Uma Advertência a todos os Favorecedores da Religião Romana, Mostrando que a Dita Religião é Contra os Princípios Católicos e os Fundamentos do Catecismo.
Grande é o número daqueles que abraçam a religião da presente Igreja de Roma, sendo enganados pelo glorioso título de universalidade, antiguidade, sucessão. E sem dúvida, embora alguns sejam cegados intencionalmente, contudo muitos devotados a este caminho nunca viram qualquer outra verdade. Ora, deles e do restante eu desejo este favor, que eles apenas pesem e ponderem consigo mesmos esta única coisa, que agora oferecerei às suas considerações, e que é: “Que a religião romana agora estabelecida pelo Concílio de Trento, em seus pontos principais, é contra os próprios fundamentos do Catecismo que têm sido acordados desde os dias dos apóstolos, por todas as igrejas.” Estes fundamentos são quatro: o primeiro é o Credo dos Apóstolos; o segundo é o Decálogo, ou os Dez Mandamentos; o terceiro é a forma de oração chamada a Oração do Senhor [Pai Nosso]; o quarto é a Instituição dos dois sacramentos, o batismo e a Ceia do Senhor [1 Cor. 11:23].
Para que eu possa em alguma ordem manifestar isto que digo, começarei com o símbolo ou credo:
1. E primeiro de tudo deve ser considerado que algumas das principais doutrinas cridas na Igreja de Roma são: que o papa ou bispo de Roma é o vigário de Cristo e a cabeça da igreja católica; que há um fogo de purgatório após esta vida; que imagens de Deus e dos santos devem ser colocadas nas igrejas e adoradas; que oração deve ser feita aos santos falecidos e a sua intercessão deve ser requerida; que há um sacrifício propiciatório diariamente oferecido na missa pelos pecados dos vivos e dos mortos. Estes pontos são de tal importância, que sem eles a religião romana não pode subsistir. E no Concílio de Trento a maldição anátema é pronunciada sobre todos os que negam estas coisas ou qualquer uma delas. E contudo, notem: o Credo dos Apóstolos, que tem sido considerado como contendo todos os pontos necessários da religião a serem cridos — e tem, portanto, sido chamado a chave e a regra da fé — este credo, digo eu, não tem nenhum destes pontos, nem as exposições feitas dele pelos antigos pais, nem qualquer outro credo ou confissão de fé feito por qualquer concílio ou igreja pelo espaço de muitas centenas de anos. Esta é uma prova clara para qualquer homem imparcial de que estes são novos artigos de fé nunca conhecidos na igreja apostólica, e que os pais e os concílios não puderam encontrar tais artigos de fé nos livros do Antigo e do Novo Testamento. A resposta que é dada é que todos estes pontos de doutrina são cridos sob o artigo: “Creio na igreja católica”, o significado do qual eles querem que seja este: “Creio em todas as coisas que a igreja católica defende e ensina que devem ser cridas”. Se isto for como eles dizem, devemos necessariamente crer na igreja, isto é, colocar a nossa confiança na igreja para a manifestação e a certeza de todas as doutrinas necessárias à salvação. E assim, a verdade eterna de Deus o Criador dependerá da determinação da criatura; e a Palavra escrita de Deus, a este respeito, é feita insuficiente, como se não tivesse revelado claramente todos os pontos de doutrina pertinentes à salvação. E as antigas igrejas teriam sido mui negligentes, ao não proporem os referidos pontos para serem cridos como artigos de fé, mas os deixaram para estes últimos tempos.
2. Neste credo, crer em Deus e crer à igreja são distinguidos. Crer em é pertinente ao Criador; crer, à criatura. Como Rufino notou, quando diz que por esta preposição em, o Criador é distinguido da criatura, e as coisas pertencentes a Deus das coisas pertencentes aos homens. E Agostinho diz: “Deve-se saber que devemos crer à igreja, e não crer na igreja; porque a igreja não é Deus, mas a casa de Deus.” Daí se segue que não devemos crer nos santos, nem colocar a nossa confiança em nossas obras, como ensinam os eruditos papistas. Portanto, Eusébio diz: “Devemos de direito crer a Pedro e Paulo, mas crer em Pedro e Paulo, isto é, dar ao servo a honra do Senhor, não devemos.” E Cipriano diz: “Ele não crê em Deus, aquele que não coloca Nele somente a confiança de toda a sua felicidade.”
3. O artigo, concebido pelo Espírito Santo, é derrubado pela transubstanciação do pão e do vinho na missa, no corpo e sangue de Cristo. Pois aqui somos ensinados a confessar a verdadeira e perpétua encarnação de Cristo, começando na Sua concepção, e nunca terminando depois. E nós reconhecemos a verdade da Sua humanidade, e que o Seu corpo tem as propriedades essenciais de um corpo verdadeiro, consistindo de carne e osso; tendo quantidade, figura, dimensões — a saber, comprimento, largura, espessura; tendo parte fora de parte — como cabeça fora dos pés, e pés fora da cabeça — sendo também circunscrito, visível, tocável. Em uma palavra, tem nele todas as coisas que, por ordem da criação, pertencem a um corpo. Dir-se-á que o corpo de Cristo pode permanecer um corpo verdadeiro e contudo ser alterado a respeito de alguma qualidade, como nomeadamente a circunscrição. Mas eu digo de novo, que a circunscrição local de forma alguma pode ser separada de um corpo, permanecendo ele um corpo. Pois estar circunscrito em um lugar, é uma propriedade essencial de toda quantidade; e a quantidade é a essência comum de todo corpo. E, portanto, um corpo, em respeito à sua quantidade, deve necessariamente ser circunscrito em um lugar. Este foi o julgamento de Leão quando disse: “O corpo de Cristo não está de modo algum fora da verdade do nosso corpo.” E Agostinho, quando disse: “Somente Deus em Cristo de tal modo vem, que não se aparta; de tal modo retorna, que não nos deixa; mas o homem, segundo o corpo, está num lugar, e sai do mesmo lugar, e quando ele vier para outro lugar, não estará naquele lugar de onde vem.” Para remediar a questão, eles costumam distinguir assim: O corpo de Cristo a respeito de toda a sua essência pode estar em muitos lugares; mas não a respeito de toda a quantidade, pela qual está apenas em um lugar; mas como eu disse, eles falam contrariedades, pois a quantidade (por todo o aprendizado) é a essência de um corpo, sem a qual um corpo não pode ser.
4. No credo nós confessamos que Cristo ascendeu ao céu, e lá, após a Sua ascensão, assenta-se à destra do Seu Pai, e isso segundo a Sua humanidade. Daí, concluo, que o corpo de Cristo não está real e localmente no sacramento, e em cada hóstia, que o padre consagra. Este argumento era bom quando Vigílio contra Êutiques disse: “Quando ela (a carne) estava na terra, não estava no céu; e porque agora está no céu, não está na terra.” E ele acrescenta em seguida, que esta é a fé e a confissão católica. E era bom quando Fulgêncio disse: “Segundo a Sua substância humana, Ele estava ausente da terra, quando estava no céu, e Ele deixou a terra quando ascendeu ao céu.” E, “o mesmo inseparável Cristo, segundo toda a Sua humanidade deixando a terra, ascendeu localmente ao céu, e assenta-se à destra, e segundo a mesma toda a Sua humanidade Ele há de vir para o julgamento.” E era bom quando Cirilo disse: “Nenhum homem duvida mas que, quando Ele ascendeu ao céu, embora Ele esteja sempre presente pelo poder do Seu Espírito, Ele estava ausente a respeito da presença da Sua carne.” E era bom quando Agostinho disse: “Segundo a carne que o Verbo assumiu, Ele ascendeu ao céu; Ele não está aqui. Lá Ele se assenta à destra do Pai; e Ele está aqui segundo a presença da Sua majestade.” E, “Ele foi como era homem, e Ele permaneceu como era Deus; Ele foi por aquilo pelo que Ele estava num só lugar; Ele permaneceu por aquilo pelo que Ele estava em todo lugar.”
5. Novamente, no fato de crermos na igreja católica, segue-se que a igreja católica é invisível, porque coisas que se veem não são cridas. E a resposta comumente usada, de que cremos na santidade da igreja, não servirá ao propósito. Pois as palavras são claras, e nelas fazemos confissão de que cremos não apenas na santidade da igreja, mas também na própria igreja em si.
6. Por último, os artigos remissão dos pecados, ressurreição do corpo, e vida eterna, contêm uma confissão de fé especial. Pois o significado deles é tanto quanto: Eu creio na remissão dos meus próprios pecados, e na ressurreição do meu próprio corpo para a vida eterna, e isso pelo julgamento da antiguidade erudita. Agostinho diz: “Se tu também crês que hás de ressuscitar e ascender ao céu (porque estás certo de um tão grande patrono), estás certo de um tão grande dom.” E, “Não faças a Cristo menor, que te leva ao reino dos céus, para a remissão dos pecados. Sem esta fé, se alguém vem ao batismo, fecha a porta da misericórdia contra si mesmo.” E, “Todo aquele que fielmente crê, e mantém esta profissão da sua fé (na qual todos os seus pecados lhe são perdoados), prepare a sua vontade à vontade de Deus, e não tema a sua passagem pela morte.” E, “Todo o sacramento do batismo consiste nisto, que creiamos que a ressurreição do corpo e a remissão dos pecados nos são dadas por Deus.” E, “Ele deu estas chaves à igreja — para que todo aquele que na Sua igreja não cresse que os seus pecados fossem perdoados, eles não lhe fossem perdoados; e todo aquele que cresse, e se desviasse deles, permanecendo no regaço da dita igreja, por fim seria curado pela fé e emenda de vida.” E, “Aquilo que ouviste ser cumprido na gloriosa ressurreição de Cristo, crê que o mesmo será cumprido em ti, no último julgamento, e a ressurreição da tua carne te restaurará para toda a eternidade. Pois a menos que creias que hás de ser reparado pela morte, não podes chegar à recompensa da vida eterna.” E nos tempos antigos, o artigo da ressurreição era recitado desta maneira: A ressurreição desta carne, e o último aplicado a ele: Para a vida eterna. Daí, então, duas opiniões principais da Igreja de Roma são completamente derrubadas: uma, que não podemos, por uma fé especial, ter certeza da remissão dos nossos pecados e da salvação das nossas almas; a outra, que um homem verdadeiramente justificado pode cair e ser condenado. Ora, isto não pode ser, se a prática da igreja antiga for boa, a qual nos ensinou a crer na vida eterna conjuntamente com a remissão dos pecados.
Para chegar ao Decálogo:
1. Em primeiro lugar, é uma regra na exposição dos vários mandamentos que onde quer que um vício seja proibido, ali a virtude contrária é ordenada — e todas as virtudes da mesma espécie, com todas as suas causas, ocasiões e meios de promoção. Esta regra é concedida por todos; e daí se segue que os conselhos de perfeição, se têm neles qualquer promoção de virtude, são prescritos na e pela lei, e, portanto, não prescrevem nenhum estado de perfeição além do escopo da lei.
2. Segundo, o mandamento: “Não farás para ti nenhuma imagem de escultura, etc.” tem duas partes separadas: A primeira proíbe a fabricação de imagens esculpidas ou gravadas. A segunda proíbe a adoração delas. Ora, a primeira parte é notavelmente exposta por Moisés: “Guardai bem as vossas almas, para que não vos corrompais e façais para vós uma imagem de escultura ou representação de qualquer figura na semelhança de macho ou fêmea” (Deut. 4:16). Notem a razão desta proibição no mesmo lugar: “Porque”, diz ele, “não vistes imagem alguma no dia em que o Senhor vos falou em Horebe”, e, “Ouvistes a voz das palavras, mas não vistes semelhança alguma, senão uma voz” (v. 12). Ora, sendo a razão entendida da imagem do próprio Deus, a proibição deve necessariamente ser assim entendida. Novamente, não há dúvida de que Deus dirige o Seu mandamento não contra um pecado em especulação, mas contra alguma prática comum e perversa dos judeus, e essa era representar o próprio Deus em semelhanças e formas corporais [Isa. 40:18]. E essa era também a prática dos gentios, que eram mais grosseiros nesta espécie do que os judeus [Rom. 1:23]. Isto então é claro para qualquer homem imparcial, que a primeira parte do mandamento proíbe a feitura de imagens de escultura ou semelhanças do verdadeiro Jeová; e assim o catecismo Romano entende as palavras. Quanto à segunda parte, deve ser entendida de acordo com o significado da primeira; e, portanto, proíbe-nos de nos encurvarmos a qualquer imagem de Deus. Daí, então, segue-se que adorar a Deus ou aos santos em, ou junto a imagens, e adorar imagens com adoração religiosa, é uma idolatria abominável. E a razão comum poderia nos ensinar exatamente isto. Pois aqueles que adoram e reverenciam o verdadeiro Deus em imagens, prendem a presença de Deus — a Sua operação, graça, e a Sua audição de nós — a certas coisas, lugares, [e] sinais aos quais Ele não Se prendeu, quer por mandamento quer por promessa. E isto é adorar a Deus de forma diferente — e buscar as Suas bênçãos de forma diferente — daquela em que Ele mesmo ordenou ser adorado, ou prometeu nos ouvir. Sobre este fundamento é claramente derrubada a desculpa que eles dão, de que não adoram imagens, mas a Deus e aos santos nas imagens; pois nem Deus nem os santos reconhecem este tipo de honra, mas eles a abominam. Donde se segue necessariamente que eles não adoram nada além da imagem, ou da invenção da sua própria mente, na qual forjam para si mesmos um tal Deus que quer ser adorado e receber as nossas orações em imagens. Dir-se-á que os papistas não prendem de outra forma a adoração e invocação de Deus às imagens do que Deus prendeu a Si mesmo ao santuário e ao templo de Salomão. E eu digo de novo, foi da vontade de Deus que Ele quisesse mostrar a Sua presença e ser adorado no santuário, e os judeus tinham a garantia da Palavra de Deus para isso. Mas nós não temos nenhuma garantia semelhante — quer por promessa quer por mandamento — para prender a presença de Deus a uma imagem ou crucifixo. Novamente, a razão pode ainda descobrir mais da sua idolatria. Eles, que adoram o que não conhecem, adoram um ídolo; mas os papistas adoram o que não conhecem. Eu provo isto assim: Para a consagração da hóstia, é requerida a intenção do padre, pelo menos virtualmente, como eles dizem. E se isto for verdade, segue-se que nenhum deles pode vir à missa ou orar com fé, mas ele deve sempre duvidar daquilo que é levantado pelas mãos do padre na missa, se é pão ou o corpo e o sangue de Cristo. Pois nenhum pode ter qualquer certeza da intenção do padre em consagrar este pão e este vinho, mas antes pode ter uma justa ocasião para duvidar, em razão da ignorância comum e da frouxidão de vida em tais pessoas.
3. Terceiro, o mandamento tocante ao Sábado dá uma liberdade para trabalhar seis dias nos negócios ordinários de nossos chamados — e esta liberdade não pode ser revogada por criatura alguma. A Igreja de Roma, portanto, erra ao prescrever dias fixos e ordinários de festividades, não apenas para Deus, mas também para os santos — ordenando que sejam observados tão estritamente e com tanta solenidade quanto o Sábado do Senhor.
4. Quarto, o quinto mandamento, ou (como eles dizem) o quarto, ordena aos filhos que obedeçam a pai e mãe em todas as coisas, especialmente em assuntos de importância, como em seu casamento e escolha de seus chamados, e isso até a morte. E contudo a Igreja de Roma, contra a intenção deste mandamento, permite que casamentos clandestinos, e o voto de religião, tenham vigor, ainda que sejam sem e contra o consentimento de pais sábios e cuidadosos.
5. Quinto, o último mandamento, sobre a cobiça, proíbe os primeiros movimentos para o pecado que ocorrem antes do consentimento. Eu o provo assim: Cobiçar é proibido nos mandamentos anteriores tanto quanto no último; sim, a cobiça que é unida com consentimento. Como no mandamento, “Não cometerás adultério”, é proibida a cobiça pela mulher do nosso próximo; e no seguinte, a cobiça pelos bens do nosso próximo, etc. Ora, se o último mandamento também não proíbe mais nada além de cobiça com consentimento, ele confunde-se com o resto. E por este meio não haverá dez palavras distintas, ou mandamentos, o que dizer é um absurdo. Resta, portanto, que a cobiça aqui proibida vem antes do consentimento. Novamente, os filósofos sabiam que a cobiça com consentimento era má, até mesmo pela luz da natureza. Mas Paulo, um erudito Fariseu, e portanto mais que um filósofo, não sabia que a cobiça era pecado, aquilo que é proibido neste mandamento [Rom. 7:7]. A cobiça, portanto, que é proibida aqui, é sem consentimento. Iníqua, pois, é a doutrina da igreja Romana, ensinando que “em todo pecado mortal é exigido um ato comandado pela vontade”. E daí eles dizem: “Muitos pensamentos contra a fé e imaginações impuras não são pecados.”
6. Por último, as palavras do segundo mandamento: “e faço misericórdia a milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos”, derrubam todos os méritos humanos. Pois se a recompensa é dada por misericórdia àqueles que guardam a lei, não é dada pelo mérito da obra feita.
Para chegar à terceira parte do Catecismo: A Oração do Senhor é uma forma mui absoluta e perfeita de oração. Por cuja causa foi chamada por Tertuliano: “O breviário do evangelho.” E Celestino diz: “A lei de orar é a lei de crer, e a lei de obrar.”
1. Ora, nesta oração somos ensinados a dirigir as nossas orações a Deus somente, “Pai Nosso, etc.”, e isso apenas no nome e mediação de Cristo. Pois Deus é o nosso Pai apenas por meio de Cristo. É desnecessário, portanto, usar de qualquer invocação de santos, ou fazê-los nossos mediadores de intercessão junto a Deus. E é suficiente se orarmos apenas a Deus em nome somente de Cristo.
2. Na quarta petição, dizemos assim: “O pão nosso de cada dia nos dá”. Nas quais palavras, nós reconhecemos que cada bocado de pão é o mero dom de Deus. Que loucura, então, é para nós pensar que deveríamos merecer o reino dos céus pelas obras, se estas não podem merecer nem sequer o pão?
3. Na petição seguinte: “Perdoa-nos as nossas dívidas”, quatro opiniões da religião romana são diretamente derrubadas: A primeira é concernente às satisfações humanas. Pois o filho de Deus é aqui, após a sua conversão, ensinado a humilhar-se dia após dia, e a orar pelo perdão dos seus pecados diários. Ora, fazer satisfação e suplicar por perdão são coisas contrárias. A segunda opinião aqui derrubada é no tocante a méritos. Pois nós nos reconhecemos como devedores a Deus, sim, falidos. E que além da soma principal de muitos milhares de talentos, aumentamos diariamente a dívida; portanto, não podemos de modo algum merecer nenhuma das bênçãos de Deus. É mera loucura pensar que aqueles que não podem pagar as suas dívidas, mas antes as aumentam dia a dia, deveriam merecer ou comprar quaisquer dos bens dos credores, ou o perdão das suas dívidas. E se algum favor lhes [é] mostrado, vem de mera boa vontade sem o mínimo merecimento. Em uma palavra, deve-se pensar nisto: que se tudo o que podemos fazer não nos impedirá de aumentar a soma principal de nossa dívida, muito menos seremos capazes, por qualquer mérito, de diminuí-la. Com justa razão, portanto, todos os servos de Deus se prostrarão e orarão: “Perdoa-nos as nossas dívidas”. A terceira opinião é que o castigo pode ser retido, sendo a culpa inteiramente perdoada. Mas isso não pode subsistir, pois aqui o pecado é chamado de nossa dívida. Porque por natureza devemos a Deus a obediência, e pela falta deste pagamento, passamos a dever a Ele o confisco da punição. O pecado, então, é chamado a nossa dívida em respeito à punição. E, portanto, quando oramos pelo perdão do pecado, nós exigimos o perdão não apenas da culpa, mas de toda a punição. E quando uma dívida é perdoada, é um absurdo pensar que o menor pagamento ainda restaria. A quarta opinião é que um homem nesta vida pode cumprir a lei, sendo que neste lugar todo servo de Deus é ensinado a pedir um perdão diário pela quebra da lei. A resposta que é dada é que os nossos pecados diários são veniais e não contra a lei, mas à margem da lei. Mas isto que eles dizem é contra a petição; pois uma dívida que vem por confisco é contra o vínculo ou obrigação. Ora, todo pecado é uma dívida que causa o confisco da punição, e portanto não está à margem — mas diretamente contra — a lei.
4. Nesta cláusula: “assim como nós perdoamos aos nossos devedores”, é tomado como certo que podemos saber com certeza que estamos em amor e caridade com os homens, quando fazemos reconciliação. Por que, então, não podemos nós saber com certeza que nos arrependemos e cremos e estamos reconciliados com Deus, o que todos os Católicos Romanos negam?
5. Nas últimas palavras: “e não nos deixes cair em tentação”, nós oramos não para que Deus nos livre da tentação — pois algumas vezes é bom ser tentado [Sal. 26:1] — mas para que não sejamos entregues à malícia de Satanás e mantidos cativos da tentação. Pois aqui, o ser levado à tentação, e o ser liberto, são opostos. Ora, daqui eu concluo que aquele que é um filho de Deus verdadeiramente justificado e santificado, nunca cairá total e finalmente da graça de Deus. E eu concluo desta maneira: Aquilo que pedimos segundo a vontade de Deus nos será concedido. Mas isto o filho de Deus pede: que ele nunca seja totalmente abandonado por seu Pai e deixado cativo na tentação [1 João 5:14]. Isto, portanto, lhe será concedido.
6. Esta cláusula: “Amém”, significa uma fé especial no tocante a todas as petições anteriores, de que elas serão concedidas, e, portanto, uma fé especial concernente à remissão de pecados, a qual a Igreja Romana nega.
Para chegar ao último lugar, à instituição do sacramento da Ceia do Senhor [1 Cor. 11:23]:
1. Na qual, em primeiro lugar, a presença real é por muitas circunstâncias derrubada. Das palavras: “ele tomou e partiu”, é evidente que [aquilo] que Cristo tomou não foi o Seu corpo, porque não se pode dizer que com Suas próprias mãos Ele tenha tomado, segurado e partido a Si mesmo — mas ao próprio pão. 2. Novamente, Cristo não disse: “sob a forma do pão”, ou “no pão”, mas “Isto”, ou seja, “o pão é o meu corpo”. 3. O pão não foi dado por nós, mas apenas o corpo [de] Cristo. E nesta primeira instituição, o corpo de Cristo não foi realmente entregue à morte. 4. O cálice “é o Novo Testamento” por uma figura; por que não pode o pão ser o corpo de Cristo também por uma figura? 5. Cristo comeu a ceia, mas não a Si mesmo. 6. A nós é ordenado fazê-lo “até que Ele venha”. Cristo, portanto, não está corporalmente presente. 7. Cristo ordena que o pão seja comido “em memória Dele”, mas sinais de memória são de coisas ausentes. 8. Se a presença real papista for concedida, então o corpo e o sangue de Cristo estão ou separados ou unidos. Se separados, então Cristo ainda está crucificado. Se unidos, então o pão é tanto o corpo quanto o sangue de Cristo; ao passo que a instituição diz: “O pão é o corpo, e o vinho é o sangue.”
2. Novamente, aqui é condenada a administração do sacramento sob uma única espécie. Pois o mandamento de Cristo é: “Bebei dele todos” (Mat. 26:27). E este mandamento é recitado à igreja de Corinto nestas palavras: “Fazei isto todas as vezes que beberdes, em memória de mim” (1 Cor. 11:25). E nenhum poder pode revogar este mandamento, porque foi estabelecido pela soberana cabeça da igreja.
Estas poucas linhas, bem como o tratado anterior, eu ofereço à vista e à leitura daqueles que favorecem a religião romana — desejando-lhes com paciência que considerem esta única coisa, que a sua religião, se fosse católica e apostólica (como eles fingem), não poderia ser contrária, nem sequer em um único ponto, aos fundamentos de todos os catecismos que têm sido usados nas igrejas que confessam o nome de Cristo desde os dias dos apóstolos. E como ela contraria os referidos fundamentos em vários pontos da doutrina (como eu provei), é um claro argumento de que a presente religião romana está degenerada. Não escrevo isto desprezando ou odiando as suas pessoas por causa de sua religião, mas desejando não fingidamente a sua conversão neste mundo, e a sua salvação no mundo vindouro.
FIM.
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