Da Eficácia dos Sacramentos
I. Nosso Consenso
Conclusão 1. Ensinamos e cremos que os sacramentos são sinais para nos representar Cristo com os Seus benefícios.
Conclusão 2. Ensinamos ainda que os sacramentos são de fato instrumentos pelos quais Deus nos oferece e concede os referidos benefícios. Até aqui, consentimos com a Igreja Romana.
II. A Diferença
A diferença entre nós [i.e., Católicos Romanos e Reformados] baseia-se em diversos pontos:
1. Em primeiro lugar, os mais eruditos entre eles ensinam que os sacramentos são instrumentos físicos, isto é, causas instrumentais verdadeiras e próprias, tendo neles força e eficácia para produzir e dar graça. Eles costumam expressar o seu significado por estas comparações: “Quando o escrivão pega a pena na mão e escreve, a ação de escrever vem da pena movida pela mão do escritor. E no cortar da madeira ou da pedra, a divisão vem da serra movida pela mão do trabalhador. Assim também a graça”, dizem eles, “que é dada por Deus, é conferida pelo próprio sacramento.” Ora, nós, da nossa parte, defendemos que os sacramentos não são instrumentos físicos, mas meramente voluntários. Voluntários, porque é da vontade e da designação de Deus usá-los como certos meios exteriores de graça. Instrumentos, porque quando os usamos corretamente, de acordo com a instituição, Deus então correspondentemente confere graça de Si mesmo. É apenas a este respeito que os tomamos por instrumentos, e não de outro modo.
2. A segunda diferença é esta: Eles ensinam que a própria ação do ministro dispensando os sacramentos — como é a obra realizada (o ex opere operato) — dá graça imediatamente, se a parte estiver preparada; como a própria lavagem ou aspersão de água no batismo e a entrega do pão na Ceia do Senhor; assim como o mover ordenado da pena sobre o papel pela mão do escritor causa a escrita. Nós defendemos o contrário, a saber, que nenhuma ação na dispensação de um sacramento confere graça como obra realizada, isto é, pela eficácia e força da própria ação sacramental em si, embora ordenada por Deus. Mas [o faz] de duas outras maneiras:
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Primeiro, pela sua significação. Pois Deus nos testifica a Sua vontade e bom prazer em parte pela Palavra da promessa e em parte pelo sacramento; os sinais representando aos olhos aquilo que a Palavra faz aos ouvidos, sendo também tipos e imagens certas daquelas mesmas coisas que são prometidas na Palavra e nenhuma outra. Sim, os elementos não são sinais gerais e confusos, mas particulares para os vários comunicantes e pela virtude da instituição. Pois quando os fiéis recebem os sinais de Deus pelas mãos do ministro, é o mesmo que se o próprio Deus — com a Sua própria boca — falasse a eles individualmente, e prometesse pelo nome a remissão dos pecados a eles. E as coisas ditas a eles particularmente afetam mais, e removem mais a dúvida, do que se fossem ditas de forma geral a toda uma companhia. Portanto, os sinais das graças são, por assim dizer, uma aplicação e vinculação da promessa de salvação a cada crente em particular. E por este meio, quanto mais vezes são recebidos, mais ajudam a nossa fraqueza e confirmam a nossa garantia de misericórdia.
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Novamente, o sacramento confere graça no sentido de que o seu sinal confirma a fé como um penhor, pelo fato de ter uma promessa anexada a ele. Pois quando Deus nos ordena a receber os sinais com fé, e simultaneamente promete aos recebedores dar a coisa significada, Ele Se obriga, por assim dizer, em um vínculo conosco, a manter a Sua própria Palavra; assim como os homens se obrigam em obrigações, apondo as suas mãos e selos de forma que não podem voltar atrás. E quando os sinais são assim usados como penhores, e isso frequentemente, eles aumentam grandemente a graça de Deus, assim como um símbolo enviado de um amigo a outro renova e confirma a persuasão do amor.
Existem as duas principais formas pelas quais se diz que os sacramentos conferem graça, a saber, em respeito à sua significação e enquanto são penhores do favor de Deus para conosco. E o exato ponto a ser considerado aqui é em que ordem e maneira eles confirmam. E a maneira é esta: Os sinais e elementos visíveis afetam os sentidos externa e internamente. Os sentidos transmitem o seu objeto à mente. A mente, dirigida pelo Espírito Santo, raciocina desta maneira, a partir da promessa anexada ao sacramento: Aquele que usa os elementos corretamente receberá graça por meio deles. “Mas eu uso os elementos corretamente em fé e arrependimento”, diz a mente do crente, “portanto receberei de Deus o aumento da graça.” Assim, pois, a fé é confirmada, não pela obra realizada, mas por um tipo de raciocínio causado na mente, cujo argumento ou prova é tomado emprestado dos elementos, sendo sinais e penhores da misericórdia de Deus.
3. A terceira diferença: Os papistas ensinam que no sacramento — pela obra realizada — a própria graça da justificação é conferida. Nós dizemos não. Porque um homem com idade suficiente deve primeiro crer e ser justificado antes que possa ser um participante adequado de qualquer sacramento. E a graça que é conferida é apenas o aumento da nossa fé, esperança, santificação, etc.
Nossas Razões
Razão 1. A Palavra pregada e os sacramentos diferem na maneira de nos dar Cristo e os Seus benefícios, porque na Palavra o Espírito de Deus nos ensina por uma voz transmitida à mente pelos ouvidos corporais; mas nos sacramentos anexados à Palavra por certos sinais sensíveis e corporais vistos pelos olhos. Os sacramentos nada mais são do que palavras e promessas visíveis. De resto, quanto ao dar em si, eles não diferem. O próprio Cristo diz que na própria palavra “come-se a sua própria carne, que ele havia de dar para a vida do mundo” (João 6:51). E o que mais se pode dizer da Ceia do Senhor? Agostinho diz que “os crentes são participantes do corpo e do sangue de Cristo no batismo.” E Jerônimo a Edibia, que “no batismo comemos e bebemos o corpo e o sangue de Cristo.” Se tanto se pode dizer do batismo, por que não pode também ser dito da Palavra pregada? Novamente, Jerônimo sobre Eclesiastes diz: “É proveitoso encher-se do corpo de Cristo, e beber o Seu sangue, não apenas em mistério, mas no conhecimento da Sagrada Escritura.” Ora, a partir disto segue-se que, visto que a obra realizada na Palavra pregada não confere graça, tampouco a obra realizada no sacramento confere qualquer graça.
Razão 2. “Eu vos batizo com água para arrependimento, mas aquele que vem após mim é mais forte do que eu… Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo” (Mat. 3:11). Daí é manifesto que a graça no sacramento não procede de nenhuma ação no sacramento. Pois João, embora não separe a si mesmo e a sua ação de Cristo e da ação do Seu Espírito, ainda assim ele os distingue claramente em número, pessoas e efeito. Com este propósito Paulo, que havia dito aos gálatas que ele “sofria dores de parto por eles” e “os gerara pelo evangelho” (Gál. 4:19), diz de si mesmo que “ele não é nada”, não apenas como ele era um homem, mas como ele era um apóstolo fiel (1 Cor. 3:7) — excluindo, desse modo, todo o ministério evangélico, do qual o sacramento é uma parte, da mínima parte de operação divina, ou eficácia em conferir a graça.
Razão 3. Os santos anjos, não, a própria carne do Filho de Deus, não tem qualquer virtude vivificante de si mesma. Mas toda essa eficácia ou virtude está na e vem da Divindade do Filho, o qual, por meio da carne apreendida pela fé, deriva vida celestial e espiritual de Si mesmo para os membros. Ora, se não há eficácia na carne de Cristo senão em razão da união hipostática, como hão de ações corporais sobre elementos corporais conferir graça imediatamente?
Razão 4. Paulo, em Romanos 4, detém-se muito nisto para provar que a justificação pela fé não é conferida pelos sacramentos. E da circunstância de tempo ele conclui que Abraão foi primeiro justificado, e depois em seguida recebeu a circuncisão, o sinal e o selo desta justiça. Ora, nós sabemos que a condição geral de todos os sacramentos é uma e a mesma, e que o batismo sucedeu à circuncisão. E o que pode ser mais claro do que o exemplo de Cornélio, em Atos 10, que, antes de Pedro chegar a ele, tinha o louvor do temor a Deus e era dotado do espírito de oração? E depois, quando Pedro, através da pregação, abriu mais completamente o caminho do Senhor, ele e o restante receberam o Espírito Santo. E depois de tudo isto eles foram batizados. Ora, se eles receberam o Espírito Santo antes do batismo, então eles receberam a remissão dos pecados e foram justificados antes do batismo.
Razão 5. O julgamento da igreja antiga.
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Basílio diz: “Se há alguma graça na água, ela não vem da natureza da água, mas da presença do Espírito.”
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Jerônimo diz: “O homem dá água, mas Deus dá o Espírito Santo.”
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Agostinho diz: “A água toca o corpo e lava o coração”, mas ele mostra o seu significado em outro lugar: “Há uma água”, diz ele, “do sacramento; outra do Espírito. A água do sacramento é visível, a água do Espírito invisível. Aquela lava o corpo e significa o que é feito na alma; por esta a alma é purgada e curada.”
Objeções
Objeção 1. A remissão dos pecados, a regeneração e a salvação são atribuídas ao sacramento do batismo [Atos 22:16; Efés. 5:26; Gál. 3:27; Tito 3:5].
Resposta. A salvação e a remissão dos pecados são atribuídas ao batismo e à Ceia do Senhor, como o são à Palavra, que é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; e isso porque eles são instrumentos do Espírito Santo para significar, selar e exibir à mente crente os referidos benefícios. Mas de fato, o instrumento próprio pelo qual a salvação é apreendida é a fé, e os sacramentos são apenas suportes da fé que promovem a salvação de duas maneiras:
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primeiro, porque pela sua significação eles ajudam a nutrir e preservar a fé;
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segundo, porque eles selam a graça e a salvação a nós.
Sim, Deus dá a graça e a salvação quando os usamos bem; contanto que creiamos na Palavra da promessa feita para o sacramento, do qual eles também são selos.
E assim nós mantemos o caminho do meio — não dando nem muito nem pouco aos sacramentos.
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