Da Fé Implícita ou Dobrada (Involuta)
O Nosso Consenso.
Nós defendemos que existe um tipo de fé implícita ou não expressa; sim, que a fé de todo homem em alguma parte de sua vida, como no tempo de sua primeira conversão, e no tempo de alguma tentação ou aflição dolorosa, é implícita ou dobrada (involuta). Diz-se que os samaritanos creram (João 4:14) porque tomaram Cristo pelo Messias e, portanto, contentaram-se em aprender e obedecer às boas novas da salvação. E no mesmo lugar (v. 53), diz-se que o governante com sua família creu, o qual nada mais fez senão reconhecer geralmente que Cristo era o Messias, e rendeu-se a crer e obedecer à sua santa doutrina; sendo movido a isso por um milagre operado em seu filho pequeno. E Raabe (Heb. 11:13) diz-se que creu, sim, ela é elogiada por sua fé mesmo no momento em que recebeu os espias. Ora, na palavra de Deus não podemos achar que ela tivesse nada além de uma fé confusa, geral ou dobrada (involuta), pela qual ela creu que o Deus dos Hebreus era o Deus verdadeiro e que a sua palavra devia ser obedecida. E esta fé (ao que parece) foi nela operada pelo relato e relação dos milagres feitos na terra do Egito: pelo que ela foi movida a juntar-se ao povo de Deus e a crer como eles. Por estes exemplos, então, é manifesto que até nos servos de Deus, existe e pode existir por um tempo uma fé implícita.
Para a melhor compreensão deste ponto, deve ser considerado que a fé pode ser dobrada (involuta) de duas maneiras: primeiro, no que diz respeito ao conhecimento das coisas que devem ser cridas: segundo, no que diz respeito à apreensão do objeto da fé, a saber, Cristo e seus benefícios.
A Fé Implícita: No Que Diz Respeito ao Conhecimento.
Ora, a fé é dobrada (involuta) no que diz respeito ao conhecimento, quando várias coisas que são necessárias à salvação ainda não são conhecidas distintamente. Embora Cristo tenha elogiado a fé dos seus discípulos, por uma fé tal contra a qual as portas do inferno não prevaleceriam; contudo ela era não expressa ou envolta (dobrada) no que diz respeito a vários pontos de religião: pois primeiro de tudo, Pedro, que fez a confissão de Cristo em nome do resto, era naquele tempo ignorante dos meios particulares pelos quais a sua redenção deveria ser operada. Pois depois disto, ele procurou dissuadir o seu mestre de sofrer a morte em Jerusalém, sobre o que Cristo o repreendeu asperamente, dizendo: “Para trás de mim, Satanás, tu és para mim uma ofensa” (Mat. 16:23). Novamente, todos eles eram ignorantes da ressurreição de Cristo, até que certas mulheres que primeiro o viram depois de ele ter ressuscitado, lhes contaram: e eles por experiência na pessoa de Cristo aprenderam a verdade. Em terceiro lugar, eles eram ignorantes da ascensão: pois sonhavam com um reino terreno, no exato momento em que ele estava prestes a ascender: dizendo: “Restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?” (Atos 1:6). E após a ascensão de Cristo, Pedro nada sabia da derrubada da parede de separação entre os judeus e os gentios, até que Deus o tivesse ensinado melhor numa visão (Atos 10:14).
E sem dúvida, temos exemplos comuns desta fé implícita em diversas pessoas entre nós. Pois existem alguns que são lentos e têm dificuldade tanto de compreensão quanto de memória, e com isso não fazem tais progressos em conhecimento como muitos outros fazem: e contudo, por boa afeição e consciência em suas ações, tanto quanto conhecem, não ficam aquém de ninguém; tendo ademais um cuidado contínuo de crescer no conhecimento e de andar em obediência de acordo com o que conhecem. E tais pessoas, embora sejam ignorantes em muitas coisas, contudo têm uma medida de fé verdadeira — e aquilo que falta no conhecimento é suprido na afeição: e em alguns aspectos eles devem ser preferidos a muitos que têm a língua solta e o cérebro nadando em conhecimento. A este respeito, Melâncton disse bem:
“Devemos reconhecer a grande misericórdia de Deus, que faz diferença entre pecados de ignorância e aqueles que são cometidos propositadamente; e perdoa múltiplas ignorâncias àqueles que conhecem apenas o fundamento e são ensináveis; como se pode ver pelos Apóstolos, nos quais havia muita falta de compreensão antes da ressurreição de Cristo. Mas, como foi dito, ele exige que sejamos ensináveis, e não quer que sejamos endurecidos em nossa preguiça e lentidão. Como é dito no Salmo 1, ‘ele medita na sua lei de dia e de noite’.”
A Fé Implícita: No Que Diz Respeito à Apreensão.
O segundo tipo de fé implícita é em relação à Apreensão; quando o homem não pode dizer distintamente e com certeza: “Eu creio no perdão dos meus pecados”, mas: “Eu desejo sinceramente crer no perdão de todos eles: e desejo arrepender-me”. Este caso ocorre com muitos dos filhos de Deus, quando são tocados na consciência por seus pecados. Mas onde os homens estão descontentes consigo mesmos por suas ofensas, e ademais desejam constantemente de coração crer, e ser reconciliados com Deus; ali há fé e muitas outras graças de Deus dobradas (involutas): como no botão pequeno e tenro está dobrada (involuta) a folha, a flor e o fruto. Pois, embora um desejo de se arrepender e de crer não seja fé e arrependimento em natureza, contudo na aceitação de Deus ele o é, aceitando Deus a vontade pelo feito (Isa. 42:3). Cristo não apagará o pavio que fumega, o qual, por enquanto e devido à fraqueza, não dá nem luz nem calor. Cristo diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça: porque eles serão fartos” (Mat. 5:6), onde, por pessoas que têm fome e sede, entendem-se todas aquelas que sentem com pesar a sua própria falta de justiça e, com isso, desejam ser justificadas e santificadas (Rom. 8:26). Deus ouve e atenta até para os gemidos e suspiros de seus servos: sim, embora sejam indizíveis pelo fato de serem muitas vezes pequenos, fracos e confusos; contudo Deus tem respeito por eles, porque são a obra do Seu próprio Espírito. Assim é que, quando vemos que em um coração tocado desejando crer, há uma fé dobrada (involuta). E esta é a fé que muitos dos verdadeiros servos de Deus têm: e a nossa salvação baseia-se não tanto em apreendermos a Cristo, mas no fato de Cristo nos compreender; e portanto Paulo diz: “ele prossegue”, ou seja, em direção à perfeição, “para ver se pode compreender aquilo pelo qual também foi compreendido por Cristo” (Fil. 3:12).
Ora, se alguém disser que sem uma fé viva em Cristo ninguém pode ser salvo; eu respondo que Deus aceita o desejo de crer como fé viva, no tempo de tentação, e no tempo de nossa primeira conversão, como eu disse. Imagine o caso: um homem que ainda nunca se arrependeu, cai em alguma doença grave, e então começa a ser tocado na consciência pelos seus pecados, e a ser verdadeiramente humilhado: logo após ele é exortado a crer em sua própria reconciliação com Deus em Cristo, e no perdão dos seus próprios pecados. E, ao ser exortado, ele esforça-se, de acordo com a medida da graça recebida, para crer; contudo, após muito lutar, não consegue convencer-se de que crê distinta e certamente no perdão dos seus próprios pecados: só isto ele pode dizer: que deseja de coração crer: isto ele deseja acima de todas as coisas no mundo: e ele estima todas as coisas como esterco por Cristo: e assim ele morre. Eu pergunto agora: o que diremos dele? Certamente, não podemos dizer nada, senão que ele morreu como um filho de Deus, e é indubitavelmente salvo. Pois por mais feliz que fosse se os homens pudessem chegar àquela plenitude de fé que estava em Abraão, e em muitos servos de Deus: contudo certo é, que Deus em vários casos aceita este desejo de crer como a verdadeira fé de fato. E veja que, assim como é na natureza, assim é na graça: na natureza alguns morrem quando são crianças, alguns na velhice, e alguns em plena força, e contudo todos morrem como homens: assim também, alguns morrem bebês em Cristo, alguns de fé mais perfeita: e contudo o mais fraco, tendo as sementes da graça, é o filho de Deus: e a fé na sua infância é fé. Todo este tempo, deve ser lembrado que eu não digo que há uma fé verdadeira sem qualquer apreensão, mas sim sem uma apreensão Distinta por algum espaço de tempo: pois este mesmo desejo de, pela fé, apreender a Cristo e os seus méritos, é um tipo de apreensão. E assim vemos os tipos de fé implícita ou dobrada (involuta).
Esta doutrina deve ser aprendida por duas causas:
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Primeiro de tudo, ela serve para retificar as consciências dos fracos, para que não sejam enganados quanto ao seu estado. Pois se pensarmos que nenhuma fé pode salvar, a não ser uma plena persuasão, tal qual era a fé de Abraão, muitos que verdadeiramente levam o nome de Cristo devem ser excluídos do rol dos filhos de Deus. Devemos, portanto, saber que há um crescimento na graça, assim como na natureza: e há diferenças e graus da fé verdadeira, e a menor de todas elas é esta fé dobrada (involuta). Esta, em suma, é a doutrina do mestre Calvino: que, quando começamos pela fé a conhecer um pouco, e temos um desejo de aprender mais, isto pode ser chamado de uma fé não expressa.
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Em segundo lugar, este ponto de doutrina serve para retificar e em parte expor vários catecismos, na medida em que parecem propor a fé aos homens em um alcance tão alto, que poucos podem atingi-lo: definindo-a como sendo uma persuasão certa e plena do amor e do favor de Deus em Cristo: ao passo que, embora toda fé seja, por sua natureza, uma persuasão certa, contudo apenas a fé forte é a persuasão plena. Portanto, a fé não deve ser definida apenas em termos gerais, mas também os graus e medidas da mesma devem ser expostos, para que os fracos, para seu conforto, possam ser verdadeiramente informados do seu estado.
E, embora ensinemos que há um tipo de fé implícita, que é o começo da fé verdadeira e viva: contudo, ninguém deve com isso arranjar uma ocasião para se contentar com ela, mas deve trabalhar para aumentar e avançar de fé em fé: e assim, de fato, fará todo aquele que tiver quaisquer inícios de fé verdadeira, por menores que sejam. E aquele que pensa que tem um desejo de crer, e se contenta com isso: não tem, de fato, nenhum desejo verdadeiro de crer.
A Diferença entre Roma e a Verdadeira Religião.
Os pilares da Igreja Românica estabelecem este fundamento: que a fé, na sua própria natureza, não é um conhecimento de coisas a serem cridas: mas um assentimento reverente a elas, quer sejam conhecidas ou desconhecidas. Com base nisto eles constroem: que se um homem conhecer alguns pontos necessários da religião, como a doutrina da divindade, da trindade, da encarnação de Cristo, e da nossa redenção, etc. é desnecessário conhecer o restante por um conhecimento particular ou distinto, e basta-lhe dar o seu consentimento à igreja e crer como creem os pastores. Eis um edifício em ruínas sobre um alicerce podre! Pois a fé contém um conhecimento das coisas que devem ser cridas, e o conhecimento é da natureza da fé: e nada é crido que não seja conhecido. Isa. 53:11. “O conhecimento do meu servo justo, justificará a muitos”, e João 17:2. “A vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste”. Nestes lugares, por conhecimento entende-se a fé baseada no conhecimento, pela qual conhecemos e temos a certeza de que Cristo e seus benefícios nos pertencem.
Em segundo lugar, este tipo de assentimento é a mãe da ignorância. Pois, quando os homens forem ensinados que em vários pontos da religião eles podem crer como a Igreja crê, de que o estudo das Escrituras não é exigido deles: sim, que para o seu próprio bem eles podem ser impedidos de lê-las, contanto que conheçam algumas coisas principais contidas nos artigos de fé, que os crentes comuns não estão obrigados a crer expressamente em todos os artigos do Credo dos Apóstolos: que lhes basta crer nos artigos por uma fé implícita: ao crer como a Igreja crê, poucos ou nenhum terão o cuidado de progredir no conhecimento. E, contudo, o mandamento de Deus é que devemos crescer no conhecimento e que a sua palavra deve habitar abundantemente em nós (Col. 3:16).
Novamente, os papistas dizem que a devoção dos ignorantes é frequentemente um serviço mais bem aceito do que aquele que é feito com base no conhecimento. “Tais”, dizem eles, “que oram em latim, oram com tão grande consolação de espírito, com tão pouco tédio, com tão grande devoção e afeição, e frequentemente mais do que o outro, e sempre mais do que qualquer cismático ou herege no seu próprio idioma”. Para concluir, eles ensinam que alguns artigos de fé são cridos geralmente por toda a Igreja apenas por uma fé simples ou implícita, os quais depois, pela autoridade de um Concílio Geral, são propostos para serem cridos pela Igreja através de fé expressa. Roffensis, contra Lutero, dá um exemplo disso, quando confessa que o Purgatório era pouco conhecido no início, mas foi dado a conhecer em parte pelas Escrituras e em parte por revelação no decorrer do tempo. Esta fé implícita concernente a artigos de religião nós a rejeitamos; defendendo que todas as coisas concernentes à fé e aos costumes necessárias à salvação, estão claramente expressas nas Escrituras e devem ser cridas de acordo com isso.
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