ceia do Senhor. Pois em cada sacramento deve haver um sinal, uma coisa significada, e uma proporção ou relação entre ambos. Mas a presença real papista tira tudo isso: pois quando o pão é realmente convertido no corpo de Cristo, e o vinho no seu sangue, então o sinal é abolido, e não resta nada além das formas exteriores ou aparência de pão e vinho. Novamente, ela abole os fins do sacramento, dos quais um é lembrar de Cristo até a sua volta, o qual estando corporalmente presente no sacramento, não necessita ser lembrado: porque ajudas de lembrança são para coisas ausentes. Outro fim é nutrir a alma para a vida eterna: mas pela transubstanciação a alimentação principal é do corpo e não da alma, a qual é apenas alimentada com comida espiritual, pois embora o corpo possa ser melhorado pelo alimento da alma, contudo a alma não pode ser alimentada com comida corporal.

Razão IV. No sacramento o corpo de Cristo é recebido como ele foi crucificado: e o seu sangue, como foi derramado na cruz: mas agora neste tempo o corpo de Cristo crucificado permanece ainda como um corpo, mas não como um corpo crucificado: porque o ato de crucificar cessou. Portanto é a fé somente, que faz com que Cristo crucificado esteja presente a nós no sacramento. Novamente, aquele sangue que escorreu dos pés e mãos e lado de Cristo na cruz, não foi recolhido novamente e colocado nas veias: não, o recolhimento era desnecessário, porque após a ressurreição, ele não viveu mais uma vida natural, mas espiritual: e ninguém sabe o que foi feito deste sangue. O Papista, portanto, não pode dizer que ele está presente sob a forma de vinho localmente: e nós podemos melhor dizer que é recebido espiritualmente pela fé, cuja propriedade é dar um ser às coisas que não são.

Razão V. 1 Cor. 10:3. Os pais do Antigo Testamento comeram a mesma comida espiritual, e beberam a mesma bebida espiritual: pois eles beberam da rocha que era Cristo. Ora, eles não poderiam comer o seu corpo que foi crucificado, ou beber o seu sangue derramado corporalmente, a não ser pela fé: porque então seu corpo e sangue não estavam na natureza. Os Papistas respondem que os pais comeram a mesma comida, e beberam a mesma bebida espiritual consigo mesmos, não conosco. Mas a resposta deles é contra o texto. Pois a intenção do Apóstolo é provar que os judeus eram em todos os sentidos iguais aos Coríntios, porque eles comeram a mesma comida espiritual, e beberam a mesma bebida espiritual com os Coríntios; de outra forma o seu raciocínio não prova o ponto que ele tem em mãos, a saber, que os israelitas não eram em nada inferiores aos Coríntios.

Razão VI. E é dito que o sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado: da mesma forma pode-se dizer que o sacramento da Ceia do Senhor foi feito para o homem, e não o homem para ele: e, portanto, o homem é mais excelente que o sacramento. Mas se os sinais do pão e do vinho são realmente convertidos no corpo e no sangue de Cristo, então o sacramento é infinitamente melhor que o homem; o qual, em seu melhor estado, é apenas unido a Cristo, e feito um membro de seu corpo místico: ao passo que o pão e o vinho são feitos o próprio Cristo. Mas o sacramento ou os elementos exteriores de fato não são melhores que o homem: o fim sendo sempre melhor do que a coisa ordenada para o fim. Resta, portanto, que a presença de Cristo não é corporal, mas espiritual. Novamente, na Ceia do Senhor, cada crente recebe Cristo inteiro, Deus e homem, embora não a divindade: ora por esta ingestão carnal, não recebemos o Cristo inteiro, mas apenas uma parte de sua humanidade: e portanto no sacramento não há ingestão carnal, e consequentemente nenhuma presença corporal.

Razão VII. O julgamento da Igreja antiga.

Teodoreto

O mesmo Cristo, que chamou o seu corpo natural de comida e pão, o qual também chamou a si mesmo de videira, ele concedeu aos sinais visíveis o nome do seu próprio corpo, NÃO MUDANDO A NATUREZA, mas acrescentando graça à natureza; por onde ele entende a consagração. (Dialog. 1. immutable)

E

Os sinais místicos após a santificação não perdem a sua natureza própria. Pois eles PERMANECEM NA SUA PRIMEIRA NATUREZA, e mantêm a sua primeira figura e forma; e como antes, podem ser tocados e vistos: e aquilo no qual eles são feitos, é entendido, crido, adorado.

Gelásio

Pão e vinho passam para a substância do corpo e do sangue de Cristo, contudo de tal modo que a SUBSTÂNCIA OU NATUREZA DO PÃO E DO VINHO NÃO CESSA. E eles são convertidos na substância divina, contudo o pão e o vinho PERMANECEM AINDA NA PROPRIEDADE DA SUA NATUREZA. (Lib. de duob. nat. Christ.)

Lombardo

Se for perguntado que conversão é esta, se formal, ou substancial, ou de um outro tipo, eu não sou capaz de definir. (Lib. 4. dist. 11.)

E que os Pais não defendiam a transubstanciação, eu provo isso por várias razões.

  • Primeiro, em tempos passados, eles costumavam queimar com fogo aquilo que sobrava após a administração da Ceia do Senhor.

  • Segundo, pela união sacramental do pão e do vinho com o corpo e o sangue de Cristo, eles costumavam confirmar a união pessoal da humanidade de Cristo com a divindade contra os hereges: cujo argumento eles não teriam usado, se tivessem acreditado numa presença real papista.

  • Terceiro, era um costume em Constantinopla que, se restassem muitas partes do sacramento após o término da sua administração, criancinhas fossem chamadas da escola para comê-las; as quais, no entanto, eram excluídas da mesa do Senhor. E isto argumenta claramente que a Igreja naqueles dias tomava o pão, após o término da administração, como pão comum.

Novamente, foi outrora uma ordem na igreja Romana, que o vinho fosse consagrado mergulhando nele o pão, o qual tinha sido consagrado. Mas esta ordem não pode se manter com a presença real, na qual o pão é convertido tanto no corpo quanto no sangue. Nicolau Cabásilas diz:

Depois que ele usa de alguma fala ao povo, ele ergue as suas mentes, e levanta os seus pensamentos da terra, e diz, Sursum corda, Levantemos os nossos corações, PENSEMOS NAS COISAS LÁ DO ALTO, e não nas coisas que estão sobre a terra. Eles consentem e dizem, que elevam os seus corações para lá, onde está o seu tesouro, e onde Cristo está assentado à destra de seu pai. (Lib. de expos. Liturg. c. 26.)

Objeções dos Papistas.

Objeção I. A sua primeira razão é João 6:55. “A minha carne é verdadeiramente comida, e o meu sangue é verdadeiramente bebida”: portanto (dizem eles) o corpo de Cristo deve ser comido com a boca, e o seu sangue bebido concordantemente.

Resposta. O capítulo deve ser entendido de um comer espiritual de Cristo: o seu corpo é verdadeiramente comida, mas comida espiritual, e o seu sangue bebida espiritual, a serem recebidos não pela boca, mas pela fé. Este é o exato ponto que Cristo aqui intenciona provar, a saber que crer nele é comer a sua carne e beber o seu sangue, ambos são o mesmo. Novamente, este capítulo não deve ser entendido daquele comer especial de Cristo no sacramento: pois é dito em termos gerais, v. 53: “A não ser que comais a carne de Cristo e bebais o seu sangue, não tendes vida em vós”: e se estas mesmas palavras (que são a substância do capítulo) devem ser entendidas de um comer sacramental, nenhum homem antes da vinda de Cristo foi salvo: pois nenhum comeu ou bebeu corporalmente o seu corpo ou sangue; considerando que não existiam então na natureza, mas apenas estavam presentes no coração crente pela fé.

Objeção II. Outro argumento é tirado das palavras da instituição: “Isto é o meu corpo”.

Resposta. Estas palavras não devem ser compreendidas no sentido próprio (literalmente), mas por uma figura: o seu corpo sendo colocado para o sinal e selo do seu corpo. Objeta-se que quando quaisquer pessoas fazem as suas últimas vontades e testamentos, elas falam o mais claramente que podem: ora, nesta ceia, Cristo ratifica a sua última vontade e testamento; e portanto ele falou claramente, sem qualquer figura. Cristo aqui fala claramente e também por meio de uma figura: pois sempre foi o modo usual do Senhor, ao falar de sacramentos, dar o nome da coisa significada ao sinal: como em Gênesis 17:10, a circuncisão é chamada a aliança de Deus e no verso seguinte, em forma de exposição, o sinal da aliança; e em Êxodo 12:11, o cordeiro pascal é chamado a passagem dos anjos por sobre as casas dos israelitas; ao passo que de fato era apenas um sinal disso; e 1 Cor. 10:4, a rocha era Cristo; 1 Cor. 5:7, a Páscoa era Cristo. E frase semelhante há de ser achada na instituição deste sacramento no que diz respeito ao cálice, que os próprios papistas confessam ser figurativo: quando é dito, em Lucas 22, Este cálice é o novo testamento no meu sangue, isto é, um sinal, selo e penhor disso. Novamente, o tempo em que estas palavras foram proferidas deve ser considerado, e foi antes da paixão de Cristo, enquanto o seu corpo ainda não havia sido crucificado nem seu sangue derramado: e consequentemente nenhum dos dois poderia ser recebido de maneira corporal, mas somente pela fé. Novamente, Cristo não era apenas o autor, mas o ministro deste sacramento no momento de sua instituição: e se o pão tivesse sido verdadeiramente convertido no seu corpo, e o vinho no seu sangue, Cristo com as suas próprias mãos deveria ter tomado o seu próprio corpo e sangue, e tê-los dado aos seus discípulos: mais ainda, o que é mais, ele deveria, com as suas próprias mãos, ter tomado a sua própria carne e bebido o seu próprio sangue, e ter comido a si mesmo. Pois o próprio Cristo comeu o pão e bebeu o vinho, para que ele pudesse, com sua própria pessoa, consagrar a sua última ceia, como ele já havia consagrado o batismo antes. E se estas palavras devessem ser compreendidas propriamente (literalmente), cada homem precisaria ser um homicida no seu comer de Cristo.

Por fim, por meio da presença real papista, acontece que os nossos corpos deveriam ser nutridos por qualidades nuas (acidentes) sem qualquer substância, o que em toda filosofia é falso e errôneo. Para remediar isso e os absurdos semelhantes, alguns papistas (Joh. de Com. bis comp. Theolog. lib. 6. cap. 14.) fazem nove maravilhas (milagres) no sacramento:

  • A primeira, que o corpo de Cristo está na Eucaristia em tão grande quantidade quanto ele estava na cruz, e está agora no céu, e contudo não excede a quantidade do pão.

  • A segunda, que existem acidentes sem um sujeito.

  • A terceira, que o pão é convertido no corpo de Cristo, e ainda assim não é a matéria do corpo, nem é reduzido a nada.

  • A quarta, que o corpo não aumenta pela consagração de muitas hóstias, e não diminui pelo frequente receber.

  • A quinta, que o corpo de Cristo está sob muitas hóstias consagradas.

  • A sexta, que quando a hóstia é dividida, o corpo de Cristo não é dividido, mas sob cada parte dela está o Cristo inteiro.

  • A sétima, que quando o padre segura a hóstia na sua mão, o corpo de Cristo não é sentido por si mesmo nem visto, mas as formas do pão e do vinho.

  • A oitava, que quando as formas do pão e do vinho cessam, o corpo e o sangue de Cristo cessam também de estar ali.

  • A nona, que os acidentes do pão e do vinho têm os mesmos efeitos que o próprio pão e o vinho, os quais são nutrir e saciar.

Desta maneira será fácil para qualquer homem defender a opinião mais absurda que existe ou possa existir, se ele tiver liberdade para responder aos argumentos alegados em contrário através de milagres.

Para concluir, visto que há uma comunhão real no sacramento entre Cristo e cada coração crente, o nosso dever, portanto, é depositar os nossos corações em Cristo, esforçando-nos para amá-lo, para nos alegrarmos nele, e ansiar por ele acima de todas as coisas: toda a nossa confiança deve estar nele, e com ele; nós, estando agora na terra, devemos ter a nossa conversação (cidadania) no céu. E esta é a verdadeira presença real, que a antiga Igreja de Deus nos recomendou: pois em todas estas liturgias estas palavras eram usadas, e ainda existem na missa papista: Levantai os vossos corações: nós os levantamos ao Senhor. Pelas quais palavras os comunicantes eram admoestados a dirigir as suas mentes e a sua fé a Cristo, assentado à destra de Deus. Assim disse Agostinho:

Se nós celebramos a ascensão do Senhor com devoção: ascendamos com ele, e levantemos os nossos corações.

Novamente,

Aqueles que já ressuscitaram com Cristo na fé e na esperança são convidados para a grande mesa do céu, à mesa dos Anjos, ONDE ESTÁ O PÃO. (Serm de Ascens. 1.)


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