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#14 – Sobre O Estado De Perfeição

Do Estado de Perfeição

I. Nosso Consenso

O nosso consenso eu estabelecerei em duas conclusões.

Conclusão 1. Todos os verdadeiros crentes têm um estado de verdadeira perfeição nesta vida. “Sede vós perfeitos como o vosso Pai celestial é perfeito” (Mat. 5:48). “Noé era homem justo e perfeito em sua época, e andava com Deus” (Gên. 6:9). “Anda em minha presença e sê perfeito” (Gên. 17:1). E diz-se de vários reis de Judá que andaram retamente perante Deus com um coração perfeito, como Davi, Josias, Ezequias, etc. E Paulo considera a si mesmo, com o restante dos fiéis, como perfeito, dizendo: “Todos nós, que somos perfeitos, sintamos isto mesmo” (Fil. 3:15). Ora, esta perfeição tem duas partes: A primeira é a imputação da perfeita obediência de Cristo, que é o fundamento e a fonte de toda e qualquer perfeição nossa. “Por uma só oblação”, isto é, por Sua obediência em Sua morte e paixão, “ele consagrou”, ou aperfeiçoou, “para sempre os que creem” (Heb. 10:14). A segunda parte da perfeição cristã é a sinceridade, ou retidão, consistindo em duas coisas:

  • A primeira é reconhecer a nossa imperfeição e indignidade a respeito de nós mesmos. E logo após, embora Paulo tivesse dito que era perfeito, contudo ele acrescenta ainda que ele “não considerava a si mesmo como tendo alcançado a perfeição — mas esquecia-se das coisas que ficavam para trás e avançava para as que estavam adiante” (Fil. 3:13, 15). Aqui, portanto, deve ser lembrado que a perfeição de que falo pode subsistir com diversas faltas e imperfeições. É dito de Asa que o seu “coração foi perfeito para com Deus todos os seus dias” (1 Reis 15:14), e contudo “ele não tirou os altos” (2 Crôn. 15:17), e estando doente dos pés, “confiou nos médicos e não no Senhor” (2 Crôn. 16:12).

  • Segundo, esta retidão consiste em um propósito, esforço e cuidado constantes de guardar não alguns poucos, mas todos e cada um dos mandamentos da lei de Deus, como Davi diz: “Então não ficaria confundido, quando eu atentar para todos os teus mandamentos” (Salmo 119:6). E este esforço é um fruto da perfeição, na medida em que procede de um homem regenerado. Pois assim como todos os homens, através da queda de Adão, têm em si por natureza as sementes de todo pecado — nenhum excetuado, nem mesmo o pecado contra o Espírito Santo — assim, pela graça da regeneração, através de Cristo, todos os fiéis têm neles, de igual modo, as sementes de todas as virtudes necessárias à salvação. E, diante disso, eles tanto podem quanto se esforçam para render perfeita obediência a Deus de acordo com toda a lei. E eles podem ser chamados de perfeitos, como uma criança é chamada de um homem perfeito — embora lhe falte a perfeição da idade, da estatura e da razão — contudo tem a perfeição das partes, porque tem toda e qualquer parte e faculdade, tanto do corpo quanto da alma, que se exige para ser um homem perfeito.

Conclusão 2. Existem certas obras de supererrogação — isto é, obras tais que não apenas correspondem à lei e, por conseguinte, merecem a vida eterna, mas vão além da lei e merecem mais do que a lei, por si só, pode fazer com que qualquer homem mereça. Mas onde podemos encontrar estas obras? Não na pessoa de qualquer mero homem ou anjo — nem em todos os homens e anjos — mas apenas na Pessoa de Cristo, Deus e homem, cujas obras não apenas correspondem à perfeição da lei, mas vão muito além dela. Pois primeiro, a obediência da Sua vida, considerada isoladamente por si mesma, correspondeu até mesmo ao rigor da lei. E, portanto, os sofrimentos da Sua morte e paixão foram mais do que a lei poderia exigir de Suas mãos, considerando que ela não exige punição Daquele que é cumpridor de todas as coisas nela contidas. Segundo, o próprio rigor da lei exigia obediência apenas daqueles que são meros homens; mas a obediência de Cristo foi a obediência de uma Pessoa que era tanto Deus quanto homem. Terceiro, a lei exige obediência pessoal — isto é, que cada homem cumpra a lei por si mesmo — e não fala de nada mais. Cristo obedeceu à lei por Si mesmo, não porque Ele, por Sua obediência, tenha merecido a Sua própria glória — mas porque Ele deveria ser um sumo sacerdote perfeito e puro, não apenas na natureza, mas também na vida. E como Ele era uma criatura, Ele deveria ser conforme à lei. Ora, a obediência que Cristo realizou não foi apenas para Si mesmo, mas serve também para todos os eleitos. E considerando que era a obediência de Deus, como Paulo significou quando disse: “apascentai a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (Atos 20:28), ela foi suficiente para muitos milhares de mundos. E por essa razão, a lei não exige obediência Daquele que é Deus — esta obediência, portanto, pode verdadeiramente ser chamada de uma obra de supererrogação. Esta nós reconhecemos, e além desta não ousamos reconhecer nenhuma. E até aqui concordamos com a Igreja de Roma na doutrina do estado de perfeição — e mais além não ousamos ir.

II. A Diferença

Os papistas defendem (como ensinam os escritos dos eruditos entre eles) que um homem, estando em estado de graça, pode não apenas guardar todos os mandamentos da lei, e com isso merecer a sua própria salvação, mas também ir além da lei, e fazer obras de supererrogação que a lei não exige — como cumprir o voto de vida celibatária, e o voto de obediência regular, etc. “E por este meio”, dizem eles, “os homens merecem um maior grau de glória do que a lei pode proporcionar”. Da perfeição eles fazem dois tipos: Um eles chamam de perfeição necessária, que é o cumprimento da lei em cada mandamento, por meio da qual a vida eterna é merecida. O segundo é a perfeição proveitosa, quando os homens não apenas fazem as coisas que a lei exige, mas, acima e além disso, eles fazem certos votos e realizam certos outros deveres que a lei não prescreve — pelo cumprimento dos quais eles serão recompensados com uma maior medida de glória do que a lei designa. Isto eles tornam claro por comparação: Dois soldados lutam no campo sob um e o mesmo capitão. Um apenas mantém a sua posição e com isso merece o seu soldo; o outro, ao manter a sua posição, também conquista o estandarte dos inimigos ou realiza alguma outra proeza notável. Ora, este homem — além do seu soldo — merece alguma recompensa maior. “E assim”, dizem eles, “é com todos os verdadeiros Católicos no estado de graça. Aqueles que guardam a lei terão a vida eterna; mas aqueles que fazem mais que a lei, como obras de supererrogação, serão coroados com maior glória”. Esta é a doutrina deles. Mas nós, pelo contrário, ensinamos que, embora devamos nos esforçar por uma perfeição o máximo que pudermos, contudo nenhum homem pode cumprir a lei de Deus nesta vida, muito menos fazer obras de supererrogação. Para a confirmação do que, estas razões podem ser usadas:

Razão 1. Na lei moral, duas coisas são ordenadas. Primeiro, o amor a Deus e ao homem. Segundo, a maneira deste amor. Ora, a maneira de amar a Deus é amá-Lo com todo o nosso coração e força. “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua força, e de todo o teu entendimento, etc.” (Lucas 10:27). Como Bernardo disse, “a medida de amar a Deus é amá-Lo sem medida”, e isso é amá-Lo com a maior perfeição de amor que pode caber a uma criatura. Daí se segue que, em amar a Deus, nenhum homem pode possivelmente fazer mais do que a lei exige. E, portanto, o cumprimento de quaisquer votos que sejam, e todos os deveres semelhantes, fica aquém da intenção ou escopo da lei.

Razão 2. A abrangência da lei é grande e compreende nela mais do que a mente do homem pode conceber à primeira vista; pois cada mandamento tem duas partes, a negativa e a afirmativa. Na negativa, é proibido não apenas o pecado capital nomeado — como homicídio, roubo, adultério, etc. — mas todos os pecados do mesmo tipo com todas as ocasiões e provocações para tal. E na afirmativa é ordenado não apenas as virtudes contrárias — como o amor a Deus, e o amor à honra, vida, castidade, bens e bom nome do nosso próximo — mas o uso de todas as ajudas e meios pelos quais as referidas virtudes possam ser preservadas, promovidas e praticadas. Assim o próprio nosso Salvador Cristo expôs a lei [Mateus 5, 6]. Sobre este claro fundamento eu concluo que todos os deveres pertinentes à vida e aos costumes entram na lista de algum mandamento moral. E que os papistas — fazendo das suas obras de supererrogação meios para promover o amor a Deus e ao homem — devem necessariamente trazê-las para debaixo da abrangência da lei. Debaixo da qual, se estiverem, eles não podem possivelmente ir além da mesma.

Razão 3. “Quando tiverdes feito todas aquelas coisas que vos são ordenadas, somos servos inúteis: fizemos o que era nosso dever fazer” (Lucas 17:10). Os papistas respondem que somos inúteis para Deus, mas não para nós mesmos. Mas esta evasiva deles está fora da própria intenção da passagem. Pois um servo, ao cumprir o seu dever, é inútil até para si mesmo e sequer merece agradecimentos das mãos do seu senhor. Como Cristo diz: “Dá ele graças a esse servo?” (v. 9). Segundo, eles respondem que somos servos inúteis em fazer as coisas ordenadas, contudo quando fazemos coisas prescritas no caminho de conselho, podemos ser úteis a nós mesmos, e merecer por meio disso. Mas esta resposta não se sustenta com a razão. Pois as coisas ordenadas, pelo fato de serem ordenadas, são mais excelentes do que as coisas deixadas à nossa liberdade, porque a vontade e o mandamento de Deus conferem excelência e bondade a elas. Novamente, considera-se que os conselhos sejam mais difíceis do que os mandamentos da lei. E se os homens não podem ser úteis a si mesmos pela obediência aos preceitos morais, que são mais fáceis, muito menos serão capazes de ser úteis a si mesmos pelos conselhos, que são de maior dificuldade.

Razão 4. Se não está na capacidade e no poder do homem guardar a lei, então muito menos ele é capaz de fazer qualquer obra que esteja além e acima de tudo o que a lei exige. Mas nenhum homem é capaz de cumprir a lei, e portanto nenhum homem é capaz de supererrogar. Aqui os papistas negam a proposição: “Pois”, dizem eles, “embora não guardemos a lei, contudo podemos fazer coisas de conselho acima da lei, e desse modo merecer”. Mas, com licença deles, eles falam de forma absurda. Pois, na razão comum, se um homem falha no menor, ele não pode senão falhar no maior. Ora (como eu disse), na doutrina papista, é mais fácil obedecer à lei moral do que cumprir os conselhos de perfeição.

III. Objeções dos Papistas

Objeção 1. O Senhor diz: “Aos eunucos que guardam o seu sábado, e escolhem a coisa que lhe agrada, ele dará um lugar e um nome melhor do que filhos e filhas” (Isa. 56:4). “Ora”, dizem eles, “um eunuco é aquele que vive uma vida celibatária e guarda o voto de castidade, e diante disto diz-se que ele merece uma maior medida de glória.” Resposta. Se as palavras forem bem consideradas, elas não provam nada disso. Pois a honra é prometida aos eunucos, não porque eles fazem e cumprem o voto de vida celibatária, mas porque (como o texto diz) eles observam o sábado do Senhor, e escolhem a coisa que agrada a Deus, e guardam a Sua aliança, a qual é crer na Palavra de Deus e obedecer aos mandamentos da lei moral.

Objeção 2. Cristo diz: “Existem alguns que se fizeram castos por causa do reino dos céus” (Mat. 19:12). Portanto, o voto de vida celibatária é justificável e é uma obra de glória especial no céu. Resposta. O significado deste texto é que alguns, tendo recebido o dom da continência, voluntariamente se contentam com o estado de solteiro para que possam, com mais liberdade e sem distração, promover o bom estado da igreja de Deus ou o reino da graça em si mesmos e nos outros. Isso é tudo o que se pode concluir desta passagem — portanto, não se pode concluir daí o mérito da glória eterna pela vida celibatária.

Objeção 3. Cristo diz ao jovem: “Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu” (Mat. 19:21). “Portanto”, dizem eles, “um homem, ao abandonar tudo, pode merecer não apenas o céu, mas também um tesouro lá — isto é, uma medida excelente de glória.” Resposta. Este jovem, sendo com toda probabilidade um fariseu dos mais estritos, pensou em merecer a vida eterna pelas obras da lei, como a sua primeira pergunta transmite: “Bom mestre, que farei para ser salvo?” E, portanto, Cristo passa a descobrir a ele a corrupção secreta do seu coração. E por causa disso, as palavras alegadas são um mandamento de provação não comum a todos, mas especial para ele. Mandamento semelhante o Senhor deu a Abraão, dizendo: “Abraão, toma o teu único filho Isaque, e oferece-o sobre a montanha que eu te mostrarei” (Gên. 22:2).

Objeção 4. Paulo diz: “É bom para [todos] ficarem solteiros como ele” (1 Cor. 7:8). E ele diz: “É melhor para as virgens não se casarem” (v. 38). E “isto ele fala por permissão, não por mandamento” (v. 25). Resposta. Aqui a vida celibatária não é preferida de modo absoluto, mas apenas em relação à necessidade presente, porque a igreja estava então sob perseguição; e porque aqueles que vivem uma vida celibatária estão livres das preocupações e distrações do mundo.

Objeção 5. [1 Cor. 9:15, 17, 18.] Paulo pregou o evangelho gratuitamente, e isso foi mais do que ele estava obrigado a fazer — e por assim fazer ele teve uma recompensa. Resposta. Estava geralmente na liberdade de Paulo pregar o evangelho gratuitamente ou não o fazer. Mas em Corinto, sob circunstâncias especiais, ele estava obrigado em consciência a pregá-lo gratuitamente como fez, por causa dos falsos mestres, que de outra forma teriam aproveitado a ocasião para desonrar o seu ministério e teriam impedido a glória de Deus. Ora, era dever de Paulo, por todos os meios, prevenir os obstáculos do evangelho e da glória de Deus — e se ele não tivesse feito assim, ele teria abusado da sua liberdade (v. 18). Portanto, ele não fez mais nesse caso do que a própria lei exigia. Pois uma ação indiferente, ou uma ação na nossa liberdade, deixa de estar na nossa liberdade e torna-se moral no caso de ofensa (escândalo). O que é mais livre e indiferente do que comer carne? Contudo, no caso de ofensa, Paulo disse que ele “não comeria carne enquanto o mundo existisse” (1 Cor. 8:13).


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