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#10 – Sobre As Imagens

Das Imagens

Nosso Consenso com Roma

Conclusão I.

Nós reconhecemos o uso civil das imagens tão livre e verdadeiramente quanto a Igreja de Roma o faz. Por uso civil eu entendo aquele uso que se faz delas nas sociedades comuns dos homens, fora dos lugares designados para a adoração solene a Deus. E que isto seja lícito, parece claro: porque as artes de pintar e gravar são ordenança de Deus: e ser hábil nelas é dom de Deus, como declara o exemplo de Bezalel e Aoliabe, Êxodo 35:30. Este uso de Imagens pode ser em várias coisas. I. No adorno e decoração de edifícios: assim Salomão embelezou seu trono com a imagem de leões. E o Senhor ordenou que o seu templo fosse adornado com as imagens de palmeiras, de romãs, de touros, de querubins e coisas semelhantes. II. Serve para a distinção de moedas: de acordo com a prática de Imperadores e Príncipes de todas as nações. Quando perguntaram a Cristo, em Mateus 22, se era lícito dar tributo a César ou não, ele pediu um denário e disse: de quem é esta imagem ou inscrição? Eles disseram: de César. Ele então disse: dai a César as coisas que são de César; não condenando, mas aprovando o selo [estampa] ou imagem em sua moeda. E embora fosse proibido aos judeus fazer imagens como forma de representação, ou adoração do Deus verdadeiro: contudo, o siclo do santuário, que eles usavam, especialmente após o tempo de Moisés, era carimbado com a imagem da amendoeira, e do pote de Maná. III. As imagens servem para manter na memória os amigos falecidos a quem reverenciamos. E é provável que daí veio uma ocasião para as imagens que agora estão em uso na Igreja Romana. Pois nos dias após os Apóstolos, os homens costumavam guardar em particular as pinturas de seus amigos falecidos: e esta prática depois se infiltrou na congregação aberta; e por fim, ganhando força a superstição, as imagens começaram a ser adoradas.

Conclusão II.

Nós defendemos que o uso histórico de imagens é bom e lícito: e isto é, para representar aos olhos os atos das histórias, sejam elas humanas ou divinas; e assim pensamos que as histórias da Bíblia podem ser pintadas em lugares privados.

Conclusão III.

Em um caso é lícito fazer uma imagem para testemunhar a presença ou os efeitos da majestade de Deus, a saber, quando o próprio Deus dá algum mandamento especial para assim fazer. Neste caso, Moisés fez e erigiu uma serpente de bronze, para ser um tipo, sinal ou imagem para representar Cristo crucificado (João 3:14). E os Querubins sobre o propiciatório serviam para representar a majestade de Deus, a quem os anjos estão sujeitos. E no segundo mandamento não é simplesmente dito: Não farás imagem de escultura: mas com limitação, Não farás para ti mesmo, isto é, por tua própria cabeça, segundo a tua própria vontade e prazer.

Conclusão IV.

As imagens verdadeiras do Novo Testamento, que nós defendemos e reconhecemos, são a doutrina e a pregação do evangelho, e todas as coisas que, pela Palavra de Deus, a isso pertencem. Gál. 3: Quem vos enfeitiçou para não obedecerdes à verdade, perante os olhos de quem Jesus Cristo foi antes DESCRITO E CRUCIFICADO ENTRE VÓS. Daí se segue que a pregação da Palavra é como uma pintura excelentíssima na qual Cristo e os seus benefícios são vivamente representados a nós. E não discordamos de Orígenes (contra Cels. lib. 8) que diz: Não temos imagens formadas por nenhum artífice vil, mas sim aquelas que são produzidas e formadas pela palavra de Deus, a saber, padrões de virtude e formas que se assemelham aos cristãos. Ele quer dizer que os próprios cristãos são as imagens dos cristãos.

A Diferença com Roma

Nossa dissidência em relação a eles no tocante às imagens baseia-se em três pontos:

A Primeira Diferença

A Igreja de Roma defende ser lícito para eles fazerem imagens para assemelhar-se a Deus, embora não em relação à sua natureza divina; contudo em relação a algumas propriedades e ações. Nós, pelo contrário, defendemos ser ilícito para nós fazer qualquer imagem, de qualquer forma, para representar o Deus verdadeiro: ou, fazer uma imagem de qualquer coisa na forma de religião, para adorar a Deus, e muito menos a criatura por meio dela. Pois o segundo mandamento diz claramente, Êxodo 20:4: Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há nos céus, etc. Os papistas dizem que o mandamento se refere às imagens de falsos deuses. Mas, quer eles queiram quer não, isto deve ser entendido das imagens do verdadeiro Jeová: e nos proíbe de assemelhar a Deus, seja em sua natureza, propriedades, ou obras, ou de usar qualquer semelhança dele para qualquer uso sagrado; como para ajudar a memória, quando estamos prestes a adorar a Deus. Tudo isso o Espírito Santo, que é o melhor expositor de si mesmo, ensina muito claramente, Deut. 4:15, 16. Não vistes imagem alguma (seja de falso ou verdadeiro deus) e portanto não fareis nenhuma semelhança de coisa alguma. E novamente o Profeta Isaías (40:18), reprovando os idólatras, pergunta a quem eles assemelharão a Deus, ou, que semelhança lhe aplicarão. E no versículo 21: Não sabeis nada? não tendes ouvido? não vos foi DITO DESDE O PRINCÍPIO? como se dissesse: esquecestes o segundo mandamento, que Deus deu a vossos pais? E assim ele reprova categoricamente a todos os que assemelham o Deus verdadeiro em imagens.

Mas eles dizem ainda que, por imagens no segundo mandamento se referem a ídolos, isto é (dizem eles) coisas tais que os homens adoram como deuses. Nós respondemos: se assim fosse, nós confundiríamos o primeiro e o segundo mandamentos. Pois o primeiro, “Não terás outros deuses diante da minha face”, proíbe todos os falsos deuses, os quais o homem perversamente forja para si mesmo, ao dar seu coração e as afeições principais deste a eles: e, portanto, ídolos também são aqui proibidos, quando são estimados como deuses. E a distinção que eles fazem de que uma imagem é a representação de coisas verdadeiras, e um ídolo de coisas supostas, é falsa.

Os antigos Teólogos concordam com tudo isto que eu disse:

  • Tertuliano diz que toda forma ou representação deve ser chamada de um ídolo. (de Idol. Lib 3)

  • Isidoro diz que os pagãos usavam os nomes de imagem e ídolo indiferentemente em uma e mesma significação. (Etym. l. 8).

  • Santo Estêvão em sua apologia, Atos 7:41, chama o bezerro de ouro de um ídolo.

  • Jerônimo diz que os ídolos são imagens de homens mortos. (sobre Isa. 37)

  • Lactâncio diz, Inst. lib. 2. cap. 19. Onde há imagens por causa da religião, não há religião.

  • O Concílio de Elvira, cânon 36, decretou que nada deveria ser pintado nas paredes das igrejas, que seja adorado pelo povo.

  • Orígenes diz: Nós não permitimos a ninguém adorar Jesus em altares, imagens e templos: PORQUE ESTÁ ESCRITO, Não terás outros deuses. (contra Celsum. lib. 7)

  • E Epifânio diz: É contra a autoridade das Escrituras ver a imagem de Cristo, ou de quaisquer Santos pendurada na Igreja. No sétimo Concílio de Constantinopla estas palavras de Epifânio são citadas contra os Encratitas. Sede lembrados, filhos amados, de não trazer imagens para a Igreja, nem as colocar nos lugares onde os Santos estão enterrados, MAS CARREGAI SEMPRE A DEUS EM VOSSOS CORAÇÕES: nem permitais que sejam toleradas em qualquer casa comum: pois não é conveniente que um Cristão seja ocupado pelos olhos, mas pela meditação da mente. (Epist. ad Joh. Heirs)

Argumentos dos Papistas

As razões que eles usam para defender as suas opiniões são estas.

Objeção I No templo de Salomão foram erigidos Querubins, que eram imagens de anjos, sobre o Propiciatório onde Deus era adorado: e por meio disso era assemelhada a majestade de Deus, portanto é lícito fazer imagens para assemelhar-se a Deus. Resposta Eles foram erigidos por mandamento especial de Deus, que prescreveu a própria forma deles e o lugar onde deveriam ser colocados: e com isso Moisés teve garantia para fazê-los; caso contrário ele teria pecado: que eles mostrem garantia semelhante para as suas imagens, se puderem. Em segundo lugar, os Querubins foram colocados no santo dos santos no lugar mais interior do Templo, e consequentemente foram removidos da vista do povo, que apenas ouvia falar deles e ninguém além do sumo sacerdote os via, e isso apenas uma vez ao ano. E os Querubins fora do véu, embora devessem ser vistos, contudo não deviam ser adorados. Êxodo 20:4. Portanto eles não servem absolutamente para nada a fim de justificar as imagens da Igreja de Roma.

Objeção II Deus apareceu na forma de um homem a Abraão, Gên. 18, e a Daniel, que viu o ancião de dias assentado sobre um trono, Dan. 9. Ora, assim como Deus apareceu, assim pode ele ser assemelhado: portanto (dizem eles) é lícito assemelhar-se a Deus na forma de um homem ou qualquer imagem semelhante na qual ele se mostrou aos homens. Resposta Nesta razão a proposição é falsa, pois Deus pode aparecer em qualquer forma que agrade à sua majestade; contudo não se segue que o homem deva, portanto, assemelhar a Deus naquelas formas: o homem não tendo liberdade para assemelhá-lo em qualquer forma: a menos que lhe seja ordenado assim fazer. Novamente, quando Deus apareceu na forma de um homem, aquela forma foi um sinal da presença de Deus apenas para o momento em que Deus apareceu e não mais do que isso: como o pão e o vinho no sacramento são sinais do corpo e do sangue de Cristo, não para sempre, mas para o tempo da administração: pois depois se tornam de novo como pão e vinho comuns. E quando o Espírito Santo apareceu na semelhança de uma pomba, aquela semelhança foi um sinal da sua presença não por mais tempo do que o Espírito Santo assim apareceu. E, portanto, aquele que nestas formas quisesse representar a Trindade, desonra grandemente a Deus, e faz aquilo para o qual não tem garantia.

Objeção III O homem é a imagem de Deus, mas é lícito pintar um homem, e, portanto, fazer a imagem de Deus. Resposta Uma verdadeira cavilação: pois em primeiro lugar um homem não pode ser pintado como sendo a imagem de Deus, a qual consiste nos dons espirituais da justiça e da verdadeira santidade. Novamente, a imagem de um homem pode ser pintada para uso civil ou histórico, mas pintar qualquer homem para este fim de representar a Deus, ou no caminho da religião, para que possamos melhor lembrar e adorar a Deus, é ilícito. Outras razões que eles usam são de pouca importância, e, portanto, eu as omito.

A Segunda Diferença

Eles ensinam e mantêm que imagens de Deus e de Santos podem ser adoradas com adoração religiosa, especialmente o crucifixo. Pois Tomás (de Aquino) diz: Visto que a cruz representa Cristo, que morreu numa cruz, e deve ser adorado com honra divina: segue-se que a cruz também deve ser adorada assim. (Summ. part 3. quest. 5. art. 3).

Nós, pelo contrário, defendemos que eles não podem. Nosso fundamento principal é o segundo mandamento, que contém duas partes: a primeira proíbe fazer imagens para se assemelhar ao Deus verdadeiro: a segunda proíbe adorá-las, ou a Deus nelas; nestas palavras: Não te encurvarás a elas. Ora, não pode haver adoração feita a qualquer coisa que seja menos do que o dobrar do joelho. Novamente, a serpente de bronze foi um tipo ou imagem de Cristo crucificado (João 3:14), designada pelo próprio Deus: contudo, quando o povo lhe queimou incenso (2 Reis 18:4), Ezequias a quebrou em pedaços, e é por isso elogiado. E quando o diabo pediu ao nosso Salvador Cristo apenas que dobrasse o joelho a ele, e ele lhe daria o mundo inteiro: Cristo rejeitou sua oferta, dizendo: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele servirás (Mateus 4:10). Novamente, é lícito para um homem reverenciar a outro com honra civil, mas adorar o homem com honra religiosa é ilícito. Pois toda adoração religiosa é prescrita na primeira tábua: e a honra devida ao homem é prescrita apenas na segunda tábua e no primeiro mandamento dela, Honra a teu pai; cuja honra é, portanto, civil e não religiosa. Ora, o homem mais humilde que possa existir é uma imagem de Deus mais excelente do que todas as imagens de Deus ou dos Santos que são inventadas pelos homens. Agostinho, e muito depois dele Gregório, em termos claros negam que as imagens devam ser adoradas. (de morib. Eccles cap. 35. lib. 9. epist. 9).

Argumentos dos Papistas

Os papistas defendem suas opiniões por estas razões.

Objeção I. Salmo 99:5. Prostrai-vos diante do estrado de seus pés. Resposta. As palavras devem ser lidas assim: Curvai-vos no estrado de seus pés; isto é, na Arca e Propiciatório, pois ali ele fez uma promessa da sua presença: as palavras, portanto, não dizem para se curvar à Arca, mas a Deus na Arca.

Objeção II. Êxodo 3:5. Deus disse a Moisés: Fica de longe e tira os teus sapatos, porque o lugar é santo. Ora, se os lugares santos devem ser reverenciados, então muito mais as imagens santas, como a cruz de Cristo, e coisas semelhantes. Resposta. Deus ordenou a cerimônia de tirar os sapatos, para que ele pudesse, com isso, atingir Moisés com uma reverência religiosa, não pelo lugar, mas por sua própria majestade, cuja presença tornou o lugar santo. Que eles mostrem uma garantia semelhante para as imagens.

Objeção III. É lícito ajoelhar-se diante da cadeira de Estado na ausência do Rei ou da Rainha: portanto, muito mais às imagens de Deus e dos Santos glorificados no céu, estando ausentes de nós. Resposta. Ajoelhar-se à cadeira de estado não é mais do que um testemunho civil, ou sinal de reverência civil, pelo qual todos os bons súditos, quando lhes é oferecida a ocasião, mostram a sua lealdade e sujeição aos seus príncipes legítimos. E este ajoelhar-se desta maneira, e para nenhum outro fim, tem garantia suficiente na Palavra de Deus. Mas ajoelhar-se à imagem de qualquer Santo falecido é adoração religiosa e consequentemente mais do que adoração civil, como os próprios papistas confessam. O argumento então não prova nada, a menos que eles se restrinjam a um e o mesmo tipo de adoração.

A Terceira Diferença

Os papistas também ensinam que Deus pode ser legitimamente adorado em imagens, nas quais ele lhes apareceu: como o Pai, na imagem de um ancião: o Filho na imagem de um homem crucificado: e o Espírito Santo na semelhança de uma pomba, etc. Mas nós defendemos ser ilícito adorar a Deus em, por, ou diante de qualquer imagem: pois esta é a coisa que (como provei antes) o segundo mandamento proíbe. E o ato dos Israelitas, em Êxodo 32, adorando o bezerro de ouro é condenado como pura idolatria; muito embora eles não adorassem o bezerro, mas a Deus no bezerro: pois no versículo 5, Arão diz: Amanhã será a solenidade a Jeová: por meio do que ele nos dá a entender que o bezerro era apenas um sinal de Jeová a quem eles adoravam.

Argumentos dos Papistas

Objeção Parece que os israelitas adoraram o bezerro. Pois Arão diz no verso 4: Estes são os teus deuses (Ó Israel) que te tiraram do Egito. Resposta. O significado de Arão não é outra coisa senão que o bezerro de ouro era um sinal da presença do Deus verdadeiro. E o nome da coisa significada é dado ao sinal, como no palco é chamado de Rei aquele que representa o Rei. E Agostinho diz que as imagens costumam ser chamadas pelos nomes das coisas das quais são imagens, como a falsa representação de Samuel é chamada de Samuel. E não devemos considerá-los a todos como loucos por pensarem que um bezerro feito de seus brincos, tendo apenas um ou dois dias de existência, pudesse ser o Deus que os tirara do Egito com mão poderosa muitos dias antes.

E estes são os pontos de diferença no tocante às Imagens, nos quais devemos permanecer em divergência para sempre com a Igreja de Roma. Pois eles erram no fundamento da religião, fazendo de fato um ídolo do Deus verdadeiro, e adorando um outro Cristo além do que nós adoramos, sob novos termos, mantendo a idolatria dos pagãos. E portanto temos nos apartado deles: e assim ainda devemos fazer porque eles são Idólatras; como eu provei.


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