Do Arrependimento
I. Nosso Consenso
Conclusão 1. Que o arrependimento é a conversão de um pecador. Há uma dupla conversão: passiva e ativa. A passiva é uma ação de Deus, pela qual Ele converte o homem, estando este ainda não convertido. A ativa é uma ação pela qual o homem, tendo sido primeiramente convertido por Deus, converte a si mesmo; e é desta última que esta conclusão deve ser entendida. Pois a primeira conversão, considerando que é uma obra de Deus voltando-nos para Si mesmo, não é o arrependimento de que a Escritura fala tantas vezes, mas é chamada pelo nome de regeneração; e o arrependimento, pelo qual nós, sendo primeiro convertidos por Deus, voltamo-nos a nós mesmos, e fazemos boas obras, é o fruto daquela.
Conclusão 2. Que o arrependimento consiste especialmente na prática, em contrição de coração, confissão de boca, e satisfação em obra ou ação.
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Quanto à contrição, há dois tipos dela: legal e evangélica. A contrição legal não é nada senão um remorso de consciência pelo pecado em consideração à ira e ao julgamento de Deus, e não é de forma alguma uma graça de Deus; nem qualquer parte, ou causa do arrependimento, mas apenas uma ocasião do mesmo, e isso pela misericórdia de Deus. Pois de si mesma, ela é o aguilhão da lei, e a própria entrada no poço do inferno. A contrição evangélica é quando um pecador arrependido se entristece por seus pecados — não tanto por medo do inferno ou de qualquer outra punição, mas porque ofendeu e desagradou a um Deus tão bom e misericordioso. Esta contrição é causada pelo ministério do evangelho, e na prática do arrependimento ela é sempre necessária e vem antes como o início do mesmo.
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Segundo, nós defendemos e mantemos que a confissão deve ser feita e isso a diversos respeitos:
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primeiro a Deus, tanto publicamente na congregação quanto também privadamente em nossas orações secretas e particulares.
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Segundo, à igreja, quando qualquer pessoa tiver ofendido abertamente a congregação por qualquer crime e, portanto, estiver excomungada.
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Terceiro, ao nosso próximo em particular, quando em qualquer ocasião o ofendemos e injustiçamos. “Se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai primeiro e reconcilia-te com ele” (Mat. 5:23). Ora, a reconciliação pressupõe confissão.
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Por último, em todo verdadeiro arrependimento, defendemos e reconhecemos que deve ser feita satisfação:
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Primeiro a Deus, e isto é quando nós Lhe rogamos em nossas súplicas que aceite a morte e paixão de Cristo, como uma satisfação plena, perfeita e suficiente por todos os nossos pecados.
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Segundo, ela deve ser feita à igreja, após a excomunhão pelas ofensas públicas; e ela consiste em deveres de humilhação que servem adequadamente para testemunhar a verdade de nosso arrependimento.
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Terceiro, a satisfação deve ser feita ao nosso próximo. Porque, se ele for injustiçado, deve haver compensação e restituição [Lucas 19:8]; e ali o arrependimento pode ser justamente suspeito, onde nenhuma satisfação é feita, se estiver em nosso poder.
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Conclusão 3. Que no arrependimento devemos produzir frutos exteriores dignos [de] emenda de vida. Pois o arrependimento em si está no coração, e portanto deve ser testemunhado em todo tipo de boas obras, das quais a principal é esforçar-se dia após dia — pela graça de Deus — para deixar e renunciar a todo e qualquer pecado, e em todas as coisas fazer a vontade de Deus. E aqui que seja lembrado que não somos patronos da licenciosidade e inimigos das boas obras. Pois embora as excluamos do ato da nossa justificação e salvação, contudo mantemos um uso proveitoso e necessário delas na vida de todo homem cristão. Este uso é tríplice: em respeito a Deus, ao homem, a nós mesmos.
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As obras devem ser feitas em respeito a Deus para que os Seus mandamentos possam ser obedecidos [1 João 3:22], para que a Sua vontade possa ser feita [1 Tes. 4:3], para que possamos mostrar a nós mesmos como filhos obedientes a Deus nosso Pai [1 Pedro 1:14], para que possamos nos mostrar gratos pela nossa redenção por Cristo [Tito 2:14], para que não entristeçamos o Espírito de Deus [Efés. 4:30], mas andemos de acordo com o mesmo [Gál. 5:22], para que Deus, por nossas boas obras, possa ser glorificado [Mat. 5:16], para que possamos ser bons seguidores de Deus [Efés. 5:1].
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Novamente, as obras devem ser feitas em consideração aos homens, para que o nosso próximo possa ser ajudado nas coisas mundanas [Lucas 6:38], para que ele possa ser ganho pelo nosso exemplo para a piedade [1 Pedro 3:14], para que possamos prevenir em nós mesmos o dar qualquer ofensa [1 Cor. 10:32], para que fazendo o bem possamos tapar as bocas de nossos adversários.
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Terceiro e por último, elas têm uso em respeito a nós mesmos, para que possamos mostrar a nós mesmos como novas criaturas [2 Cor. 5:17], para que possamos andar como os filhos da luz [Efés. 5:8], para que tenhamos alguma garantia da nossa fé, e da nossa salvação [2 Pedro 1:8, 10], para que possamos discernir a fé morta e falsificada da fé verdadeira [Tiago 2:17], para que a fé e os dons de Deus possam ser exercitados e continuados até o fim [2 Tim. 1:6], para que as punições do pecado, tanto temporais quanto eternas, possam ser evitadas [Sal. 89:32], para que a recompensa possa ser obtida, a qual Deus livremente em misericórdia prometeu aos homens por suas boas obras [Gál. 6:9].
II. A Diferença
Não discordamos da Igreja de Roma na doutrina do arrependimento em si, mas nos seus condenáveis abusos; os quais são de dois tipos: gerais e especiais.
Os [abusos] gerais são aqueles que dizem respeito ao arrependimento totalmente considerado; e são eles:
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O primeiro, é que eles colocam o início do arrependimento [em parte em si mesmos e] em parte no Espírito Santo, ou no poder de seu livre arbítrio natural, sendo ajudado pelo Espírito Santo; ao passo que Paulo, de fato, atribui esta obra totalmente a Deus: “Provando se Deus em algum momento lhes dará o arrependimento” (2 Tim. 2:25). E homens que não estão fracos, mas mortos em delitos e pecados, não podem fazer nada que possa promover a sua conversão, por mais ajudados que sejam; não mais do que os homens mortos em seus túmulos podem ressuscitar dali.
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O segundo abuso é que eles tomam a penitência, ou melhor, o arrependimento, por aquela disciplina pública e ordem de correção que era usada contra ofensores notórios na congregação aberta. Pois a Escritura estabelece apenas um arrependimento, e esse é comum a todos os homens sem exceção, e a ser praticado em cada parte das nossas vidas para a necessária mortificação do pecado; ao passo que a correção eclesiástica aberta não pertencia a todo e qualquer homem dentro do âmbito da igreja, mas somente àqueles que davam alguma ofensa pública.
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O terceiro abuso é que eles fazem do arrependimento não apenas uma virtude, mas também um sacramento; ao passo que, pelo espaço de mil anos depois de Cristo, e mais, ele não era contado entre os sacramentos. Sim, parece que Lombardo foi um dos primeiros que o chamou de sacramento; e os escolásticos depois dele disputaram sobre a matéria e a forma deste sacramento, não sendo nenhum deles capaz de definir com certeza qual deveria ser o elemento exterior.
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O quarto abuso é no tocante ao efeito e eficácia do arrependimento, pois eles o fazem uma causa meritória de remissão de pecados e de vida eterna, o que é frontalmente contra a Palavra de Deus. Paulo diz notavelmente: “sendo justificados gratuitamente por sua graça através da redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue” (Rom. 3:24-25). Nestas palavras, estas formas de falar, “redenção em Cristo”, “propiciação no seu sangue pela fé”, [e] “gratuitamente pela graça”, devem ser observadas e consideradas. Pois elas mostram claramente que nenhuma parte de satisfação ou redenção é operada em nós ou por nós, mas fora de nós somente na Pessoa de Cristo. E, portanto, nós estimamos o arrependimento apenas como um fruto da fé, e o efeito — ou eficácia dele — é testemunhar a remissão dos nossos pecados e a nossa reconciliação diante de Deus. Dir-se-á que, “A remissão de pecados e a vida eterna são prometidas ao arrependimento”. Resposta. Não é à obra do arrependimento, mas à pessoa que se arrepende; e isso não pelos seus próprios méritos ou obra de arrependimento, mas pelos méritos de Cristo, os quais ele aplica a si mesmo pela fé. E assim devemos entender as promessas do evangelho nas quais as obras são mencionadas, pressupondo sempre nelas a reconciliação da pessoa com Deus, a quem a promessa é feita. Assim vemos a razão pela qual nós discordamos da Igreja Romana no tocante à doutrina do arrependimento.
Os abusos especiais dizem respeito à contrição, confissão e satisfação.
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O primeiro abuso, concernente à contrição, é que eles ensinam que ela deve ser suficiente e perfeita. Eles agora costumam remediar a questão com uma distinção, dizendo que a tristeza na contrição deve estar no grau mais alto em respeito a valor e estimação. Contudo a opinião de Adriano era outra, que no verdadeiro arrependimento um homem deveria se entristecer de acordo com todo o seu esforço. E o Catecismo Romano diz o mesmo, que “A tristeza concebida pelos nossos pecados deve ser tão grande, que nenhuma maior possa ser concebida; que devemos ser contritos da mesma maneira que amamos a Deus, e isto é, com todo o nosso coração e força, numa tristeza mui veemente; e que o ódio ao pecado deve ser não apenas o maior, mas também mais veemente e perfeito, de modo que exclua toda a preguiça e frouxidão.” De fato, depois se segue que a verdadeira contrição pode ser eficaz embora seja imperfeita. Mas como isso pode subsistir se eles não apenas recomendam, mas também prescrevem e afirmam que a contrição deve ser perfeitíssima e veemente? Nós, portanto, ensinamos apenas que Deus requer não tanto a medida quanto a verdade de qualquer graça, e que é um grau de contrição não fingida o entristecer-se por não podermos nos entristecer pelos nossos pecados como deveríamos.
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O segundo abuso é que eles atribuem à sua contrição o mérito de congruidade. Mas isto não pode subsistir com o mérito todo-suficiente de Cristo. E um antigo concílio diz: “Deus inspira em nós primeiro a fé e o amor a Si mesmo, sem que nenhuns méritos nos precedam, para que possamos requerer fielmente o sacramento do batismo, e depois do batismo fazer as coisas que Lhe agradam.” E nós, por nossa parte, defendemos que Deus requer a contrição de nossas mãos, não para merecer a remissão dos pecados, mas para que possamos reconhecer a nossa própria indignidade, e sermos humilhados diante de Deus, e desconfiarmos de todos os nossos próprios méritos; e ainda, para que possamos ter em maior conta os benefícios de Cristo, pelos quais somos recebidos no favor de Deus. Por último, para que possamos mais cuidadosamente evitar todos os pecados no tempo vindouro, pelos quais tantas dores e terrores de consciência são procurados. E nós não reconhecemos contrição alguma como sendo meritória, salvo aquela de Cristo, pela qual Ele foi moído pelas nossas iniquidades.
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O terceiro abuso é que eles fazem a contrição imperfeita, ou atrição decorrente do medo do inferno, ser boa e proveitosa. E a ela aplicam o dito do profeta: “O temor a Deus é o princípio da sabedoria”. Mas o temor servil por si mesmo é o fruto da lei, que é o ministério da morte e da condenação. E, consequentemente, é o caminho para a destruição eterna, se Deus deixar os homens por si mesmos. E se isso se volta para o bem de alguém, é apenas por acidente, porque Deus, em Sua misericórdia, o torna uma ocasião precedente, para que a graça seja dada. De outra forma, o remorso de consciência pelo pecado não é nenhum princípio de arrependimento, ou contenção de qualquer pecado; mas antes é, e isso propriamente, o princípio de horrores indizíveis de consciência e morte eterna, a menos que Deus mostre misericórdia. E, no entanto, este medo da punição, se for temperado e mitigado com outras graças e dons de Deus em homens santos, não é inútil; nos quais não há apenas uma tristeza pela punição, mas também, e isso muito mais, pela ofensa. E tal tipo de temor, ou tristeza, é ordenado: “Se eu sou pai, onde está a minha honra? Se eu sou Senhor, onde está o meu temor?” (Mal. 1:6). E Crisóstomo diz que “O temor do inferno no coração de um homem justo é um homem forte e armado contra ladrões e salteadores para afastá-los da casa.” E Ambrósio diz que “Os Mártires no tempo dos seus sofrimentos, confirmavam-se contra a crueldade dos perseguidores pondo o temor do inferno diante dos seus olhos.”
Os abusos no tocante à confissão são estes.
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O primeiro é que eles usam uma forma de confissão de seus pecados a Deus, proferida em uma língua desconhecida; sendo, portanto, tola e ridícula, ainda por cima exigindo a ajuda e a intercessão de homens mortos e de pessoas que estão ausentes. Ao passo que só existe um Mediador entre Deus e o homem, o homem Jesus Cristo.
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O segundo é que, na prática, fazem a confissão de seus pecados não apenas a Deus, mas aos santos falecidos, no sentido de que lhes fazem oração na qual lhes pedem a sua intercessão para o perdão dos seus pecados. E isso é, não apenas igualá-los a Deus em ver e conhecer o coração, mas também dar a eles uma parte da adoração divina Dele.
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O terceiro e principal abuso é que eles corromperam a confissão canônica, transformando-a em confissão auricular privada, obrigando todos os homens em consciência por uma lei feita para que confessem todos os seus pecados mortais, com todas as circunstâncias que mudam a espécie do pecado (tanto quanto possivelmente se possam lembrar) uma vez por ano, no mínimo, e isso a um padre, a não ser que seja em caso de extrema necessidade. Mas na Palavra de Deus não há garantia para esta confissão, nem nos escritos da antiguidade ortodoxa pelo espaço de muitas centenas de anos depois de Cristo, como assegura alguém de seu próprio lado. E o mandamento do Espírito Santo: “Confessai as vossas culpas uns aos outros e orai uns pelos outros” (Tiago 5:16), obriga tanto o sacerdote a fazer confissão a nós, quanto qualquer um de nós ao sacerdote. E onde é dito que “muitos foram batizados, confessando os seus pecados” (Mat. 3:6), e “muitos dos que creram vinham, confessando e revelando os seus feitos” (Atos 19:18), a confissão foi voluntária e não constrangida. Ela também foi geral e não particular de todo e qualquer pecado, com as circunstâncias necessárias do mesmo. E nesta liberdade de confissão a igreja permaneceu 1.200 anos até o Concílio de Latrão, no qual a lei da confissão auricular foi primeiramente promulgada, sendo uma invenção notável servindo para descobrir os segredos dos homens e para enriquecer aquela sé cobiçosa e ambiciosa com as rendas do mundo. Ela não era conhecida de Agostinho quando ele disse: “Que tenho eu a ver com os homens para que ouçam as minhas confissões, como se pudessem curar todas as minhas doenças?” Nem a Crisóstomo, quando diz: “Não te obrigo a confessar os teus pecados a outros.” E: “Se te envergonhas de confessá-los a qualquer homem, porque pecaste, dize-os diariamente em tua própria mente. Não te mando confessá-los ao teu conservo para que zombe de ti. Confessa-os a Deus, que te cura.”
O abuso da satisfação é que eles transformaram a satisfação canônica, que era feita à congregação pelos ofensores públicos, em uma satisfação da justiça de Deus para a punição temporal de seus pecados. Eis aqui uma mui horrível profanação de todo o evangelho, e especialmente da satisfação de Cristo, a qual de si mesma, sem qualquer acréscimo, é suficiente de todas as maneiras para a remissão tanto da culpa quanto da punição. Mas deste ponto já falei antes.
Até aqui eu tratei e provei por indução de vários pormenores que devemos fazer uma separação da atual Igreja de Roma no que diz respeito ao fundamento e à substância da verdadeira religião. Muitas outras coisas poderiam ser adicionadas para este mesmo propósito, mas aqui concluo este primeiro ponto, adicionando apenas esta advertência: que fazemos a separação da religião romana sem ódio às pessoas que são mantenedoras da mesma. Não, nós nos unimos em afeto mais com eles do que eles conosco. Eles morrem conosco não pela religião deles (embora a mereçam), mas pelas traições que eles pretendem e empreendem [Deut. 13:5]. Estamos prontos para cumprir os deveres de amor a eles ordenados a nós na Palavra. Nós reverenciamos os bons dons em muitos deles; oramos por eles, desejando o seu arrependimento e salvação eterna.
Agora pretendo prosseguir e tocar brevemente [em] outros pontos de doutrina contidos nesta porção da Escritura que tenho agora em mãos. Em segundo lugar, portanto, a partir deste mandamento, “Saia dela, povo meu”, eu concluo que a verdadeira igreja de Deus está e esteve na presente igreja Romana como o trigo no monte de palha. Embora o papismo tenha reinado e se espalhado pela face da terra por muitas centenas de anos, ainda assim, no meio dele, Deus reservou para Si um povo que verdadeiramente O adorou. E para este fim, o Espírito Santo diz que o dragão, que é o diabo, fez a mulher, isto é, a igreja, fugir para o deserto, onde ele buscou destruí-la mas não pôde. “E ela ainda retém um remanescente da sua semente, os que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo” (Apoc. 12:17). Ora, isto que eu digo da Igreja de Roma, não pode ser dito de igual modo das congregações de Turcos e outros infiéis, que a igreja oculta de Deus seja preservada entre eles; porque não há meios de salvação absolutamente; ao passo que a Igreja de Roma tem as Escrituras, embora em língua estranha — e o batismo quanto à forma exterior — meios que Deus em todas as eras preservou, para que os Seus eleitos pudessem ser reunidos do meio da Babilônia. Isto serve para tapar as bocas dos papistas, que nos exigem onde estava a nossa igreja oitenta anos atrás, antes dos dias de Lutero; com o que insinuariam ao mundo que a nossa igreja e religião é verde ou nova. Mas eles são respondidos a partir deste mesmo texto, que a nossa igreja esteve sempre presente desde os dias dos apóstolos, e isso no próprio meio do papado. Ela sempre foi uma igreja e não começou a ser apenas no tempo de Lutero, mas apenas então começou a se mostrar, como tendo estado oculta por uma apostasia universal por muitas centenas de anos juntos. Novamente, temos aqui ocasião para considerar o trato de Deus com a Sua própria igreja e povo. Ele não quer que eles, para a sociedade externa, estejam misturados com os seus inimigos, e isso por um propósito especial; a saber, para exercitar a humildade e a paciência de Seus poucos servos. Quando Elias viu a idolatria espalhada por todo Israel, ele foi à parte para o deserto e com pesar desejou morrer [1 Reis 19:4]. E Davi clamou: “Ai de mim que sou constrangido a habitar em Meseque e a ter a minha habitação nas tendas de Quedar!” (Salmos 120:5). E o justo Ló precisou ter a sua alma justa afligida ao ver e ouvir as abominações de Sodoma.
Terceiro, por este mandamento somos ensinados que opinião ter da presente Igreja de Roma. Muitas vezes é exigido saber se ela é uma igreja ou não; e a resposta pode, consequentemente, ser formada desta maneira: Se por esta igreja for compreendido um estado ou governo de pessoas, cujo papa é a cabeça, e os membros são todos aqueles que o reconhecem como sendo sua cabeça, e creem na doutrina estabelecida no Concílio de Trento, nós consideramos que ela não é nenhuma igreja de Deus. Porque a Babilônia, que já provei ser a Igreja de Roma, é aqui oposta à igreja ou povo de Deus; e porque nos é ordenado a sair dela, ao passo que não podemos abandonar totalmente nenhum povo até que eles abandonem a Cristo. Alguns talvez dirão: “A Igreja de Roma tem as Escrituras e o sacramento do batismo”. Eu respondo, primeiro de tudo, eles têm de fato os livros da Sagrada Escritura entre eles; mas pelo restante da sua doutrina eles derrubam o verdadeiro sentido dos mesmos no fundamento, como provei antes. E embora eles tenham a forma exterior do batismo, contudo eles derrubam o batismo interior, que é a substância de tudo, residindo na justificação e santificação de um pecador. Novamente, respondo que eles têm a Palavra e o batismo não para si mesmos, mas para a verdadeira igreja de Deus entre eles — assim como a lanterna segura a vela, não para si mesma, mas para outros. Segundo, pode ser — e é alegado — que se o papa é o Anticristo, ele então se senta no templo — isto é, na igreja de Deus — e por este meio a igreja Romana será a verdadeira igreja [2 Tes. 2:4]. Resposta. Ele se senta no templo de Deus, mas observem ainda como: como Deus, isto é, não como um membro, mas como um usurpador manifesto; assim como o ladrão senta-se na casa do homem de bem. Pois a igreja papista e a igreja de Deus estão misturadas como palha e trigo num só monte. E a Igreja de Roma pode ser dita estar na igreja de Deus, e a igreja de Deus na Igreja de Roma; como dizemos que o trigo está no meio da palha e a palha no trigo. Novamente, ele é dito estar sentado no templo de Deus, porque a igreja romana, embora falsamente, toma para si o título de verdadeira igreja católica. Alguns tentam atenuar e qualificar a questão, comparando esta igreja a um homem deitado doente e cheio de chagas, tendo também a sua garganta cortada, contudo de modo que corpo e alma estão juntos, e a vida ainda permanece. Mas tudo bem considerado, é antes como um cadáver morto, e está destituído de toda vida espiritual, como os erros papistas no fundamento o manifestam. De fato, uma meretriz conhecida pode depois permanecer esposa e ser assim chamada: contudo após a carta de divórcio ser dada, ela cessa de ser uma esposa embora ela possa mostrar a sua aliança de casamento. Ora, a igreja recebeu a sua carta de divórcio na Palavra escrita, nomeadamente [em] 2 Tessalonicenses 2 e Apocalipse 13:11-12, etc.
Além disso, neste mandamento podemos ver um retrato vívido do estado de toda a humanidade. Aqui vemos duas espécies de homens: alguns são os que pertencem à Babilônia, um povo correndo para a sua destruição; alguns, por outro lado, são um povo de Deus, separados da Babilônia e reservados para a vida eterna. Se alguém perguntar a causa desta distinção, eu respondo: “É a própria vontade de Deus conceder misericórdia a alguns, e abandonar outros, retirando-lhes a Sua misericórdia para melhor declaração de Sua justiça.” Assim diz o Senhor: “Reservei para mim sete mil homens que não dobraram o joelho diante de Baal” (Rom. 11:4). E o profeta Isaías diz: “A menos que o Senhor tivesse deixado um remanescente, teríamos sido como Sodoma e Gomorra” (Isa. 1:9). Por esta distinção, somos ensinados acima de todas as coisas a buscar ser do número do povo de Deus e a trabalhar para ter a garantia disso em nossas próprias consciências. Pois se todos devessem ser salvos, menos cuidado bastaria. Mas esta misericórdia não é comum a todos, e, portanto, tanto mais a ser considerada.
Por último, noto aqui o cuidado especial que Deus tem pelos Seus próprios filhos. Ele primeiro lhes dá aviso para partirem antes que Ele comece a executar o Seu julgamento sobre os Seus inimigos com os quais eles vivem — para que não fossem participantes dos seus pecados ou castigos. Assim, antes que Deus punisse Jerusalém, um anjo é enviado para marcar na testa aqueles que suspiravam pelas abominações do povo [Ezeq. 9:4]. E na destruição dos primogênitos do Egito, o anjo passou por cima das casas dos judeus que tinham os seus umbrais aspergidos com o sangue do cordeiro pascal [Êx. 12:23]. E este passar por cima significa segurança e preservação na destruição comum, àqueles que têm os seus corações aspergidos com o sangue de Cristo. Esta bênção de proteção deveria nos mover a todos para nos tornarmos servos verdadeiros e de coração de Deus. Os homens costumam se tornar membros daquelas sociedades e corporações onde podem gozar de muitas liberdades e privilégios. Bem, eis que na sociedade dos santos de Deus, que é a verdadeira igreja, há a liberdade contra o perigo em todas as destruições comuns, e contra a vingança eterna no último dia. Quando Ester tinha procurado a segurança para os judeus, e liberdade para se vingarem sobre os seus inimigos, é dito que muitos dos povos da terra se fizeram judeus. Assim também, considerando que Cristo procurou a libertação do inferno, da morte e da condenação para todos os que Nele creem, deveríamos trabalhar acima de todas as coisas para nos tornarmos novas criaturas, unindo-nos sempre à verdadeira igreja de Deus.
Até aqui eu falei do mandamento. Agora segue-se a razão do mesmo tirada do fim: “para que não sejais participantes dos seus pecados: e para que não recebais das suas pragas”. Aqui eu poderia me deter por muito tempo para mostrar quais são os pecados da Igreja de Roma, mas nomearei apenas os [pecados] principais.
O primeiro pecado é o ateísmo, e isso eu provo desta maneira. O ateísmo é duplo: aberto [e] mascarado.
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O ateísmo aberto é quando os homens, tanto em palavra quanto em ação, negam a Deus e à Sua Palavra.
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O ateísmo mascarado (colorido) não é tão manifesto, e tem dois graus:
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O primeiro é quando os homens reconhecem a Deus o Criador e Governador do céu e da terra, e contudo negam o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Assim, diz-se dos efésios, antes de receberem o evangelho, que estavam sem Deus, a quem em seu juízo natural eles reconheciam [Efés. 2:12] — porque eles negavam a Cristo e consequentemente adoravam um ídolo da sua própria mente, pois adoravam a Deus fora de Cristo. E a este respeito, embora os samaritanos adorassem o Deus de Abraão, ainda assim o nosso Salvador Cristo diz: “adorais o que não sabeis” (João 4:22). E o salmista diz dos gentios que “os seus deuses são ídolos” (Sal. 96:5). Neste grau de ateísmo estão colocados Turcos e Judeus neste dia, os antitrinitarianos e arianos, e todos os que concebem e adoram a Deus fora da Trindade.
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O segundo grau é, quando os homens de fato reconhecem a unidade da Divindade na Trindade das pessoas, contudo de tal modo, que por outras consequências necessárias, em parte da sua doutrina e em parte do culto a Deus, eles derrubam aquilo que bem mantiveram. E assim eu digo, que a própria religião da Igreja de Roma é um tipo de ateísmo. Pois enquanto ela faz o mérito das obras dos homens concorrer com a graça de Deus, ela derruba a graça de Deus [Romanos 11]. Em palavras eles reconhecem a infinita justiça e misericórdia de Deus, mas por consequência ambas são negadas. Como pode ser essa uma justiça infinita, a qual de alguma forma pode ser apaziguada por satisfação humana? E como a misericórdia de Deus será infinita quando nós — pelas nossas próprias satisfações — devemos adicionar um suprimento à satisfação de Cristo? Novamente, “Aquele que não tem o Filho, não tem o Pai” (1 João 2:23). E aquele que não tem nem o Pai nem o Filho, nega a Deus.
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Ora, a presente religião romana não tem o Filho — isto é, Jesus Cristo, Deus e homem, o Mediador da humanidade — mas transformou-O em um Cristo falsificado. E eu o mostro assim: No lugar de um Jesus Cristo, em todas as coisas semelhante a nós na Sua humanidade, exceto somente o pecado, eles forjaram um Cristo a quem eles atribuem duas espécies de existência: uma natural, pela qual Ele é visível, tocável e circunscrito no céu; a outra não apenas acima mas também contra a natureza; pela qual Ele é substancialmente — segundo a Sua carne, nas mãos de cada sacerdote, em cada hóstia, e na boca de cada comunicante — invisível, intocável, incircunscrito. E assim, na prática, eles abolem a Sua humanidade. Sim, eles O degradam dos Seus ofícios. Ao invés de um Jesus Cristo, o único Rei, Legislador e Cabeça da igreja, eles juntam a Ele o papa; não apenas como um vigário, mas também como um companheiro, na medida em que lhe dão poder para fazer leis que obrigam a consciência, para resolver e determinar infalivelmente o sentido da Sagrada Escritura, para propriamente perdoar o pecado tanto no que diz respeito à culpa quanto à punição temporal, para ter autoridade sobre toda a terra e uma parte do inferno, para depor reis, aos quais sob Cristo toda alma deve estar sujeita, [e] para absolver súditos do juramento de lealdade, etc. Ao invés de um Jesus Cristo, o único sacerdote real do Novo Testamento, eles ordenam muitos sacerdotes secundários a Ele, que oferecem Cristo diariamente na missa pelos pecados dos vivos e dos mortos. Ao invés de um Jesus Cristo, o Mediador todo-suficiente de intercessão, eles adicionaram muitos companheiros a Ele para fazer pedidos por nós, a saber, tantos santos quantos existam no calendário do papa. Por último, ao invés dos méritos exclusivos de Cristo, no qual somente o Pai tem prazer, eles inventaram um tesouro da igreja, contendo — além dos méritos de Cristo — o excedente dos méritos dos santos, para ser dispensado aos homens à discrição do papa. E assim vemos que Cristo, e consequentemente o próprio Deus a ser adorado em Cristo, é transformado numa fantasia ou ídolo do conceito humano. Novamente, há sempre uma proporção entre a adoração a Deus e a nossa persuasão Dele. E os homens, ao darem a Deus qualquer adoração, têm respeito à Sua natureza, para que ambas possam ser adequadas, e Ele possa se agradar. Vejamos então que tipo de adoração a religião romana proporciona: É em sua maior parte mera adoração da própria vontade (culto voluntário), sem qualquer permissão ou mandamento de Deus, como Durand em seu Rationale de fato reconhece. É um serviço carnal consistindo de inumeráveis ritos e cerimônias corporais, emprestados em parte dos Judeus e em parte dos pagãos. É dividida entre Deus e algumas de Suas criaturas, na medida em que são adorados ambos com um único tipo de adoração, não importa como a tentem pintar. Assim, pois, se pela sua maneira de adorar a Deus pudermos julgar como eles O concebem — como podemos — eles claramente transformaram o verdadeiro Deus em uma fantasia deles mesmos. Pois Deus não deve ser concebido de outra forma senão como Ele Se revelou em Suas criaturas e em Sua Palavra — e especialmente em Cristo, que é a imagem expressa da Pessoa do Pai.
O segundo pecado é a idolatria, e essa tão grosseira como jamais houve entre os pagãos. E isso se pode ver em duas coisas:
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Primeiro, que eles adoram os santos com adoração religiosa, a qual, sem exceção, é própria de Deus. Sim, eles transformam alguns deles em ídolos detestáveis, fazendo-os, na verdade, mediadores da redenção, especialmente a virgem Maria, a quem eles chamam de “uma Senhora, uma Deusa, uma Rainha, a quem Cristo seu Filho obedece no céu, uma medianeira: nossa vida, esperança, o remédio dos doentes”. E oram a ela assim: “Prepara glória para nós: defende-nos dos nossos inimigos, e na hora da morte recebe-nos, solta as amarras dos culpados, traz luz aos cegos, afasta todos os demônios. Mostra que és mãe. Que Ele receba as tuas orações.”
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Novamente, a sua idolatria é manifesta, na medida em que eles adoram a Deus em, para, ou diante de imagens; não tendo mandamento para assim o fazer, mas pelo contrário. Eles alegam que eles usam e adoram imagens apenas em lembrança de Deus. Mas isto é a mesma coisa como se uma esposa impudica recebesse muitos amantes em sua casa na ausência de seu marido e, sendo repreendida, respondesse que eles eram amigos de seu marido e que ela os mantinha apenas em lembrança dele.
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Terceiro, a idolatria deles excede a idolatria dos pagãos, no sentido de que eles adoram um deus de pão, ou Cristo nas e sob as formas do pão e do vinho. E se Cristo, de acordo com a Sua humanidade, estiver ausente da terra, como já provei, a hóstia papista é um ídolo tão abominável quanto jamais existiu.
O terceiro pecado é a manutenção do adultério. E isso é manifesto: primeiro de tudo, na tolerância dos bordéis, frontalmente contra o mandamento de Deus. “Não haverá prostituta entre as filhas de Israel; nem haverá sodomita entre os filhos de Israel” (Deut. 23:17). E esta tolerância é uma ocasião de impureza para muitos rapazes e moças que, de outra forma, se absteriam de todo tipo de imundície. E que abominação é esta, quando irmão e irmão, pai e filho, sobrinho e tio, forem à mesma meretriz, um antes ou depois do outro? Segundo, a sua lei para além do quarto grau permite o casamento de quaisquer pessoas; e por este meio eles por vezes permitem o incesto. Pois, na linha colateral desigual, a pessoa mais próxima do tronco comum é um pai ou uma mãe para a posteridade do irmão ou irmã, como por exemplo:
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João Ana Nicolau
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Tomás
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Luís
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Rogério
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Antônio
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Tiago
Aqui Ana e Nicolau são irmão e irmã, e Ana dista de Tiago seis graus, sendo ele seu sobrinho distante. E o casamento entre eles é permitido pela Igreja de Roma, não estando eles dentro do limite dos quatro graus, o que, não obstante, é contra a lei da natureza. Pois Ana, sendo irmã de Nicolau, é como mãe de todos os que foram gerados de Nicolau, até mesmo de Tiago e da posteridade de Tiago. Ainda assim, concedo isto, que a filha de Ana pode licitamente casar-se com Tiago ou Antônio, sendo o caso alterado, porque eles não são um para o outro como pais e filhos.
O quarto pecado é a magia, feitiçaria ou bruxaria, na consagração da hóstia na qual fazem o seu deus de pão; nos exorcismos sobre o pão bento, água benta e sal; na expulsão ou afastamento de demônios, pelo sinal da cruz, por conjurações solenes, por água benta, pelo toque de sinos, por acender velas, por relíquias, e coisas semelhantes. Pois estas coisas não têm a sua suposta força quer por criação quer por qualquer instituição de Deus em Sua Sagrada Palavra; e portanto, se alguma coisa for feita através delas, é a partir da operação secreta do próprio diabo.
O quinto pecado é que em sua doutrina eles mantêm o perjúrio, porque eles ensinam em comum acordo que um papista sob interrogatório pode responder de forma duvidosa contra a intenção direta do interrogador, forjando um outro significado para si mesmo na ambiguidade de suas palavras. Como por exemplo, quando a um homem é perguntado se ele disse ou ouviu missa em tal lugar. Embora ele o tenha feito, eles afirmam que ele pode dizer que não, e jurar sobre isso, porque ele não estava lá para revelá-lo ao interrogador. Ao passo que, na própria lei da natureza, aquele que faz um juramento deve jurar de acordo com a intenção de quem tem poder para ministrar um juramento; e isso em verdade, justiça e retidão (juízo). Que eles inocentem a sua doutrina de toda defesa de perjúrio, se puderem.
O sexto pecado é que eles revertem muitos dos mandamentos de Deus, não fazendo pecado [daquilo] que a Palavra de Deus faz pecado. Assim, eles ensinam “que se algum homem roubar alguma coisinha que se pensa não causar nenhum dano notável, não é pecado mortal”; que “a mentira oficiosa, e a mentira feita de brincadeira, são pecados veniais”; que “orar pelos nossos inimigos em particular, não é nenhum preceito, mas um conselho, e que ninguém é obrigado a saudar o seu inimigo pelo caminho da amizade”, contrariamente à regra de Cristo em Mateus 5:47, onde a palavra ????????? (saudar) significa todo o tipo de dever e cortesia. Que “o julgamento precipitado, mesmo que o consentimento venha com ele, é regularmente apenas um pecado venial”. Que “é lícito de outra forma fingir santidade”. Que “a pintura do rosto é ordinariamente apenas um pecado venial”. Que “não é lícito proibir a mendicância”, sendo que o Senhor proibiu que houvesse qualquer mendigo em Israel [Deuteronômio 15]. Novamente, eles ensinam que os homens na sua cólera, quando estão repreendendo e juram por feridas e sangue, não são de fato blasfemadores.
Por último, os seus escritores usam de mentira manifesta para justificar a sua doutrina. Eles alegam falsamente que toda a antiguidade está do seu lado, ao passo que ela está tanto contra eles quanto a favor deles; e tanto a favor de nós quanto deles. Novamente, o seu modo tem sido e ainda é provar as suas opiniões, por meio de escritos forjados e falsificados de homens, alguns dos quais nomearei:
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Liturgia de São Tiago.
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Os Cânones dos Apóstolos.
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Os livros de Dionísio Areopagita, a saber, De Hierarchia Ecclesiastica.
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As Epístolas Decretal dos Papas.
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As Obras do Papa Clemente.
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Algumas das epístolas de Inácio.
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O livro de Orígenes sobre o arrependimento. Suas homilias in diversos sanctos, Comentários sobre Jó, e Livro de Lamentações.
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A Liturgia de Crisóstomo.
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A Liturgia de Basílio e os seus Ascetica.
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O livro de Agostinho de 8 quest. Dulcitii, Um Livro de Arrependimento Verdadeiro e Falso, Serm. de secto commemorationis animarum, Livro de dogm., Ecclesiast. Serm. ad fratres in Hereom., Sermão da Cadeira de Pedro, Livro de Visitação aos Enfermos, etc.
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As Questões e Respostas de Justino Mártir.
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A Epístola de Atanásio ao Papa Félix.
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Os Sermões de Bernardo sobre a Ceia do Senhor.
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A epístola de Jerônimo ad Demetriadem, favorecendo a Pelágio.
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O De Monogamia de Tertuliano.
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De Chrismate e de ablutione pedum de Cipriano.
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No Concílio de Sárdica, o 3º, 4º e 5º cânones são forjados.
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No Concílio de Niceia, todos, exceto 20, são forjados.
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Certos Concílios Romanos sob Silvestre são forjados. Pois ele estava morto neste momento, e portanto não poderia confirmá-los. Zozom. lib 2.
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Ao sexto cânone do Concílio de Niceia são remendadas estas palavras: “Que a Igreja Romana sempre teve a supremacia”.
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Por último, não omitirei que os Papas Zózimo, Bonifácio e Celestino falsificaram os cânones do Concílio de Niceia para provar as apelações de todos os lugares a Roma; de modo que os bispos da África foram forçados a mandar buscar as cópias verdadeiras do referido Concílio em Constantinopla e nas igrejas da Grécia.
Eu poderia ensaiar aqui muitos outros pecados que com os primeiros clamam por vingança sobre a igreja romana, mas bastará ter nomeado alguns dos principais.
Ora, nesta razão, nosso Salvador Cristo prescreve um outro dever principal ao Seu próprio povo: e que é serem cuidadosos em evitar todos os pecados da Igreja de Roma, para que possam simultaneamente escapar das suas pragas e punições merecidas. E deste dever prescrito eu observo duas coisas:
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A primeira é que todo bom servo de Deus deve evitar cuidadosamente contratos de casamento com papistas professos, isto é, com tais que têm o papa por sua cabeça e creem na doutrina do Concílio de Trento. Pois em tais casamentos os homens dificilmente mantêm a fé e a boa consciência, e dificilmente evitam a comunicação com os pecados da igreja romana. Um fundamento adicional desta doutrina eu o proponho assim: Na Palavra de Deus há menção de uma dupla aliança entre homem e homem, país e país. A primeira é a aliança da concórdia, quando um reino se obriga a viver em paz com outro para a manutenção do comércio sem perturbações. E este tipo de aliança pode subsistir entre a igreja de Deus e os seus inimigos. A segunda é a aliança da amizade, que é quando os homens, povos, ou países se obrigam a defender uns aos outros em todas as causas, e a fazer as guerras de um as guerras do outro. E esta aliança não pode ser feita com os que são inimigos de Deus. Josafá, por outro lado um bom rei, fez este tipo de aliança com Acabe e é, portanto, reprovado pelo profeta, dizendo: “Devias tu ajudar o ímpio, e amar aqueles que odeiam o Senhor?” (2 Crôn. 19:2). Ora, os casamentos de Protestantes com papistas são alianças privadas de amizade entre pessoa e pessoa, e portanto não devem ser permitidos. Novamente, [o Senhor diz:] “Judá profanou a santidade do Senhor, a qual ele amava, e casou-se com as filhas de um deus estranho” (Mal. 2:11), onde são condenados abertamente os casamentos feitos com o povo de um falso deus. Ora, os papistas, pelas consequências da sua doutrina e religião, transformam o verdadeiro Jeová em um ídolo de sua própria mente, como já mostrei, e o verdadeiro Cristo revelado na Palavra escrita num “cristo” fingido, feito de pão. No entanto, se um casamento tal for uma vez feito e terminado, não pode ser dissolvido. Pois tais partes não pecam simplesmente no sentido de que se casam, mas porque não se casam no Senhor, sendo de diversas religiões. A falha não está na substância do casamento, mas na maneira de o fazer. E por esta causa o apóstolo ordena à parte crente que não abandone ou recuse a parte não crente, sendo mesmo um infiel (o que nenhum papista é) se ele ou ela quiser ficar [1 Cor. 7:13].
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A segunda coisa é que todo servo de Deus deve tomar cuidado em como ele viaja a tais países onde a religião papista está estabelecida, para não participar de seus pecados e das punições deles. De fato, ir numa embaixada a qualquer lugar, ou viajar para este fim, para que possamos cumprir os deveres necessários para o nosso chamado especial ou geral, não é ilícito. Mas viajar para fora dos limites da igreja apenas por prazer e para ver costumes estranhos, não tem qualquer garantia. E daí é que muitos homens que saem em boa ordem e bem intencionados, voltem para casa com a consciência abalada. O melhor viajante de todos é aquele que — vivendo em casa ou no estrangeiro — pode sair de si mesmo e afastar-se dos seus próprios pecados e corrupções através de um arrependimento verdadeiro.
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